Bica com Santos Silva: “Parceiros não são descartáveis na primeira esquina” /premium

27 Maio 2018

Santos Silva tomou um café com o Observador, explicou porque trouxe o debate ideológico ao PS e porque querer o partido ao centro não implica acabar com a geringonça. Embora lhe estreite o caminho.

Augusto Santos Silva aceitou tomar uma bica com o Observador no átrio da Exposalão, onde decorre o congresso do PS na Batalha. Bica não, “um cimbalino”, fez questão de corrigir este socialista do Porto que foi o principal responsável por neste congresso se ter travado um debate sobre o posicionamento ideológico do partido. Escreveu um artigo a reposicionar o PS ao centro, mas ao mesmo tempo diz que a atual solução política deve ser renovada, se os resultados eleitorais o permitirem.

Na conversa com o Observador, o socialista disse que o que fez e detonou um debate intenso no partido foi apenas “uma síntese onde se podem rever do ponto de vista doutrinário e ideológico grande parte dos militantes do PS”. Mas o que escreveu há mais de um mês também deixava nas entrelinhas a ideia de não voltar a repetir-se a solução governativa atual. Ou talvez não.

Quando diz que o PS não deve oscilar entre extremos pode deduzir-se que a atual solução não se deve repetir?
Não. quando escrevi que os movimentos pendulares são naturais e servem para irmos encontrando novas fórmulas, escrevi que não devem ser oscilação entre extremos. Isto quer dizer que o PS não deve abandonar o grande espaço político que é o seu o que, dependendo dos gostos, das terminologias e das formulações uns chamam de centro de esquerda, outros de socialismo democrático, outros de esquerda democrática e outros de trabalhismo.

E é tudo a mesma coisa?
Para mim é.

Está a falar do mesmo que Pedro Nuno Santos, no artigo que escreveu em resposta ao seu?
Esse artigo acrescenta elementos que enriquecem muito este debate.

Mas não concorda com ele.
Não concordo em duas coisas. A primeira é com a tese segundo a qual, para conquistar o centro, a melhor forma ou a única forma possível é afirmar claramente a posição de esquerda. Não concordo com essa opinião, acho que a forma de conquistar o eleitorado de que precisamos quando queremos ganhar eleições é falar para todos os eleitores, dirigirmo-nos a todos os eleitores. Não é dizermos que somos um partido que se afirma à esquerda e, a partir daí, tentar colonizar o centro, mas sim dizer que somos um partido de esquerda moderada que, por isso mesmo, se dirige virtualmente a todos os eleitores.

[Veja no vídeo o best of deste BICA especial com Augusto Santos Silva]

Esta discordância “entre amigos” — como chama a Pedro Nuno Santos, que considera “doutrinariamente próximo” — não inviabiliza, no entanto, que se repita a solução que António Costa arquitetou em 2015, embora Santos Silva também não endeuse a solução, como faz o jovem socialista. O homem que lidera a pasta dos Negócios Estrangeiros no Governo de António Costa diz mesmo que a outra discordância é de quem pensa que “este governo é bom porque não é um governo do PS sozinho e que se fosse um governo do PS sozinho seria mais imperfeito, impuro e que foi o facto de ter havido a necessidade de uma aliança à esquerda que purificou o PS”.

Mas isto também não significa que o PS deva seguir pela opção do bloco central. “Isso não é desejável”, argumenta Santos Silva nesta conversa, em que defende que “não interessa” que PS e PSD “sejam ambos centro”. “Os eleitores devem poder escolher entre alternativas claras”. E se, no final de todas as contas, o PS ganhar as eleições “com dimensão necessária para a atual fórmula se poder repetir, na minha opinião deve repetir-se”. Mas com condições que, por si só, podem inviabilizá-la, já que toca num ponto sensível da geringonça: os compromisso europeus.

O "entusiasmo" com Pedro Nuno Santos — uma das figuras que fez por ganhar protagonismo neste congresso em plena era Costa — "é  inteiramente merecido, é uma peça chave da atual solução política", diz Santos Silva.

Não tem nada contra uma maioria absoluta, ou tem?
Não tenho nada contra uma maioria absoluta, é uma coisa que o eleitorado pode decidir e não vale a pena efabular sobre isso.

Nem vale a pena pedir?
O que vale a pena pedir é o melhor resultado possível. Se os resultados eleitorais permitirem a renovação da atual solução política, ela deve fazer-se. Quer dizer repeti-la e renová-la, porque ela não pode ser repetida na base dos atuais compromissos. Esses têm sido cumpridos e, por isso, esgotam-se. Portanto, é preciso encontrar novos compromissos, mas com um novo nível de empenhamento. Não é possível imaginar uma solução mais duradoura do que esta conjuntura sem os partidos se entenderem também sobre questões como a política europeia, a política de segurança social ou a política laboral.

Só a questão da política europeia não é suficiente para tonar inviável a renovação desta maioria?
Não, como a atual solução política comprova não é a política europeia que impede a existência de um Governo do PS minoritário apoiado à esquerda no Parlamento.

Se o PS não precisar de a renovar, tanto melhor?
Com toda a dimensão que uma vitória do PS possa ter, o PS deve fazer a proposta de renovar a atual fórmula política. Se os seus parceiros à esquerda quiserem ir mais longe, devem discutir essa possibilidade.

Num contexto de maioria absoluta, BE e PCP têm condições para continuar a negociar?
É uma pergunta a que só eles podem responder. Para mim, os atuais parceiros parlamentares não são instrumentos descartáveis na primeira esquina. Não foram meramente instrumentais porque não tínhamos maioria e não são descartáveis à primeira possibilidade que o PS tenha de os descartar. Se foram fiáveis nestes dois anos e meio, tudo leva a crer que são parceiros fiáveis no resto da legislatura. Não impediram que o Governo do PS fosse tipicamente do PS, comprometido ao mesmo tempo com a consolidação orçamental e com o crescimento económico e o emprego numa nova política social. 

Aqui acaba por juntar-se a Pedro Nuno Santos, embora também não se atravesse por desenhar cenários pós legislativas de 2019, argumentando que essa é uma questão “prematura”. Tão prematura como diz ser falar de “pedronunismo”.

“Eu olho para o meu secretário-geral e vejo um tipo novo cheio de energia que mostrou uma enorme capacidade política. Lidera o partido sem qualquer espécie de contestação geral, é chefe de um dos governos em que o PS pode ter mais orgulho. Não vejo nenhuma discussão para o pós-António Costa que faça sentido fazer hoje a não ser por todos aqueles que tenham uma enorme dificuldade em lidar com o presente”, responde quando confrontado com eventuais futuros desafiadores para o pós-costismo no PS. Isto ainda que admita que o “entusiasmo” com Pedro Nuno Santos — uma das figuras que fez por ganhar protagonismo neste congresso em plena era Costa — “é  inteiramente merecido, é uma peça chave da atual solução política, foi uma peça chave na arquitectura dessa solução e é um dos melhores quadros do PS”.

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