Ouve-se uma violinista de rua a tocar o Adagio da Sonata para violino solo n.° 1 de Bach. As pessoas param, amiúde, para a admirar. Inclinam a cabeça e suspendem o passo. É um final de manhã de sábado, as nuvens ameaçam, mas o sol é teimoso e a Avenida da Liberdade enche-se de vida, como uma boulevard parisiense.
Braga é Capital Portuguesa da Cultura 2025 e isso manifesta-se no pulsar da cidade. Seja pelo slogan “Abre a tua Porta” ou pela nova logomarca, repetidos em mupis e fachadas de edifícios, seja na programação artística que, saindo dos clássicos equipamentos culturais, contaminou o espaço público para questionar “Que cidade é esta que temos hoje em dia?”.
A pergunta é lançada por Daniel Duarte Pereira, um dos sócios da plataforma de arquitetura bracarense Space Transcribers. “Enquanto arquitetos, interessa-nos fazer perguntas e não o fazer sozinhos.” Essa atitude explica, em grande parte, o trabalho que têm vindo a desenvolver no território nos últimos dez anos e do qual a iniciativa Vamos Falar?, de auscultação da população sobre temas transversais à cultura, ecologia, educação e desenvolvimento sustentável, é só um exemplo.
Com a Capital Portuguesa da Cultura, o coletivo de arquitetos foi chamado a intervir em diferentes projetos, todos eles partindo da premissa de que o gesto arquitetónico, mais do que a concretização de uma obra, é uma ferramenta que está ao serviço do debate coletivo daquilo que é o viver de uma cidade.
O Festival de Arquitetura e Arte Forma da Vizinhança, que terá lugar no final de março, é talvez a face mais visível desse trabalho, ao convocar arquitetos, artistas e habitantes de bairros periféricos a criarem novos espaços de convivência. “Queríamos levar projetos culturais para fora do centro histórico, que é onde está 70% da mancha urbana, e perceber se ainda faz sentido falar de vizinhança nesses lugares.” Indiretamente, este festival dialoga com o Descentrar, um programa municipal que já vai na quinta edição e que pela primeira vez abrange as 37 freguesias de Braga com uma programação cultural em rede.
▲ Braga'25 quer assegurar um programa que chegue a diferentes latitudes e públicos distintos. Nas fotos: Maria Trabulo, as Mulheres do Minho e Kim Gordon
SALVADOR COLACO
Outro exercício resultante do processo de reflexão dos Space Transcribers é a ação Contra-Quiosque, que terá o seu início a 29 de março. Partindo de cinco quiosques abandonados, espalhados por diferentes zonas da cidade, o coletivo convidou cinco artistas para criarem cinco obras, centradas em arquivos e narrativas de comunidades menos representativas de Braga. Emília Rigová, Hilda de Paulo, Maria Trabulo, Marta Machado e Miguel Teodoro atuarão sobre temas como as migrações, a comunidade LGBTQI+, a nanotecnologia ou os ecossistemas, este último em diálogo com o Banco Português de Germoplasma Vegetal, uma das maiores estruturas mundiais de conservação vegetal. Em novembro, será inaugurada uma exposição final que agregará estes cinco projetos.
Por fim, o programa Shopyard incidirá sobre os chamados centro comerciais de primeira geração, que floresceram nos anos 80 e 90 e que se encontram atualmente num estado de semiabandono, encalhados entre o passado e a incógnita do futuro. “Até agora, já mapeámos 25 shoppings no centro da cidade”, diz Daniel Duarte Pereira, frisando a importância de discutir estas estruturas de uma perspetiva urbanística, mas também sociológica e coletiva.
A partir do Centro Comercial Santa Cruz, um corpo animalesco de nove andares, onde ainda há montras com preços em escudos e um sem número de lojas vazias, o coletivo de arquitetos ousou um gesto tão desafiador quanto simbólico: comprou uma loja no piso principal, onde o coração do Santa Cruz resiste e, com a intervenção do estúdio Oitoo, do Porto, retirou os vidros da loja para colocar uma cortina circular e amovível amarela e transformar o espaço numa espécie de arena.
“E se de repente todos tirássemos os vidros?”, provoca Daniel, colocando o ónus da intervenção nos limites entre propriedade privada e espaço público e nas relações entre condóminos, entre comerciantes e público e, finalmente, entre este tipo de edifícios e a cidade. Ao longo de 2025 serão desenvolvidas cinco residências artísticas e oficinas abertas à comunidade.
Subir a bitola
Grande parte do programa da Braga’25 expõe vários eixos de relação e é exatamente aí que reside a sua riqueza e complexidade, até porque a cidade testemunhou uma forte transformação social e cultural de há 40 anos para cá. Em termos de população, Braga é o concelho do país que teve um crescimento mais acentuado nos últimos anos, tendo ultrapassado os 200 mil habitantes, entre os quais convivem 130 nacionalidades.
Por outro lado, a riqueza patrimonial e religiosa, que é uma marca cultural identitária do território, dialoga com manifestações vanguardistas — a integração de Braga na rede de cidades criativas da UNESCO no campo das Media Arts, em 2017 foi aqui um passo decisivo. Está inclusivamente prevista a inauguração de um Media Arts Center no antigo Cinema S. Geraldo, projeto apresentados pelo executivo liderado por Ricardo Rio que, para 2025, aprovou um orçamento recorde de 242 milhões de euros, dos quais 13,5 milhões de euros estão alocados à cultura.
“Continuamos a crescer em termos de investimento, mas não é algo atípico face ao percurso que a cidade tem vindo a fazer ao longo dos anos. Valorizamos muito a dimensão cultural como fator competitivo para o desenvolvimento do território”, refere ao Observador o Presidente da Câmara Municipal de Braga, que terminará o seu terceiro e último mandato este ano.
Na Estratégia Cultural de Braga 2020‑2030, que posiciona a cultura como motor do desenvolvimento sustentável da cidade, foram privilegiados os pilares ligados à “programação, à capacitação de agentes, à descentralização cultural, ao envolvimento de comunidades e à internacionalização”, nota Ricardo Rio. No fundo, pilares transversais à Capital Portuguesa da Cultura.
Os destaques da Braga’25 incluem a primeira exposição em Portugal de Kim Gordon, Object Of Projection, que revisita os últimos 10 anos da carreira da artista fundadora dos Sonic Youth; a passagem da mais recente peça de Tiago Rodrigues, No Yogurt for the Dead, pelo Theatro Circo (27 e 28 de fevereiro); a estreia de Maria João Pires em Braga, num concerto que terá lugar em meados de junho; o concerto de Mário Laginha integrado no Centenário de Carlos Paredes (21 de fevereiro); as parcerias com o Teatro Nacional de São João, o Teatro Nacional Dona Maria, a Companhia Nacional de Bailado e o Teatro Nacional de São Carlos, que, de forma inédita, passam na mesma temporada por Braga; a encomenda ao Cardeal José Tolentino de Mendonça que, a propósito do Utopia – Festival Literário, agendado para novembro, criará um texto a ser interpretado pelas estruturas de teatro locais; o espetáculo que junta pela primeira vez em palco a bailarina e coreógrafa Vera Mantero com a trompetista e improvisadora Susana Santos Silva (9 de fevereiro); ou o projeto encomendado a Marco Martins, que acontece no final do ano.
▲ Há uma ideia de transversalidade a toda a programação, quer de artistas e de práticas, quer do modo como a cultura se imiscui noutras áreas da cidade
Grande parte destas produções têm lugar no Theatro Circo e no gnration, equipamentos integrados na empresa municipal de cultura de Braga, a Faz Cultura, e que tiveram um reforço de financiamento “para poder ter um pouco mais de músculo” em ano de Capital Portuguesa da Cultura. “Um exemplo do reforço que a Braga’25 permitiu é o espetáculo que encomendámos, juntamente com várias salas, ao Norberto Lobo e ao Ben Chasny [Six Organs of Admittance]. Se calhar de outra forma não o teríamos feito ou teríamos feito com alguma dificuldade”, refere Ilídio Marques, diretor musical do gnration, espaço nascido em 2012 no âmbito da Capital Europeia da Juventude. À semelhança do concerto de Mário Laginha, também este fará parte do Centenário de Carlos Paredes (14 de fevereiro).
Por sua vez, Luís Fernandes, diretor artístico da Faz Cultura, realça que a lógica de programação destes dois espaços assentou no esforço de suprir “algumas lacunas que estavam presentes no resto da oferta”: “Quer o programa do gnration quer o do Theatro Circo foram feitos tendo a consciência plena do que era o programa da Braga’25. Acho que, quer eu, quer o Ilídio, tentámos que a bitola subisse de uma forma homogénea e não estivesse apenas focada num só momento”.
A cidade chamada a intervir
Há várias camadas de programação nesta Braga’25, na qual os cidadãos e agentes da cidade tiveram uma palavra a dizer. Da convocatória Todo-o-Terreno, que incentivava a apresentação de ideias a serem realizadas durante todo o ano em espaços não institucionais da cidade, saíram projetos como a Cindy’s Sisters, um ciclo dedicado ao hip-hop feito por mulheres.
“Braga tem uma comunidade muito grande ligada ao hip-hop, mas não existe um espaço para essa comunidade nem uma programação regular”, diz Sara Sofia Gonçalves, mentora do projeto que levará ao Antigo Quartel dos Bombeiros Sapadores quatro concertos de artistas consolidadas e emergentes do circuito. O primeiro acontece no dia 8 de março e será protagonizado pela rapper e graffiter Muleca XIII. Antes do concerto, a artista dará um workshop de graffiti e haverá ainda uma conversa entre a jornalista Lia Pereira e a repórter Beatriz Freitas sobre a história dos nomes femininos no hip-hop nacional.
Todos os concertos, aliás, serão complementados com uma programação paralela de conversas e workshops a decorrer nos bairros das Andorinhas e das Parretas. “Queria chamar as pessoas para dentro destes bairros, que são lugares estigmatizados”, explica Sara. Além de Muleca XIII, passarão pela Cindy’s Sisters a pioneira do rap galego Wöyza (13 setembro), que colaborou com os Dealema no tema Segunda Vinda (A profecia) (2008), Máry M, finalista do programa She Raps Portugal (17 maio) e a rapper portuense Gabi Alpha (12 julho).
Igualmente no âmbito do Todo-o-Terreno, a livraria independente Centésima Página, que celebra 25 anos de atividade, apresentou um programa literário a olhar para o futuro, que foge a um “padrão mais intelectualizado”: “A cidade teve um forte crescimento de população e felizmente temos vindo a testemunhar um rejuvenescimento de leitores”, referem as livreiras e empresárias Sofia Afonso e Helena Veloso.
Para a Braga’25 propuseram um ciclo de curtas, a criação de uma biblioteca com 100 títulos sugeridos por leitores e personalidades ligadas aos livros, a instalação na cidade de caixas de correio itinerantes onde as pessoas podem deixar cartas ao futuro, posteriormente selecionadas e exibidas num mural, uma conferência que cruza literatura e tecnologia e um evento sobre leitura, a partir da recolha de várias páginas número 100 de 100 livros diferentes.
Criar pontes de futuro
Para Sofia e Helena é claro que uma das grandes forças da cidade está na sua “dinâmica associativista”, expressa em coletivos como o Cantigas do Poço, plataforma de bandas locais, muitas delas, como as aMijas, com salas de ensaio no Centro Comercial Galécia; o Coletivo Kindergarten, que atua no campo da performance e das instalações; a Encontros da Imagem, que organiza todos os anos o Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais; ou o SOMA, um dos espaços mais recentes da cena cultural de Braga, nascido numa antiga oficina de automóveis, junto à Estação de Comboios de Braga.
“Queremos que este seja um lugar para bandas da zona, que muitas vezes não têm espaço para mostrar o seu trabalho, e fazer com que se gere uma dinâmica entre vários coletivos”, refere o proprietário Xavier Antunes. Dividindo-se em sala de concertos e clubbing, um espaço exterior ideal para o tempo quente, e salas de residência artística de exposições, por onde já passou o a Encontros da Imagem, o SOMA está neste momento a criar estruturas para se tornar numa Associação Cultura.
▲ Joana Meneses Fernandes, Fernando P. Ferreira e Daniel Duarte Pereira fazem parte da equipa de curadores desta Capital Portuguesa da Cultura
Para já, Xavier debate-se com problemas de licenciamento que têm causado alguns entraves à programação. A licença corrente apenas permite a atividade do espaço até à meia-noite, segundo informação avançada pela Câmara Municipal de Braga, que estará a avaliar a possibilidade de alargar esse horário. Aliás, durante o festival SQUARE, que aconteceu entre 29 de janeiro e 1 de fevereiro em Braga, Guimarães, Famalicão e Barcelos, o SOMA foi um dos espaços parceiros, recebendo os concertos de Ricardo Martins, Psudoku e Ale Hop, que terminaram já depois das duas da manhã. “Vamos abrindo a porta aos poucos”.
No total, Braga’25 tem 180 parceiros locais, divididos em vários projetos, muitos deles pensados de raiz para a cidade. “Envolver as comunidades locais e agentes locais foi sempre uma das nossas prioridades”, afirma Joana Meneses Fernandes, Coordenadora Executiva da Capital Portuguesa da Cultura.
SQUARE: o festival que quer “sair do circuito” para propor novas geometrias
Segundo a própria, há “três níveis de colaborações” que fundamentam a programação: “uma base muito sólida de agentes locais; um segundo nível de parceiros à escala nacional; e depois um terceiro de parceiros internacionais. Estas três escalas correspondem aos objetivos que nós estipulamos para a Capital Portuguesa da Cultura, que é, em primeiro lugar, celebrar e dar visibilidade à criação artística portuguesa contemporânea; em segundo lugar, fazê-lo com ligação à Europa e a parceiros internacionais; e em terceiro lugar, a capacitação e o incrementar de oportunidades para o setor local”.
Há uma ideia de transversalidade a toda a programação, quer de artistas e de práticas, quer do modo como a cultura se imiscui noutras áreas da cidade, como é exemplo a iniciativa Trajectos Comunicantes, que consiste na instalação sonora nos autocarros, ou o Clube Raiz, que cruza a tradição musical de Braga e do Minho com linguagens artísticas contemporâneas, a gastronomia e o património histórico, que se quer vivo e não cristalizado no tempo.
“Quando temos um programa nestas lógicas de colaboração com parceiros de diferentes experiências e escalas territoriais, há uma contaminação de novas práticas colaborativas que ficam nesse tecido e nos agentes da cidade e que, de alguma forma, irá mudar a maneira como vão continuar a realizar o seu trabalho artístico depois de 2025.”
A Capital Portuguesa da Cultura é, para Joana Meneses Fernandes, uma oportunidade para se criarem pontes e para se lançarem reflexões mais abrangentes: “Uma Capital Portuguesa da Cultura também deve ter como obrigação refletir sobre algumas questões da nossa sociedade contemporânea e acredito que muitos dos nossos projetos lançam precisamente o olhar para alguns desafios que são comuns enquanto sociedade”. Abram-se então as portas de Braga para que esta aragem de futuro arrepie todo o país.