Quando tudo parou ao minuto 10, e numa das raras vezes em que perdeu aquele semblante carregado de emoção com o olhar de quem a qualquer momento se vai desfazer em lágrimas, Lionel Messi queria mais. O Monumental cantava por mais uma ocasião o seu nome como um Deus que faz das quatro linhas o seu reino, o fogo de artifício tomava conta da festa, ele só via o momento em que a bola voltaria a rolar. Agradeceu, de braços no ar, cumprimentou todos os jogadores adversários do Benim que ali se deslocavam, colocou a mão na cintura à espera. Um minuto depois, o jogo recomeçou. Era esse momento. Quando voltou ao espaço que será eternamente seu, o tempo deu-lhe razão: marcou um golo, fez duas assistências, a Argentina ganhou.
THE GAME HAS BEEN PAUSED IN THE 10TH MINUTE FOR A STANDING OVATION FOR LEO MESSI! ????????❤️ pic.twitter.com/uB6NJpHt6b
— All About Argentina ???????????? (@AlbicelesteTalk) October 6, 2026
Ninguém queria que aquele momento chegasse. Ninguém conseguia ver aquele momento chegar. Mas, mais do que uma despedida, La Pulga teve a sua homenagem. Aos 39 anos, após ganhar tudo o que havia para ganhar, após encarnar o mito de Diego Armando Maradona em campo, após mostrar que o impossível só serve para ser desafiado no futebol, o número 10 deixou a seleção argentina com 126 golos em 208 jogos, quatro títulos (um Mundial, duas Copas América e uma Finalíssima) além do Mundial Sub-20 e da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2008 e a garantia de que tão cedo não voltará a haver ninguém como ele.
Só a chegada ao Estádio Monumental mostrou a dimensão de quem nasceu pequeno mas destinado a ser grande – ou o maior de todos. Ainda no autocarro, naquela que seria a última viagem pela Albiceleste e pela Scaloneta que se tornou a melhor equipa argentina do século (para alguns, a melhor de sempre, à frente da versão 1978 de Mario Kempes e da versão 1986 de Maradona), Lionel Messi não conteve as lágrimas e ia passando com um lenço de papel pela cara por cada metro que era percorrido. Lá fora, milhares e milhares de adeptos vestidos com a 10 prestavam em delírio um último tributo. Não por nenhuma conquista em específico, não por ser a antecâmara de um jogo importante, apenas por ser o seu derradeiro tango. Aquele povo que um dia lhe apontou o dedo por não chegar aos títulos com a seleção percebeu com o tempo que o esquerdino foi quase uma dádiva divina para fazer da Argentina maior – e o Qatar foi o expoente máximo.
Aí, depois de quebrar o jejum de títulos da seleção A com a Copa América ganha diante do Brasil e mais uma Finalíssima conquistada frente à Itália, Messi chegou ao que sempre sonhou por um caminho que reforçou a dimensão enquanto figura, líder e símbolo de um país. A Argentina foi sempre formada por jogadores que, fossem melhores ou menos exuberantes, tinham em comum o compromisso em campo para fazer tudo o que fosse necessário para chegar à vitória. Ali, mais do que em qualquer outra competição, o compromisso tácito era outro. De Rodrigo de Paul a Dibu Martínez, de Ángel Di María a Otamendi, de Lautaro Martínez a Julián Álvarez, de Leandro Paredes a Enzo Fernández, todos estavam dispostos a ser os soldados de um só general num campo de batalha chamado futebol. Foi esse o segredo para a Albiceleste ser campeã.
Parecia que a história pela Argentina tinha acabado ali, no Estádio Lusail após a final decidida nas grandes penalidades frente à França, nesse ponto mais alto da carreira que foi erguer a taça de campeão do Mundo. Afinal, ainda havia outro capítulo. Longe das temporadas carregadas na Europa entre jogos de Campeonato e Liga dos Campeões, numa MLS que rapidamente se rendeu aos feitos do Inter de Miami de David Beckham por contar com o esquerdino na equipa, Lionel Messi voltou a arriscar o impossível à beira dos 39 anos que cumpriu a 24 de junho. Mais calmo, mais sereno, mais ciente das limitações físicas que tinha, mais protegido na forma de jogar da equipa e sobretudo com muito menos pressão nos ombros, o capitão argentino ainda levou a Albiceleste a mais uma final do Mundial, só caindo no prolongamento com a Espanha.
Foram tempos particularmente complicados. Dos mais complicados. Quando abriu o Mundial com um hat-trick frente à Argélia, Lionel Messi não aguentou as lágrimas e chorou como raras vezes se tinha visto por recordar a situação complicada que o pai atravessava. Apenas três semanas depois da final do Campeonato do Mundo, Jorge não resistiu. No último dia de agosto, o anúncio da despedida foi feito numa carta.
“Chegou o momento. Tomar esta decisão dói-me e vai doer-me na alma, mas sinto que o meu ciclo na seleção argentina chegou ao fim.
Vou embora em paz, sabendo que dei absolutamente tudo o que tinha por esta camisola. Vestir as cores do meu país foi o meu maior sonho desde miúdo, o meu orgulho e a minha vida durante mais de duas décadas.
Sinto-me hoje esvaziado fisicamente e com a plena convicção de que é a hora de dar um passo ao lado. A nova geração de jogadores argentinos tem um talento incrível e merece ter todo o espaço necessário para construir o seu próprio caminho e assumir a liderança desta equipa.
Quero expressar o meu eterno agradecimento a todos os adeptos por me amarem tanto e pelo apoio incondicional que sempre me deram. À minha família, por estar sempre presente e me acompanhar nesta jornada tão linda, mas muitas vezes difícil. A cada um dos treinadores, companheiros de equipa e dirigentes com quem tive a enorme oportunidade de conviver ao longo de todos estes anos. Levo comigo memórias vivas e momentos completamente inesquecíveis.
Despeço-me com a tranquilidade e o orgulho imenso de ter conseguido, junto com os meus companheiros, presentear o nosso povo com os momentos com que tanto sonhámos. Foi uma loucura inesquecível viver tudo isto com vocês. Vou carregar-vos sempre no meu coração.
Obrigado, Deus, por me fazeres argentino. Vamos, Argentina!
(Nota: Escrevi originalmente estas palavras no dia 21 de julho, dois dias após a final. Hoje, depois de tudo o que aconteceu com o meu pai, estou ainda mais convencido desta decisão do que antes)
Faltava apenas encontrar uma data para o Último Tango, 6 de outubro. Tendo em conta o calendário internacional, não houve grande margem para encontrar um adversário com outro estatuto e foi o Benim que marcou presença no 208.º e derradeiro encontro de Lionel Messi pela seleção. Não era por certo o nome mais desejado, nem por isso a festa deixou de ser aquilo que seria sempre. Buenos Aires imortalizou um dos seus maiores astros de sempre numa noite em que, como sempre, o 10 foi estrela dentro e fora dos relvados.
Também houve momentos mais inusitados onde a veia argentina que ama loucamente o futebol acabou por ficar mais latente. Por exemplo, no final da partida, já com todos os jogadores agrupados a olhar para o céu, um espetáculo de drones que se pensava estar feito para Lionel Messi acabou por ser uma publicidade à Sancor Seguros, “a seguradora da Argentina campeã mundial”. Ato contínuo, enorme vaia do estádio, que queria eternizar o adeus ao seu ídolo sem patrocínios. No entanto, a festa que teve um pouco de tudo acabou por tornar-se aquilo que o 10 sonhava no adeus onde só faltou o pai, Jorge, perto da mãe, Celia, da mulher, Antonela Roccuzzo, e dos filhos que desceram várias vezes ao relvado, Thiago, Mateo e Ciro.
Depois de uma chegada ao estádio com muita emoção à mistura e de uma entrada no balneário a passar por vários plasmas que iam passando alguns dos golos mais marcantes da carreira ao serviço da seleção, Lionel Messi passou o aquecimento mais vezes a acenar às bancadas do que propriamente a “treinar”. Verdade seja dita, também nunca precisou de muito para ser melhor do que os outros depois em jogo. Ainda assim, os principais momentos estavam para chegar: o espetáculo de fogo de artifício na entrada das equipas, o hino que deixou o selecionador Lionel Scaloni em lágrimas, um jogo que voltou a ser decidido pelo suspeito do costume, as homenagens que se seguiram depois do encontro. Entre sorrisos, momentos de maior emoção e aquela sensação de nostalgia quando marcou de penálti, Messi foi olhando para o pai no céu.
“É difícil dizer algo hoje. Há muitas emoções, passam-me muitas coisas pela cabeça. A primeira coisa em que penso é no meu pai. Não me resta mais do que agradecer, tal como disse na carta de despedida. Foi um orgulho muito grande defender esta camisola durante mais de 20 anos. Mesmo nos piores momentos que passámos e tivemos, nunca deixei de lutar, de disputar cada lance, de dar o máximo e estar sempre presente. Não vir mais vai ser uma dor muito grande. Juro-vos que gostaria de vir toda a vida, porque jogar na seleção argentina é a coisa mais bonita que te pode acontecer”, começou por dizer no final da partida, no relvado, agarrando no microfone para falar aos cerca de 85.000 adeptos que não saíram do Monumental.
“Agradeço aos meus companheiros por este tempo que partilhei com este grupo, que me fez realizar o sonho de menino: ser campeão do mundo, da América, da Finalíssima, de tudo o que disputámos. Foi um orgulho enorme partilhar momentos dentro e fora de campo com eles. Entrávamos para competir contra qualquer um porque sabia que tinha guerreiros ao meu lado que davam a vida. Neste lugar vivi um dos dias mais felizes da minha carreira: quando voltámos a jogar depois de ganhar o Mundial. Ter vivido o que vivi nesse dia é algo que nunca mais vou esquecer. Foi lindo. Ainda hoje vejo vídeos e fico emocionado. Esse dia ficará na minha história, na de todos eles, na da minha família… Foi espetacular, obrigado”, frisou.
LEO MESSI: "Estoy hablando mas que nunca. No me quiero ir de aca" ???????????? pic.twitter.com/VcpyS1EbVs
— LAUCHA | EL RESUMEN (@ElLauchaOkey) October 7, 2026
“Hoje, novamente aqui, certamente toca-me viver o dia mais triste da minha carreira, porque é o momento em que digo adeus à seleção e a todos vocês. Vou ter saudades de defender as cores da seleção, mas agora vou estar daquele lado, com todos vocês, a apoiar todos estes rapazes e o que vier. Sempre unidos. Estou a falar mais do que nunca, não me quero ir embora, não quero deixar o relvado. Resta-me dizer-vos que vos amo, que vou estranhar e que agradeço a Deus por ser argentino, orgulhoso de ser argentino e de ter realizado os meus sonhos com todos vocês. Muito obrigado, amo-vos”, completou, numa das ocasiões em que falou mais tempo de forma contínua. Como o próprio admitiu, faria de tudo para que o tempo não passasse e o momento não chegasse. Percebendo que esse era o único impossível que não teria capacidade de fintar, aceitou-o, despediu-se da melhor forma e fechou um capítulo na história do futebol.