A notícia não foi propriamente uma surpresa, mas caiu como uma bomba pelo timing, pelo contexto e pelas consequências. Quando Christian Horner foi despedido da Red Bull em julho do ano passado, já toda a gente sabia que não teria muito tempo como team manager da marca austríaca — mas ninguém estava à espera de que saísse a meio da temporada, poucos dias depois de uma corrida e numa altura em que a continuidade de Max Verstappen ainda nem sequer era um dado adquirido.
Passou mais de um ano. Lando Norris acabou por conquistar o Campeonato do Mundo de Fórmula 1, com Max Verstappen a ficar a dois pontos do britânico da McLaren, e a atual temporada não está mais fácil para a Red Bull — até porque Kimi Antonelli tem já este fim de semana a primeira possibilidade de se sagrar campeão mundial pela Mercedes, ainda que a matemática em Austin ainda seja complexa e obrigue a lugares pouco prováveis de George Russell e do próprio Verstappen. Longe, mas sempre atento, Christian Horner acabou de publicar uma autobiografia.
20 anos depois, o fim de uma era: Christian Horner foi despedido da Red Bull e já tem substituto
No livro “Drive”, o britânico recorda a infância e a adolescência, incluindo os tempos em que era também um jovem piloto na F3000 que contou com a ajuda financeira de Nigel Mansell, mas dedica-se essencialmente às mais de duas décadas que passou na Fórmula 1. Depois da passagem breve pela Arden que ele próprio fundou no início da carreira, tornou-se team manager da Red Bull em 2005 e só deixou o cargo no ano passado — ou seja, conquistou oito títulos mundiais de pilotos, seis títulos mundiais de construtores e 124 vitórias em 405 corridas, tornando a marca austríaca numa das mais bem-sucedidas da história recente e sendo o verdadeiro arquiteto das duas eras douradas, entre os triunfos de Sebastian Vettel e os de Max Verstappen.
A melhor história da autobiografia de Christian Horner, porém, até está relacionada com a Mercedes. No livro, o britânico conta que em 2012 foi convidado a deixar a Red Bull para se juntar à Mercedes para onde Lewis Hamilton tinha acabado de ir — e muito porque, enquanto parte sempre interessada em todas as negociações, ajudou a roubar o piloto à McLaren. “Sugeri ao Niki Lauda que ele próprio fosse signatário do contrato. Se o negócio acontecesse, o Niki de certeza que recuperava o dinheiro todo só com as vendas do ‘merchandising'”, revela agora em entrevista ao The Telegraph, acrescentando que o então diretor não-executivo da Mercedes acabou por visitá-lo em casa para lhe oferecer emprego.
“Disse-me que a Red Bull nunca iria pagar-me o que a Mercedes podia pagar-me. Que me respeitava. Que queria que eu fosse para lá. Além disso, que o Helmut Marko [antigo piloto e conselheiro da Red Bull] era um desgraçado miserável. O Niki era um grande tipo. Tinha verdadeiro charme e carisma. Apareceu, passou tempo em minha casa, foi muito convincente. Mas é o que digo, não me arrependo de nada”, atira, garantindo que ficou na Red Bull por “lealdade”.
“Quem sabe? Existem tantos ‘e se?’ na vida, não é? Estou muito contente com a aventura que tive, com o caminho que escolhi. Não me arrependo das decisões que tomei”, explica. Christian Horner recusou e ficou na Red Bull mais 13 anos, enquanto que a Mercedes escolheu Toto Wolff, então um mais discreto diretor da Williams. Horner e Wolff, como se sabe, acabariam por protagonizar uma das rivalidades mais intensas dos últimos anos na Fórmula 1, com um clímax cinematográfico no derradeiro Grande Prémio de Abu Dhabi em 2021 que culminou no primeiro título mundial de Verstappen e no falhanço do oitavo de Hamilton.
O britânico não pode detalhar os últimos tempos na Red Bull por motivos legais, até porque assinou um contrato de rescisão no valor de mais de 80 milhões de euros, mas permite-se a alguns acertos de contas — principalmente com Helmut Marko e com o pai de Max Verstappen, Jos, com quem acabou por desentender-se na reta final da passagem pelos austríacos. “O Helmut nunca usou o uniforme oficial, só partes dele, e muito poucas pessoas entendiam verdadeiramente quem ele era ou o que é que ele fazia”, explica, acusando diretamente o antigo piloto de boicotar negócios para juntar Fernando Alonso ou Charles Leclerc a Verstappen na Red Bull.
Para além da relação conturbada com Helmut Marko e Jos Verstappen, o despedimento de Christian Horner aconteceu também depois de o britânico ser acusado e investigado por conduta imprópria por uma funcionária da Red Bull, um assunto que nunca ficou esvaziado apesar dos arquivamentos. Lembra que o timing de tudo o que aconteceu “não foi uma coincidência”, recordando a guerra de poder dentro da marca austríaca depois da morte do fundador Dietrich Mateschitz em 2022, mas confirma que já não estava confortável no cargo.
“Estava infeliz com toda a politiquice e todos os rumores, estava cansado das guerras internas. Naquele momento da minha carreira estava a viver os meus sonhos, mas nunca me tinha sentido tão infeliz”, reconhece o britânico de 52 anos, confessando que está agora a aproveitar a vida que não teve durante duas décadas — período em que não perdeu uma única das 405 corridas pela Red Bull.
“Estar a ter este tempo fora está a permitir-me perceber que existe vida para lá da Fórmula 1. Quando estás na Fórmula 1 estás sempre em perigo de ser consumido. O telefone está sempre a tocar, particularmente quando tens um papel no topo de uma organização. Nunca desligas. Agora estou a ter tempo para fazer coisas que não conseguia fazer, como conduzir até à Escócia, ir a jogos de futebol da escola, levar o meu filho à escola, ir ao teatro amanhã à noite porque a minha filha faz anos. Há muitas coisas em que não estive presente e que valorizo muito”, diz.
Ainda assim, há um dado claro na cabeça de Christian Horner: o regresso à Fórmula 1 não é uma possibilidade, é uma certeza. O britânico reconhece que é “a cura e o problema” para muitas equipas, mas não abdica do papel que quer ter quando voltar. “Quando cheguei, os team principals eram os CEO, eram os donos, eram mais empresariais. Existiam personagens como o Ronn Dennis, o Flavio Briatore, o Frank Williams, o Jean Todt, o Eddie Jordan. Agora o papel do team principal é muito diferente. Eu diria que os únicos ‘old school’ atualmente são o Toto e o Zak [Brown, da McLaren], até certo ponto. Não tenho qualquer desejo de me sentar numa ‘pit wall’ em 24 corridas por ano. Se me envolver em alguma coisa, penso que o meu valor é muito mais estratégico, criar direção, criar uma cultura, atrair o talento certo. Foi isso que fiz durante 21 anos”, explica.
No livro, Christian Horner diz que foi retratado como “o equivalente ao Darth Vader” na série “Drive to Survive” da Netflix, que revela os bastidores da Fórmula 1 — mas garante que, tal como quase tudo no programa, não passava de uma personagem. “A minha mulher sempre comparou o ‘Drive to Survive’ às Kardashians em rodas. É um ‘reality show’, basicamente, eles estão a fazer uma série. Aquilo é muito diferente da pessoa que eu sou no dia a dia. Claro que posso não ser a pessoa preferida de toda a gente, mas há muito tempo que larguei esse medo de não gostarem de mim. Desde que esteja confortável na minha própria pele e que a minha família me ame, isso é suficiente”, termina.