1246,4kWh poupados 1246,4 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

"Tony": o verão azul de Bourdain ★ ★ ★ ★ ★

A dada altura, a maldição bajuladora dos biopics aparece neste retrato de um verão na vida do chef rock'n'roll. Mas, na maioria, é um bom filme para fãs de protagonistas imperfeitos e de ostras.

Realizado e co-escrito por Matt Johnson (Blackberry, Nirvanna the Band the Show the Movie), que assumidamente não era fã nem seguidor do trabalho do apresentador-viajante, o foco está menos na figura do que seria de esperar – e mais no estilo de vida de Bourdain
i

▲Realizado e co-escrito por Matt Johnson (Blackberry, Nirvanna the Band the Show the Movie), que assumidamente não era fã nem seguidor do trabalho do apresentador-viajante, o foco está menos na figura do que seria de esperar – e mais no estilo de vida de Bourdain

▲Realizado e co-escrito por Matt Johnson (Blackberry, Nirvanna the Band the Show the Movie), que assumidamente não era fã nem seguidor do trabalho do apresentador-viajante, o foco está menos na figura do que seria de esperar – e mais no estilo de vida de Bourdain

O meu visionamento de Tony, o biopic de Anthony Bourdain que chega agora a Portugal no catálogo da Prime Video, está manietado à partida por dois preconceitos que tenho. Por um lado, fui e sou uma grande fã de Bourdain, o homem com a vida aparentemente perfeita, cuja morte precoce e inesperada me causou um daqueles lutos algo tolos quando nem sequer conhecemos o indivíduo pessoalmente. E por outro, tenho um ódio de estimação por biopics, os chamados filmes biográficos, que me parecem geralmente uma celebração acrítica e demasiado tendenciosa de famosos que, afinal, são só pessoas como nós, só que “muita fixes” e talentosos.

Tony estreou-se em agosto nas salas dos Estados Unidos e Reino Unido, brindado com geralmente boas críticas. Porém, os fãs mais acérrimos do chef e apresentador, aqueles que se comportam como donos legítimos do seu património e ideologia, apressaram-se a declarar: o próprio Tony teria odiado este filme. Na verdade, esta ideia não é consensual entre aqueles que, de facto, privaram com ele. A este propósito vale muito a pena ler o artigo da “Bon Appetit” assinado por Laurie Woolever, sua assistente de longa data. Nele, Woolever relata:

“Quando comecei a trabalhar como assistente do Tony, em 2009, aprendi rapidamente a não tentar prever as suas respostas às inúmeras solicitações que lhe chegavam através de mim. Muitas vezes, ele mostrava-se mais do que disposto a dar entrevistas a pessoas cujas opiniões contrariavam frontalmente as suas. Aceitou de imediato o convite para participar no Yo Gabba Gabba, um programa dirigido a crianças em idade pré-escolar. Quando a revista Vogue lhe pediu que participasse numa sessão fotográfica de moda, tive a certeza de que ele iria revirar os olhos perante a ideia. Em vez disso, disse-me: “Por pura e excessiva vaidade, estou ansioso por fazê-lo”, antes de enumerar uma lista de estilistas que admirava.”

[o trailer de “Tony”:]

Há, portanto, motivos para pelo menos especular que Bourdain teria gostado de Tony — ou, mais provável, ter gostado de ser motivo para um biopic. O suicídio em junho de 2018, num quarto de hotel em França, roubou-nos para sempre a resposta definitiva. Mas esse mistério faz parte daquilo que o tornou carismático — a ideia de que nunca o conseguíamos compreender a cem por cento. Este biopic não tenta, felizmente, cumprir essa missão perdida à partida. Realizado e co-escrito por Matt Johnson (Blackberry, Nirvanna the Band the Show the Movie), que assumidamente não era fã nem seguidor do trabalho do apresentador-viajante, o foco está menos na figura do que seria de esperar – e mais no estilo de vida.

Tony foca-se em apenas uma pequeníssima fatia da vida de Anthony: o verão de 1975, quando trabalhou num pequeno restaurante à beira da praia em Provincetown, Massachusetts. Na verdade (e como Tony não se assume como um retrato real do visado), o guião compacta em meros três meses uma realidade de anos, já que Bourdain trabalhou vários verões no dito restaurante. Aqui encontramos um miúdo de 19 anos que quer ser escritor, tem uma vaidade acima da média e uma tendência própria da idade para achar que o mundo lhe deve tudo. O filme começa, aliás, com uma autodescrição retirada da biografia do próprio, o best seller Kitchen Confidential: “Eu era, para ser franco, um jovem mimado, infeliz, narcisista, autodestrutivo e irrefletido, e precisava urgentemente de que alguém me desse uma valente lição” (no original, ass kicking). Tudo isto ao som de Magic Mountain, de Eric Burdon & War, numa banda sonora que ajuda à aura de rock star.

O filme encaixa-se, assim, no subgénero de filmes “coming of age”, sobre as agruras de crescer e de se descobrir uma identidade. Quem conhece a vida e obra de Bourdain adivinha aqui as primeiras pistas de determinados acontecimentos (o casamento com a primeira mulher; o vício da heroína; a vontade de escrever livros passados na estrada, ao estilo de Kerouac), e quem não conhece fica com um filme simples mas bem feito sobre um miúdo a encontrar-se.

▲ "Tony" foca-se em apenas uma pequeníssima fatia da vida de Anthony: o verão de 1975, quando trabalhou num pequeno restaurante à beira da praia em Provincetown, Massachusetts

Apesar de um guião e de uma realização escorreitos, a mais-valia de Tony está mesmo nas representações. Dominic Sessa, que se estreou em The Holdovers, faz um Bourdain tão convincente que até a voz é igual. Leo Woodall (White Lotus) também resulta muito bem como Sal, uma espécie de símbolo de todos os caminhos errados que o jovem Tony pode escolher, quase um Fantasma do Natal Futuro. E António Banderas faz um óptimo Chef, apesar de aqui ser muito difícil para um português aturar as incongruências do filme sem lhe tremer uma vista. Um ator espanhol a interpretar um chef português (real, amplamente descrito no seu livro de estreia como um José Meireles de Celorico de Basto) que vai a uma missa em brasileiro e usa palavras do léxico mexicano. É certo que, também aqui, a ideia é ter uma figura algo misteriosa que encapsula vários patrões diferentes, mas é no mínimo distrativo.

Tony é um bom filme quase até ao final. Não tem receio de ter um protagonista do qual não é fácil gostar, mesmo representado uma figura tão popular. Mas no fim não resiste a um desenlace demasiado fofinho (e absolutamente inventado) envolvendo um restaurante improvisado num areal. A cerca de dez minutos do fim, a maldição do biopic bajulador volta a atacar. Mesmo assim, a primeira hora e meia vale a pena para fãs de Bourdain, fãs de protagonistas imperfeitos ou simplesmente para fãs de ostras.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.