Uma grande aliança entre povos e governos, para a defesa da Amazónia e do planeta, foi a mensagem que os vencedores do Prémio Gulbenkian para a Humanidade 2026 deixaram esta quarta-feira em Lisboa, em entrevista à Lusa.
“A nossa mensagem para o mundo é que façamos uma aliança forte, que tenhamos consciência de que nós, a humanidade, estamos a causar danos à natureza“, disse à agência Lusa o líder indígena Hernán Payaguaje, cofundador, coligação de povos indígenas da Amazónia que venceu o Prémio Gulbenkian para a Humanidade atribuído esta quarta-feira.
“Somos povos indígenas de territórios muito distantes, fazemos grandes alianças com os povos por uma causa comum, que é defendermos o nosso território”, afirmou Hernán, representante do povo Siekopai.
O dirigente associativo defendeu a necessidade de uma maior consciência para fomentar grandes alianças, entre governos e outras grandes organizações ambientalistas para trabalharem em conjunto com as associações indígenas, a bem dos povos e da natureza.
“A questão do extrativismo é muito forte nos nossos territórios, a riqueza está sob os nossos territórios e temos de combater essa ameaça, petrolífera, mineira, exploração agrícola e muitas coisas, a colonização, a invasão de pessoas externas às nossas comunidades”, indicou o líder Siekopai.
A crise climática que afeta o mundo, garantiu, também já se sente nos territórios habitados pelos povos da Amazónia representados na Alianza Ceibo: as comunidades Siona, Siekopai, Waorani e A’i Kofan.
“Já temos sinais nos nossos territórios da crise na biodiversidade que afeta o mundo. Sentimos essa ameaça e nós, como povos indígenas aliados na Alianza, estamos a defender-nos dessa ameaça”, referiu.
Os povos representados na aliança têm lutado em várias frentes, incluindo na via judicial – com vitórias alcançadas -, para proteger os territórios das várias ameaças externas e manter viva a cultura e a vida das comunidades, com os olhos postos no desenvolvimento e na educação.
“Noutros territórios convivemos com esta ameaça e mesmo que o Estado ou a empresa petrolífera possa dizer que é uma atividade que traz desenvolvimento, bem-estar das comunidades, das famílias, isso não é certo. A petrolífera traz contaminação, dano, ao nosso espaço de vida e tem impacto na vida comunitária e é isso que não queremos. Continuamos a defender-nos para que essa ameaça não afete muito os nossos territórios”, sublinhou.
Neto de um curandeiro tradicional, Hernán Payaguaje foi o primeiro elemento do povo Siekopai a obter um diploma universitário.
“Cresci com o meu avô, que me transmitiu muitos conhecimentos, a espiritualidade, a relação com a natureza, e conheço alguma coisa fora da minha cultura, mas considerei necessário ter outro tipo de conhecimento, mais externo, ocidental, que me permita entender o mundo. Essa correlação dos conhecimentos permitiu-me saber as coisas boas que posso aproveitar do conhecimento ocidental para fazer uma união e depois trabalhar com as comunidades”, disse.
“Foi um processo de aprendizagem bastante esforçado, muito difícil, estar a estudar como um membro de uma comunidade indígena, mas sempre confiei em mim e disse: ‘Se os outros podem, eu também posso. Nós, povos indígenas, podemos, simplesmente não tivemos oportunidade e é isso que exigimos também, que os nossos jovens tenham oportunidade de conhecer outros conhecimentos, mas sem deixar a nossa essência como povos indígenas”, especificou.
Ao lado de Hernán nesta entrevista, Alicia Salazar, do povo Siona, esteve envolvida na criação da primeira escola da sua comunidade.
“Na minha comunidade, há uma escolinha que só tem o básico. Então, o estudo, para os povos indígenas também é importante. Como disse o companheiro, conhecer o ocidental, mas também manter o próprio, há que ter conhecimentos, também através de documentos, para poder defender o nosso território. Este intercâmbio ajuda-nos a mantermo-nos como povos, mas também a entender o outro”, alegou.
Alicia, que cresceu nas margens do rio Putumayo (afluente do Amazonas) lamentou que as crianças já não possam brincar nos rios “alegres e contentes” como antes, devido à poluição causada por agentes externos.
“Defendemos a vida, o território e as nossas culturas. Vamos continuar a defender estes territórios”, garantiu, acrescentando: “Sem território, não continuaríamos a ser Siona, Siekopai, A’i Kofan ou Waorani”.
O reconhecimento do trabalho desenvolvido com a atribuição do Prémio Gulbenkian para a Humanidade, no valor de um milhão de euros, vai permitir prosseguir iniciativas em defesa dos povos indígenas e da floresta amazónica, de acordo com Alicia Salazar.
“Acredito que este reconhecimento vai ajudar a prosseguir as nossas iniciativas. Mas realmente, estamos aqui para dizer que existimos nestes territórios, isto não é como um conto. Queremos que isto chegue a vocês e que nos ajudem a manter, não só os territórios onde respiramos, mas também os povos de cá”, declarou.
“Toda a vida vivemos contentes e alegres, mas hoje em dia já não temos essa tranquilidade. Estamos aqui para contar a nossa vida, como estamos nestes territórios, todas as ameaças que temos, para que todos possamos cuidar dessa vida de tranquilidade, para que haja tranquilidade também noutros países”, concluiu Alicia Salazar, antes de receber o prémio.