“Absolutamente infelizes. Absolutamente infelizes”, repetiu Miguel Pinto Luz, quando confrontado com as declarações do presidente do Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU) esta tarde. O ministro das Infraestruturas, em entrevista à CNN Portugal, demarcou-se das palavras de Benjamin Pereira, que sugeriu que os jovens atualmente não estão disponíveis para o mesmo “nível de sacrifício” que as anteriores gerações.

“Estes jovens, é claro que se sacrificam, é claro que fazem um esforço enorme”, defende Pinto Luz, admitindo que este público já tem a alternativa de “ir para o estrangeiro”. “Mas não é isso que nós queremos”, sublinha. “Este Governo está a fazer exatamente o contrário. O que nós queremos é que os jovens fiquem em Portugal”, explica o ministro, reforçando que não se revê nas declarações do responsável pelo IHRU.

Ao longo da tarde, o comentário de Benjamin Pereira foi fortemente escrutinado por várias figuras políticas, tanto à esquerda como dentro do próprio Governo. Para além de Miguel Pinto Luz, também a secretária de Estado das Infraestruturas e Habitação quis afastar-se daquelas declarações. “Este Governo quer que não haja mais sacrifícios e que os nossos jovens possam ficar em Portugal”, afirmou Patrícia Gonçalves Costa, em entrevista à RTP.

Também o Partido Socialista condenou as declarações de Benjamin Pereira. “Estranhamos muito que hoje o presidente do IHRU venha dizer à comunicação social que os jovens têm falta de espírito de sacrifício. Isto é intolerável um dirigente público manifestar-se relativamente a pessoas, a jovens, que não têm outra coisa à sua frente que não seja sacrifício”, criticou o socialista Luís Testa, em declarações aos jornalistas no Parlamento.

O deputado disse que apesar de se poder “sensibilizar muito com a história de vida da família” do presidente do IHRU, a preocupação do PS é com “a vida dos portugueses e principalmente dos jovens”. “O sacrifício que esta camada etária tem pela frente na sua vida não é compatível com afirmações jocosas por parte de um dirigente da administração pública”, lamentou.

BE requer audição urgente do presidente do IHRU no Parlamento

O deputado único do BE, Fabian Figueiredo, requereu esta quinta-feira a audição urgente do presidente do Instituto de Habitação e Reabilitação Urbana (IHRU) no Parlamento, após as suas declarações acerca das manifestações contra a crise neste setor.

No requerimento apresentado, Fabian Figueiredo — que pede a demissão do responsável — sustenta que “há uma geração em Portugal que não precisa de lições de sacrifício”, apontando que em 2025 “os jovens portugueses saíram de casa dos pais, em média, aos 28,8 anos, dois anos e meio depois da média da União Europeia, segundo dados do Eurostat”.

O bloquista salienta ainda que “os preços da habitação subiram 16,5% no segundo trimestre de 2026 e a renda mediana dos novos contratos de arrendamento subiu 10,2% num ano, chegando aos 17,79 euros por metro quadrado no concelho de Lisboa”.

Para Fabian Figueiredo, “estas palavras não são uma opinião qualquer”, mas sim do “dirigente máximo do instituto” que, segundo a lei, tem por missão “garantir a concretização, coordenação e monitorização da política nacional de habitação”.

“Ao IHRU cabe também conceder comparticipações e empréstimos a programas habitacionais de natureza cooperativa e gerir o Porta 65 Jovem, o programa de apoio ao arrendamento dos jovens. Quem aconselha os jovens a fazer cooperativas preside ao instituto que tem por atribuição financiá-las”, critica o deputado.

Fabian Figueiredo alega ainda que é importante esclarecer “as condições” em que o atual presidente do IHRU “exerce o cargo”. O bloquista afirma que Benjamin Pereira foi nomeado em setembro de 2024, através de uma resolução de Conselho de Ministros “que dissolveu por mera conveniência o conselho diretivo anterior”.

“Segundo a nota curricular publicada em Diário da República, o seu percurso foi feito na política autárquica, tendo presidido à Câmara Municipal de Esposende entre 2013 e 2024, eleito pelo PSD. Já como presidente do IHRU, declarou-se, em março de 2025, “sempre à disposição do PSD” para assumir responsabilidades políticas locais não executivas. Em maio desse ano, a concelhia do PSD de Esposende aprovou a sua candidatura à presidência da Assembleia Municipal. A Constituição vincula a Administração Pública ao princípio da imparcialidade”, sustenta o deputado.

Fabian Figueiredo quer ouvir o responsável no Parlamento sobre as declarações em causa, “a forma como o IHRU está a cumprir a sua missão no acesso dos jovens à habitação, nomeadamente no Porta 65 Jovem e no apoio a soluções cooperativas, e as competências técnicas para o exercício do cargo”.

Além deste requerimento, o BE dirigiu um conjunto de perguntas ao ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, questionando se o executivo se revê na opinião do presidente do IHRU, que critérios presidiram à sua escolha, “quantas candidaturas ao Porta 65 Jovem aguardam decisão e qual foi, em 2025 e em 2026, o tempo médio de decisão”.

[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]