Beleza. Nome feminino. “Perfeição agradável à vista e que cativa o espírito; qualidade do que é belo. Aquilo ou aquele que é belo, formoso”. Esta é a definição que encontramos quando procuramos pelo conceito no dicionário. Mas será que ainda é pertinente tentar defini-lo, atualmente? No que à arte diz respeito, o que torna uma obra bela? Poderá a “feiura” fazer parte? Foi no passado dia x que teve lugar, na Galeria Oval do MAAT, em Lisboa, a quinta e última conversa do ciclo de conversas promovido pela Fundação EDP, no âmbito dos seus 20 anos.
Com a exposição “Formas no Espaço… através da Luz (no Tempo)” – uma grande instalação composta por uma complexa rede de néon branco -, de Cerith Wyn Evans, como pano de fundo, a jornalista do Observador, Joana Stichini Vilela, ficou encarregue da moderação do diálogo, que contou com a contribuição de João Pinharanda, Diretor Artístico do MAAT, Sara Bichão, Artista Visual, e Pedro Cabrita Reis, Artista Plástico.
A pergunta que se impunha, e que deu início à conversa foi a mesma que motivou o encontro: ainda fará sentido falar-se em beleza? João Pinharanda foi responsável pelo pontapé de partida. “Temos que perceber, hoje em dia, que a valoração de uma obra de arte tem que ver com toda uma outra complexidade de critérios que ultrapassam esta simplicidade que tínhamos na idade dos gregos, por exemplo. É verdade que na linguagem de todos os dias utilizamos estes conceitos, sem critério. Confundimos belo com bonito. Há um mistério qualquer que nos diz que a obra é capaz de inquietar. E eu acho que isso é o mais importante”.
Para o Diretor Artístico e programador do MAAT, torna-se claro que, atualmente, falar-se no belo não pode ser, por si só, uma conversa simplista. Apesar de se tratar de uma palavra pequena, carrega consigo um complexo e vasto significado. “O belo não é uma coisa simples, contrariamente ao que as pessoas julgam. O belo é uma coisa terrível. O belo pode provocar o medo. Porque nos ultrapassa de tal maneira que nos remete para uma dimensão que só um criador poderá alcançar”, acrescentou, exaltando, ainda, o papel de um museu neste trajeto: “o papel de um museu não é só guardar as coisas, conservar as coisas, classificá-las. É, ao dá-las, partilhar com as pessoas essa inquietação, que os artistas nos transmitem, a partir de muitos focos. E isto não é democratizar no sentido demagógico do termo. É aristocratizar a capacidade de visão que um público pode ter sobre uma obra de arte. É problematizar cada uma das coisas que lhes é apresentada. Os museus, que foram durante muito tempo guardiões de um saber fechado, hoje em dia, a obrigação deles é abrirem-se. Não é no sentido de simplesmente abrir as portas ou pôr bilhetes mais baratos. É criar uma coisa densa, tão densa como as obras de arte”, rematou.
Se há uma coisa que ficou clara ao longo de todo o debate foi que o tema da beleza se poderia apelidar de inquietação. Que na hora de criar ou de observar uma obra de arte, é a inquietação que nos move, tanto enquanto artistas, como enquanto espectadores. E ainda que as opiniões tivessem divergido no decorrer da tarde, nisto os três oradores foram unânimes. Ainda assim, dar palco à inquietação não invalida a importância da beleza. Na perspetiva de Sara Bichão, também enquanto artista, a beleza “é um estado de observação que, para mim, está para além daquilo que é a criação humana. Eu acho que a arte tem de conter beleza, mas a arte para a beleza é apenas um fenómeno. A beleza vai muito para além da criação artística. É um ângulo de observação, por um lado, e depois, no âmbito da criação humana, é um salto para o abismo. Quando começamos uma obra saltamos para o abismo, com a esperança de que haja fricção, tração ou clarividência para não nos perdermos”.
E naquilo que é o motor do trabalho artístico, Pedro Cabrita Reis acrescentou ainda: “toda a matéria da vida diária é matéria do que eu faço. Mas nisso não sou diferente dos outros artistas. Todos os artistas vivem desse magma que é a tensão da vida real. O meu trabalho é feito dessas interrogações sem resposta. Tudo aquilo que um artista faz é aproximar-se, trabalhar num terreno que não tem resposta. Aos artistas compete a coragem de não ter formas de responder às perguntas. Nós trabalhamos sobre a impossibilidade”. Para o artista plástico, a beleza assume-se, então, como um destino impossível. “O que é a beleza? Não é, se não, o exercício da harmonia. A beleza não é, se não, o exercício do cânone da forma. E o cânone da forma é harmonia. A harmonia é a forma superlativa da beleza. É o equilíbrio que faz com que a existência do ser humano seja plena. O que procuramos na beleza se não essa serenidade?”.
Para além de democratizar o acesso a toda esta beleza – ou inquietação – que papel devem ter os museus na disseminação da arte? Ainda não seja possível falar-se por todas as instituições, foi possível perceber que caminho tem sido traçado pelo MAAT. O que faz sentido abordar? De acordo com o seu Diretor Artístico, faz sentido, por um lado, “acolher tudo o que os artistas nos querem dar, toda a inquietação que eles próprios têm. Para mim, como programador e diretor, faz sentido ir à procura de temas que sejam os temas que ilustrem essa crise permanente. E que dêem instrumentos ao entendimento dessa crise. De facto, só a arte o pode dar. E o entendimento que nós fazemos aqui das outras dimensões do museu, faz sentido que esse património seja mostrado, discutido”.
Na perspetiva de João Pinharanda, a própria localização geográfica do Museu é também um fator de destaque. Para além de se encontrar num local historicamente muito simbólico, reconhecido pela época dos Descobrimentos e conquistas coloniais, a sua proximidade ao mar abre portas para ainda mais possibilidades. De que forma? “Permite-nos falar tanto de questões que são, atualmente, as questões do pós-colonial, como nos permite falar da questão ecológica, como também temos um tipo de atuação que não é nem artística, nem tecnológica, mas que é social, que coloca também essas questões noutro nível. Isto é uma plataforma que dispara em muitas direções e nós acolhemos essas direções todas”, explicou João. No fundo, o espaço onde teve lugar a conversa é também um espaço com capacidade suficiente para acolher as mais diversas temáticas, também elas em conformidade com o que vai acontecendo no mundo e com as questões levantadas por cada artista.
Os dois presentes na Galeria Oval partilharam de que forma o próprio avançar do mundo influencia cada trabalho que fazem: levando-os a ter uma palavra a dizer. Afinal, se a arte que criam se inspira na vida que vivem, o resultado final não poderia ser outro que não a verdade. “Eu faço o meu trabalho como vou vivendo a minha vida. É inevitável o que aparece. A beleza numa obra, assim como a entendo, é uma obra íntegra e com uma verdade quase incandescente. É assim que eu a faço, é assim que eu a percebo”, partilhou Sara Bichão.
Mais do que se falar sobre beleza ou inquietação, esta acabou por ser uma conversa sobre complexidade. Sobre a complexidade que é preciso para se entender estes temas, para alargar horizontes e para perceber que simplificar nem sempre é o caminho para se encontrar a beleza. Acima de tudo, que ela pode estar presente nas mais variadas obras, das mais variadas formas, até mesmo num mundo onde evitamos encontrá-la: o mundo do feio. E se os três intervenientes nem sempre concordaram nas ideias trocadas, esse foi apenas mais um exemplo de que o conceito de belo é, também ele, subjetivo.