Rui Rocha passou uma “certidão de óbito às políticas identitárias e ao wokismo” em plena Convenção da IL, no discurso final, com pompa e circunstância. “Paz à sua alma”, gritou. No partido o tema nunca foi propriamente consensual e no seguimento daquelas palavras dispararam alguns alarmes de preocupação sobre se podia tratar-se de um passo atrás no lado mais progressista que os liberais sempre abraçaram. Nos corredores de poder da IL desvaloriza-se e jura-se a pés juntos que não há qualquer tentação nesse sentido. Apesar disso, assume-se que a estratégia passa também por ir buscar ao Chega os descontentes que votam em Ventura pelo protesto e não por razões ideológicas.

As palavras de Rui Rocha causaram uma sensação de desconforto a liberais que se consideram da ala mais progressista, principalmente quando somaram a necessidade do presidente da IL falar de wokismo às ovações que Javier Milei recebeu durante a reunião magna — se a ideologia económica é aceite, os posicionamentos em questões sociais e liberdades individuais distam da linha da IL. Fez lembrar quando Luís Montenegro levantou o Congresso a falar de ideologia de género, comentavam liberais com o Observador no pós-discurso. Há também quem puxe a ficha atrás para recordar que os auto-intitulados liberais clássicos (ou mesmo “liberais conservadores”) perderam a batalha interna e que “não há necessidade” de entrar na luta por um posicionamento sobre wokismo. Até porque muitos abandonaram o partido.

Porém, a tentativa de enterrar o wokismo não é de agora: o próprio Rocha já tinha feito uma referência ao “wokismo exagerado” no discurso do 25 de Abril. E há mais exemplos no topo mediático do partido, como é principal exemplo João Cotrim Figueiredo, que a partir de Bruxelas tem cavalgado o tema.

Se em tempos era apenas desejado que não fosse tão exagerado, passou a ser para enterrar. No discurso do presidente do partido na última Convenção — além do uso de palavras mais assertivas que levantaram a plateia –, Rocha fez questão de sublinhar que “a liberdade de expressão é um valor sagrado” e que condicioná-la é “limitar o próprio pensamento” — quase numa promessa de que é isso que está em causa e não há nenhum recuo em termos da defesa dos direitos individuais. Entre dirigentes a tese é exatamente a mesma: o partido rejeita políticas identitárias de todos os tipos, independentemente de serem defendidas pela esquerda ou pela direita. “A IL nunca foi woke”, assegura um dirigente da IL ao Observador, enquanto outro acrescenta: “Um partido liberal, que tem o indivíduo como centro da ação política, é por natureza anti-woke.” No fundo, o objetivo é desfazer equívocos.

Cotrim impôs o ritmo

João Cotrim Figueiredo, eurodeputado e ex-presidente da IL, tem-se dedicado a dissertar sobre o combate aos populismos, à esquerda e à direita, e no diagnóstico que tem traçado faz questão de destacar que “os wokismos só reforçam os extremos à esquerda e à direita”. São vários os vídeos nas redes sociais onde aborda o tema, num deles, à boleia da vitória de Donald Trump para presidente dos EUA, defende que a eleição permite retirar “importantes lições sobre a forma como combater o fenómeno do populismo um pouco por todo o mundo”.

“Este resultado eleitoral é uma derrota clara da estratégia do partido democrata, assente nas políticas identitárias, nas políticas coletivistas, uma derrota da cultura woke e uma derrota da atitude arrogante da esquerda, americana e de uma forma geral”, salientou. Antes, em pleno hemiciclo do Parlamento Europeu, alertou para a necessidade de soar os alarmes para a Europa, sugerindo que só é possível “acordar” — para ser “autónoma nos seus interesses e reganhar poder na economia e na defesa” — com “foco estratégico” e “sem perder tempo com assuntos laterais e com wokismos que só reforçam os extremos à esquerda e à direita”.

Também num excerto de um debate entre eurodeputados partilhado nas redes sociais, Cotrim Figueiredo repetiu que “a primeira caricatura [ao wokismo] foi feita pela esquerda em geral”.O eurodeputado lamentava ainda que “a luta justa pelas liberdades cívicas, de onde vem o termo woke, foi totalmente caricaturada pela esquerda americana, transformando uma tomada de consciência dos direitos cívicos numa luta absurda e irresponsável que criou um movimento wokista radical, totalitário e desligado da realidade, que afastou as pessoas”.

O chuto para a frente (e para roubar votos ao Chega)

A IL é muitas vezes acusada de ser “o Bloco de Esquerda da direita” ou “partido woke da direita” e — na atual visão estratégica dos liberais — é relevante contrariar isso: “A IL nunca foi woke (woke no sentido político do termo: identitarismo, cancelamentos, micro-agressões, supressão liberdade expressão, interseccionalidade, etc.,) e durante este tempo muitos andaram a dizer que éramos woke”, explica um dirigente ao Observador, crente de que o discurso de Rui Rocha terá servido para “cortar com isso”. “Não está em causa o nosso respeito absoluto pelo que cada um é”, faz questão de garantir a mesma fonte.

Apesar das certezas de que o partido continua a rejeitar “rótulos” e formas de “coletivização dos indivíduos”, há quem entenda que houve um “movimento de reação ao wokismo” que levou as pessoas a “fartarem-se da censura, dos cancelamentos, das micro-ofensas e micro-agressões”. Portanto, e ainda que possa haver temas mais tensos ou sensíveis dentro da direção ou grupo parlamentar, Rocha acabou por assumir que é preciso não ficar em cima do muro em diversos assuntos.

Ora, se a esmagadora maioria da corrente de poder na IL não se revê na necessidade de dar espaço a posicionamentos considerados woke — pelo contrário —, foi preciso agir. E perante as acusações do Chega de que “a IL é o Bloco de Esquerda da direita”, os liberais decidiram dar um passo em frente para combater a ideia e capitalizar nas urnas: “Há uma percentagem de eleitorado do Chega que está chateado com o facto de o partido apresentar medidas socialistas na economia, mas também não vota na IL porque o Chega conseguiu passar a imagem de que somos um partido woke. Quando não é, a IL é um partido que defende todas as liberdades individuais, que cada um viva como quer, sem querermos impor modos de vida. Sejam conservadores ou progressistas no seu modo de vida.”

“O Chega quer colar-nos ao wokismo, confundindo aquilo que são posições de princípio quanto a questões de orientação sexual com os excessos do wokismo. Continuamos e continuaremos a defender que todos possam ser felizes com quem entenderem, mas não alinhamos nem alinharemos em cancelamentos, limitações à liberdade de expressão, ideias absurdas e racistas como ‘privilégio branco’, relativismo cultural”, esclareceu um deputado.

Apesar de haver quem nem acredite que a estratégia de gritar aos céus “não sou woke” é eficaz, os fins justificam os meios, principalmente quando é para “corrigir” uma imagem que “o Chega nos conseguiu colar”. “Não só temos de o corrigir, como podemos mostrar a essas pessoas que o próprio Chega apresenta muitas coisas socialistas”, acrescenta, reconhecendo que é possível “roubar aí um bocadinho de eleitorado”.

No mesmo sentido há quem vá buscar o exemplo do próprio João Cotrim Figueiredo durante a campanha para as europeias, onde conseguiu um “equilíbrio” entre um discurso que “não é à Chega”, mas “picando alguns temas focados nos descontentes”, desde logo corrupção de fundos europeus e imigração em relação ao pacto europeu. O foco é o mesmo: há quem só vote no Chega pelo “protesto”.

Da ala conservadora que não encontrou espaço ao ídolo argentino

Depois da convenção mais crispada da história da IL — onde ficou eternizada a intervenção que deixava claro que “liberal não é conservador” e que “liberal é em toda a linha” —, houve uma linha intitulada de “liberais clássicos” que abandonou o partido. Duas das caras mais famosas mudaram-se para o Chega: Nuno Simões Melo é deputado do Chega, Mariana Nina estava num lugares cimeiros da lista do partido, encabeçada por António Tânger Corrêa, às eleições europeias.

A gota de água aconteceu devido à votação da IL relativamente à autodeterminação da identidade de género e ao facto de o grupo considerar que o partido está cada vez mais próximo da esquerda. Mas há quem tente cortar a direito as acusações de parte dessa ala que entretanto abandonou o partido, frisando que essas pessoas “não eram liberais fosse no que fosse”.

“Esse grupo estava a cavalgar essa mensagem (que o Chega estava a passar) por motivos internos”, entende um dirigente, frisando que os esses liberais o fizeram com o intuito de construir uma “ala com peso dentro” da IL. Porém, defende que o partido “sempre fez e faz o equilíbrio” — “Nem todos concordam com tudo, mas todos concordam com a maioria das decisões. É um partido, implica cedências.”

Agora que o líder dos liberais decretou a morte do wokismo, recuperam-se posições do passado e até a idolatria decretada a Javier Milei em plena Convenção da IL, que tem atacado minorias, nomeadamente no discurso de Davos onde disse que “outra face da luta do homem contra a natureza é toda a agenda LGBT e toda a agenda do aborto”. Além de ter centrado a intervenção num ataque à “agenda sinistra” da ideologia woke, que classificou-a como “a grande epidemia desta época, que tem de ser curada, um cancro que há que extirpar”.

“Já não me sinto sozinho porque, ao longo deste ano, pude encontrar companheiros nesta luta pelas ideias da liberdade em todos os cantos do planeta, desde o maravilhoso Elon Musk à feroz dama italiana, a minha querida amiga Giorgia Meloni, desde Nayib Bukele, em Salvador, a Viktor Orbán, na Hungria, desde Benjamin Netanyahu, em Israel, a Donald Trump, nos Estados Unidos”, disse, numa colagem esses líderes — sabendo que alguns deles estão mais próximos da direta radical ou mesmo da extrema-direita do que dos liberais.

Entre os apoiantes do presidente da Argentina que marcaram presença na Convenção da IL clarifica-se que em causa está única e simplesmente a vertente económica e redução do Estado que Milei adotou quando chegou à liderança. Na verdade, sintetiza um deputado da IL, “saltos quânticos a colar IL a fascistas e conservadorismo é wishful thinking que deriva em má-fé”.