“Lobos protegidos, produtores falidos”

(slogan em t-shirts envergadas por criadores de gado transmontanos num protesto no início de setembro último contra os ataques de Lobos)

Há cerca de quatro meses, em Trás-os-Montes (aldeia de Duas Igrejas, concelho de Miranda do Douro), onde os danos dos Lobos em rebanhos mais se tem feito sentir, um pastor perdeu num único ataque 46 Ovelhas. O criador, confrontado com a perda do seu ganha-pão (46 foram mortas e 12 feridas), estimou o prejuízo em 15 mil euros.

Nas redes sociais, o tribunal do teclado apressou-se a garantir que a culpa não era dos Lobos, alegando que o mais certo era ser um ataque de Cães. Impossível terem sido Cães? Não, claro. Como diz o adágio popular, “Cães e Lobos comem todos”.

Todavia, terem sido Lobos só é um espanto no imaginário dos urbanitas que julgarão que os Lobos comem salada. Era até, desde logo, a situação mais provável dado o conhecimento que temos sobre o problema já estudado por exemplo por autores como Ribeiro (1996) ou Gonçalves (2020): os ataques de Lobos, ocorrem, evidentemente, ao longo da sua área de distribuição, onde na maioria dos casos dependem mesmo dos animais domésticos para a sua sobrevivência; já os ataques de Cães a rebanhos verificam-se, sobretudo, no Centro e Sul do país – onde os Lobos não vivem (não nos devemos esquecer que os Cães, bem como Raposas e outros Carnívoros, fazem normalmente parte da dieta do Lobo, no seu papel enquanto superpredador).

E em cima desse ceticismo, não faltavam comentários nas redes de que os pastores apenas se aproveitavam do Estado sem cumprir regras (a estes juntavam-se comentários e visões idílicas sobre os direitos do lobo e a devastação humana, demonstrando um total desconhecimento da realidade rural, e sobre as quais nem vale a pena falar muito).

Certo é que, passado o tempo regulamentar, a burocracia do ICNF repôs a verdade: validou o ataque e procedeu à indemnização, o que confirmou que o ataque foi mesmo perpetrado por Lobos, e que o pastor cumpria os requisitos legais.

Onde está então o problema?

O problema é que o valor da indemnização é pouco mais de uma esmola: míseros 1840€, o que dividido por 46 dá 40 euros por Ovelha, quando estes animais estão a ser transacionados no mercado a mais de 200€… Isto sim, é gozar com quem trabalha (aqueles que, quando no verão estão as florestas a arder, dizemos que temos que fomentar para diminuir a quantidade de combustíveis na paisagem)!

Como é que se explica que uma medida de compensação criada há quase 40 anos para mitigar o conflito social falhe de forma tão grosseira na sua função mais básica? E quais as consequências?

Vejamos: o Lobo, umas décadas passadas sobre o êxodo rural, é atualmente uma espécie em expansão na maioria do continente europeu. Por cá, e após um grande declínio nos anos 70 e 80, a espécie acabou por estabilizar. Já não é mau, todavia a população nacional tem-se mantido estagnada há 25 anos em mínimos frágeis: cerca de 300 lobos, sobretudo a norte do Douro.

Esta estagnação não é um acaso: os ataques diários validados pelo ICNF — somados aos ocultos — resultam na perda de cerca de 5 mil cabeças de gado por ano. São 240 toneladas de biomassa que cobrem 80% das necessidades alimentares da espécie. Ora estes números dizem-nos que o Lobo sobrevive, literalmente, à custa dos pastores.

Perante esta dependência absoluta, a função das indemnizações não deveria ser a da caridade pública, mas sim uma ferramenta estratégica de sobrevivência mútua.

É que se olharmos para a matemática da coisa, dada a ecologia e a demografia da espécie, manter há 25 anos uma população estabilizada em 3 centenas de Lobos, descontada a mortalidade natural, exige que acabem mortos cerca de 60 lobos por ano. O furtivismo (tiro, laço e veneno) acaba por abater de forma “invisível” dezenas de lobos anualmente porque as pessoas se sentem financeiramente espoliadas e abandonadas pela tutela. E não é a pagar menos de 2 mil euros por um prejuízo real de 10 mil, que esta medida consegue ter efeito moderador para a ilegalidade.

É verdade que, recentemente, o atual Governo alterou a moldura legal deste mecanismo. Ainda bem, porque o que este episódio mostra é que o que estava antes não serve… Teremos que esperar mais um pouco para ver os efeitos. Nos entretantos, podíamos olhar também para alguns modelos alternativos. O modelo escandinavo, por exemplo, aposta no “pagamento por presença”: o pastor recebe um subsídio fixo anual simplesmente por produzir em território de Lobo, transformando o predador num ativo económico. Paralelamente, Espanha provou nestas últimas décadas que a gestão cinegética regulada modera o sentimento de impotência do mundo rural, combate o furtivismo e paga impostos.

Sim, o pragmatismo terá pela frente muitas barreiras ideológicas, mas temos que ter consciência que em terra de Lobos, desprezar as pessoas é destruir a natureza.