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▲Aos professores, coube corrigir mais de 3 mil itens das provas de 9.º Ano

FOTOILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

▲Aos professores, coube corrigir mais de 3 mil itens das provas de 9.º Ano

FOTOILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

3.500 perguntas por professor, nova plataforma e recrutamento à última hora. "Falhas técnicas" não foram único problema em provas de 9.º ano

Este ano, só professores supervisores corrigiram exames de 9.º ano. Proposta não era de caráter obrigatório e envolvia pagamento de até 600€. A poucos dias do prazo, foi preciso duplicar a equipa.

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Há uma semana, o Ministério da Educação justificou os atrasos na divulgação dos resultados da Provas Finais de Português e Matemática do 9.º com “falhas técnicas”. Mas o processo teve outros percalços: professores que não conheciam antecipadamente a plataforma onde as provas deviam ser corrigidas, docentes com mais de 3.500 itens para corrigir em poucos dias e um universo de “classificadores” mais curto que o habitual — uma situação que levou o próprio Instituto de Avaliação Educativa (IAVE) a solicitar um reforço (para quase o dobro) dos professores encarregues de fazer as correções. Dificuldades que, garante a tutela, não tiveram relação com a demora na divulgação dos resultados.

Ao longo da última semana, o Observador falou com vários professores e diretores escolares, que relataram as dificuldades e contratempos no processo de avaliação das provas de 9.º, que este ano se realizaram, pela primeira, em formato digital. Luís Henriques, diretor do Agrupamento de Escolas Agualva-Mira Sintra, recorda que, no final do primeiro trimestre do ano, participou numa reunião para preparar a época de provas finais e exames. Na mesma sala estavam outros diretores e, também, elementos do secretariado de exames das escolas, do Júri Nacional de Exames (JNE) e do IAVE. Foi nessa reunião que o diretor da zona de Sintra soube que a correção da prova — quase toda em suporte digital, mas ao todo com cinco itens de resposta em papel — ficaria a cargo de 50 classificadores em todo o país. Era o caso da prova de Matemática.

“Talvez seja pouco”, considerou mais tarde ao Observador, ao relatar como lhe foi pedido pelo JNE — a uma semana da entrega das provas avaliadas — que encontrasse uma professora de Português para corrigir 700 itens. Dias depois da entrega das provas, quando já se viviam os atrasos nas afixações das pautas, a mesma docente confessou-lhe o seu cansaço.

Um sentimento relatado por várias fontes ouvidas pelo Observador, que apurou que aos professores foram entregues milhares de itens em papel, tendo em conta o número diminuto de classificadores — uma realidade que tanto Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP) como António Castel-Branco, presidente do Conselho das Escolas, garantem desconhecer.

Confrontado com os números de classificadores convocados este ano, o Ministério da Educação admite que em média, cada avaliador de Matemática “classificou cerca de 3.500 respostas, enquanto que o previsto para cada avaliador de Português era a classificação de cerca de 3.300 respostas”. Ou seja, tendo em conta os prazos de entrega das correções, cada professor tinha que corrigir entre 330 e 350 itens por dia, passando horas frente ao computador.

Pelos cálculos do Observador, se cada docente tiver a seu cargo a correção dos 3.500 itens indicados, num prazo de dez dias úteis cada professor de Matemática tinha que corrigir 350 itens diários. Ou seja, 50 itens por hora durante as sete horas de trabalho diário.

Isto porque, segundo o Ministério da Educação, as equipas de avaliadores do IAVE “foram constituídas por 52 professores, no caso da prova de Matemática, e por 88 professores, no caso da prova de Português” em todo o País. Recorde-se que, ao todo, foram realizadas 203.924 provas.

“A diferença no número de classificadores está relacionada com o número de itens de construção de cada prova e que necessitam de intervenção humana para a sua classificação, designadamente, dois itens na prova de Matemática (92) e três itens na prova de Português (91). Ou seja, cada avaliador apenas classificou dois itens na prova de Matemática (92) e três itens na prova de Português (91). Os restantes itens das provas são classificados automaticamente pela plataforma”, explica o Governo.

Professores corretores receberam até 600 euros

Apesar de o Ministério da Educação afirmar que cada avaliador de Matemática corrigiu cerca de 3.500 respostas, uma professora da região sul do país (que quer permanecer sob anonimato, por temer represálias) afirma que, na realidade, o total de itens a corrigir chegou a atingir as 4 mil perguntas por professor classificador. Inicialmente, foi-lhe dito que “era até 6 mil itens” por cada professor classificador, lembra, referindo-se à informação que foi transmitida à professora de Matemática no início do ano civil — mas esse número terá caído “para cerca de 4.200 itens”.

“O IAVE contactou os professores supervisores em janeiro e disse que queriam manter sigilo sobre a prova. Nessa reunião, explicaram que havia um novo modelo de correção [das provas] e que não seria feita como habitualmente.” Até então, a correção dos exames era feita pelos professores classificadores, que por sua vez eram apoiados pelos professores supervisores (responsáveis por tirar qualquer dúvida relacionada com a prova). Mas, este ano, “só queriam os supervisores a fazer correções. E nós não somos assim tantos”, diz a professora.

Apontando que “o serviço de supervisão não é obrigatório”, ao contrário do que acontece com o serviço dos classificadores, a professora de Matemática acabou por recusar a proposta. Até porque, “anteriormente, eram cerca de 50 a 60 provas para cada professor, com cerca de 15 perguntas cada, ou seja, 900 itens para corrigir”. E nem a ideia de um pagamento mais avultado a conseguiu atrair: inicialmente, era proposto a cada supervisor o pagamento de “300 euros dedutíveis em sede de IRS”, mas este valor acabou por “aumentar para o dobro, quando os contratos se formalizaram, afinal eram 600 euros em sede de IRS”. “Disse logo que não queria. Gosto imenso deste serviço, faz imensa falta, mas era demasiado trabalho.”

Além deste caso, o Observador sabe ainda que a duas professoras da região norte foi atribuída a correção de 3.600 e 4 mil perguntas, tendo recebido em troca 500 e 600 euros, respetivamente.

Para cumprir prazos, tinham de ser corrigidas cerca de 50 perguntas por hora

De acordo com o Ministério da Educação, “sendo o processo de classificação de provas digitais realizado também em suporte digital, torna-se possível ter um número muito menor de professores classificadores face ao número de classificadores dos Exames Nacionais do Ensino Secundário, realizadas em papel”. Além disso, continua o ministério, “no caso das Provas Finais, é possível que cada um dos avaliadores se possa especializar em apenas um ou dois itens da prova, permitindo uma maior rapidez no processo, bem como uma maior consistência na aplicação dos critérios de classificação, contribuindo assim para uma maior qualidade do processo, maior fiabilidade dos resultados e maior equidade entre os alunos”, justifica a tutela.

Pelos cálculos do Observador, se cada docente tiver a seu cargo a correção das 3.500 respostas mencionadas pelo ministério, num prazo de dez dias úteis cada professor de Matemática tinha que corrigir 350 itens diários. Durante as sete horas de trabalho diárias, por hora teriam que ser corrigidos 50 itens.

A professora ouvida pelo Observador reconhece que o Ministério da Educação tem razão quando aponta que se torna mais fácil estar “sempre a corrigir a mesma pergunta”, mas diz que isso não é o que mais importa: “A questão central é o tempo que se demora a aceder à plataforma [onde as provas foram descarregadas], a colocar o código de cada prova e a carregar o documento”, uma tarefa que se tornou mais complicada por, garante a mesma docente, não haver qualquer contacto com a plataforma de correção das provas até ao início dessa tarefa: “Nem nos foi mostrada a aplicação onde seriam carregadas as perguntas”, conta a professora.

Nessa mesma reunião, lembra ainda, os membros do IAVE e do JNE presentes “disseram que era exequível, porque já tinham testado este modelo com provas anteriores”.

"Foi solicitado pelo IAVE ao Júri Nacional de Exames (JNE) o reforço de 78 professores para a equipa de avaliadores já a trabalhar"
Resposta do Ministério da Educação ao Observador

Número de professores corretores insuficiente não atrasou lançamento de pautas, diz MECI

“Sensivelmente a meio” do período em que decorria a correção da prova de Português, “verificou-se que o processo se estava a revelar mais moroso que o previsto, dada a maior complexidade da classificação dos itens de resposta extensa (composições)”, admite o Ministério liderado por Fernando Alexandre. A solução foi simples: “De forma a manter a qualidade e a fiabilidade na aplicação dos critérios de classificação, bem como assegurar o cumprimento dos prazos, foi solicitado pelo IAVE ao Júri Nacional de Exames (JNE) o reforço de 78 professores para a equipa de avaliadores já a trabalhar”.

O reforço, na prática, significou uma quase duplicação do número de professores convocados para a correção da prova de Português, uma vez que a bolsa inicial contava com 88 docentes.

Conforme o Observador avançou, alguns professores foram contactados para corrigir cerca de 700 itens do exame de Português em troca de 200 euros. Foi o caso de uma professora do agrupamento de Agualva-Mira Sintra, que, segundo o diretor Luís Henriques, “esteve das 10 horas de dia 8 ao dia 13 a corrigir provas”, pelo que havia provas a serem corrigidas dois dias além do prazo previsto (11 de julho) para os professores entregarem os exames corrigidos.

Estas convocatórias terão sido todas “feitas por telefone, portanto, não há um rasto documental”, diz o professor e autor do blog “O Meu Quintal”, Paulo Guinote, ao Observador. “Uma vez que os agrupamentos regionais do Júri Nacional de Exames não têm autonomia financeira, a despesa terá sido autorizada por alguém acima. Mas todo o procedimento foi muito informal.”

“Esta situação surgiu por ser a primeira vez que o processo de classificação decorre nesta modalidade, tendo sido possível tomar medidas corretivas atempadamente”, justifica-se o Ministério da Educação. E acrescenta que foi graças a “este reforço” que a classificação das provas de Português foi concluída “em tempo útil, não tendo sido causa do atraso na afixação das pautas das Provas Finais do Ensino Básico”.

A tutela lembrou ainda a informação avançada no momento em que anunciou a abertura de uma averiguação interna: “O atraso na afixação das pautas teve como origem falhas técnicas identificadas no dia 14 de julho. Uma dessas falhas foi a não submissão, na plataforma do IAVE, das folhas digitalizadas das provas de Matemática, o que impediu a classificação atempada das respetivas provas e que os resultados fossem enviados às escolas dentro do prazo previsto.” Estas falhas não foram transversais e atingiram apenas um número residual do total de provas realizadas: cerca de 600 provas num universo de mais de 97 mil provas, o que corresponde a cerca de 0,6% do total”.

Professores coadjuvantes desapareceram das escolas

A forma como as provas de 9.º ano foram corrigidas não foi a única alteração ao processo. “Este ano, também não houve professores coadjuvantes”, diz José Manuel Pereira, que coordenou o Secretariado de Exames da Escola D. Sancho I, em Famalicão, nos últimos nove anos. Habitualmente, estes docentes ficavam “numa sala, confinados, e tinham à sua frente o exame, que resolviam” ao mesmo tempo, em salas ao lado, os alunos também cumpriam aquele momento de avaliação. “E estavam sempre em articulação com o JNE”, tendo como missão informar aquela entidade em tempo real de qualquer erro que eventualmente fosse detetado. “Estes professores estavam ali para qualquer problema”, explica.

Mas “este ano não foram indicados nenhuns [para as escolas], estando todos no agrupamento de exames correspondente”, diz. A professora de Matemática ouvida pelo Observador (e que se recusou a corrigir exames neste formato) confirma. E detalha que “este ano foi selecionado um coadjuvante central por disciplina no agrupamento de exames e não na escola, como antigamente”. A também sindicalista alega que esta é uma forma de evitar que sejam feitas greves, porque se o docente que tem esta função “fizer greve, quebra-se o elo de ligação com o secretariado de exames da escola e com o JNE e não é possível fazer a prova”.

Seja como for, os erros registados este ano na prova final do ensino básico mostram que “o sistema está a sofrer as dores de crescimento”, aponta José Manuel Pereira. “O processo em formato papel já está muito testado, mas também começou com muitos erros e todos os anos se afina mais o processo. Há sempre processos de ajustamento a fazer e os erros ou eventuais situações que surjam começam a ser menos significativas. Vai-se limando.” Esse, defende o diretor escolar, é esse o desafio que o Ministério de Fernando Alexandre tem agora pela frente.

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