Maria Helena Vieira da Silva está deitada sobre o sofá. Tem o cabelo afastado do rosto e olha em frente. A seu lado, um cavalete mostra uma tela. Nas suas costas há estantes com livros, quadros pendurados, objetos pousados sobre a madeira. Quando a fotógrafa francesa Denise Colomb visitou o estúdio da pintora portuguesa, em Paris, em 1947, eternizou aquela imagem no tempo.
“Há pelo menos três Vieiras da Silva aqui, mas possivelmente mais. A primeira está sentada no sofá, a segunda é que aparece como um fantasma do lado direito da fotografia, e a terceira está nas telas que estão no espaço”, escreve Flavia Frigeri, curadora da exposição Maria Helena Vieira da Silva: Anatomia do Espaço, que foi inaugurada esta quinta-feira no Museu Guggenheim de Bilbau, no País Basco.
“Não há uma Vieira da Silva, mas muitas, e isto deve ter sido aparente para Colomb também quando escolheu retratar a artista através de camadas”, conclui a curadora no catálogo desta exposição que constitui uma importante retrospetiva da artista nascida em Portugal em 1908 e que morreu em 1992 em Paris, onde viveu a maior parte da vida com o marido, o artista plástico húngaro Arpad Szenes.
▲ Um autoretrato de 1930 de Maria Vieira da Silva é uma das primeiras obras da exposição. Ao lado do retrato da pintora está um outro do marido, o pintor Arpad Szene
ph. Fabrice Gousset
Tal como no retrato fotografado com dupla exposição, são múltiplas as camadas que compõem a obra de Vieira da Silva e que o público vai poder descobrir até 22 de fevereiro de 2026 no museu basco. É apenas a segunda vez em três décadas que a instituição põe o foco numa artista portuguesa, depois de Joana Vasconcelos, em 2017, com a bem-sucedida I’m Your mirror.
Uma mulher na sombra?
“Não era uma artista na sombra, alguém que não tenha tido sucesso durante a vida, ou exposições, que tenha ficado reduzida ao estúdio”, começa por dizer Flavia Frigeri, curadora da exposição e diretora de Coleções da National Portrait Gallery, em Londres, numa conversa com jornalistas portugueses. “Mas, paradoxalmente, ficou na sombra depois da sua morte”, nota, evitando especular sobre o que terá motivado o declínio na projeção daquela que é consensualmente uma das maiores artistas portuguesas do pós-guerra.
▲ Flavia Frigeri, curadora da exposição, é diretora de Coleções da National Portrait Gallery, em Londres, Reino Unido
Erika Ede
“Há um sentimento de tesouro nacional, tal como a Paula Rego — é o incrível sobre Portugal, há muitas mulheres. Há um sentimento de paixão coletiva pelos artistas. Diria que em certa medida em França [Vieira da Silva] também é muito conhecida, aliás, houve uma exposição em Marselha e outra Dijon não há muito tempo. Mas, depois dos anos 90, quando ela morreu, em 1992, quase desapareceu. Deixou de ser vista. Não consigo dizer porquê, não tenho a resposta, há muitos fatores…”, deixa no ar, lembrando como muitas obras de Vieira da Silva constam em grandes coleções pelo mundo, como na do MoMa — The Museum of Modern Art, em Nova Iorque. “No entanto, não sei com que frequência mostram as peças. Ou seja, mesmo que esteja presente [em coleções], é a visibilidade no dia a dia que inscreve alguém no imaginário público.”
Em Bilbau, a poucas horas de inaugurar a mostra, Frigeri fala numa oportunidade de “redescoberta para toda uma geração” da pintora portuguesa. Na ampla galeria do Guggenheim, Maria Helena Vieira da Silva: Anatomia do Espaço espraia-se por oito secções temáticas, organizadas de forma cronológica, proporcionando uma viagem pela evolução da linguagem visual da artista desde a década de 1930 até ao final de 1980. “Queria focar-me nas décadas em que se vê o processo que culmina na abstração completa. Porque é no processo que se vê a sua originalidade”, sentencia.
▲ Em cima, à esquerda: tela "O Quarto Quadriculado", de 1935. Em baixo, à direita: "Festa Veneziana", de 1949.
Tate / Tate Images
Cada secção explora uma fase da obra e da vida de Vieira da Silva, como a relação da pintora com o marido, Arpad Szenes, através de uma série de retratos recíprocos, logo no arranque da exposição, passando pelo seu interesse pelo espaço arquitetónico, a temporada no Rio de Janeiro, o regresso a Paris ou a sua profunda devoção às cidades — reais ou imaginadas.
“Quando comecei a trabalhar nesta exposição percebi que estamos muito familiarizados com uma série de obras, mas há tantas outras que não são mostradas”, atenta a curadora. Não faltam as composições visuais com estruturas labirínticas, ritmos cromáticos e perspetivas fragmentadas amplamente reconhecíveis, mas também há espaço para a descoberta. Um dos aspetos porventura mais surpreendentes da exposição será o desvendar da obra figurativa de Vieira da Silva, artista abstrata por excelência. Esse lado revela-se em particular durante o período em que Vieira da Silva e o marido, Arpad Szenes, viveram no Brasil durante a Segunda Guerra Mundial — um exílio de sete anos, entre 1940 e 1947, motivado pelas origens judaicas do artista húngaro. As obras criadas no Rio de Janeiro estão impregnadas de “uma dor e tensão que refletem a tragédia humana que se vivia naquela altura”, lê-se no texto de parede. Mas ao contemplar a História Trágico-Marítima ou Naufrágio, um óleo sobre tela de 1944, cedido pelo CAM — Centro de Arte Moderna, da Gulbenkian, facilmente encontramos ecos da tragédia em curso no mediterrâneo.
▲ "História Trágico-Marítima ou Naufrágio", um óleo sobre tela de 1944, cedido pelo CAM - Centro de Arte Moderna, da Gulbenkian
Photographer: Mário de Oliveira
O caminho em direção à abstração
“Durante esse período de guerra, a abstração não servia a mensagem que ela queria transmitir, então ela trouxe então alguns elementos figurativos”, justifica a curadora. “Mas acho que no centro da sua obra está a abstração”. “Obviamente ela tinha a capacidade de ser uma pintora figurativa, ela tinha muita técnica, estudou anatomia. Mas escolheu não ser uma pintura figurativa desde o início. Tinha essa ambição, no que toca à representação do espaço. A abstração era a linguagem mais adequada. Nunca houve uma questão: queria ser uma artista abstrata”, frisa.
Nas obras dos anos 1930, as estruturas arquitetónicas tornavam-se quase anatómicas, antecipando o seu interesse pela decomposição e pela geometria do olhar. Com o regresso a Paris, em 1947, Vieira da Silva reencontra a liberdade e o impulso criativo, ao tornar as cidades, reais e imaginárias, o centro da sua obra: paisagens urbanas feitas de fragmentos, linhas e padrões que evocam tanto o labirinto moderno como a memória dos azulejos portugueses. Entre interiores e exteriores, a artista cria composições em que o espaço se transforma e dissolve, revelando uma linguagem cada vez mais abstrata.
▲ A tela "La Ville (A Cidade)", de 1950-51, impõe-se na última sala da mostra, com obras de diversas fases da carreira da artista, unidas pelo branco, tom essencial nas suas investigações pictóricas
MoMA / Scala
A exposição termina com uma sala inteiramente dedicada às pinturas brancas de Vieira da Silva — uma escolha que surpreende quem associa a artista à cor intensa e à densidade cromática das suas composições. É, como observa a curadora, “uma pequena retrospetiva dentro da grande retrospetiva”, que condensa a evolução da pintora e o seu caminho em direção à abstração pura.
Com obras vindas de instituições como o Centre Pompidou, o MoMA, o Guggenheim e a Tate Modern, além de importantes empréstimos portugueses da Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva e da Gulbenkian, a exposição reafirma a atualidade e a força da obra de Vieira da Silva. E é talvez nesse branco final, despojado e luminoso, que se encontra a melhor síntese de uma artista que fez da cor o seu caminho.
O Observador viajou a convite do Museu Guggenheim Bilbao