O que se pode dizer ou escrever sobre uma equipa que tem tudo, joga tudo e ganha tudo? É complicado. Os pormenores passam a contar. Coisas que provavelmente nem seriam referidas passam a ser olhadas de uma outra forma. Foi assim que, entre ideias, modelos, dinâmicas, sistemas e esquemas táticos, o enfoque recaiu nas bolas de saída do PSG. Já se tinha visto de tudo, desde o habitual toque para o lado e passe para trás para fazer a partir daí a construção ao pontapé longo fazendo cair mais jogadores sobre um dos corredores. Agora, os franceses deram o passo em frente e, de forma assumida, começaram a arriscar os pontapés longos como se fosse râguebi para ganharem metros e pressionarem o adversário sem posse em cima da outra área.

Surpresa confirmada: Chelsea vence PSG com primeira parte de sonho e conquista Mundial de Clubes

“Copiámos isso do Lyon mas não vou explicar o motivo pelo qual fazemos isso”, comentou Luis Enrique, passando ao lado de uma possível tentativa falhada no jogo das meias-finais com o Real Madrid em que a bola de saída acabou por sair pela linha de fundo – o que não impediu que, ainda antes dos dez minutos, já estivessem na frente por 2-0. “Temos de mudar, vamos mudar. As equipas acabam sempre por se adaptarem a ti. No futebol não há nada mágico, ou deixas de ser previsível ou estás morto. Há sempre coisas que podemos mudar e melhorar”, acrescentou, dando o mote para mais uma final que poderia trazer o quinto título da temporada depois da Supertaça, da Ligue 1, da Taça de França e da Liga dos Campeões. Mais: o PSG poderia tornar-se a primeira a equipa a ganhar sete títulos referentes a uma época, tendo ainda pela frente a final da Supertaça Europeia com o Tottenham e a decisão da Taça Intercontinental (ainda sem adversário).

Pela frente, o Chelsea. Em condições normais, os londrinos seriam sempre outsiders na decisão. Depois da forma como o PSG bateu Atl. Madrid, Bayern e Atl. Madrid, ainda menos favoritismo tinha. A vitória diante do Fluminense com um bis de João Pedro, acabado de chegar do Brighton para ser titular e decidir a meia-final, mostrou o bom momento dos blues mas a antecâmara da primeira final do Mundial de Clubes neste novo formato não demorou a tornar-se um exercício em que o favorito tentava dizer que não havia nada decidido e o não favorito tentava mostrar argumentos para não ser um jogo com vencedor antecipado. O filme não teria nada a ver com o que se passaria depois em campo mas, antes, parecia estar tudo decidido.

“Vi quase todos os jogos do PSG nesta competição. Vê-se a qualidade que têm mas vamos fazer o nosso melhor. É óbvio que são uma equipa muito boa, provavelmente a melhor equipa da Europa e do Mundo pela forma como jogam. Todas as equipas podem ser derrotadas mas vamos fazer o nosso melhor. No início da temporada havia muito ruído à volta da equipa por diferentes razões e terminámos a ouvir falar da equipa, da forma como jogámos. Essa é, para nós, a maior conquista do ano. Trouxemos este clube para onde ele tem de estar”, salientava Enzo Maresca. “Um jogo para cumprir calendário? Absolutamente, não. O Chelsea tem uma grande equipa, o treinador trabalha muito bem.Gosto do que propõe, constroem o jogo, os jogadores têm um perfil técnico. É uma equipa completa. Temos de abrir um novo capítulo, conquistar mais grandes troféus para o clube e temos agora o último jogo da temporada para isso”, frisava Luis Enrique. O que o espanhol estava longe de adivinhar era a capacidade que os ingleses teriam para surpreenderem.

Bastaram dez minutos para se perceber que o Chelsea não estava propriamente apostado em ser convidado da festa, neste caso com muito mérito de Maresca e da estratégia montada com e sem bola para encaixar no PSG. Por um lado, explorando espaços entre linhas e as zonas entre laterais e centrais com a mobilidade de Cole Palmer e João Pedro, foi conseguindo aproximações com perigo e uma grande oportunidade num lance que começou em Pedro Neto e que teve Palmer a rematar a rasar o poste da baliza de Donnarumma (8′). Por outro, conseguia travar a zona de construção dos franceses, com uma defesa subida que não dava nem tempo nem para espaço para o adversário pensar. O PSG acabou por ser surpreendido até sair das amarras com uma ideia que tantas vezes foi aproveitando (e bem) ao longo da época: bolas longas na profundidade, possibilidade de subir linhas, controlo em posse das ações. Voltava a normalidade… com um asterisco.

Já depois de ter perdido uma oportunidade flagrante ao tentar assistir Hakimi em vez de rematar, Doué teve um lance de perigo depois de surgir no raio de ação que costuma ser de Dembélé para boa defesa de Sánchez (18′) mas havia algo que continuava a falhar nos franceses: a forma como davam espaço para os ingleses lançarem transições que começavam em lançamentos para os corredores. Aconteceu uma vez, aconteceu a segunda vez, à terceira foi de vez: Malo Gusto bateu Nuno Mendes, tentou o remate sem sucesso mas assistiu Cole Palmer no meio para o 1-0 (22′). Seguia-se a paragem para hidratação, continuava a surpresa: mais uma bola na profundidade para Palmer, movimento diagonal do inglês com apoio nas costas a deixar Vitinha na dúvida sobre onde atacar e remate de pé esquerdo a papel químico para o bis com meia hora de jogo.

O lado esquerdo do PSG estava uma autêntica passadeira para o ataque do Chelsea, que várias vezes deixava Nuno Mendes a jogar 1×2 perante os movimentos de Cole Palmer e as subidas sem acompanhamentos de Malo Gusto. Luis Enrique estaria à espera do intervalo para corrigir esse aspeto em termos estruturais mas ainda teria mais uma pedra no caminho entre uma primeira parte de total pesadelo: Palmer voltou a receber a bola com tempo para avançar e pensar sem oposição, deixou que Malo Gusto fizesse o movimento nas suas costas e assistiu João Pedro na área para o 3-0 (43′). João Neves ainda teria um cabeceamento para defesa de Robert Sánchez mas o campeão europeu iria mesmo para o descanso com três golos de desvantagem.

Luis Enrique não mexia ao intervalo mas sabia o que teria de ser feito para deixar outra imagem na segunda parte. Para o resultado, esse, teria de haver um golo cedo para ainda permitir sonhar numa fase em que, em alguns lances, os jogadores do Chelsea já não conseguiam chegar tão rápido como no primeiro tempo. Kvicha Kvaratskhelia teve uma primeira ameaça para defesa de Robert Sánchez após boa variação de jogo de Vitinha (48′), Dembélé surgiu isolado na área para nova grande intervenção do guarda-redes espanhol (52′) e esse momento permitiu que os londrinos recuperassem o fôlego, havendo mesmo uma fase de “olés” que vinham das bancadas antes de nova ameaça à baliza dos londrinos numa meia distância de Vitinha (59′). A final já estava mais do que decidida, com Donnarumma a tirar o golo a Liam Delap em duas ocasiões (68′ e 80′) antes de João Neves ser expulso com vermelho direto por ter puxado os cabelos a Cucurella (86′) num final de jogo tenso e que acabou da pior forma, com vários momentos de tensão entre as duas equipas.

A pérola

  • Marcar dois golos e fazer uma assistência numa final internacional é quase um passe para a vitória de MVP do jogo. Cole Palmer, claro, não foi exceção. Enzo Maresca teve muita influência no jogo que o inglês conseguiu fazer pela capacidade que conseguiu dar à equipa para explorar os espaços e os tempos certos pela direita do ataque para potenciar as melhores qualidades do esquerdino mas o antigo jogador do Manchester City abriu o livro como não tinha ainda feito neste Mundial de Clubes, confirmando uma prova sempre em crescendo onde começou como uma mera sombra e acabou como grande estrela.

O joker

  • Chegou, viu e venceu. Literalmente, venceu. As regras deste Mundial de Clubes não são propriamente as melhores a partir do momento em que permitem que uma equipa contrate um jogador durante a prova e possa de imediato contar com ele em campo mas nem o Chelsea, nem João Pedro têm culpa disso, com o avançado brasileiro contratado ao Brighton a fazer a estreia diante do Palmeiras, a bisar na meia-final com o Fluminense e a marcar mais um golo na decisão com o PSG, em mais uma exibição onde mostrou ser o tipo de avançado que os londrinos precisavam não só em posse mas também sem bola.

A sentença

  • Com este triunfo, o Chelsea termina a temporada de 2024/25 com as conquistas do Mundial do Clubes e da Liga Conferência além do apuramento para a fase de grupos da Liga dos Campeões via quarto lugar da Premier. Já o PSG, que pela primeira vez na história ganhou a Champions, termina a época da pior forma e perde a oportunidade de ser a primeira equipa a conquistar sete títulos referentes à mesma época, tendo ainda Supertaça Europeia e Taça Intercontinental para discutir em 2025/26.

A mentira

  • Ao longo da presença nos EUA, Luis Enrique sabia que tinha um potencial problema em mãos: a questão física. Tentou minimizar isso com idas à praia, com treinos que mais não eram do que trabalho de recuperação e pouco mais, com folgas que queriam deixar os jogadores frescos em termos mentais para o resto. Para a final, não chegou. Longe disso. Se existe um enorme mérito na estratégia que foi montada por Enzo Maresca para encaixar o Chelsea na forma de jogar dos franceses, a intensidade, a velocidade e a agressividade dos ingleses, que foram fazendo sempre várias mudanças na equipa além de terem muitos mais jogadores como opção, acabou por ser o fator determinante para a decisão. Mais: se PSG e Chelsea, com estas armas, jogassem dez vezes, os parisienses nunca sairiam atrás no final…