Pedro Proença não falou, Jorge Jesus não falou, Cristiano Ronaldo não falou. Em condições normais, tendo em conta o silêncio dos principais protagonistas, não haveria qualquer novidade em que relação ao caso que continua a abalar a Seleção – ou, numa perspetiva muito otimista, estavam a ser criadas condições para que tudo pudesse ser sanado nos bastidores. Não é essa a realidade, longe disso. E as posições estão cada vez mais afastadas com tudo o que tem acontecido nos últimos dias, entre conferências e comentários na TV.
O presidente da Federação quis fazer “uma vénia” a Ronaldo, deixou as portas abertas a um regresso e apelou à tranquilidade para que o “mal-entendido” fosse resolvido. Já o selecionador admitiu também que o capitão pudesse voltar se assim o entendesse e se estivesse a jogar no Al Nassr (ou seja, se estivesse num momento para isso), relativizou todo um caso que considerou um “mal-entendido” mas, no final da conferência, lá se “soltou” para dizer que nunca pediu desculpas a ninguém nem considera que tivesse de pedir. Esse foi mais um dos pontos que adensou o corte de relações do avançado, que entretanto regressou a Riade, até pela forma como o 7 fez questão de dizer que abandonava o estágio “após a conferência do selecionador”, neste caso na antecâmara do encontro com a Dinamarca. Mas houve mais críticas ao técnico português.
“Houve uma reunião na terça-feira à noite. Jesus pede desculpas ao Cristiano pela desconsideração ao pô-lo a aquecer durante 30 minutos e não o colocar a jogar. Não só lhe pede desculpas em privado, como também lhe diz que vai pedir-lhe desculpas publicamente, que ele vai dizer publicamente que se equivocou. É a promessa de Jesus ao Cristiano. Depois vai para a conferência de imprensa e diz esta quantidade de mentiras em que ninguém acredita. Por isso é que o Cristiano explode, porque se sente traído”, tinha dito o jornalista espanhol Edu Aguirre no El Chiringuito nessa mesma quarta-feira, dia do “terramoto” na Seleção.
“Não há mais nada, é mesmo assim. O teu treinador vem ter contigo em privado e diz: ‘Olha, vê lá, isto foi assim, entende-me, não geri bem a situação, estamos juntos, desculpa lá. Se tiver conferência vou esclarecer tudo, vou pedir desculpas, não te preocupes, vai correr tudo bem, vai ficar tudo resolvido’. Depois vais para a conferência de imprensa 12 horas mais tarde e deixas o Cristiano ainda pior, a armar-te em forte, a dizer que quem manda és tu e que o Cristiano é só mais um. Para casa e siga para outra. Por isso é que digo: traição”, acrescentou no programa antes de, já em Madrid, na última semana, ter estado com o jogador.
Esta segunda-feira, Piers Morgan, jornalista inglês que é também um conhecido amigo de Ronaldo, também abordou toda a polémica, dando uma versão do lado do capitão da Seleção do que se passou. “Não tem nada a ver com dinheiro, fama ou qualquer coisa dessas. Ele recebeu garantias sobre como ia ser utilizado, foi uma das razões que o levaram a continuar a carreira internacional. Chega o Jesus, que ele já conhecia da Arábia Saudita, e diz-lhe o plano para a Liga das Nações. Chegam a acordo, joga dois jogos, descansa nos outros. O primeiro [País de Gales] seria 90 minutos, é substituído aos 67 minutos. O treinador pede-lhe desculpa, ao presidente também, diz que vai fazer o mesmo à imprensa. Saca de um Ten Hag, tenta rebaixar o Ronaldo. Depois vai dizer que devia descansá-lo mas precisava dele 30 minutos com a Noruega. O Ronaldo aceita, aquece 25 minutos e não entra. Fica irritado com a falta de respeito. Neste processo, o treinador olhou na cara do melhor jogador português de sempre e faz-lhe promessas”, comentou no “Football Uncensored”.
“Ronaldo não acha que deve ser titular ou jogar 90 minutos de todos os jogos. Disseram-lhe que ia jogar contra o País de Gales e saiu aos 67 minutos. Nas últimas semanas tratou o Cristiano Ronaldo como se fosse um jogador mediano. Carlo Ancelotti disse, depois de um jogo em que não colocou Modric: ‘Não se faz aquecer um jogador deste estatuto para não o utilizar’. Para Ronaldo, trata-se de uma questão de respeito: prometerem-lhe uma coisa, fazerem o oposto, porem-no a aquecer para depois não jogar. No fundo, mandou-os dar uma curva e foi embora. O treinador continuou a ir para as conferências de imprensa dizer sempre o oposto do que combinava em privado. Ronaldo não exige ser titular absoluto nem jogar os 90 minutos de todos os jogos. Trata-se de cumprir a palavra dada”, prosseguiu o jornalista inglês.
“O problema é quando o treinador quer demonstrar autoridade à custa do Ronaldo. Em vez disso, devia agradecer por ter o maior jogador da história de Portugal na equipa. A questão do impacto de Ronaldo vai além do campo. Veja-se o caso do Messi, que vai ter a sua despedida pela Argentina esta semana num ambiente de celebração. Custa ver que o Cristiano Ronaldo pode não ter uma despedida à altura em Portugal porque um treinador decidiu entrar em confronto com ele”, concluiu Piers Morgan na última noite.
Agora surgem novos dados, neste caso de uma pessoa amiga de Jorge Jesus. No programa “Jogo Aberto” da SIC Notícias, Carlos Padrão, antigo guarda-redes que passou por Sporting (ainda nos juniores), U. Leiria, V. Setúbal, Belenenses, Desp. Chaves ou FC Porto (entre 1990 e 1992), abordou todo o caso na perspetiva do selecionador, dizendo que houve ameaças veladas para existisse um pedido de desculpas a Ronaldo. Mais: o ex-guardião assumiu que foi Jesus a impedir que Ronaldo anunciasse o fim de trajeto na Seleção durante o último verão, na sequência da derrota de Portugal nos oitavos do Mundial-2026 com a Espanha. Isto num dia em que o selecionador “falou” também através da sua página no Instagram: “Terminámos esta fase com um excelente resultado. 4 jogos, 4 vitórias! Que venha a próxima etapa, estamos confiantes!”.
“Se é uma situação cada vez mais complicada de resolver? Acho que sim, não por culpa de Jorge Jesus mas por culpa da entourage do Cristiano [Ronaldo]. Eu até aceito que o Cristiano possa ter perdido a cabeça, já no passado nos tinha habituado a esse tipo de histórias que acabávamos sempre por relevar porque ele nos dava muito. Lembro-me de momentos fantásticos e memoráveis do Cristiano Ronaldo, tenho uma neta de 18 meses que faz o Siiiiiiiii, o pai também é louco pelo Cristiano Ronaldo. Portanto, faltou equilíbrio e faltou bom senso porque o Ronaldo perdeu a cabeça porque se sentiu injustiçado e faltou quem lhe tivesse posto a mão em cima, a dizer para ir dormir, ir descansar e amanhã conversamos com calma com o treinador”, começou por referir Carlos Padrão, antes da abordar também a figura de Tiago Craveiro, ex-CEO e diretor-geral da FPF que é consultor estratégico da UEFA e consultor estratégico da holding da CR7, S.A..
“Tiago Craveiro? Sim, falei nele, só agora é que fiquei a saber que era uma pessoa muito importante porque toda a gente me está a dar os parabéns porque falei no nome dele… O Tiago Craveiro é um funcionário do Cristiano Ronaldo mas não fazia ideia, sabia que tinha sido vice-presidente da Federação… Há ali uma parte escura, há ali um hiato e uma questão de tempo que não percebia o que se passava e fui perguntar o que é que se passava, mas perguntei ao Jorge Jesus. E ele explica-me o que se passava e quem era a pessoa. Depois perguntei se tinha algum problema com ele e o Jesus disse-me que não tinha problema nenhum com ele nem em falar com ele. Tudo que me tinha transmitido era verdade”, apontou o antigo guarda-redes.
“Se foi o Tiago Craveiro a agravar a situação? Sim, agravou muito, quando liga para alguém da entourage do Jorge Jesus a dizer que ou faz um pedido de desculpas público a abrir a conferência de imprensa ou vai cair, vai ser demitido. Houve aqui uma ameaça velada, claro. Fazem falta amigos ao Ronaldo, não empregados. Se lhe foi imposto algum guião? Eu penso que isso já é público, tentaram fazer um guião para o Jorge [Jesus] na conferência de imprensa para fazer um pedido formal de desculpas. Se houve um pedido de desculpas? Não, não houve. Aquilo que o Jorge me disse foi que não pediu desculpas a ninguém. Assumiu o erro, justificou o que tinha acontecido, a forma como viu, o jogo a decorrer, a pressão a que estava sujeito e que aconteceu o que aconteceu mas que não era um problema. Admitir um erro é uma coisa, pedir desculpa é outra”, voltou a destacar Carlos Padrão, antes de admitir o impacto que toda a situação teve em Jorge Jesus.
“Não foi uma ameaça diretamente ao Jorge Jesus, foi ao telefone mas não foi diretamente com ele. Não há muitas pessoas à volta de Jorge Jesus para fazer esse tipo de pressão, a mim não foi de certeza… Se foi ao advogado, Luís Miguel Henrique? Provavelmente, é uma das pessoas que trabalha com ele… O próprio Cristiano Ronaldo tem de fazer uma análise em relação ao seu pessoal e ao que falhou. Faço uma pergunta? O Simão Coutinho, diretor desportivo do Al Nassr, não é nada na Federação, esteve no hotel da Seleção e esteve em reuniões com a autorização de quem? Como é que Jorge Jesus está? Está muito triste com tudo o que se passou, foi ele que disse ao Cristiano Ronaldo que não podia deixar o futebol com aquela última imagem a chorar depois do jogo com a Espanha. O Cristiano queria anunciar a retirada e foi ele que disse que não, que ele não podia deixar assim. Mas desde o primeiro minuto que me diz que não vai pedir desculpas. O que me diz é que ficou amigo e é um admirador do Ronaldo, por isso é que ficou mais triste”, concluiu.