Por estes dias, O Brutalista é um dos candidatos aos Óscares, depois de já ter sido distinguido com três Globos de Ouro (para Melhor Filme Dramático, Melhor Ator e Melhor Realizador). Mas antes destas contas, o filme passou pelo Leffest, festival de cinema projetado pelo produtor Paulo Branco que trouxe a Lisboa o realizador Brady Corbet como convidado, ele que já vinha na altura com os galões de Melhor Realizador em Veneza. O norte-americano esteve sempre de óculos de sol, quando o encontrámos num hotel na Lapa, em Lisboa, local escolhido para a maior parte das entrevistas do festival.
“Peço desculpa pelos óculos, estou muito sensível nos olhos”, disse-nos, com um pouco de vergonha. O traje relaxado e a sinceridade contrasta com a monumental odisseia, em construção durante sete anos, a que decidiu dar vida: a história do arquiteto judeu húngaro, aluno da Bauhaus e sobrevivente do Holocausto, László Tóth (Adam Brody), que emigra para a Pensilvânia e reconstrói a carreira sob o controlo do industrial e colecionador endinheirado Van Buren (Guy Pierce).
O Brutalista é uma produção independente, que entretanto ganhou o selo da A24, a querer agigantar-se, fruto de um cineasta que não quer, por um segundo, acomodar-se ao status quo. E é também um filme que custou menos de dez milhões de dólares — número que pode surpreender muitos dada a escala da longa metragem — e que explora ingredientes chave de títulos que Corbet guarda na memória, como O Mestre (Paul Thomas Anderson), O Pianista (Roman Polanski) ou Era Uma Vez Na América (Sergio Leone): ganância, poder, megalomania, traumas de guerra e a psique humana. “O cinema é gosto. Gosto de dinâmicas extremas. Do silêncio radical, de muita cacofonia. De extremos. Para mim, é isso que transcende”, confessa em entrevista ao Observador. O O Brutalista estreia-se esta quinta-feira nas salas portuguesas.
[trailer do filme “O Brutalista” de Brady Corbet:]
Encontramos László em 1947, no pós-Segunda Guerra Mundial, a rumar a uma América que se transformou no sonho de milhares de emigrantes, terra onde o capitalismo ajudaria a suplantar feridas abertas pela guerra que devastou a velha Europa. A arquitetura, mais especificamente o brutalismo, verdadeiro protagonista neste filme, serviria de psicologia para curar e não deixar esquecer os horrores do passado. Laszló deixou para trás a mulher, “presa” na Europa, e tem pouco ou nada no bolso. À espera existe um familiar na Pensilvânia, que rapidamente se livrará dele, após um projeto de uma biblioteca encomendado pelos filhos do industrial Van Buren não correr como o expectável.
Em todos os passos da vida de László, temos de retirar uns minutos para absorver o ambiente à volta. Cada plano é um convite semelhante ao de visitar uma cidade desconhecida. A odisseia com 215 minutos e um intervalo de mais quinze — duração que, registe-se, não tem feito fugir muita gente das salas tal é a receção positiva que o filme tem tido — foi rodada, em grande parte, recorrendo ao Vista Vision, famoso formato caído em desuso, uma película desenvolvida nos anos 50. Brady Corbet e a sua equipa causaram impacto em Veneza ao carregar cerca de 136 quilos de fita de 70 mm, dividido em 26 compartimentos, deixando no ar um tom a megalomania, mas também um sentimento de rebeldia face às mudanças tecnológicas.
A extrema ambição que brota de O Brutalista em cada um dos seus atos é espelhada no cansaço do realizador quando se refere ao cinema atual. “Prefiro filmes que tentam alcançar as estrelas e vejo cada vez menos essa vontade. Há muitos contributos para que tal não aconteça, como o surgimento do streaming. Mas quando me sento para trabalhar num projeto, tento operar no perigo. Se não resultar, será um desastre.”
▲ "Se este filme fosse mal recebido, se não tivesse nenhuma vida comercial, poderia significar que não voltaria a filmar. Durante o processo, fiz questão de pensar que poderia ser o meu último filme"
Brady Corbet refere que não foram poucas as pessoas que lhe disseram que depois de O Brutalista, escrito a quatro mãos com a mulher, Mona Fastvold, nunca mais faria outro filme. Depois de largar uma carreira de ator norte-americano com paixão pelo cinema europeu, trocou os palcos pela cadeira que se esconde atrás das câmaras. Trabalhou com Lars von Trier em Melancholia (2011) ou indiretamente com Michale Haneke, no remake de Funny Games (2007). Ainda se juntou a nomes como Olivier Assayas (em Clouds of Sils, em 2014) ou Ruben Ostlund (Force Majeure, também em 2014). Mas em 2015, catapultou-se para a realização com The Childhood of a Leader, seguido de Vox Lux, com Natalie Portman no papel principal. lançado três anos depois.
Nenhum dos seus trabalhos anteriores teve o impacto deste filme que se estreia agora. Nem na crítica. Nem nos prémios. Nem no público. “O risco é interessante, se não arriscas, não sei porque te vais importar. Se este filme fosse mal recebido, se não tivesse nenhuma vida comercial, poderia significar que não voltaria a filmar. Ou faria filmes na minha sala de estar. Durante o processo, fiz questão de pensar que poderia muito bem ser o meu último filme. Gosto de operar assim, sem seguir receitas”, diz-nos.
Enquanto realizador, começou por explorar as origens infantis de um homem autoritário, foi atrás dos devaneios de uma figura pop, e agora decidiu mergulhar nas raízes do sonho americano. Que, já agora, é uma grandessíssima treta, segundo Brady Corbet. “O sonho americano é uma merda. A minha família é financeiramente estável, mas não temos poupança, nem casa. Conseguimos viver, cheque a cheque. Passamos por menos dificuldade do que no passado, mas não temos um bom seguro de saúde. Ainda hoje a minha mulher está a pagar contas de hospital com dois anos. O país é ostentação. Em muitas partes, os EUA conseguem ser piores do que o terceiro mundo. Mas existe uma espécie de orgulho nacional. Nem tudo é mau, claro. Ainda assim, é mais perturbador pensar na vida depois do capitalismo do que na vida depois da morte”, refere. Esta última frase poderia muito bem ser o epitáfio da mais recente obra de Corbet, mas o filme ainda tem muita vida para dar em 2025.
▲ "Faço e fiz muitos takes, mas não muitos set ups. Não sinto, ao contrário de outros realizadores, que o filme se revela na sala de montagem. Prefiro falhar nos meus termos do que no de outras pessoas"
Esse desapontar filosófico não cheira a discurso bonito para ser dito na cerimónia dos Óscares, caso O Brutalista seja nomeado e venha a ganhar um ou mais galardões no próximo mês de março. Nos Globos de Ouro, por exemplo, Brady Corbet fez questão de usar a palavra para pedir mais respeito e, sobretudo, “mais poder” para os cineastas. “O desempate do corte final [a diplomacia entre realizadores e produtores] deveria pender para os realizadores. Sei que é controverso, mas não deveria ser.” Acaba por ser, numa altura em que, como se viu pelos números de 2024, os filmes mais vistos do ano foram sequelas, blockbusters de super-heróis e grandes produções de animação, onde estúdios com muito financiamento querem apostas seguras sem grandes intervenções autorais. E torna-se controverso porque um filme de três horas e meia sobre (e nunca é só sobre um tema) a relação tóxica de um artista, ou autor, com o seu comprador, ou o seu “dono”, está a conseguir deixar impacto em Hollywood.
“Desde o início que sabíamos que este filme iria ser sobre brutalismo. E assim foi. Esta é a versão que queríamos. Muitos dos monumentos saídos dessa arquitetura são extraordinárias manifestações físicas do trauma do pós-guerra. Muito do que se vê no filme é o que estava no set. Tivemos de decidir entre fazer o teto ou o chão. Faço e fiz muitos takes, mas não muitos set ups. Não sinto, ao contrário de outros realizadores, que o filme se revela na sala de montagem. Prefiro falhar nos meus termos do que no de outras pessoas.”
Apesar do orçamento a rondar os dez milhões de euros (extraordinariamente curto para uma produção desta dimensão), o filme contou com uma equipa de cerca de 250 pessoas, entre as quais, a mulher de Brady Corbet, responsável não só pelo guião, mas também por desenhar cenários importantes para o filme, como o da biblioteca Van Buren, homem que desafia Laszló a criar um grande centro social e de artes chamado “O Instituto”, com ginásio, igreja e biblioteca. Uma obra quase faraónica. O arquiteto do filme — tal como o arquiteto da vida real, que deu origem à personagem desta longa-metragem — faz uma travessia por trabalhos pesados, sujos de carvão. Verá a sua mulher de volta, Erzsébet (Felicity Jones), jornalista em cadeira de rodas. E nunca conseguirá livrar-se da dependência do álcool, das drogas e de outros vícios surgidos do Holocausto.
▲ "Não estou interessado em repetir fórmulas e em fazer dez filmes como este. Gosto do sucesso que está a ter, mas é bom não levar tudo num sentido literal"
Se Brady Corbet acredita que, atualmente, “estamos condenados” ao capitalismo, como diz, e a ser incapazes de criar novos modelos de sociedade, em O Brutalista, Laszló é a vítima e é o agressor desse sistema. Ou seja, não estamos perante uma simples homenagem. Está lá o triunfo e a tragédia do sonho americano, mas vemo-lo através de cada gesto, dúvida e ação de Laszló Toth. Estamos com ele, sempre, sem filtros. Vemo-lo completamente nu, desde que sai do barco e admira a Estátua da Liberdade, até ao dia da retrospetiva em sua honra em Veneza.
Um pouco como a definição do próprio brutalismo, bem descrito em sites da especialidade: “Cru, poderoso, emocional, que cria uma experiência visceral”. E é importante dizer, sendo uma consideração já feita por outros jornalistas e críticos, mas só constatada depois de conhecer Brady Corbet, que o brutalismo define a maneira de estar deste realizador, marca a visão que revela. “É quase impossível ser-se feliz e ser-se humano, é difícil ser empático e não sentir a dor no mundo. Existe sempre agonia e excitação em criar algo novo. Será que vale a pena? Diria que sim. Os fins têm justificado os meios, no meu caso. Fazer este filme foi saltar para o abismo e perder o controlo. Houve muita coisa que me fugiu. Mas não estou interessado em repetir fórmulas e em fazer dez filmes como este. Gosto do sucesso que está a ter, mas é bom não levar tudo num sentido literal.”
Na semana em que o Observador conversou com Brady Corbet, Donald Trump seria eleito Presidente dos Estados Unidos da América. A última pergunta do Observador foi parar às mais recentes eleições. Não se notou qualquer receio do realizador em relação ao regresso do líder republicano à Casa Branca. Em setembro do ano passado, Brady Corbet disse ao The Hollywood Reporter que Donald Trump tinha como vontade “retirar todos os edifícios burocráticos do estilo brutalista em Washington”: “Chegou mesmo a dizer que queria retirá-los por serem edifícios modernos horríveis e feios”. O plano, lê-se no artigo, ficaria conhecido como “Make Federal Buildings Beautiful Again”, fazendo regressar o estilo arquitectónico clássico. “Não sei o que se passa com os autocratas, mas adoram arquitetura fascista. Adoram granito, mármore, é hilariante. Se perguntássemos a Trump pelo arquiteto nazi Albert Speer, provavelmente não saberia quem era, mas é fascinante que Trump tenha os mesmos instintos de autocratas e ditadores. No entanto, não estou assim tão preocupado com o resultado destas eleições. Estava à espera. Vão ser anos miseráveis. Mas a vida é longa.”