Estava perto do Mar Adriático e preparava-se para gravar um vídeo num mosteiro ortodoxo. Em Risan, uma cidade costeira no Montenegro, um dos propagandistas russos mais influentes foi esta sexta-feira detido pelas autoridades. Trata-se de Mikhail Zvinchuk, um antigo dirigente do Ministério da Defesa que era um dos principais responsáveis pela rede de propaganda que inclui o canal de Telegram Rybar — que partilhava conteúdos pró-guerra e que tinha milhões de seguidores.

Entre os detidos estão também Valeria Zvinchuk, mulher e colaboradora de Mikhail Zvinchuk, e outras três pessoas. As autoridades montenegrinas detiveram o suspeito de 35 anos numa operação destinada a travar atividades de influência estrangeira no país. Numa publicação no X, o primeiro-ministro do Montenegro, Milojko Spajić, confirmou esta sexta-feira a detenção do “líder da rede de informação Rybar”.

O chefe do Executivo montenegrino indicou que o país tem sido avisado sobre as “tentativas de ações híbridas e desestabilização” por parte da Rússia e terá sido neste contexto que Mikhail Zvinchuk acabou detido. A defesa do suspeito alega que estava em situação legal no Montenegro, um país que tem recebido vários russos, mas que, pelas exigências no processo de adesão à União Europeia (UE) que está em curso, vai deixar de emitir vistos a partir de 31 de outubro.

Num comunicado divulgado esta sexta-feira à tarde, citado no canal estatal RTCG, a polícia montenegrina, juntamente com a Agência Nacional de Segurança, anunciou que os russos serão “expulsos” do país. “Tinham entrado e estavam alojados no Montenegro há menos de dois dias. Após investigações criminais, operacionais e que envolveram as secretas, determinou-se que estes indivíduos não poderiam permanecer no Montenegro. Consequentemente, em conformidade com a Lei dos Estrangeiros, foram emitidas ordens para a sua expulsão do país por motivos de segurança nacional e interna”.

Além disso, as autoridades do Montenegro deram conta de que apreenderam “sofisticados equipamentos” que estavam na posse dos cinco cidadãos russos detidos. Havia um drone, câmaras e vários telemóveis. A polícia montenegrina assegurou que os “equipamentos apreendidos serão sujeitos a exames periciais e análises adequadas para determinar a sua finalidade e o objetivo da sua utilização em território montenegrino”.

O Ocidente já tinha emitido avisos sobre Mikhail Zvinchuk. Há três anos, a União Europeia sancionou o homem de 35 anos por integrar um “grupo de trabalho” ligado à “operação militar especial” na Ucrânia e por difundir propaganda pró-guerra através das redes sociais. No final de 2025, o Reino Unido seguiu o mesmo caminho e colocou o russo sob sanções.

Desde 2024, os Estados Unidos da América (EUA) ofereciam, aliás, dez milhões de dólares (cerca de nove milhões de euros) para quem tivesse informações que levassem à detenção dos administradores do canal do Telegram, entre os quais Mikhail Zvinchuk. Segundo o programa de Recompensas do Departamento de Estado, “Rybar tem promovido a divisão social, tem fomentado a discórdia partidária e racial e tem encorajado o ódio e a violência nos Estados Unidos”.

Por sua vez, o Kremlin tem pedido esclarecimentos à embaixada russa em Podgorica. Ainda é incerto se os cinco cidadãos russos serão deportados para a Rússia ou se seguirão para outro país.

O antigo Presidente russo Dmitry Medvedev já veio aconselhar a população russa: “Viajar para países europeus é um erro. Mesmo que tenham boas intenções e objetivos importantes, todos os russos estão a ser perseguidos”. O atual vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia deixou ainda no ar a possibilidade de que a Rússia talvez tenha de “aumentar” os seus prisioneiros norte-americanos e europeus para libertar aqueles que estão detidos na Europa.

O papel nas secretas russas e o alcance a 16 milhões de pessoas

Nascido em 1991, Mikhail Zvinchuk nasceu em Vladivostok, no extremo oriente da Rússia, apesar de ter estudado em Moscovo. Durante anos, trabalhou para os serviços secretos pertencentes ao Ministério da Defesa da Rússia (GRU). Durante a Guerra Civil na Síria, trabalhou na assessoria de comunicação das tropas russas. Em 2019, abandonou as Forças Armadas. Três anos mais tarde, viria, no entanto, a desempenhar um papel importante quando começou a guerra na Ucrânia.

Juntamente com Denis Shchukin, em 2022, fundou o canal de Telegram Rybar. “Sou um ex-funcionário do serviço de imprensa do Ministério da Defesa do Departamento de Informação e de Comunicação. Aproveitei a experiência que adquiri ao trabalhar nas Forças Armadas para desenvolver as minhas próprias atividades de informações”, disse numa entrevista, citado pelo jornal independente russo Meduza.

O que inicialmente era um canal de Telegram cedo se transformou em algo muito maior. Na altura, havia 40 pessoas a trabalhar numa “enorme rede de meios de comunicação”. Mikhail Zvinchuk chegou a gerir 150 contas nas redes sociais com uma audiência de 13 milhões de pessoas na Rússia e de três milhões de pessoas no estrangeiro. O orçamento para estas atividades chegava aos quatro milhões de rublos (cerca de 41 mil euros).

Os conteúdos do Rybar mantinham uma narrativa claramente pró-guerra, mesmo que tivesse havido críticas ao desempenho do Ministério da Defesa durante a guerra na Ucrânia. No final de 2022, o Presidente russo, Vladimir Putin, incluiu Mikhail Zvinchuk num grupo de trabalho destinado a aumentar os esforços para a mobilização de homens para o teatro de operações.

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