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A Internet Deu Ruim. "Os museus e a tecnologia são dois campos que ainda se estão a entender"

Dá voz ao podcast "A Internet Deu Ruim", é investigador e coordenador do Google Arts & Culture by Vaco. Thiago Carrapatoso diz que o problema dos museus é acreditarem que a tecnologia é de nicho.

Thiago Carrapatoso, investigador e coordenador do Google Arts & Culture by Vaco para Portugal, acredita que é urgente melhorar a relação das instituições culturais com a tecnologia. E se é certo que a “Internet Deu Ruim” (nome do podcast que lançou no início deste ano) em muitos pontos, principalmente com a influência das grandes tecnológicas, há também boas práticas a apontar dos dois lados do Atlântico.

Quando falamos de tecnologia, estamos a referir-nos a um mundo que vai muito além daquilo que cabe nos nossos telefones, computadores, do que nos chega pelo tablet ou relógio; os carros elétricos, aviões supersónicos, o tecido que formou a camisola que vestimos. Tecnologia é, mais do que um termo, o berço de todos os passos humanamente dados para um qualquer futuro, mesmo que a velocidade do quotidiano desfoque o que vai para lá daquilo que podemos tocar. Mas se a viagem hoje é tão rápida, e o ‘como?’ é tão pouco importante, quantos de nós é que podem efetivamente pensá-la, discuti-la, até?

O trabalho do jornalista e investigador brasileiro Thiago Carrapatoso debruça-se sobre esta tecnologia, na forma como se relaciona com diversas áreas do presente, mais concretamente com a arte. Licenciado em comunicação pela universidade Cásper Líbero, em 2006, mestre pelo Center for Curatorial Studies (CCS) da Bard College, em Nova Iorque e atual coordenador do Google Arts & Culture by Vaco para Portugal, Thiago percebeu, com as muitas incursões profissionais no panorama cultural, que as duas áreas atuavam quase como um paradoxo: cruzam-se, é certo, mas a simbiose é rara.

Thiago Carrapatoso (à direita) a falar sobre a obra da artista Anaisa Franco, na Urbe 2016, na Casa do Povo, em São Paulo

Esta foi a ideia que ficou do percurso: Thiago esteve na fundação da Veredas, uma ONG que procurava explorar tecnologias para melhorar a comunidade open source [plataforma de código aberta], passou pelo Teatro Municipal de São Paulo como coordenador do departamento digital, foi conselheiro do Ministério da Cultura no Conselho Nacional de Políticas Culturais.

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Foi a partir do mestrado que aprofundou a vontade de perceber esta relação entre a tecnologia e a arte, lançando-se em diversas investigações que, segundo ele, “nunca ficam completas”. Surge assim o A Internet Deu Ruim, um corpo de palestras transformadas em podcast, para questionar a tecnologia no meio artístico, uma aventura que iniciou em Janeiro para fazer chegar aos outros aquilo que lhe cabe nas muitas questões que carrega.

"Na maioria das vezes em que se fala do setor museológico, o entrave vem da curadoria, porque é esta que não tem a perspetiva de trabalhar com tecnologia sempre"

Portugal está assim tão atento a esta questão da tecnologia e da arte?
Na plataforma da Apple, Portugal é onde está o meu público. As discussões que tive, esse tema, acaba por ser maior cá do que no Brasil.

Porque é que isto acontece?
Museus e tecnologia são dois campos que ainda se estão a entender. No Brasil as coisas são mais soltas, as pessoas que trabalham com museus têm uma perspetiva de trabalhar, mas é quando elas querem. Aqui em Portugal, por causa da UE, a comunicação entre eles é maior e há uma maior preocupação. Não que seja por falta de sentido crítico porque, no fim, este é um público de nicho, mas vejo que aqui a preocupação de fazer mais é maior do que no Brasil.

Sobre a questão da arte e da tecnologia, que grosso modo é o trabalho do Thiago, existe uma distância assim tão acentuada?
Um grande problema das instituições museológicas é que quando trabalham com tecnologia, acreditam que é algo de nicho. Portanto, quando acontece, fazem exposições sobre arte digital, net art ou algo muito específico. Nunca consideram uma exposição tradicional como sendo passível de trabalhar com tecnologia. Isso é um entrave, por isso é que existe a ideia de que não se cruzam. Trabalham com tecnologia, mas consideram que é algo distante do núcleo central da arte. Hoje, a perspetiva está a mudar – por causa da pandemia, começaram a entender que o digital tem de fazer parte da sua constituição. Não como nicho, mas algo do dia a dia. Na maioria das vezes em que se fala do setor museológico, o entrave vem da curadoria, porque é esta que não tem a perspetiva de trabalhar com tecnologia sempre.

É elitismo dos curadores?
É costume. No fim, o curador trabalha com os cânones, é uma perspetiva de história da arte. Considerando que a  tecnologia é o que estamos a viver agora, não há referencial de como trabalhar com isso e do que é aceitável. As instituições têm a sua marca, o seu público, e não se abrem ao erro. Por não saberem como não dar errado, acabam por travar tudo, e isso é um problema. É engraçado porque as instituições que trabalham com arte, teoricamente deviam estar abertas à exceção, mas não vemos isso no digital, para já. Existem algumas mais flexíveis mas não é comum.

"É muito interessante, porque nesta pandemia vi muitos museus de arte contemporânea a pensar nos sites como parte do departamento de curadoria. Finalmente, entenderam que ali existe um meio a trabalhar de forma artística"

A ideia de um preço elevado de aplicação da tecnologia pode ser um dos problemas para estas instituições?
Sim, existe essa perceção, o que não é mentira: fazer algo tecnológico dessa envergadura é caro. Mas, ao mesmo tempo, esse custo pode ser questionado. Existe, por exemplo, uma exposição criada pelos curadores e essa exposição tem uma obra de arte comissionada; algumas obras comissionadas têm um custo tão elevado que nunca chegaria perto do custo de uma obra tecnológica ou de net art. Comissionar um artista para trabalhar num site seria bastante mais barato do que isso. Se trabalhares com tecnologia inserida no dia a dia, tem, claro, alguns custos a considerar.

Apesar de mais barata, a ideia de um artista trabalhar o site de uma instituição não é prática comum.
Muitas vezes [o site] só é feito para comunicados de imprensa e nunca é pensado na forma da curadoria. Por mais que seja uma instituição grande, privada, que tem dinheiro, o foco é sempre a comunicação, é muito difícil encontrar um site que seja focado na curadoria. É muito interessante, porque nesta pandemia vi muitos museus de arte contemporânea a pensar nos sites como parte do departamento de curadoria. Finalmente, entenderam que ali existe um meio a trabalhar de forma artística.

E relativamente às práticas, o que é que cá se está a fazer bem e mal?
Portugal tem uma questão cultural diferente. No Brasil há uma conexão com as social media muito maior do que diversos outros países, tanto de redes sociais como de dispositivos. O brasileiro é multiusos. Aqui não, aqui é diferente, a discussão é mais sobre ‘como é que se mexe com isso?’. Em termos de boas práticas, em Portugal, posso falar da digitalização de acervo, que é discutida de forma muito mais séria.

Aqui há uma preocupação com o número de vezes que se transfere um determinado ficheiro até ao armazenamento, o que é uma discussão avançada; a cada transferência, o ficheiro é cada vez mais comprimido, perdendo qualidade, e isso é interessante de pensar sobre. Portugal tem boas práticas que podiam ser usadas no mundo inteiro. Más práticas, dou o exemplo dos sites das instituições culturais portuguesas, que ainda são muito duros. Afinal, nem na parte de comunicação se está a comunicar direito, porque há diversas estéticas, designs, experiências de utilizador que não estão a ser usadas.

"Os portugueses são bem mais resistentes à tecnologia. Pegando em serviços públicos, no Brasil conseguem resolver-se diversas coisas só por meio digital, aqui é necessário estar presente para resolver determinada burocracia"

Num contexto tecnológico mais cru, de que forma é que os portugueses se relacionam com a tecnologia em relação aos brasileiros?
Os portugueses são bem mais resistentes à tecnologia. Pegando em serviços públicos, no Brasil conseguem resolver-se diversas coisas só por meio digital, aqui é necessário estar presente para resolver determinada burocracia. Adoro ver a burocracia como parâmetro porque é a forma do governo mostrar uma forma de automação, de contemporaneidade. Aqui há mais conservadorismo tecnológico, no Brasil, qualquer nova tecnologia é mais rápida a ser absorvida.

Porque é que no Brasil a absorção é mais rápida?
Existe uma questão cultural, o brasileiro é muito aberto a muita coisa, recebe a informação e tenta digeri-la logo. Até é por isso que as redes sociais para nós são algo de consumo rápido porque muda rápido, porque quer-se mais dinâmica na interação. Existem essas duas questões: a interação e a forma como gostamos de processar novidades. O que eu acho que para o público europeu – não só para Portugal – é diferente. As discussões deste lado são diferentes e vê-se que há uma perceção diferente. Não temos tanto acesso, por causa dos custos, mas a dinâmica é maior. Tanto é que as lan houses há 10 anos tinham mesmo muitas pessoas.

Que tipo de problema é que essa absorção rápida provoca, principalmente com as questões que a tecnologia tem vindo a apresentar?
Acaba por ser a literacia digital: quanto mais absorves, menos pensamento crítico tens, e isso é um problema. Por exemplo as fake news [notícias falsas], que mostram que ainda temos um grande trabalho pela frente em mostrar às pessoas a diferença entre informação real ou não. As fake news são um exemplo de iliteracia em relação a fontes, como é que a internet funciona, que tipo de estética se procura, quando em clicar em determinados links. Isso mostra qual é o problema dessa rapidez de absorção da tecnologia.

O WhatsApp no Brasil é gigantesco e as pessoas continuam a não saber o quão problemático ele é com os grupos, por exemplo. Os grupos são públicos numa plataforma de mensagens privadas. Quase não consegues ter controlo da empresa para barrar informação errada. Vais deixar o Facebook ter acesso às tuas mensagens para barrar fake news? É um problema conseguir explicar às pessoas que determinada informação passada pelo WhatsApp não é real.

"Cinco a dez empresas controlam quase toda a estrutura da internet, e essas empresas, já que são responsáveis por tudo o que fazemos, deviam ser responsabilizadas por essa educação e aprendizagem. Já que exploram a iliteracia para vender determinados produtos"

Então de quem seria a responsabilidade de informar e educar as pessoas?
Não tem que responsabilizar-se uma pessoa ou instituição. Sempre acreditei que quando entras na escola, por exemplo, tens de ter uma determinada aula sobre código, sobre como funciona. Ao mesmo tempo tens de ter regulação das empresas para barrar essa desinformação e explicar às pessoas. A restrição tem sempre de ser educativa. Por mais que alguém denuncie o meu post no Facebook ou Twitter, e a empresa me bloqueia, eu quero saber porquê. E muitas vezes a empresa não diz, não explica.

Vejo mães de amigos, até mesmo a minha, que têm problemas em compreender determinada advertência. Por exemplo, se a minha mãe partilhar algo no Facebook que é fake news, ela recebe uma restrição, é banida. Só que aquela mesma informação está a ser partilhada no WhatsApp, e ali não há controlo, portanto ela vai continuar a partilhar porque não compreendeu. Falam tanto da responsabilidade das empresas porque neste momento vivemos um oligopólio da internet; cinco a dez empresas controlam quase toda a estrutura da internet, e essas empresas, já que são responsáveis por tudo o que fazemos, deviam ser responsabilizadas por essa educação e aprendizagem. Já que exploram a iliteracia para vender determinados produtos.

Isso entra noutra questão que é: o que é que os Estados podem fazer quando estão reféns de empresas como Facebook, Google?
Aí voltamos à questão do meu podcast ‘A Internet Deu Ruim’. No começo dos 2000, as discussões sobre internet eram sempre otimistas: ‘as comunidades vão juntar-se, vamos produzir coisas com o mundo inteiro’. Mas isso deixou de existir. Qual é a resposta para isso? Acredito que ainda não há uma definição fácil. Da mesma forma que os curadores e os museus não têm referência, essa situação que vivemos é única na História; nunca vivemos isto e não sabemos quais os mecanismos para travar uma determinada empresa com tanto poder no acesso à internet. Fora que a exploração de dados também é novo: nunca fomos mercadoria e, quando nos tornamos, como é que nos podemos proteger?

Claro que a UE ainda tenta aplicar restrições mas, ao mesmo tempo, é um paliativo para algo que ninguém consegue compreender bem. Se hoje são os dados, amanhã é o quê? É essa perspetiva rápida que nos deixa de braços amarrados para conseguir pensar numa alternativa. Porque se eu não tenho o investimento que essas empresas têm, como é que vou conseguir acompanhar esse desenvolvimento tecnológico?

 
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