Rui Rocha e Rui Malheiro são candidatos à liderança da Iniciativa Liberal na IX Convenção da IL, que se realiza este fim de semana no pavilhão Paz e Amizade, em Loures. Incumbente contra novato, numa espécie de segunda ronda (aparentemente muito menos renhida) da Convenção de 2023 que colocou frente a frente a corrente da liderança e da oposição — e que deixou marcas. Com menos otimismo, dois anos depois, a oposição está menos unida, principalmente depois do imbróglio causado por Tiago Mayan Gonçalves.

E com eleições presidenciais a marcar a agenda nacional, Rui Rocha prometeu apresentar o candidato presidencial que tem na manga — e que não é Cotrim Figueiredo —, Rui Malheiro falou no perfil de Guimarães Pinto, mas não conta com o ex-presidente da IL para a corrida a Belém, pois o próprio meteu-se de fora.

A luta interna 2.0 em que Rocha pode respirar

Há dois anos, a Iniciativa Liberal saiu da Convenção nacional — a primeira com uma luta interna que acabou disputada com muita intensidade — partida em cacos, com uma gigantesca de necessidade de sarar as feridas deixadas por uma saída abrupta de João Cotrim Figueiredo e uma tentativa de passagem de testemunho sem espinhas. Nessa altura, a oposição interna, sedenta de uma oportunidade, deitou as mãos à obra, apresentou-se com Carla Castro e saiu derrotada, apesar de um resultado que permitia sonhar.

A ambição que naquele dia parecia fácil de alimentar foi-se desfazendo à medida que os meses passaram e alguns dos rostos dessa oposição optaram por sair do partido e foram facilitando a vida a uma direção mais preocupada em resolver uma maratona de eleições — até umas legislativas inesperadas que testaram Rui Rocha nas urnas. A IL cresceu em votos, manteve os lugares na bancada, mas não atingiu os objetivos que o próprio partido estabeleceu. Valeu a Rocha o resultado das europeias, com uma marca Cotrim que permitiu superar largamente as expectativas.

Agora, o presidente da IL cumpriu a promessa, recandidatou-se a um segundo mandato e prepara-se para um passeio no parque no pavilhão Paz e Amizade, em Loures — ao contrário do que teve há dois anos. A oposição interna, que procurou reerguer-se ao apostar no único rosto mediático entre os desalinhados (Tiago Mayan Gonçalves), acabou órfã e abalada depois de uma falsificação de assinaturas na junta de freguesia que presidia no Porto e precisou de arranjar uma solução — pressionada mesmo dentro do movimento Unidos pelo Liberalismo, que se dividia entre quem queria ir a jogo e em quem fazia contas à possibilidade de ser melhor adiar para o futuro. Rui Malheiro acabou por ser a aposta, depois de anos de oposição à linha da direção, nomeadamente no Conselho Nacional dos liberais. E se o desfecho for uma derrota, Malheiro arriscou e pode mesmo perder a voz nesse órgão do partido.

Entre aqueles que têm feito frente à liderança de Rocha há já quem assuma que, depois desta convenção, vai ser preciso repensar a forma de fazer oposição ou de mostrar que há uma alternativa dentro da IL, cientes de que esta reunião magna servirá principalmente para não deixar Rocha sem oposição, como se houvesse apenas seguidores da atual direção. Se é verdade que o caso de Tiago Mayan Gonçalves abalou o grupo, também há a consciência de que o tempo para limpar essa imagem foi pouco e que, para fora do partido, a figura de Malheiro está longe do mediatismo que o ex-candidato presidencial atingia.

Oposição interna perdeu Mayan, mas não quer abdicar de ter candidato à liderança da IL

O candidato presidencial prometido

Um “campeão da liberdade”. Membro do partido. E alguém que já aceitou o convite. Rui Rocha não encontrou, entre os muitos protocandidatos a Belém, alguém que ocupe o espaço do liberalismo, pelo que anunciou que a IL irá a votos com um candidato próprio, caso renove o mandato de presidente nas eleições internas da IL. O líder liberal garantiu que a pessoa, que descreveu como “um campeão da liberdade, campeão do rigor e da transparência e campeão da luta por um país mais próspero” aceitou o desafio, pelo que está pronto para a apresentar o nome no discurso final da Convenção, no domingo. É um dos momentos mais aguardados e relevantes da reunião magna.

Para já, excluídos estão o próprio líder dos liberais e João Cotrim Figueiredo, que atualmente está em Bruxelas como eurodeputado. Bernardo Blanco, ainda vice-presidente da IL, apontou Mariana Leitão e Rodrigo Saraiva como dois “bons nomes“, numa entrevista à Vichyssoise, mas não deu certezas sobre o nome liberal que estará no boletim de voto em 2026, deixando tudo em aberto.

Por outro lado, caso Rui Malheiro seja o vencedor desta Convenção, não deverá ter nenhum candidato para apresentar a curto prazo, já que apresentou o nome de Carlos Guimarães Pinto como a “melhor aposta” e justificou que estava apenas a referir-se qual o perfil que preferia. Seja como for, o deputado da IL não demorou a dar uma nega e a assegurar que não será candidato presidencial.

Rui Malheiro apontou Guimarães Pinto como “a melhor aposta” para Belém, mas não contactou deputado: “Não serei candidato presidencial”

Os novatos, os promovidos e os ficha limpa dos incumbentes

Na segunda vez que vai a votos, Rui Rocha mantém alguns dos pilares fundamentais do partido — desde logo Ricardo Pais Oliveira a vice-presidente e Miguel Rangel a secretário-geral; e ambos esgotam os cartuchos para presenças consecutivas neste órgão do partido —, mas também viu sair alguns dos dirigentes mais antigos, que vinham de comissões executivas anteriores, desde logo Bernardo Blanco e Bruno Mourão Martins.

A jogada de Bernardo Blanco, como o Observador explicou aqui, permite-lhe a realização de um sonho antigo, a presidência da IL, já que se se mantivesse na direção seria impedido de, em 2027, fazer parte desse órgão do partido. Essa ambição até pode ficar para mais tarde, mas o tabuleiro fica livre para a próxima jogada.

Bernardo Blanco abandona direção da IL e vai para o Conselho Nacional. Jogada deixa ficha limpa para atacar liderança no futuro

Mariana Leitão, que tinha sido a candidata da linha da direção ao Conselho Nacional na última Convenção e que não ficou a presidente desse órgão nacional, entra na Comissão Executiva diretamente para vice-presidente de Rui Rocha. Já Rui Ribeiro, diretor de campanha de Rocha e de várias campanhas eleitorais, sobe dentro da direção e passa a ser um dos vices do líder. Tem ainda a pasta de coordenador do iLab da IL. No sentido oposto, Ana Martins, que foi eleita eurodeputada, deixa a Comissão Executiva.

Rui Rocha apostou ainda na promoção de vários membros da IL que fizeram ou fazem parte do gabinete parlamentar como Jorge Miguel Teixeira, João Alves Ambrósio e Gonçalo Cordeiro. No caminho inverso sai Pedro Schuller. Na direção de Rocha vai passar a estar também Gonçalo Maia Camelo, que substitui Nuno Morna, que deixou de ser o líder do núcleo da IL na Madeira — tendo mantido a tradição de manter os líderes das ilhas.

O Conselho Nacional a seis

A batalha a seis para o Conselho Nacional tem uma novidade: a corrente da liderança não vai apoiar uma lista, como tinha feito até aqui. A ‘culpa’ será de Bernardo Blanco, que decidiu ir a votos como cabeça de lista, o que acabou por dividir as intenções de voto dessa mesma corrente. Seja qual for o resultado, Blanco já reconheceu que mesmo que vença não vai assumir o cargo de presidente do Conselho Nacional, o que poderá deixar o caminho livre para Pedro Ferreira, número um da lista X, que é atualmente vice-presidente desse principal órgão entre convenções.

Na Convenção há que ter em conta o resultado da lista T, com o lema “Todos Diferentes, Todos Liberais” e que, há dois anos, tinha como cabeça-de-lista Miguel Ferreira da Silva, e elegeu 14 conselheiros nacionais. Agora, os liberais que têm André Serpa Soares como número um da lista e mantêm objetivos ambiciosos. Na corrida está ainda a lista D, que chegou a ser liderada por Rui Malheiro, atual candidato à liderança, e que agora conta com Paulo Ricardo Lopes a número um, sendo uma das mais próximas da linha mais distante da direção. Para fazer melhor do que no passado precisa de eleger quatro liberais. No mesmo sentido, Francisco Cudell também é o primeiro subscritor da lista A ao Conselho Nacional. E há ainda a lista M, dos mileistas, inspirada em Javier Milei, presidente da Argentina, que é encabeçada por Jorge Pires.

A reunião magna aberta a todos e uma aplicação

Todos os membros da Iniciativa Liberal tiveram a possibilidade de se inscrever para a IX Convenção da IL, num formato que permite uma reunião magna sem delegados e onde cada militante tem os mesmos direitos. À semelhança do que foi feito há dois anos, o partido manteve a possibilidade de inscrições online e presenciais — e registaram-se 1545 membros.

Tal como aconteceu nas últimas convenções liberais, os membros (e até os jornalistas) têm acesso a uma aplicação onde podem acompanhar a agenda, o regimento, todos os ficheiros — desde as listas e moções de estratégia global dos candidatos à Comissão Executiva, como os documentos associados às candidaturas aos vários órgãos do partido. Bem como as 24 moções setoriais que vão a votos na Convenção da IL.

A aplicação, mais do que um local de partilha de informações (onde até há a possibilidade de ativar notificações), servirá para que os membros votem nos atos eleitorais que vão acontecer durante a reunião magna. Exceção para as moções setoriais, que serão votadas de braço no ar.

No domingo, quando o vencedor das eleições internas fizer o discurso de vitória, a Iniciativa Liberal sonha com um partido mais unido, uma promessa de Rui Rocha que tem dois anos e para a qual parece ter de continuar a trabalhar. No final do dia será possível perceber se, nos últimos dois anos, conquistou ou não o coração de liberais que chegaram a estar longe da corrente da liderança.