Este texto é sobre Dia Zero, a série que se estreou na semana passada na Netflix, mas já lá vamos. Antes de mais, deixem-me tirar um peso do peito. Tentarei ser breve. Aqui há dias, vi um story em que alguém dizia que o Roberto De Niro faz sempre de Robert De Niro. Ia ficando entrevada dos nervos. Portanto, o De Niro é o Luís Esparteiro americano, é isso que esta pessoa me está a dizer? O que lhe vale é que, apesar de eu e o meu metro e cinquenta e sete sermos danados para a porrada, optei por ser a adulta nas redes e não só não lhe roguei uma praga que podia ou não envolver uma pedra nos rins, como nem sequer comentei a publicação. Estou ou não estou uma crescida?
É certo que De Niro ficou associado a um determinado tipo de personagem relacionada com uma determinada organização criminosa, mas isso aconteceu-lhe tanto a ele, como a boa parte dos italodescendentes em Hollywood. Culpem o diretor de casting. Ou neste caso, agradeçam-lhe. O facto é que o homem estreou-se há 80 anos e tem 126 créditos como ator, no IMDB, fora uma quantidade de prémios que não cabiam numa Billy das grandes! Bom, acho que a minha opinião ficou clara. Antes de prosseguirmos, queria só acrescentar que não era minha intenção criticar o Super Pai de todos nós e posso ainda acrescentar que tenho especial carinho pelo bófia Diogo de blusão de cabedal com gola de pêlo do Polícias de Moita Flores. Por isso, fica aqui um shout out ao Luís Esparteiro (e aproveitei para usar esta expressão jovem, porque provavelmente estou a passar por uma crise de meia idade).
[o trailer de “Dia Zero”:]
Sobre aquilo que nos traz aqui: um ataque de dia zero é um ataque cibernético às vulnerabilidades desconhecidas de um software. Se eu sabia o que isto era? Nem por sombras. Se fui pesquisar para vos transmitir mais informação sobre o tema e tornar o artigo mais rico? Fui, mas não tenho estudos que me permitam interpretar o que li, de maneiras que correndo o risco de meter os pés em grande estilo, optei por não me alargar muito mais sobre o assunto. Para totós (esta querida incluída), é encontrar a racha na parede antes dos donos da casa darem por ela. Só que em vez de humidade, isto é coisa para provocar um apocalipse. Dia Zero é um thriller político com 6 episódios cujo ponto de partida é um ataque cibernético letal aos Estados Unidos, where else? Durante 1 minuto, o país ficou sem energia, sem comunicações, o sistema rodoviário colapsou, aviões caíram, comboios descarrilaram, metropolitanos chocaram e, claro, pessoas morreram. Após 60 segundos, 3402 mortos depois, uma mensagem surgiu nos ecrãs dos telemóveis “This will happen again” e o interruptor voltou a ser ligado por quem o desligou. Num minuto, o país mais poderoso do mundo descobriu-se tão ou mais vulnerável que qualquer outro e à mercê de um encore tão ou mais devastador, o que torna vital encontrar o culpado. Ou um culpado qualquer.
George Mullen (o já mencionado Robert De Niro) é um ex-presidente dos Estados Unidos, “o último presidente na memória moderna que conseguiu reunir consistentemente o apoio bipartidário”, nas palavras da jornalista que lhe vai oferecer os seus préstimos como ghost writer, a pedido da editora com quem George assinou contrato para escrever as suas memórias, manuscrito que o ex-POTUS tarda a entregar. Embora a reeleição estivesse praticamente garantida, só cumpriu um mandato, devido a uma tragédia pessoal devastadora: a morte do filho.
▲ Jesse Plemons (à esquerda) interpreta o assessor de Mullen, situationship da sua filha e envolvido num menu de degustação de trafulhices mais ou menos graves, com pessoas mais ou menos perigosas
Mullen é casado com Sheila (Joan Allen), uma juíza que se está a candidatar ao tribunal federal. Tem uma filha, Alexandra Mullen, com quem tem uma relação conturbada, havemos de saber porquê. Alexandra seguiu os passos do pai na política, é congressista (dá umas vices de AOC), mas escolheu um “calçado diferente”, digamos assim, associando-se a antagonistas de George, talvez por convicção, talvez para o contrariar. Quando acontece o ataque, a atual presidente Evelyn Mitchell (Angela Basset) vai quebrar a rotina do aposentado antecessor — acordar, nadar, correr com o cão, comer ovos mexidos enquanto lê o jornal que o segurança lhe traz, reler as centenas de Moleskines que tem alinhados na estante do seu chalet-escritório, cadernos onde foi construindo o seu querido diário como militar, como procurador-geral e como chefe de estado.
Evelyn convida Mullen para comandar uma comissão especial de investigação com vista a descobrir o autor do ataque. Uma comissão com plenos poderes de vigilância, busca e apreensão e suspensão do habeas corpus, sem interferência da Casa Branca, do Senado ou da CIA. E não, não vou explicar o que é habeas corpus, porque adivinhem? Não só não tenho estudos para isso, como me faz lembrar o juíz Rui, o que é coisa para me tirar o apetite e não pode ser, porque hoje vou ao sushi. “With great power comes great responsibility”, já dizia o Voltaire e o Homem Aranha. Aquilo que estão a propor a Mullen é, na verdade, liderar uma suspensão da democracia temporária, o que o faz vacilar. Mas depois de uma conversa com a presidente, acaba por aceitar. Evelyn precisa do capital de confiança que o ex-POTUS carrega, porque sabe que ele terá de tomar decisões, no mínimo, polémicas e quer evitar a todo o custo que isso penalize as suas hipóteses de conquistar o segundo mandato.
Enquanto isso, temos Richard Dreyer (Mathew Modine) a ladrar aos microfones da comunicação social, usando o dia zero como arma de arremesso e a roer os calcanhares a Evelyn, que tenciona defrontar nas próximas eleições. E ainda temos Evan Green e o seu Evan Green Show, um belo parasita da desgraça, mentiroso profissional, conspiracionista por lazer, que dá palcos a gente transtornada e ganha dinheiro a atirar lenha para a salamandra do ódio (se estão a pensar no Joe Rogan, é um problema vosso. Da ponta dos meus dedos não saiu um caractere que aponte nesse sentido). E o que é que tudo isto interessa, tendo em conta que morreram 3402 pessoas num minuto e os culpados estão à solta, portanto, se repetirem a gracinha e ela se prolongar no tempo, é fazer-lhe as contas? Nadinha, meus amigos, mas “é a política, estúpido!” em todo o seu esplendor e glória. A narrativa tem mais importância do que os factos e encontrar a solução não interessa, se a manutenção do problema se converter em ganho eleitoral.
Ao longo da série, vamos acompanhar a luta de um ex-Presidente reformado contra uma ameaça tecnológica a uma escala cuja dimensão ultrapassa a sua perceção da realidade. E para ajudar à festa, Mullen regista sintomas que podem indiciar um problema neurológico ou, na melhor das hipóteses, o natural declínio da idade, isto é, o destino da nação está entregue a alguém que não se lembra que o cozinheiro de casa, Hector, foi substituído há 5 anos. Não é um bom prenúncio. De um lado da trincheira, um septuagenário que toma notas, não no iPhone, mas em cadernos. Do outro lado, hackers de topo, financiados por organizações com acesso a recursos aparentemente ilimitados.
▲ Lizzy Caplan e Angela Bassett: o elenco de "Dia Zero" é um dos principais motivos de interesse — e uma das alíneas mais notórias na conta da série, certamente
É claro que quando se faz a pergunta “Quem tramou os Estados Unidos?”, o primeiro coelho a sair da cartola é “os sacanas dos russos”. Mas, apesar deste culpado ser um desfecho que cai que nem ginjas, Mullen não se contenta e, vá-se lá saber porquê, quer mesmo é descobrir a verdade, um conceito que parece cheirar a mofo e causar uma certa alergia a quem está no poder, só quer despachar o assunto e encontrar um inimigo a quem apontar a indignação. Devo ressalvar que De Niro não interpreta um herói impoluto, há esqueletos nos armários e não são poucos, e muito por onde se lhe apontar o dedo. George Mullen tem mais camadas do que um mil folhas dos de confeitaria de fabrico próprio, está constantemente a tomar decisões “impossíveis”, a lidar moralmente com as suas consequências e a lutar com a sua consciência, aparentemente um conceito estranho para os demais envolvidos.
[António Raminhos, Luís Filipe Borges e Marco Horácio são três “Homens de Uma Certa Idade” a discutir a vida “de forma sincera”. Ouça aqui o novo episódio, que também está disponível na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]
Com realização de Lesli Linka Glatter (Love & Death) — que não maravilha, mas cumpre — Dia Zero tem um elenco de alto lá e pára o baile (já cá faltava a expressão de octogenária), presidido por Robert De Niro, que está soberbo. A ex-primeira dama é Joan Allen, a mulher de Travolta em Face/Off, o meu filme de conforto mais aleatório, porque não vejo filmes de ação no geral mas, este em particular, já vi umas 20 vezes. A filha é interpretada por Lizzy Caplan. A consultar o IMDB, percebi que entrou em 1000 coisas relevantes que eu tenho na lista e ainda não vi, mas reconheci-a do Mean Girls onde é a outcast alterna. Uma referência de um teen movie de 2004, que não abona nada em meu favor. Jesse Plemons interpreta o assessor de Mullen, situationship da sua filha e envolvido num menu de degustação de trafulhices mais ou menos graves, com pessoas mais ou menos perigosas. Plemmons enche-me sempre as medidas, desde o Todd de Breaking Bad, passando pelo enorme episódio “USS Callister” em Black Mirror, pelo apaixonado George em O Poder do Cão e a lista não acaba aqui. No entanto, vou ter que apontar para o elefante da sala: nunca o vi tão gato. Pronto, está dito.
[um vídeo sobre o elenco de “Dia Zero”:]
Richard Dreyer, o líder da oposição com cabelo de vilão e tiques de uma certa pessoa que eu cá sei, mas não vou dizer, é Matthew Modine. Para os mais jovens, será o cientista maquiavélico de Stranger Things (que eu também vi, não estou a julgar). Para mim, é o Private Joker de Full Metal Jacket, que está no meu Olimpo cinematográfico. Temos, ainda, um duo de mulherões icónicos: Angela Bassett e Connie Britton. A primeira é a Presidente, uma mulher que transpira autoridade, mas está entalada entre o senado e a opinião pública. Angela Basset é entre tantas outras coisas uma das atrizes fetiche do Ryan Muphy, foi Tina Turner no biopic What’s Love Got to Do with It e é a majestosa Ramonda de Black Panther. Já Connie Britton faz Valerie Whitesell, antiga relações públicas de Mullen (e mais qualquer coisita sobre a qual não vou adiantar nada). Para além de a achar absolutamente linda, Britton faz parte dos elencos centrais das temporadas inaugurais de American Horror Story e White Lotus, portanto tem uma assoalhada especial no meu coração. E quanto ao elenco, só paro por aqui para não vos aborrecer, porque o que não faltam são caras que vos serão familiares em papéis mais ou menos relevantes, todos bastante bem executados.
Dia Zero é assinada por Eric Newman (Narcos), Noah Oppenheim (Jackie) e Michael S. Schmidt, jornalista premiado do The New York Times, especializado em investigações federais e autor do livro Donald Trump v. the United States. Parece-me evidente que a intenção dos autores foi criar um fresco da atualidade em esteróides cuja legenda é “Se não nos pomos todos a pau, o que nos espera é disto para pior”. Existe uma personagem que é CEO de uma gigante tecnológica e é descrita como uma “sociopata autista”. Consigo afirmar com relativa certeza que não é uma incrível coincidência. Felizmente, a personagem não tem espasmos nos membros superiores. Ia parecer inverosímil e forçado… Há uns meses.
Na minha opinião, que não é propriamente revolucionária, tudo é política e a ficção não é exceção. Esta mini-série conta uma história ficcional que nos faz refletir sobre a História que vai surgir nos livros sobre os tempos estamos a viver. A determinado momento, Mullen dirige-se a um local onde ainda estão a resgatar sobreviventes e cadáveres, fruto do atentado, e alguém grita no meia da multidão por trás das baias de segurança: “Traidores socialistas. Acordem! É o golpe das seguradoras. São atores de crise!” E o olhar de estupefação de Mullen é de quem já não conhece o Mundo e a nação que presidiu. E não deixa de ser triste que não só não partilhe esta reação de espanto, como este tipo de discurso me soe tão familiar. E quanto mais esta sequência de eventos, estas personagens-tipo, esta cadeia de reações nos soar familiar, mais assustador isto é.
▲ Um ataque de dia zero é um ataque cibernético às vulnerabilidades desconhecidas de um software. As consequências são dramáticas e a história quer refletir isso — tal como as caras das personagens
Há uma outra mensagem latente na série: os decisores políticos não deixam de ser seres humanos (embora por vezes não pareça) e isso tem impacto nas suas decisões. Concordo, mas não me parece que os líderes que andam a atentar contra a democracia por esse globo afora, o façam por se depararem com dilemas extremos como o nosso protagonista. Acho que alguns, muitos, bastante até, o fazem por convicção, ideologia, medo de perder o poder e o privilégio ou simples ganância. Ninguém fica bem na fotografia em Dia Zero. Republicanos, democratas, comunicação social, multimilionários poderosos, pobres assustados… E isso está mais perto da realidade do que o que me seria confortável reconhecer.
Mullen é questionado, quando se recusa a utilizar um atalho para chegar a uma confissão, que feriria a Constituição “Quer proteger a sua consciência ou o país?” Quantos há que não se preocupam nem com a primeira, nem com o segundo? George Mullen tem muitos defeitos, mas acima de tudo tem um grande compromisso com a verdade. O que me leva a umas declarações recentes de Robert De Niro, que tornam bastante lógico que o veterano tenha escolhido este guião e esta personagem para se estrear em série. Questionado se faria de Donald Trump, Robert De Niro respondeu: “Eu nunca o interpretaria como ator, porque não consigo ver nada de bom nele. Nada. Absolutamente nada. Nada nele é passível de redenção”.
Dia Zero é americaníssimo que dói, como seria de esperar, apesar de ser um diagnóstico muito pouco eufemístico das mil e uma enfermidades de que padece a “Terra da Liberdade”. E não vou dizer que isso não me dá um ligeiro ranço, porque dá. Eles são sempre os maiores, o meteorito há-de sempre desviar-se, o Balboa dá sempre o último upper cut, vão sempre desmantelar a bomba antes do contador chegar ao fim. Uma coisa é certa: os criadores prometeram “thriller político” e entregaram um dos bons. Há tensão a rodos, intriga palaciana de fazer revolver o estômago e a série agarrou-me de forma bastante eficaz. Vi os seis episódios de uma assentada e não foi por obrigação. Se há coisas que ganham peso por serem baseadas em factos verídicos, esta mini-série traz esse capital de angústia, apesar de ser ficção. É encarar isto como uma preview do que vem por aí. Como não sou team “ignorância é uma bênção”, acho que vale a pena ver. Não dispõe bem, mas, nos dias que correm, olhar pela janela também não. E tem o De Niro, não sei se já vos tinha dito.