Pensou-se que tinha fechado portas naquele número 8 da Praça dos Restauradores que desde 1940 dá casa à primeira geladaria de Lisboa. Havia quem lamentasse, de boca em boca, que já há tantos anos estivesse fechada quando, na verdade, apenas não servia gelados desde dezembro de 2024, como desde sempre acontecia. No entanto, este ano o período de pausa da Veneziana prolongou-se depois da morte do dono, Fulvio Luca, filho de um dos três fundadores italianos, em janeiro. Sem descendentes diretos, coube ao primo Angelo Sala assumir a histórica geladaria junto dos dois filhos, João e Clara, e da mulher, Teresa. Já habituados à arte do gelado, mantêm agora a receita original — escrita à mão num pequeno papel já gasto que Angelo guarda — que também pode ser provada na La Fabbrica, no Arco do Cego.
Quando em 1933, Arcangelo Sala e os seus dois sobrinhos, Giovanni de Luca e Luigi Sala, decidiram emigrar do Norte de Itália para a Argentina, com o objetivo de abrir uma geladaria, levavam consigo uma receita de gelados que remontava ao século XIX. Tinha sido oferecida por um amigo do avô de Angelo que já tinha geladarias “na Alemanha ou nos Países Baixos”. Acabou por ficar em Lisboa, começando por ser servida em bicicletas que tinham sido transformadas em gôndolas, numa viagem pela capital que durou sete anos. De chapéu e vestidos de fato branco, com camisa, colete e gravata, Giovanni de Luca e Luigi Sala pedalavam pelas ruas a vender aquele gelado que, à época, já respondia pelo nome de Veneziana. Com a fábrica sediada na Avenida de Berna, davam ao pedal pelo Liceu Camões, Jardim Zoológico, Jardim da Estrela — “se calhar até vinham para aqui para a Baixa, deviam ir onde havia mais gente” — vendendo aqueles gelados que também podiam ser adquiridos ao balcão da sede. “Eles andavam que se fartavam e aqueles carrinhos, sem motores elétricos, deviam pesar centenas de quilos. E ainda existem pelo menos duas ou três pessoas que falam disso. Uma é um homem que agora tem 90 e tal anos e que ainda conheceu o meu avô. Ele andava no Liceu Camões e lembra-se de ter os gelados à porta”, revela Angelo.
▲ Giovanni de Luca e Luigi Sala nas gôndolas-bicicletas a vender gelados da Veneziana nos anos 1930
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Os carrinhos de que fala estão retratados nas fotografias que agora decoram as paredes da renovada Veneziana. “A Veneziana. Especialidade de sorvetes à italiana. De Luca Giovanni”, lê-se gravado na gôndola. Daquela época continuam a sobreviver variados utensílios de cozinha, mas das gôndolas não há rasto. “Eles quando abriram a loja devem tê-las queimado, não me admira nada. Lenha deita fora. Eu no lugar deles teria feito isso”, confessa o atual dono da Veneziana, revelando ainda que, não contente com todo o trabalho físico que levava, “Luigi ainda era ciclista do Sporting e chegou a fazer a corrida mítica Porto-Lisboa”.
A Veneziana acabaria assim por abrir portas em 1940, no atual local, na fachada do Hotel Avenida Palace. Seguiam-se depois mais duas aberturas — na Avenida da Liberdade (1958-1987) e no Centro Comercial das Amoreiras (1985-2000) — e o encerramento da fábrica na Avenida de Berna, em 1996, onde Angelo também chegou a trabalhar. “Depois houve a separação com os meus primos. Eles ficaram com esta e depois eu abri na [rua] Filipa de Vilhena. Na altura não podia haver duas Venezianas e como eles ficaram com esta eu pus o nome La Fabbrica, isto em 2014”, explica.
A quarta geração de um negócio familiar
Pouco ou nada passavam por cá antes de assumirem o negócio. Lá em cima, como dizem, já tinham gelado suficiente, o que não justificava a vinda para estas bandas. Mas agora com duas lojas no nome da família Sala, há a vontade de unir — ainda mais — as duas, sem que a La Fabbrica veja as portas fechar. O seu nome faz jus ao que por lá se passa: é a fábrica que produz os gelados que se servem em ambos os espaços. Já a família divide-se entre os dois: Clara e Angelo lá em cima e João cá em baixo com Mirco Zardini, um antigo funcionário da Veneziana. E Teresa? “É a chefe acima do chefe, que sou eu”, brinca Angelo. A mulher do luso italiano é quem gere toda a parte de gestão da empresa — ao mesmo tempo que ainda serve umas bolinhas ao balcão no Arco do Cego. “O barco vai passar para eles, que são a quarta geração”, afirma Angelo, referindo-se aos filhos. “Por isso vai haver rotatividade para que toda a gente tenha competência para tudo, para que todos tenhamos as mesmas funções”, garante.
▲ Da esquerda para a direita: João, Angelo, Teresa e Clara Sala
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
A cumprir este sábado, 16 de agosto, um mês desde que abriram portas enquanto gerentes da Veneziana afirmam ter sido bem recebidos e que o regresso dos gelados à Praça dos Restauradores está a correr bem, apesar de ainda não saberem o que o inverno reserva. Quanto aos habituais, só Mirco pode dizer se já por cá passaram: “Já estão a voltar muitos clientes. Eu vejo-os ao longe e lembro-me das pessoas e já sei o que vão querer. Há um senhor que normalmente pede sempre um copo com baunilha e morango mais um copo de água”.
Também na La Fabbrica, afirma Teresa, há clientes habituais que são reconhecidos por aquilo que pedem. Mas, antes de irmos “até lá acima”, é preciso saber que mais sabores há para provar na Veneziana. Escolhidos com um cuidado extra, face à zona turística onde se encontra, acabam por ter uma oferta mais “básica”, começa por explicar Angelo, rapidamente sustentado pelo filho que avança que os sabores que mais rápido acabam são a baunilha e o chocolate: “Nós temos os sabores em português e inglês e vanilla e chocolate são os únicos sabores que alguns turistas conseguem dizer”.
Para os que cá vêm com mais frequência, serve-se um gelado de amêndoa torrada que, para Teresa, é “a melhor amêndoa que vocês comeram na vida, são viciantes”; o de caramelo, o cereja marrasquino e as especialidades: o doce spaguetti (7 euros) e a cassata (8 euros) — “É um bolo de gelado. Tem baunilha, chocolate, morango, nata batida com fruta cristalizada e aqui na base é nata com amêndoa torrada moída”, explica João. Os preços dos gelados variam entre 3,90 euros para uma bola, 4,90 euros para duas e 5,90 euros para três. Basta depois escolher se vem servida em copo ou cone.
Se subirmos até à La Fabbrica encontramos outros sabores? Sim. “Há alguns que são exclusivos”, revela João, explicando que sabores que são feitos com frutas da época, como a pera, o ananás e o pêssego, não fazem a viagem até cá abaixo: “Essas frutas da época ficam só na fábrica”. São as que os clientes habituais mais pedem? Nem sempre. Por ser uma zona mais familiar, onde sobra tempo para conversar com os clientes — “há muitos que se tornaram amigos” — há quem também peça sempre o mesmo sabor: “Ainda há poucos dias apareceu lá uma pessoa e disse assim ‘não sabe quem eu sou?’ e o Angelo disse ‘sei sim senhor, é a Avelã”, recorda Teresa. “Também temos uma família do chocolate!”, exclama o marido. “Já vão na quarta geração e só comem chocolate. Toda a família só come chocolate”. “Mas acho que há uma neta que prevarica e vai para a baunilha”, acrescenta a mulher.
Essa baunilha é o sabor favorito do João. O vocalista da banda portuguesa Ganso garante que aqui é que se prova o verdadeiro sabor da baunilha, no entanto, confessa que não serão os únicos “a fazer com a vagem”. Entre os poucos que resistem, são sim aqueles que ainda utilizam ovos na produção dos gelados: “Hoje em dia, 90% das geladarias já fazem o gelado de uma maneira mais moderna e utilizam pastas com sabor a morango, a chocolate. E o ovo, que é um ingrediente da origem desta receita, já caiu em desuso. Nós ainda partimos ovos diariamente para fazer gelado”, explica.
Quanto a outras geladarias na capital, afirma que as que poderão fazer mais concorrência são a Conchanata, em Alvalade, e a Santini. “Na verdade, são aqueles que vêm do antigamente, como nós. Mas, quer dizer, concorrência para nós é tudo, até uma loja de donuts. Mas pronto, falando assim de grandes nomes que já estão cá há tanto tempo… a Santini, que nem chega a ser concorrente. É um império”, comenta João, sustentado por Teresa.
Um tacho de 70 anos e Almada Negreiros sentado na esplanada
A vinda da família Sala para a Praça dos Restauradores veio afinar a imagem desta antiga geladaria. Se lá fora a esplanada se mantém, com as mesmas cadeiras e mesas de sempre, prova-o uma fotografia a preto e branco do tio Aristide (filho de Arcangelo) numa bicicleta com uma cadeira presa à frente — “é uma destas cadeiras” —, lá dentro as madeiras pintadas de branco, as paredes, antes de amarelo, são agora num tom encarnado escuro e o letreiro feito de novo, que acompanha o marco de Loja com História, evidenciam que alguém pôs mão nesta decoração. Ao balcão — também novo — servem-se agora menos sabores que antigamente: são apenas 12 ao contrário dos mais de 20 de antes. “Está mais organizado”, confessa Mirco. Como é que se consegue? “Às vezes andamos à luta”, brinca Teresa.
Dos tempos antigos ficaram também os bancos em madeira, desenhados especialmente pelo arquiteto Sena da Silva para a então loja da Avenida da Liberdade, e um sem número de utensílios de cozinha do tempo do avô de Angelo: “As formas das cassatas, as espátulas que utilizamos para tirar o gelado da máquina, que ainda é um processo manual, o tacho onde torramos as amêndoas, onde ainda continuamos a torrar as amêndoas e as avelãs manualmente, e o João agora também já é especialista nisso”, enumera Angelo, acrescentando que “temos uma série de coisas que ainda vêm daquele tempo e que nós continuamos orgulhosamente a utilizar.”
▲ À direita, o tio Aristide na Praça dos Restauradores a andar de bicicleta com uma cadeira da esplanada da Veneziana presa à frente
La Fabbrica
Orgulhoso do espaço e, claro, da esplanada — que tanto atrai turistas, ainda nem a Veneziana abriu — Angelo revela com curiosidade que aquelas mesas brancas acompanhadas pelas cadeiras azuis fazem parte da “primeira esplanada registada na Câmara Municipal de Lisboa com o número 1”. Apesar de poder não ser a primeira esplanada de Lisboa, afirma que é a número 1. “Há duas fotografias muito giras daquela época de pessoas aqui a comer gelado. E ainda há outra onde está o Almada Negreiros sentado numa destas cadeiras com mais três pessoas. Essa aí eu vi, vamos encontrá-la”, garante.
Aberta de terça-feira a domingo das 13h00 às 20h00, a família Sala quer continuar a fazer da Veneziana uma referência, como durante quase 100 anos tem sido: “Havia as pastelarias, a Suíça, o Martinho da Arcada, mas a Veneziana fazia parte dessas. Agora pode-se começar a falar mais. Nós vamos falar mais”.