Um regresso que todos saudavam, um contexto que ninguém queria propriamente saudar. O Benfica fazia o segundo encontro na Liga dos Campeões em Londres frente ao Chelsea mas todos os holofotes estavam quase de forma natural em José Mourinho, treinador que passou nos blues por duas ocasiões e por quem fez mais jogos oficiais. Aliás, nem era preciso muito para se ver a ligação que ainda perdura entre o técnico português e a formação inglesa: três das cinco fotografias que constam na sala de conferência de imprensa de Stamford Bridge têm o Special One, sorridente, em vias de ou acabado de ganhar mais um dos oito títulos que somou para o currículo quando Roman Abramovich era ainda presidente. No entanto, carinho e nostalgia à parte, este seria tudo menos um reencontro entre amigos – e o atual momento da equipa de Enzo Maresca podia complicar mais a vida dos encarnados, que procuravam somar os primeiros pontos na Champions.

Benfica perde com Chelsea com autogolo de Richard Ríos e soma segunda derrota europeia

Sem tempo para trabalhar (treino em campo com todos os jogadores, entenda-se), Mourinho não teve um arranque fácil na Luz. Ganhou de forma segura ao AVS depois de um golo desbloqueador de Sudakov, não foi além de um empate concedido nos descontos na receção ao Rio Ave, venceu longe de convencer o Gil Vicente numa partida onde se foram ouvindo assobios. Nota principal: mais do que uma espécie de bloqueio mental que parece tirar confiança e ligação à equipa, existia um claro défice físico depois de um arranque de época marcado pelo Mundial de Clubes e pela densidade competitiva nas últimas semanas. No entanto, havia na teoria dois pontos que podiam ajudar à redenção: o momento do Chelsea, que tirando Taça da Liga perdeu os últimos encontros na Premier League e na Champions, e a própria forma de jogar dos encarnados.

“Estou à espera de duas equipas que querem ganhar, obviamente que não acredito que o Chelsea jogue para outra coisa. Jogam em casa, perderam o primeiro jogo, e nós, por uma questão de cultura de clube e também pela identidade que quero dar à equipa progressivamente, também não haverá estádio ou adversário que nos faça pensar de outra maneira. Se temos de defender bem? Obviamente. Mas o objetivo é tentar ganhar. O Chelsea perdeu em Munique num calendário mais acessível do que o nosso. Os pontos que nós perdemos foram, à partida, pontos que se pensava que íamos somar [Qarabag]. E agora teremos de ir à caça de pontos nos sete jogos que temos pela frente. É mais difícil este jogo em Stamford Bridge, o Real Madrid na Luz ou o Newcastle lá? Não consigo dizer mas amanhã [terça-feira] temos de ir pelos pontos”, frisara Mourinho.

Um dos maiores problemas deste novo Benfica pós-Bruno Lage com o técnico que se “fez” Special One no Chelsea era a necessidade de assumir os jogos, de controlar com e sem bola e de jogar em termos posicionais no meio-campo adversário pela diferença de forças face aos adversários e pela “obrigatoriedade” de ganhar. Agora, em Londres, a questão dos pontos ganhava maior premência pela surpresa inicial frente ao Qarabag mas era sobre os blues que recaíam as despesas da partida, apesar das lesões e demais ausências que têm assolado os londrinos – e que, claro está, são apontadas ao impacto que o Mundial de Clubes teve em alguns dos conjuntos que foram mais longe na prova. Uma coisa era certa: havia margem para Mourinho colocar mais o seu dedo em termos táticos depois de ter apenas colocado o “dedinho” neste arranque na Luz, até pelo gradual crescimento físico de unidades como Lukebakio que davam outros argumentos à equipa.

“O trabalho foi… um não trabalho. Mas esse trabalho/não trabalho era o que os jogadores mais precisavam. Finalmente tiveram três dias entre jogos. Desde que cheguei foram sempre dois entre jogos e, quando isso começa a acumular, chegámos ao último jogo com o Gil Vicente em grandes dificuldades. Alguns jogadores estavam mesmo com as luzes vermelhas nos dados que temos. Finalmente tivemos três dias de não trabalho. O trabalho de organização tática foi mais passivo do que ativo. Hoje [Segunda-feira] gostaria de ter treinado no Seixal mas não foi possível por logística. Tinha duas opções: ou fazer mesmo o treino aberto, vocês estarem lá e não poder trabalhar taticamente ou fazer os 15 minutos abertos, sem vocês, mas com as câmaras que pus lá há 15 anos…”, ironizou o técnico português, sempre muito acarinhado pelos ingleses.

“O que muda em mim? Como pessoa, nada. O facto de estar em Portugal, de estar perto de casa… Tenho dormido muitas vezes no Benfica Campus. Até digo uma coisa que vai ser interessante para os portugueses: só tive uma sessão de treinos com o grupo completo. Nas outras, uns estavam a recuperar, uns não estavam por outra razão. Não tenho tido tempo… Só tenho tentado preparar os jogos, ajudar os jogadores. Amanhã [Terça-feira] vamos jogar, quarta-feira voltamos a Lisboa e vai ser a primeira vez que vou dizer ‘Vão para casa, até amanhã’. Aconteceu pela primeira vez quando fui para o Tottenham, é uma situação muito difícil. Há pouco tempo para pensar, nem penso em mim”, acrescentara a propósito dessas dificuldades.

Por paradoxal que possa parecer, este foi provavelmente o melhor jogo do Benfica em termos competitivos desde que José Mourinho. Teve argumentos para fazer chegadas à baliza do Chelsea, aguentou como foi sendo possível os ingleses no plano ofensivo, acabou em cima da equipa da casa em busca do empate que não conseguiu. O que fez a diferença? A eficácia e um momento de infelicidade de Richard Ríos. “Estou a tentar percebê-lo melhor para tentar retirar o melhor dele. Para darem o seu melhor temos de pedir-lhes aquilo em que eles são bons e não pedir-lhe coisas nas quais não são perfeitos a fazer. Preciso de tempo com o Richard para poder ter esta empatia de trabalho”, tinha dito Mourinho à TNT Sports. O colombiano era dos melhores médios na América do Sul, enchia o campo, fazia a diferença, jogava e fazia jogar. Agora, por mais que tente, nada parece correr bem. E o jogo ficou resolvido ainda na primeira parte porque a revolta do sul-americano, que minutos antes falhara um golo, fez passar o caudal do Río(s) pela (Stamford) Bridge errada.

Ficha de jogo

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Chelsea-Benfica, 1-0

2.ª jornada da Liga dos Campeões

Stamford Bridge, em Londres

Árbitro: Daniel Siebert (Alemanha)

Chelsea: Robert Sánchez; Malo Gusto (Reece James, 80′), Chalobah, Badiashile (Acheampong, 80′), Cucurella; Caicedo, Enzo Fernández; Pedro Neto, Buonanotte (Estêvão, 54′), Garnacho (Jamie Gittens, 61′) e Tyrique George (João Pedro, 61′)

Suplentes não utilizados: Jørgensen, Merrick, Hato, Guiu, Lavia e Walsh

Treinador: Enzo Maresca

Benfica: Trubin; Dedic, António Silva (Tomás Araújo, 73′), Otamendi, Dahl; Enzo Barrenechea, Richard Ríos (Leandro Barreiro, 77′), Aursnes (Henrique Araújo, 89′); Lukebakio (Schjelderup, 77′), Sudakov (Ivanovic, 77′) e Pavlidis

Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Diogo Ferreira, Obrador, Gonçalo Oliveira, João Veloso, João Rego e Diogo Prioste

Treinador: José Mourinho

Golo: Richard Ríos (18′, p.b.)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Enzo Barrenechea (34′), Enzo Fernández (45+1′), Buonanotte (46′), Richard Ríos (49′), João Pedro (62′ e 90+6′), Aursnes (64′), Otamendi (83′) e Tomás Araújo (88′); cartão vermelho por acumulação João Pedro (90+6′)

O encontro começou dentro dos moldes esperados, com Aursnes a assumir-se como interior esquerdo mais no meio-campo dos encarnados e Sudakov a assumir o papel de falso ala esquerdo com Lukebakio na direita com permissão para surgir em zonas centrais como o ucraniano e Pavlidis na frente. O Chelsea tentava ter mais bola, maior controlo e o domínio dos acontecimentos, ganhou uma alma redobrada quando o antigo benfiquista Enzo Fernández recuperou uma bola perto da entrada da área após erro de António Silva na saída a partir de trás para rematar forte mas ao lado (4′) mas acabou por travar essa onda na primeira vez que os encarnados conseguiram colocar uma transição rápida, com Cucurella a ter um passe errado que permitiu a Sudakov colocar na diagonal de Lukebakio para o remate que ainda bateu no poste depois de um desvio de Robert Sánchez (7′). Garnacho ainda teve uma tentativa ao lado (11′) mas esse foi um “aviso” aos blues.

O jogo estava bom, estava aberto e estava capaz de cair para qualquer uma das equipas. O que desequilibrou nessa fase? Richard Ríos fez na área do Benfica aquilo que não tinha conseguido fazer na área do Chelsea. Expliquemos o filme. Sudakov tinha acabado de ter um remate que passou ao lado mas que nasceu de mais uma boa saída rápida dos encarnados (15′) quando Lukebakio voltou a desequilibrar no 1×1, neste caso a puxar o defesa a si para depois soltar no médio colombiano que atirou fraco e à figura de Robert Sánchez (16′). Pouco depois, e na sequência de uma ameaça que passou muito perto da baliza de Trubin (17′), Pedro Neto cruzou longo ao segundo poste para a entrada de Garnacho nas costas de Dedic e o argentino cruzou tendo para a pequena área, onde o ex-Palmeiras disparou um míssil… mas para a própria baliza (18′).

Foi um balde de água fria para o Benfica, podia ter surgido logo de seguida um balde de água fria também para o Chelsea quando Lukebakio voltou a fazer a brilhar na diagonal da direita para o meio antes de um grande passe para Pavlidis fazer um desvio na área que ficou nas pernas de Chalobah quando parecia levar a direção da baliza (21′). Estava gorada mais uma oportunidade antes de uma espécie de pacto quase tácito de “não agressão” entre as equipas, que foram baixando o ritmo da partida para ganharem fôlego enquanto iam percebendo o que fazer daí para a frente. Os encarnados não voltaram a criar perigo na área dos londrinos, os blues também tiveram só um lance em que Cucurella ganhou a zona a Dedica para assistir Tyrique George que rematou para defesa de Trubin (44′) e a primeira parte terminou com mais capítulos que mostraram que a saída de Enzo Fernández, pela forma como aconteceu, ainda não foi esquecida pelos adeptos…

Havia uma parte boa e uma parte má para Mourinho. Por um lado, a primeira metade do encontro mostrou uma equipa diferente do que se vira no Campeonato, com outra disponibilidade, intensidade e capacidade para discutir o encontro frente ao campeão mundial. Por outro, partia para o segundo tempo atrasado no marcador, o que dava outro conforto ao Chelsea na gestão da partida. Sem mexer em jogadores ao intervalo, o português foi pedindo para que os médios interiores chegassem mais à frente com ou sem bola, tentou que os laterais tivessem mais saída para ajudar nas ações ofensivas e procurou recuperações em zonas um pouco mais adiantadas para tirar tempo à recuperação dos londrinos. Era preciso passar da teoria à prática.

Em jogadas consecutivas, primeiro a receber de Pavlidis e depois de Sudakov, Aursnes teve movimentos de rutura que permitiu encontrar os espaços que faltavam na área. Sánchez travou os dois remates, as jogadas foram anuladas por fora de jogo mas estava dado o mote para aquilo que era necessário fazer dentro daquele 4x3x3 que tinha em campo até porque havia mais Dedic em ações ofensivas. Já o Chelsea, que pouco ou nada conseguia fazer em termos ofensivos entre alguns remates de Pedro Neto que iam ficando na muralha dos encarnados, tinha uma vantagem: Enzo Maresca foi ao banco e lançou Estêvão, João Pedro e Jamie Gittens a meia hora do final. Essa era outra das grandes diferenças entre equipas: a profundidade do plantel.

Quando Trubin chocou com António Silva num lance pelo ar e o jovem central ficou no chão (tendo mesmo de sair, entrando Tomás Araújo), Mourinho foi ao banco falar com os adjuntos e redefinir toda a estratégia. Não foram uma, não foram duas, foram logo três alterações com as entradas de Leandro Barreiro, Ivanovic e Schjelderup para os lugares de Richard Ríos, Sudakov e Lukebakio. A oportunidade seguinte até foi mesmo para o Chelsea, que numa saída rápida conseguiu colocar o jovem Estêvão a cabecear para defesa apertada de Trubin (78′), mas o Benfica subia linhas de forma definitiva com o intuito de chegar ao empate. Ivanovic, num trabalho individual, teve um remate de pé esquerdo na área ao lado (84′), Otamendi conseguiu ainda enquadrar uma segunda bola após canto que ficou nas mãos de Sánchez (87′) mas já era tarde para mais, com os encarnados a acabarem em cima do Chelsea mas sem conseguirem furar a muralha dos blues.

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