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Fonte: Observador

Dois proscritos a endireitar uma realidade que se mantém torta (a crónica do Sporting-Marítimo)

Pedro Lima mostrou o que outros médios não têm e bisou, Rui Silva explicou que, em campo ou não, continua a ser o número 1: o Sporting encontrou soluções mas isso não muda em nada os problemas (2-1).

Assobios, lenços brancos, uma contestação maior do que aquela que já se tinha feito sentir diante do Arouca. Com uma diferença, uma enorme diferença: aí, após o terceiro empate em sete encontros na Liga, Frederico Varandas encontrou um momento (que até foram dois) para sair em defesa de Rui Borges, com a garantia de que era o técnico do projeto e que nunca foi colocado em causa. Agora, havendo essa margem para voltar a falar perante a Assembleia Geral da Sporting SAD, o líder verde e branco optou por não falar. Quer isso dizer que algo mudou? Não necessariamente. Até pode ter sido uma forma de marcar posição num clube que quer continuar a ser dirigido de dentro para fora e não o contrário. Ainda assim, percebe-se que existem sinais de fim de linha à vista. Era também por isso que a receção ao Marítimo ganhava outro peso em Alvalade.

Sporting-Marítimo. Leões procuram chegar à Final Four da Taça da Liga após duas derrotas seguidas em Alvalade

Muito se tem falado do risco assumido pela SAD verde e branca quando, à luz de uma das piores derrotas da história recente do clube, decidiu remodelar por completo o plantel e abrir um novo ciclo sem figuras que se foram assumindo como nucleares durante os últimos anos como Morten Hjulmand, Francisco Trincão, Pedro Gonçalves, Ousmane Diomande ou Daniel Bragança (além de Morita, que saiu a custo zero). O investimento foi grande, o maior da história da sociedade acima dos 100 milhões de euros, algumas fragilidades que não são quantificáveis mantiveram-se como a falta de líderes no balneário. No entanto, e entre toda a revolução levada a cabo, houve a decisão paralela de manter Rui Borges no comando técnico, com a chegada ao top 8 da Liga dos Campeões pela primeira vez na história a pesar mais do que a falta de títulos em 2025/26.

Com outro dado: ciente da importância de ter tempo para construir uma nova base, houve um esforço extra para acelerar a chegada de quase todos os reforços, como aconteceu sobretudo em relação aos cinco médios que reforçaram o plantel. Problema? A pré-época foi positiva, o arranque oficial da Primeira Liga tornou-se ziguezagueante, a paragem para compromissos das seleções trouxe novas dinâmicas a um corredor central que nunca chegou a estabilizar por completo, as coisas não funcionaram melhor – pelo contrário. As receções ao LASK Linz e ao Ac. Viseu, que valeram as duas primeiras derrotas da temporada, foram pesadas não tanto pelos resultados (que foram maus e não podiam acontecer nesta fase) mas pela forma como surgiram. É aí que entronca o grande dilema atual do Sporting: terá Rui Borges capacidade para dar a volta à situação?

Para o técnico, um claro sim. Mostrando total compreensão pela insatisfação dos adeptos, ao mesmo tempo que recusou responder se os assobios eram justos ou não, Rui Borges não teve dúvidas em colocar-se do lado da solução e não do problema. Mais: mesmo percebendo que estava numa situação mais frágil sobretudo na sequência da derrota com os viriatos, em nenhum momento o treinador adotou um discurso que não fosse no sentido de trabalhar para encontrar a redenção a curto prazo. E essa redenção começava com a receção ao Marítimo para a Taça da Liga, com a vantagem de valer uma entrada automática na Final Four da prova em caso de triunfo e a desvantagem de surgir apenas 48 horas depois do encontro para o Campeonato.

“O Sporting é o Sporting, o objetivo é vencer a competição. Todos querem dar uma resposta diferente, tem de haver uma reação forte, de compromisso e ambição. É natural que possa haver momentos de intranquilidade aqui e ali durante o jogo. Faz parte do nosso crescimento, termos de lidar com isso. Acredito que os jogadores querem dar uma grande resposta, vencer e disputar este troféu”, referiu Rui Borges na antevisão feita apenas ao canal do clube, antes de assumir que iria fazer várias alterações na equipa inicial neste jogo. “A maioria dos que estiveram frente ao Ac. Viseu provavelmente não estarão, não é fisicamente possível. Há portas abertas para os nossos jovens, que têm feito um bom início. Estão à espera de uma oportunidade. Sinto-me confortável e confiante naquilo que eles são capazes”, acrescentou o técnico. “Mesmo perante a insatisfação, que é natural, os adeptos acreditam que a equipa vai dar uma resposta diferente”, rematou.

Logo à partida, seria sempre complicado pela dificuldade de entrosamento de uma segunda linha que tinha de ser lançada a um encontro com um contexto complicado do qual não tinha propriamente “culpa” direta. Ainda assim, houve bons indicadores. Logo à cabeça, dois: Pedro Lima, que mais do que os dois golos foi um médio que mostrou características que têm faltado no Sporting nomeadamente nos movimentos de rutura e no aparecimento do segundo médio em zonas de finalização, e Rui Silva, que saiu quase como uma espécie de bode expiatório da equipa depois do empate frente ao Arouca mas mostrou que ainda é o número 1 (como titular ou no banco). No entanto, e numa vitória que tinha tudo para fazer as “pazes”, um golo sofrido em cima do minuto 90 trouxe de novo fantasmas que tarde ou nunca irão sair de Alvalade nos próximos tempos. Esse é um grande problema. E quem conhece bem o clube consegue perceber todos esses sinais…

Com Alvalade a registar a pior casa da época, como seria expectável até mesmo se a equipa estivesse num momento melhor, o Sporting até conseguiu criar uma boa situação logo a abrir mas o golo de Jesse Derry foi anulado por fora de jogo depois de um ressalto que veio de uma pressão alta de João Simões à saída da área do Marítimo (5′). O sinal de Rui Borges tinha sido deixado ao colocar todos os titulares no domingo fora do banco, o risco era 100% assumido pelo técnico, que “acreditava” nas segundas linhas do plantel para chegar a uma vantagem que pudesse esvaziar o balão de ansiedade e intranquilidade crescentes na sequência dos últimos resultados em Alvalade. No entanto, se a alguma distância os equipamentos das equipas tinham tendência a confundir-se, em campo a situação não era muito melhor. Se o movimento de rutura aparecesse, a bola não seguia; se a pressão avançava, o jogador seguinte não aparecia. Faltava sempre algo na definição.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Sporting-Marítimo em vídeo]

À exceção desse lance, estava a ser um jogo sem balizas, com muita entrega, algumas vezes mal jogado. No entanto, e em menos de três minutos, as equipas ficaram perto de marcar e desbloquear a partida: Geny Catamo fez a diagonal da direita para o meio no 1×1, o remate sobrou para a recarga de Ioannidis e, no meio da confusão, Pedro Lima desviou na pequena área à trave (23′); pouco depois, Paulo Henrique subiu bem pela esquerda, cruzou largo para a área, a bola passou pelas costas de Zekri e Igor Julião, vindo de trás, atirou colocado para grande intervenção de Rui Silva para canto (25′). Depois, tudo voltou ao mesmo. E o que significou isso? Muita luta, sobretudo a meio-campo, posses de bola mais longas do Marítimo mas a circular demasiado recuado a chamar a pressão leonina, passes falhados pelo Sporting a condicionar tudo o resto.

Zekri era o exemplo paradigmático do bom e do mau no jogo: por um lado, e quando tentava procurar as subidas pela ala de Jesse Derry ou os movimentos de Ioannidis na frente, os passes tinham tendência para ir saindo demasiado longos; por outro, quando conseguia jogadas de envolvimento ou arriscava subir com bola, conseguia causar mossa na defesa dos insulares, tendo mesmo criado um livre em posição perigosa que foi aproveitado por Jesse Derry para acertar no poste (41′). Estava dado o mote para a melhor fase dos leões no primeiro tempo, de novo com Pedro Lima a assumir o papel de protagonista: primeiro conseguiu receber um grande passe de Geny Catamo num movimento de rutura na área mas viu o remate ser desviado por Gonçalo Tabuaço para canto (43′), depois apareceu ao primeiro poste para desviar de cabeça para o golo inaugural da partida na sequência de uma bola parada marcada à esquerda por Jesse Derry (44′).

Nem o Sporting teve possibilidade de assentar o seu jogo contando a partir daí com a vantagem do seu lado, nem o Marítimo conseguiu mostrar algo mais depois desse golo sofrido, tendo em conta que o intervalo iria chegar no minuto seguinte. Ainda assim, ninguém quis mexer ao intervalo, com Rui Borges a ter sobretudo caras novas no banco para mexer e Mitchell van der Gaag a manter a crença total no 3x4x3 que preparou. A opção do neerlandês fez sentido: corrigindo as marcações a meio-campo e evitando situações em que Geny Catamo ou Jesse Derry surgissem para jogar nas alas 1×1, os insulares não permitiram grandes ocasiões à formação verde e branca ao mesmo tempo que apareceram mais na área contrária, com Raphael Guzzo a ter uma boa oportunidade na sequência de uma bola parada com um desvio na área para defesa de Rui Silva (58′). O Marítimo parecia acreditar, as entradas de Martín Tejón e Butzke iam também nesse sentido.

Houve ainda mais um lance em que Rui Silva voltou a brilhar: Tejón ganhou espaço na área, assistiu Igor Julião para a entrada do lateral brasileiro e o remate voltou a ser travado pelo guarda-redes para canto (69′). Contudo, pouco antes, o Sporting tinha começado a encontrar novos caminhos para chegar à área contrária, num lance em que Ioannidis apareceu nas costas dos centrais do Marítimo, fintou Gonçalo Tabuaço mas viu ainda Rafael Fernandes evitar o golo em cima da linha (67′). Não foi de um grego que nasceu o golo, foi do outro: Vagiannidis aproveitou bem o espaço para subir e fletir para uma zona mais central, arriscou o remate para defesa para a frente de Tabuaço, a recarga foi de novo travada pelo guardião mas Pedro Lima voltou a levar a melhor na insistência, desviando na pequena área face à oposição de Rafael Fernandes (71′).

Tudo parecia resolvido com o 2-0, até pelas várias substituições que as equipas foram fazendo, mas mais um erro em zona proibida, neste caso com uma perda de bola a meio-campo, permitiu que o Marítimo voltasse a sonhar com a qualificação depois do golo de Butzke de cabeça ao segundo poste quase em cima do minuto 90. Em condições normais, havendo apenas três minutos de compensação por jogar, seria um 2-1 tardio. Com este Sporting, mais uma vez, viu-se que ainda havia tempo suficiente para procurar o empate. Aí, mais uma vez, apareceu Rui Silva, com uma defesa determinante para canto a um remate de Martín Tejón que impediu o empate e mais um golpe de teatro em Alvalade (90+3′). Aquilo que podia ser a noite das “pazes” com um triunfo tranquilo transformou-se em mais um encontro onde sobrou a pior imagem no final…

[Duarte Lima admite ter estado com Rosalina Ribeiro na noite em que a herdeira milionária desapareceu mas nega ter sido a última pessoa a vê-la com vida. Conta que, depois da reunião que tiveram, no Rio de Janeiro, levou a cliente até Maricá, para um encontro com uma mulher chamada Gisele. É uma versão que não bate certo com as primeiras provas recolhidas pelas autoridades brasileiras. Enquanto Duarte Lima se torna, para a polícia, o principal suspeito do homicídio, perde força a outra linha de investigação. Olímpia Feteira era inimiga assumida da antiga companheira do pai mas garante que nunca desejou a morte dela. E, ao contrário de Duarte Lima, disponibiliza-se para prestar todas as informações necessárias à polícia brasileira. Já pode ouvir o segundo episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]

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