1230,6kWh poupados 1230,6 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Luís Sequeira tem um olhar apurado e demora-se em algumas bancas. No passado, vários objetos que encontrou na Feira da Ladra acabaram no grande ecrã
i

▲Luís Sequeira tem um olhar apurado e demora-se em algumas bancas. No passado, vários objetos que encontrou na Feira da Ladra acabaram no grande ecrã

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

▲Luís Sequeira tem um olhar apurado e demora-se em algumas bancas. No passado, vários objetos que encontrou na Feira da Ladra acabaram no grande ecrã

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Às compras com Luís Sequeira na Feira da Ladra. O que procura um costume designer?

O aclamado figurinista lusodescendente, duas vezes nomeado aos Óscares, sabe que nas feiras cada esquina pode esconder um tesouro para o próximo filme. O Observador acompanhou-o numa manhã em Lisboa.

“Cuecas a cinco euros!”, ecoa o pregão, misturando-se ao tilintar das moedas e conversas cruzadas. “Há algo para toda a gente”, diz Luís Sequeira. “É o que é fun nas feiras. Gabares-te de ter comprado algo por tão pouco.”

O costume designer de Hollywood com nome português passeia entre as bancas da Feira da Ladra, em Lisboa, com uma bolsa a tiracolo e calçado confortável. “Gosto de vir cedo, antes dos turistas todos. As coisas boas vão logo”. Os figurinistas, os responsáveis pelos guarda-roupas das maiores produções de cinema e televisão, conhecem os rituais. São mestres na arte de descobrir tesouros no meio do caos, têm o faro apurado, um olhar de lince, sabem negociar. “Nunca venho aqui a pensar que vou encontrar alguma coisa, é sempre uma surpresa”.

Ainda era um miúdo quando começou a frequentar feiras deste género com a mãe, uma modista com raízes no norte que chegou a ter um atelier em Lisboa antes de emigrar para o Canadá. Quando Luís nasceu já a família estava bem enraizada na comunidade portuguesa de Toronto. “Vínhamos a Lisboa e vínhamos sempre à Feira da Ladra”.

▲ O figurinista visita Portugal com regularidade, sobretudo para descansar entre projetos de longa-duração

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Mas a feira no Campo de Santa Clara muito mudou desde esse tempo, reflete. “Há muitos mais turistas, muito menos coisas vintage ou verdadeiramente antigas, mas continuo a vir aqui e à Feira da Vandoma, no Porto, que quando mudou de localização também mudou a sua natureza”, lamenta.

Num café de nome inglês, gente de roupas frescas e chinelos saboreia o sol, acompanhada por tostas de abacate ou pratos tão genéricos quanto o menu. Preferimos o vizinho, mais modesto, com cadeiras e balcão de metal. Luís pede uma “meia de leite” em bom português.

Apanhamo-lo em Portugal de férias, explica, a recuperar energias entre os filmes e projetos de televisão dos quais é responsável pelo guarda-roupa. Acabou um ciclo de meses a trabalhar numa série para a HBO, It: Welcome to Derry, uma prequela do filme baseado no livro de Stephen King, e aproveita os últimos dias na capital antes de subir até São João de Loure, no distrito de Aveiro, onde tem a casa que era dos avós maternos. “Não tenho família direta, mas tenho amigos lá desde esse tempo”, partilha.

Já com uma dose de cafeína, percorremos a feira a pé, um par de horas a vaguear sem a pressão do tempo. Cada banca é um quadro em miniatura, com tecidos dobrados, objetos esquecidos, relíquias que piscam à luz do dia. Vendedores de discos e cassetes despejam canções que nos atropelam em ondas sucessivas. Sobre todas, ergue-se I Want to Know What Love Is, o êxito dos Foreigner que marcou 1984.

Andamos sem um percurso definido, contornando o Panteão Nacional. Ao atravessar a feira, explica-nos que a inspiração para qualquer figurino que produz parte sempre do argumento. Começa então a imaginar as personagens com a roupa, o ambiente e é a partir daí que tudo se desenvolve.

▲ O lusodescendente esteve na corrida ao Óscar de Melhor Guarda-Roupa por “A Forma da Água”, de Guillermo del Toro, em 2018. Repetiu o feito em 2022, com "Nightmare Alley - Beco das Almas Perdidas"

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

“Estou sempre atento para algo que possa ter interesse para a minha coleção ou para um projeto futuro. Já encontrei coisas aqui há 10, 15 anos antes de as usar efetivamente”. Conta como ali descobriu “joias dos anos 1930”, “alguns livros ótimos”, “ilustrações portuguesas” e outras “coisas que uso para pesquisa”. “Nunca é necessariamente aquilo que preciso agora, mas pode servir para mais tarde”, resume.

Caminhar desta forma descontraída, sem um objetivo em concreto, torna-nos mais abertos ao inesperado, às pequenas surpresas. “Não estou à procura de nada em particular hoje… Quer dizer, se vir algo vitoriano, talvez… Mas isso seria uma raridade”. Sequeira tem estado em conversações para um filme sobre Sarah Bernhardt e Eleonora Duse, célebres atrizes do teatro do século XIX.

▲ Still do filme "A Forma de Água", filme que valeu a Luís Sequeira um Costume Designers Guild Award e uma nomeação aos Óscares

Mistura-se com os transeuntes sem chamar a atenção. Durante muito tempo desconhecido do público português, o seu nome só aterrou em 2018 na imprensa nacional, ávida em noticiar que um lusodescendente estava na corrida ao Óscar de Melhor Guarda-Roupa graças a A Forma da Água, de Guillermo del Toro. Repetiu a façanha quatro anos depois, em 2022, com Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas, também do realizador mexicano.

A exposição mediática trouxe-lhe mais notoriedade entre os pares em solo nacional, mas trabalhar no país continua a ser raro. Em 2023, assinou o figurino e design de produção de Era Uma Vez no Apocalipse, curta-metragem de Tiago Pimentel que se estreou no MOTELx. “Mas é difícil, quando não se está aqui é difícil [trabalhar em Portugal]”.

A conversa distrai-lhe o olhar. “Ainda não vimos nada”, adverte em tom jocoso. Mas não basta ver, é um jogo de sorte — e timing. “Nisto de antiguidades e feiras já sei que quando olho para alguma coisa tenho de estar preparado para se não levar não pensar naquilo nunca mais! Tenho de resolver isso na minha cabeça, de que nunca mais vou ver aquilo. Não há nada pior do que perder uma oportunidade. Aconteceu-me algumas vezes, ver alguma coisa e ficar “hum, vou pensar”, dar uma volta, voltar e já se foi! Aprendi nas feiras: se temos interesse em alguma coisa temos de nos resolver logo. Se é para levar é para levar se não é para esquecer”.

Há outro mandamento nessa bíblia não escrita: “O preço sobe no momento em que duas pessoas querem a mesma coisa”. Sorri e diz: “No final podemos sempre dizer que é o destino, que há um motivo pelo qual se foi… Ou um motivo pelo qual ainda ali está”.

▲ Sequeira diz ter um acervo de milhares de peças no Canadá, onde vive. Só gravatas tem mais de cinco mil exemplares, garante

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Luís avança com a confiança de quem conhece o terreno. “Há alguns vendedores aqui que já sei que gosto. Há um ali que tem ótimas antiguidades”, aponta. “Aquele tem boas cerâmicas”. “Na realidade, eu já pensei: Ó, Luís, tu não precisas de nada”, ri. “Se queres comprar alguma coisa tens de tirar outra, senão ficas um acumulador”, gargalha.

Há uma predisposição natural para isso, dada a natureza do ofício. “Fala com qualquer costume designer e a tendência é para serem acumuladores, sem dúvida. É preciso dissociar-nos a um nível emocional, olhar para uma peça e perceber: vale a pena?”

Numa carreira de mais de três décadas, em que trabalhou como designer e assistente, Sequeira acumulou milhares de peças, desde roupa a acessórios e objetos, de diferentes projetos e do acervo pessoal que foi construindo. Onde guarda tudo? “Ah-ha”, diz, como se tivesse escutado a pergunta de um milhão de euros.

▲ A inspiração de Luís Sequeira para o figurino de um projeto começa sempre com a leitura do argumento, explica ao Observador. Só a partir daí imagina o guarda-roupa

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Durante anos teve o arquivo espalhado em diferentes contentores e cacifos, mas nos últimos meses juntou todo o acervo num único espaço, um “mini-armazém” em Toronto. A Sequeira Productions, assim se designa, tem um espólio de roupa de homem, mulher e criança, “dividido por época, desde a viragem do século até ao contemporâneo”. Só gravatas tem mais de cinco mil exemplares. “Nunca se tem gravatas suficientes”, justifica. “Além disso, se precisar de uma bela gravata dos anos 1970 não a vou encontrar hoje”. Pode soar impressionante, mas não é tudo: falta a coleção de tecidos. “Além desse espaço, ainda tenho um outro cheinho de rolos e rolos de tecidos e botões”.

“Uma coisa boa destas feiras também é o people watching”, solta, numa pausa à sombra, já a hora de almoço se aproxima. “Há verdadeiras personagens”, faz-nos notar. “Na Vandoma vejo pessoas muito interessantes”.

Eventualmente, damos o passeio por terminado. Luís sai de mãos vazias. “Há dias assim”, comenta, sem lamento. Uma hora depois, surge uma mensagem no Whatsapp. Acabou por ficar na feira. “Ao fim achei algo”, escreve. Seguem-se duas fotografias: um par de mãos de manequim, de um branco lacado perfeito, e um livro, 5000 anos de elegância, da antiguidade egípcia aos nossos dias, titula a obra, uma edição Verbo. “Já não foi mau”, diz em mais uma mensagem. É outro mandamento: a sorte não se força — nem sequer por uma reportagem.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.