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O toque de Midas de Francisco entre as lágrimas de Iván (a crónica do V. Guimarães-Sporting)

Este artigo tem mais de 6 meses

Antes da consoada houve um jogo rei de Trincão entre frangos, perus e várias prendas na goleada do Sporting em Guimarães, com Ioannidis a brilhar e Fresneda a superar-se numa semana difícil (1-4).

Francisco Trincão marcou o primeiro golo, foi o fator diferenciador nas jogadas de mais dois e terminou como MVP na goleada do Sporting em Guimarães
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▲Francisco Trincão marcou o primeiro golo, foi o fator diferenciador nas jogadas de mais dois e terminou como MVP na goleada do Sporting em Guimarães

Luis Eiras

▲Francisco Trincão marcou o primeiro golo, foi o fator diferenciador nas jogadas de mais dois e terminou como MVP na goleada do Sporting em Guimarães

Luis Eiras

Jogar em Guimarães é entrar sempre num contexto de dificuldade máxima para os adversários. É assim para tudo, é assim para todos. Contudo, jogar na Cidade Berço era tudo menos o único obstáculo para o Sporting superar na última partida antes do Natal e sabendo que FC Porto e Benfica tinham cumprido nos encontros da 15.ª jornada na véspera. Havia a questão das ausências, com Pedro Gonçalves, Quenda e Zeno Debast a juntarem-se a Nuno Santos e Diogo Bragança na lista de lesionados ou em fase de recuperação além de Geny Catamo e Diomande, ao serviço das respetivas seleções. Havia a parte mais histórica, com os leões a levarem uma série de dois jogos sem ganharem no Dom Afonso Henriques entre a derrota de 2023/24 por 3-2 e um empate a quatro na última época. Havia a pressão da margem de erro curta perante o atraso para o topo da classificação. Havia o regresso de Rui Borges ao Minho depois da má reação do ano passado. Havia ainda os resquícios de toda a polémica pelo penálti nos Açores frente ao Santa Clara. Tudo parecia jogar contra.

Sporting goleia em Guimarães por 4-1, isola-se no 2.º lugar e mantém distância para o FC Porto no topo

“Um ano de Sporting? É especial. No dia em que acabo por me despedir do Vitória, este ano faz um ano que jogarei em casa do Vitória. É graças ao Vitória que estou aqui hoje. É um jogo especial e difícil. O ambiente é especial e quem passa lá percebe. O público faz a diferença e isso notou-se a época passada, em que tínhamos o jogo controlado e de repente vira. Galvaniza a equipa. É um Vitória diferente, mais jovem. O Luís [Pinto] está a fazer um excelente trabalho, tem muito mérito. Tirando o jogo da Taça, vinham de cinco vitórias e com confiança. Em casa só perdeu com o Benfica, é a única que ganhou internamente ao FC Porto. São adeptos que amam o clube, que defendem as cores e a cidade. Fazem-no de uma forma apaixonada e vibrante. Tenho um respeito enorme pelo clube, estrutura e jogadores. Todos me ajudaram a chegar aqui. Jamais serei ingrato”, comentara Rui Borges antes do jogo, numa conferência onde mostrou um particular desconforto ainda a propósito do que se passara no encontro anterior a contar para a Taça nos Açores.

“Infelizmente vivemos numa sociedade que é triste porque há falta de respeito para com o Sporting e o seu treinador. Felizmente tive uma boa educação dada pelos meus pais, com muitos valores… Por isso é que se calhar hoje estou em representação e sou líder da equipa do Sporting. Deixa-me triste porque sou tudo menos mentiroso. Não tinha visto o lance, vi no avião. Como perderam tempo à procura de uma imagem do treinador a olhar para o tablet, também podiam ter perdido tempo a ver o treinador a dizer aos jogadores que não sabia se era penálti porque não dava para ver. Se estiveram atentos, estive 12 minutos sentados à espera de uma decisão. Alguém viu a imagem do tablet? Como é que são uns adivinhos e dizem que o mister está a mentir? Vivemos numa sociedade que se alimenta de ódio e no futebol há muita gente com memória curta. Já aconteceu em vários jogos e é o critério do árbitro. O meu capitão diz que há toque. Às vezes não há respeito com o treinador do Sporting e não é de hoje”, apontou, voltando a garantir que viu imagens cortadas de lances preparadas pela equipa técnica e não as repetições do lance dentro da área nesse polémico penálti.

Nada parecia ajudar nessa tentativa de aligeirar um contexto desfavorável no período em que o técnico ia cumprir um ano no comando do conjunto leonino, depois da saída de João Pereira um mês e meio após assumir os verde e brancos na sequência da partida de Ruben Amorim para Manchester. Ainda assim, e à semelhança do que tem feito desde a chegada a Alvalade, Rui Borges continuava a preferir olhar para as oportunidades e não tanto para a crise, sabendo que as ausências de Geny Catamo e Diomande por estarem na CAN iria limitar ainda mais as soluções que poderia jogar a partir do banco como acontecera nos Açores.

“Já disse que tenho sempre alternativas, não há problema. Temos uma equipa com muita qualidade e vontade de ganhar. Foco-me nisso. Temos sempre alternativas. Jamais numa equipa como Sporting direi que não tenho alternativas”, assegurara o timoneiro da formação lisboeta, numa semana em que viu elogiada a qualidade das exibições esta temporada por um dos melhores médios da atualidade, Pedri. “Candidatos à vitória na Champions? O PSG, atual campeão. O Arsenal também é uma equipa muito forte. O Manchester City e o Real Madrid colocaria sempre na lista. Uma equipa que considero forte, e que me surpreendeu pela positiva, é o Sporting do meu amigo Trincão. Jogam um bom futebol”, apontou o catalão à revista Esquire.

A distância entre jogar bem na Liga dos Campeões e poder aspirar a um triunfo na principal prova europeia é grande. Muito grande. Demasiado grande. Mas nem por isso passava ao lado um elogio numa fase em que quatro/cinco potenciais titulares estavam de fora, quase recordando o autêntico “flagelo” sentido na última temporada, que terminou com a conquista do bicampeonato e da dobradinha apesar das muitas baixas a meio do caminho que obrigaram a apostar em jovens da equipa B. Agora, e mais uma vez, Trincão voltou a dar razão a Pedri: com nova exibição onde cada toque na bola era como Midas em campo, o Sporting superou todos os problemas com uma goleada que teve Ioannidis em destaque enquanto teve força física, Hjulmand a comandar a equipa em todos os momentos e um Fresneda mais uma vez bem apesar da semana difícil que atravessou e que levou mesmo a que o internacional lhe dedicasse o prémio de MVP.

Ficha de jogo

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V. Guimarães-Sporting, 1-4

15.ª jornada da Primeira Liga

Estádio Dom Afonso Henriques, em Guimarães

Árbitro: Miguel Nogueira (AF Lisboa)

V. Guimarães: Juan Castillo; Miguel Maga, Balieiro, Abascal, João Mendes; Gonçalo Nogueira (Rica, 85′), Mitrovic (Diogo Sousa, 46′); Oumar Camara (Telmo Arcanjo, 46′), Samu (Nelson Oliveira, 67′), Saviolo (Fabio Goméz, 80′) e Ndoye

Suplentes não utilizados: Charles, Miguel Nóbrega, Lebedenko e Strata

Treinador: Luís Pinto

Sporting: Rui Silva; Fresneda (Matheus Reis, 90+2′), Eduardo Quaresma, Gonçalo Inácio, Ricardo Mangas; Hjulmand, João Simões (Morita, 77′); Francisco Trincão (Flávio Gonçalves, 90+2′), Maxi Araújo (Alisson, 84′); Luis Suárez e Ioannidis (Blopa, 84′)

Suplentes não utilizados: João Virgínia, Vagiannidis, Kochorashvili e Rodrigo Ribeiro

Treinador: Rui Borges

Golos: Francisco Trincão (32′), Ioannidis (42′), Telmo Arcanjo (50′), Juan Castillo (63′, p.b.) e Maxi Araújo (79′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Maxi Araújo (58′), João Mendes (62′), Eduardo Quaresma (76′), Fabio Gómez (84′), Blopa (87′), Hjulmand (90′), Fresneda (90′) e Abascal (90+6′); cartão vermelho direto a Nelson Oliveira (88′)

Sem grandes opções para mexer, Rui Borges apresentou um novo figurino em termos posicionais mantendo a mesma identidade de jogo tendo Ricardo Mangas como lateral esquerdo com Maxi Araújo à sua frente na ala e Fotis Ioannidis a jogar na frente em dupla com Luis Suárez, com um a descair sobre um dos lados tal como Francisco Trincão, começando muitas vezes a partir da direita, procurava o espaço mais central com Maxi a fazer o mesmo no lado contrário. Também Luís Pinto procurava esse fator surpresa com a colocação dos escolhidos em campo, montando uma frente de ataque assimétrica com Samu descaído sobre a direita com Saviolo aberto na esquerda. O jogo estava encaixado mas os pequenos triunfos que o corredor central dos verde e brancos ia conseguindo permitiram um maior ascendente do Sporting, que teve duas boas chances no quarto de hora inicial num remate de Ricardo Mangas isolado que saiu por cima após grande combinação ofensiva (10′) e num cruzamento de Francisco Trincão que Castillo defendeu para a frente (13′).

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do V. Guimarães-Sporting em vídeo]

Essa capacidade leonina fez com que as linhas minhotas sem bola fossem baixando mais do que Luís Pinto pretendia, entre mais uma aproximação perigosa com Luis Suárez a receber na área de costas mas a rematar contra Abascal (15′), o que fez com que, perante as quedas no relvado de Castillo e Saviolo, o técnico fosse chamando vários jogadores para fazer mexidas na equipa a começar pela colocação de Samu ao meio com Camara na direita para equilibrar a batalha do meio-campo. Francisco Trincão, em mais uma diagonal da direita para o meio, obrigou Castillo a uma defesa apertada que por pouco não teve recarga (19′) mas essas trocas conseguiram trazer outro V. Guimarães no jogo, com uma primeira ameaça de João Mendes à baliza de Rui Silva para defesa segura do guarda-redes leonino (23′). As contas do jogo estavam redefinidas.

No entanto, e quase de forma paradoxal, foi da peça que mudou as feições do jogo que começaria o primeiro golo… na sua baliza: Samu, que a partir do momento em que passou para o meio foi crescendo no encontro, calculou mal uma simulação a meio-campo, perdeu a bola para Trincão e a saída rápida colocou o Sporting em superioridade numérica, com João Mendes a conseguir ainda in extremis fazer um corte que bateu no poste e o mesmo Trincão a tocar para a baliza sem oposição para o 1-0 (32′). Saviolo ainda teve uma tentativa após diagonal da esquerda para o meio, com remate em arco ao lado da baliza de Rui Silva (37′), mas eram os movimentos na profundidade e na largura do Sporting que continuavam a permitir jogo mais na frente, fosse pelas ações de Ioannidis mais a cair na direita, fosse pelas derivações de Suárez para a esquerda.

Ainda assim, antes do intervalo, houve um minuto em que tudo podia ter mudado para um lado mas acabou por mudar para outro: Samu, na sequência de um passe de classe de Mitrovic após um lançamento lateral, surgiu em boa posição central na área para fazer o empate mas rematou com força por cima; logo na jogada seguinte, Francisco Trincão voltou a ziguezaguear da direita para o meio, abriu bem em Ricardo Mangas e o lateral cruzou na perfeição para a área onde Fotis Ioannidis surgiu de trás para desviar de cabeça para o 2-0 (42′). Mitrovic, num livre direto ligeiramente descaído sobre a esquerda, ainda atirou para defesa segura de Rui Silva (45+3′) mas a vantagem de dois golos iria manter-se mesmo até ao intervalo.

Luís Pinto mexeu logo ao intervalo com uma dupla alteração, trocando Mitrovic e Camara por Diogo Sousa e Telmo Arcanjo, mas foi sobretudo o demérito do Sporting que recolocou o V. Guimarães no jogo. Demérito de Luis Suárez, que após receber um passe de Maxi Araújo da esquerda fez uma rosca em boa posição na área (47′). Demérito de João Simões, que sendo o último médio perdeu uma bola em zona proibida aumentando o período mais instável dos leões. Demérito da defesa leonina, que não conseguiu aliviar a bola da zona de perigo depois de um grande corte de Gonçalo Inácio a Ndoye. Demérito, grande, de Rui Silva, que optou por tentar agarrar um remate em arco de Telmo Arcanjo de fora da área mas deixou passar a bola para a baliza (50′). Estava feito o 2-1, estava a começar a ebulição do Dom Afonso Henriques, estava “virado” o jogo.

O Sporting entrava numa espiral de recessão como tinha acontecido na última época, quando Rui Borges fez o primeiro jogo fora no comando dos leões logo em Guimarães: perdeu o meio-campo, não tinha saída, ia falhando vários passes, dava mais lava a um vulcão em erupção do lado contrário com Gonçalo Nogueira em evidência. No entanto, e quase numa “retribuição”, outro frango estancou essa reação de forma caricata com um livre lateral à direita de Maxi Araújo a ser muito puxado ao segundo poste, Luis Suárez a conseguir ainda fazer o passe de pé esquerdo e Juan Castillo, na tentativa de evitar um desvio na pequena área, a tocar com o braço para a própria baliza (63′). Nelson Oliveira ainda entrou com vontade fazendo dois remates fortes para defesas seguras de Rui Silva mas o jogo mudara agora em definitivo, com Iván Fresneda a falhar o golo isolado na área após passe de Ricardo Mangas (69′) antes de Maxi Araújo fazer o 4-1 sozinho na pequena área após defesa incompleta de Castillo a remate de Suárez num lance iniciado em… Trincão (79′).

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