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Bica com Santos Silva: "Parceiros não são descartáveis na primeira esquina" /premium

Santos Silva tomou um café com o Observador, explicou porque trouxe o debate ideológico ao PS e porque querer o partido ao centro não implica acabar com a geringonça. Embora lhe estreite o caminho.

Augusto Santos Silva aceitou tomar uma bica com o Observador no átrio da Exposalão, onde decorre o congresso do PS na Batalha. Bica não, “um cimbalino”, fez questão de corrigir este socialista do Porto que foi o principal responsável por neste congresso se ter travado um debate sobre o posicionamento ideológico do partido. Escreveu um artigo a reposicionar o PS ao centro, mas ao mesmo tempo diz que a atual solução política deve ser renovada, se os resultados eleitorais o permitirem.

Na conversa com o Observador, o socialista disse que o que fez e detonou um debate intenso no partido foi apenas “uma síntese onde se podem rever do ponto de vista doutrinário e ideológico grande parte dos militantes do PS”. Mas o que escreveu há mais de um mês também deixava nas entrelinhas a ideia de não voltar a repetir-se a solução governativa atual. Ou talvez não.

Quando diz que o PS não deve oscilar entre extremos pode deduzir-se que a atual solução não se deve repetir?
Não. quando escrevi que os movimentos pendulares são naturais e servem para irmos encontrando novas fórmulas, escrevi que não devem ser oscilação entre extremos. Isto quer dizer que o PS não deve abandonar o grande espaço político que é o seu o que, dependendo dos gostos, das terminologias e das formulações uns chamam de centro de esquerda, outros de socialismo democrático, outros de esquerda democrática e outros de trabalhismo.

E é tudo a mesma coisa?
Para mim é.

Está a falar do mesmo que Pedro Nuno Santos, no artigo que escreveu em resposta ao seu?
Esse artigo acrescenta elementos que enriquecem muito este debate.

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Mas não concorda com ele.
Não concordo em duas coisas. A primeira é com a tese segundo a qual, para conquistar o centro, a melhor forma ou a única forma possível é afirmar claramente a posição de esquerda. Não concordo com essa opinião, acho que a forma de conquistar o eleitorado de que precisamos quando queremos ganhar eleições é falar para todos os eleitores, dirigirmo-nos a todos os eleitores. Não é dizermos que somos um partido que se afirma à esquerda e, a partir daí, tentar colonizar o centro, mas sim dizer que somos um partido de esquerda moderada que, por isso mesmo, se dirige virtualmente a todos os eleitores.

[Veja no vídeo o best of deste BICA especial com Augusto Santos Silva]

Esta discordância “entre amigos” — como chama a Pedro Nuno Santos, que considera “doutrinariamente próximo” — não inviabiliza, no entanto, que se repita a solução que António Costa arquitetou em 2015, embora Santos Silva também não endeuse a solução, como faz o jovem socialista. O homem que lidera a pasta dos Negócios Estrangeiros no Governo de António Costa diz mesmo que a outra discordância é de quem pensa que “este governo é bom porque não é um governo do PS sozinho e que se fosse um governo do PS sozinho seria mais imperfeito, impuro e que foi o facto de ter havido a necessidade de uma aliança à esquerda que purificou o PS”.

Mas isto também não significa que o PS deva seguir pela opção do bloco central. “Isso não é desejável”, argumenta Santos Silva nesta conversa, em que defende que “não interessa” que PS e PSD “sejam ambos centro”. “Os eleitores devem poder escolher entre alternativas claras”. E se, no final de todas as contas, o PS ganhar as eleições “com dimensão necessária para a atual fórmula se poder repetir, na minha opinião deve repetir-se”. Mas com condições que, por si só, podem inviabilizá-la, já que toca num ponto sensível da geringonça: os compromisso europeus.

O "entusiasmo" com Pedro Nuno Santos — uma das figuras que fez por ganhar protagonismo neste congresso em plena era Costa — "é  inteiramente merecido, é uma peça chave da atual solução política", diz Santos Silva.

Não tem nada contra uma maioria absoluta, ou tem?
Não tenho nada contra uma maioria absoluta, é uma coisa que o eleitorado pode decidir e não vale a pena efabular sobre isso.

Nem vale a pena pedir?
O que vale a pena pedir é o melhor resultado possível. Se os resultados eleitorais permitirem a renovação da atual solução política, ela deve fazer-se. Quer dizer repeti-la e renová-la, porque ela não pode ser repetida na base dos atuais compromissos. Esses têm sido cumpridos e, por isso, esgotam-se. Portanto, é preciso encontrar novos compromissos, mas com um novo nível de empenhamento. Não é possível imaginar uma solução mais duradoura do que esta conjuntura sem os partidos se entenderem também sobre questões como a política europeia, a política de segurança social ou a política laboral.

Só a questão da política europeia não é suficiente para tonar inviável a renovação desta maioria?
Não, como a atual solução política comprova não é a política europeia que impede a existência de um Governo do PS minoritário apoiado à esquerda no Parlamento.

Se o PS não precisar de a renovar, tanto melhor?
Com toda a dimensão que uma vitória do PS possa ter, o PS deve fazer a proposta de renovar a atual fórmula política. Se os seus parceiros à esquerda quiserem ir mais longe, devem discutir essa possibilidade.

Num contexto de maioria absoluta, BE e PCP têm condições para continuar a negociar?
É uma pergunta a que só eles podem responder. Para mim, os atuais parceiros parlamentares não são instrumentos descartáveis na primeira esquina. Não foram meramente instrumentais porque não tínhamos maioria e não são descartáveis à primeira possibilidade que o PS tenha de os descartar. Se foram fiáveis nestes dois anos e meio, tudo leva a crer que são parceiros fiáveis no resto da legislatura. Não impediram que o Governo do PS fosse tipicamente do PS, comprometido ao mesmo tempo com a consolidação orçamental e com o crescimento económico e o emprego numa nova política social. 

Aqui acaba por juntar-se a Pedro Nuno Santos, embora também não se atravesse por desenhar cenários pós legislativas de 2019, argumentando que essa é uma questão “prematura”. Tão prematura como diz ser falar de “pedronunismo”.

“Eu olho para o meu secretário-geral e vejo um tipo novo cheio de energia que mostrou uma enorme capacidade política. Lidera o partido sem qualquer espécie de contestação geral, é chefe de um dos governos em que o PS pode ter mais orgulho. Não vejo nenhuma discussão para o pós-António Costa que faça sentido fazer hoje a não ser por todos aqueles que tenham uma enorme dificuldade em lidar com o presente”, responde quando confrontado com eventuais futuros desafiadores para o pós-costismo no PS. Isto ainda que admita que o “entusiasmo” com Pedro Nuno Santos — uma das figuras que fez por ganhar protagonismo neste congresso em plena era Costa — “é  inteiramente merecido, é uma peça chave da atual solução política, foi uma peça chave na arquitectura dessa solução e é um dos melhores quadros do PS”.

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