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Mais uma edição de "Quente e Frio". Hoje é sexta-feira, Filomena Martins traz-nos boas notícias, por favor.

Depende das notícias que tu quiseres.

Não quero ondas de calor. Confirma-se que vamos ter uma semana de outubro com temperaturas de verão?

Confirmadíssimo.

Até é bom.

Pronto. Serão cerca de oito graus acima do normal em algumas regiões do país. Diria que não é fresquinho pra esta época, são mais oito graus do que é normal pra esta altura de outubro. Os termômetros vão chegar aos 32 graus no Alentejo, talvez mais, também no Ribatejo, e serão vários dias consecutivos de calor, praticamente sem chuva no continente. Não vejo em nenhum mapa sinal de chuva. Há aqui um dado importante: este calor não vai ser igual em todo o território. Enquanto algumas cidades do interior vão ter ali uns 30, 32 graus, junto ao litoral norte e centro, as temperaturas vão andar pouco acima dos 20.

É quando temos uma placa em cima do fogão mal posta.

É mais ou menos isso.

Há sempre partes da panqueca que não ficam bem.

É melhor irmos por partes. Esta sexta-feira, e por dias, o tempo está já seco, já muito sol, mas ainda há algum vento e noites frias. Hoje ainda podemos estar entre Lisboa, Santarém e Faro com 27, Bejas nos 26 e Évora até nos 25. Mais a norte, Coimbra estará nos 24, Porto nos 22, Guarda até nos 17, é a cidade mais fria. Mas depois, a partir de sábado, as temperaturas começam a subir e a partir daí não deixam de subir. E Lisboa, Santarém, Évora já vão aos 28, Braga aos 26, Coimbra e Viseu a 25, o Porto é que fica nos 22. No domingo, o calor começa então a destacar-se, sobretudo no interior e no sul. Évora já nos 29, Santarém e Beja nos 28, Castelo Branco nos 27, Lisboa e Setúbal nos 26, no Porto 21, pronto, é sempre.

Estão a adorar as temperaturas, é como eu gosto.

É, sim. Só que a partir de terça-feira, as temperaturas vão chegar aos valores mais elevados deste episódio de calor. Em Évora, estão previstos 32 na terça e na quarta, 31 na quinta e na sexta e 30 no sábado seguinte, portanto, de amanhã a oito. São cinco dias consecutivos com máximas iguais ou superiores aos 30 graus em pleno outubro. Em Santarém, a previsão aponta também pra 31 na terça, 32 na quarta, 31 na quinta e na sexta e 30 no sábado. Em Beja também estão previstos três dias consecutivos com 31 graus entre terça e quinta, e Castelo Branco e Lisboa, por exemplo, poderão atingir os 30 graus na quarta-feira e ficar ali nos 29 nos dias seguintes. E é aqui que está a informação mais importante, é que essas temperaturas estão mesmo muito acima daquilo que é habitual em outubro. Por exemplo, em Santarém, a média das temperaturas máximas deste mês é de 23,9. Portanto, se na quarta-feira chegarmos aos 32, temos uma diferença de 8,1 grau. E em Évora, onde a média dessas máximas de outubro é de 24,1, os 32 previstos são oito graus acima do normal. Castelo Branco também, os 30 graus previstos pra quarta-feira serão mais de oito graus do que a média, que é de 21,7.

Já havia notícias de que davam conta que setembro estava muito acima da média no que toca a calor.

Sim, foi o setembro mais quente de sempre.

Em 95 anos, algo assim. E outubro provavelmente também acontecerá o mesmo. São então desvios muito expressivos, não é?

Sim, estamos a falar de temperaturas que em algumas dessas regiões seriam perfeitamente compatíveis com o verão, por exemplo, mas que agora aparecem já na segunda semana de outubro, e portanto, essas diferenças são muito acentuadas. E são diferentes entre regiões, porque é diferente Évora e Santarém, por exemplo, podem chegar quarta-feira aos 32, mas Aveiro ficará pelos 21. Há aqui 11 graus de diferença entre cidades no mesmo dia. No litoral norte, as temperaturas também serão mais moderadas. O Porto, por exemplo, andará ali entre os 20 e os 24. Braga poderá atingir os 28 a meio da semana, mas Viana do Castelo não passará dos 23, 24 também. É um calor marcado no interior em algumas zonas do sul, mas não é uniforme em todo o país.

E agora vamos então à chuva. Nem vê-la.

Nem vê-la. A previsão continua a mostrar um período muito prolongado de tempo seco no continente. É este tal domínio anticiclônico que favorece essa estabilidade e dificulta a entrada de tempestades. Não quer dizer que não possa aparecer aqui uma nebulosidade ou uma neblina, talvez até uma chuvinha fraca no litoral norte, mas regresso da chuva, nem ver sinal dela. Há aqui também uma particularidade neste episódio. Noites e manhãs podem ser mesmo muito frescas. Évora, por exemplo, pra sábado estão previstos só 10 graus e 28 máxima. Portanto, são 18 graus de diferença entre a máxima e a mínima. E Bragança, por exemplo, no sábado também a previsão aponta pra 8 graus mínima e 24 de máxima.

Impressionante.

É pra sair de manhã de casaco e camisola e depois ficar de t-shirt à tarde.

Estamos parecidos com os Açores, quase. Tirando a chuva.

Tirando a chuva. Aliás, podemos falar aqui um bocadinho dos arquipélagos, porque na Madeira o Funchal deverá ter um fim de semana relativamente estável, 26 graus no sábado, 25 domingo, sem chuva. Nos Açores, a situação está mais instável porque há uma frente e essa frente terá bastante chuva, quer no domingo, quer na segunda-feira.

A questão aqui é saber o que significa, do ponto de vista meteorológico, estar oito graus acima do normal. É o nosso fenômeno de hoje, não é?

É. Vamos falar disso, do que são anomalias térmicas e quando é que uma anomalia térmica pode passar depois a onda de calor. Porque ouvimos frequentemente dizer que as temperaturas estão cinco, oito, 10 graus acima do normal, como eu disse há pouco, mas isto é uma expressão e É preciso explicar como é que temos 32 °C em outubro sem que isso seja um recorde. E a resposta está nessa expressão de anomalia térmica, que na prática é a diferença entre a temperatura observada ou prevista e aquela que seria habitual num determinado local e numa determinada época do ano. Ou seja, não é preciso só olhar para o termómetro, é preciso saber onde estamos e em que altura do ano estamos. Trinta e dois graus em agosto no interior do Alentejo não é nada de surpreendente, antes pelo contrário. Mas 32 °C em meados de outubro já não é normal.

Nada.

Por exemplo, em Évora, a temperatura máxima média de outubro, segundo o IPMA, é 24,1 °C nesta altura do ano. Na próxima terça e na quarta estão previstos 32 °C, portanto, há aqui uma diferença de quase 8 °C em relação ao normal. E em Castelo Branco, a média dos máximos de outubro é de 21,7 °C. Se o termómetro também chegar aos 30 °C na quarta-feira, também é um desvio superior a 8 °C. E em Santarém a diferença entre os 32 °C previstos e a média mensal, que é de 23,9 °C, também é de mais de 8 °C. Portanto, é importante perceber que estes valores resultam da comparação com as médias do mês inteiro. E para calcular esta anomalia diária rigorosa, era preciso utilizar uma referência climatológica relativamente àquele dia específico. Mas estas comparações já nos permitem mostrar que estamos perante temperaturas bastante superiores ao habitual. Com uma curiosidade, a cidade mais quente não é necessariamente aquela que tem a maior anomalia térmica, porque imagina que numa localidade estão 30 °C, quando o normal seriam 20 °C. A anomalia é de 10 °C, mas noutras estão 33 °C e o normal seriam 29 °C. Aqui a anomalia é apenas de 4 °C, portanto, a cidade que está mais quente, é na outra, onde a temperatura se afasta mais do habitual. A anomalia é maior na outra. É por isso que os mapas de anomalias térmicas são tão importantes, não mostram simplesmente onde faz mais calor, mostram onde é que há mais diferenças em relação àquilo que seria esperado.

E como sabemos o que é normal?

Os meteorologistas usam aquilo que chamam normais climatológicas. E estas normais climatológicas são valores calculados a partir de longas séries observadas. Habitualmente são séries de 30 anos. O IPMA tem estas séries, agora estamos a comparar com o período de 1991 a 2020, que permitem comparar as condições atuais com o clima daquela localidade nestes últimos 30 anos. E há outra pergunta importante, além disso, é se vamos ter vários dias com temperaturas muito acima da média, estamos ou não perante uma onda de calor. E neste momento ainda não é possível afirmar isso. O critério do IPMA para uma onda de calor é seis dias consecutivos em que a temperatura máxima fica 5 °C acima da respetiva média diária de referência. Portanto, não basta que o termómetro fique nos 30 °C, é preciso verificar que há diferença em relação a essa normal diária e quanto dura esse episódio. Em Évora, por exemplo, as previsões apontam para cinco dias consecutivos com máximas iguais ou superiores a 30 °C. É um episódio de calor já muito significativo para outubro, mas isso não vai garantir para declarar uma onda de calor, é preciso confirmar se vai ficar aquele tempo com os tais 6 °C acima. Portanto, apesar das tardes quentes, se as noites também vão ficar frescas, vai haver grandes amplitudes térmicas, é ainda cedo para dizer, mas vai ser um episódio quente.

Vamos agora à curiosidade, já estava a antecipar-me. Por que é tão difícil apanhar uma borboleta? As asas criam ilusões de ótica, Filomena.

Aqui está. E enviei-te fotos para veres, porque já alguma vez tentaste ou tentaram seguir uma borboleta com os olhos, não é?

Sim.

E parece que ela muda de direção a toda hora, que nunca sabemos exatamente onde é que ela vai, para onde é que vai, como é que conseguimos antecipar o movimento dela. Há agora uma investigação científica da Nature, que mostrou que algumas borboletas podem ter um truque extraordinário, que é: os desenhos das asas criam ilusões de ótica para confundir os predadores.

Ah!

E não estamos a falar de camuflagem, nem sequer de asas bonitas e coloridas. Estamos a falar mesmo de uma ilusão de movimento. Quando uma borboleta voa, as asas não se limitam a subir e a descer, fazem também movimentos pra frente e pra trás, descrevendo trajetórias complexas, fazem uma espécie de oito. E quando esse movimento se combina com riscas, manchas e aqueles padrões das asas com grande contraste, acontece algo surpreendente. O cérebro de quem observa recebe sinais de movimento que não correspondem à deslocação real da borboleta. Uma risca pode parecer deslocar-se lentamente numa direção, desaparecer e voltar a surgir noutra posição. É uma espécie de armadilha visual. Uma ave que esteja a tentar capturar a borboleta pra comer, calcula mal a sua velocidade e calcula mal a posição em que ela está numa fração de segundos depois. E numa perseguição em pleno voo, essa fração de segundo faz toda a diferença porque ela consegue escapar. Os cientistas chamam a esse fenómeno de motion dazzle, podemos traduzir como camuflagem por confusão de movimento.

Isso é tão bonito. E como é que conseguiram estudar este efeito?

Filmaram primeiro borboletas a levantar voo com câmaras capazes de captar mil imagens por segundo e viram como é que eram esses movimentos das asas, que eram demasiados rápidos para os nossos olhos acompanharem em detalhe. Depois fizeram uma experiência com 100 pessoas que tiveram 3 mil tentativas para apanhar borboletas virtuais no ecrã tátil e descobriram que quanto maior era a confusão visual pelos padrões das asas, maior era o erro dos participantes. E, portanto, os padrões das asas estavam, de facto, a interferir com a perceção da velocidade e do movimento. Significa que a borboleta não precisa de ser invisível para escapar, basta fazer com que o predador veja o movimento errado das suas asas e enganam.

Isso é espetacular, ninguém diria. É por isso que, na verdade, é muito difícil apanhar uma borboleta.

Portanto, não vás caçar borboletas no fim de semana.

Pois é, pois não. E fica aqui também a nota, vai estar muito bom tempo. Estamos com o mês de outubro cheio de calor. É uma boa altura pra casar. Sabes que eu casei no final de outubro e foi um dia completamente cheio de chuva e provavelmente se fosse este ano estaria abençoada com sol.

Mas chuva, dizem que dá sorte, não é?

Sim, dizem que sim. E foi mais uma edição de Quente e Frio com Filomena Martins. Está de regresso segunda-feira.

E estarei.