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"Não Há Papéis para Velhos" Carlos Coutinho Vilhena José Eduardo
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O ator octagenário José Eduardo juntou-se a Coutinho Vilhena e fez stand-up pela primeira vez no Sagres Campo Pequeno, em maio de 2025, na primeira parte do espectáculo "Snob"

Vítor Pream

O ator octagenário José Eduardo juntou-se a Coutinho Vilhena e fez stand-up pela primeira vez no Sagres Campo Pequeno, em maio de 2025, na primeira parte do espectáculo "Snob"

Vítor Pream

Carlos Coutinho Vilhena: "Tenho medo de envelhecer e de ficar sem público. Mas e se provasse que não perdemos a piada com a idade?"

No documentário "Não Há Papéis Para Velhos", Carlos Coutinho Vilhena quer mostrar como José Eduardo se estreou no stand-up aos 80 anos. Em entrevista, fala sobre o filme, a velhice e cancelamentos.

Carlos Coutinho Vilhena não é adepto de contar sempre a verdade. Já fez dois (alegados, segundo o próprio) documentários, disponíveis no seu canal de YouTube, mas, em ambos, permanece a dúvida se trabalha com a realidade ou com a ficção. Segundo o humorista, o trunfo está algures no meio, uma tradição renovada no mais recente projeto, Não Há Papéis Para Velhos.

Aqui, a questão de fundo é outra, e o protagonista um senhor que muitos devem reconhecer — apesar das marcas da idade. José Eduardo já foi uma figura recorrente da televisão portuguesa, que nos últimos anos tem sido remetido para papéis acessórios em novelas e séries. Com 81 anos e problemas motores debilitantes, tem um grande desafio pela frente: provar que é possível ter piada na terceira idade. Mais difícil ainda, demonstrar que uma pessoa idosa e sem experiência pode fazer stand-up.

A moral da história é que dá para rir na velhice e da velhice, pelo menos essa é a opinião de Carlos Coutinho Vilhena, depois de observar a evolução daquele a quem chama carinhosamente de Zé Eduardo. Com o apoio da Casa do Artista, em Lisboa, escreveu o texto que o ator octogenário disse no palco do Sagres Campo Pequeno (na abertura do espectáculo Snob, em maio de 2025), perante o olhar surpreendido do público e a lente da câmara. A partir desta quarta-feira, essas imagens — que rejeitam qualquer limitação ao nível de género, mas primam pela qualidade estética — juntam-se a um catálogo de séries cómicas, produzidas pelo artista, que já inclui O Resto da Tua Vida e Clube da Felicidade (além dos sketches já antigos da série Bon Vivant). Afinal, parece redutor chamar apenas comediante a alguém com um currículo tão abrangente e distribuído por diversos formatos, que também se tornou empresário quando fundou a agência Finesse, em 2025.

Numa conversa que explora os desafios de envelhecer no espaço público, os limites da realidade e da ficção e a comédia enquanto negócio, houve ainda espaço para algumas declarações a respeito dos cancelamentos no Commedia À La Carte Fest, mais ou menos justificados pelas opiniões de Jerry Seinfeld sobre o conflito israelo-palestiniano. Pouco categórico na sua opinião sobre o assunto, Coutinho Vilhena reforça a importância de mobilizar as artes para a luta ativista. Talvez seja essa a melhor forma de fazer frente a posicionamentos políticos “abjetos”, diz.

"Não Há Papéis para Velhos" Carlos Coutinho Vilhena José Eduardo

"[Para o documentário], queríamos alguém com mais de 80 anos, que tivesse alguma fragilidade aparente, mas lucidez para fazer um espetáculo à frente de 5.000 pessoas", recorda Carlos

Vítor Pream

Este novo projeto vai ser publicado no YouTube esta quarta-feira, segundo demonstra o trailer recentemente divulgado. Não Há Papéis Para Velhos é uma série, como os anteriores O Resto da Tua Vida e Clube da Felicidade, ou uma longa?
É um documentário, de 50 minutos.

O trailer sugere que este documentário, como as séries já mencionadas, explora a indefinição entre aquilo que é ficção e realidade. Será assim?
É mais realista do que O Resto da Tua Vida, mas tem umas partes que, em termos de narrativa, são ficcionadas — e que acho mais interessante não revelar. Porque, para a maior parte das pessoas, tudo naquele projeto é real. Eu brinco um bocado com as expectativas [do público], mas acho mais interessante isto de pegar na realidade e depois tratá-la como se fosse ficção.

Mas é uma escolha puramente estética? Gosta de desafiar os limites do género para ver até onde consegue chegar?
Diria que é uma opção artística, no sentido em que gosto de trabalhar com a realidade, mas a realidade nem sempre é interessante para o público. Muitas vezes, os documentários ultrarrealistas não têm ritmo ou não se baseiam nos 12 passos da narrativa que são normais numa série de ficção. Os meus projetos demoram sempre muito tempo a sair, porque levo meses a editar e gosto de tornar a história atrativa para as pessoas: pegar na realidade, mas utilizar ferramentas de escrita de ficção para tornar aquilo mais interessante.

Isso significa que não houve qualquer guião, filmaram uma sucessão de acontecimentos espontâneos que depois montaram?
Exatamente.

"Acho interessante [quando] não se percebe bem se é ficção, se é documentário, se é um sketch, se é um vlog. Gosto de brincar com a estrutura, fazer algo com ritmo e que provoca alguma coisa [no público] sem ficar preso a um formato — acho que é nessas experiências que se tropeça em coisas interessantes."

Como é que entrou em contacto com o José Eduardo? Foi através do programa Casa Feliz, da SIC, que aparece no trailer?
Não, não. Há muitos anos que tenho um debate com colegas humoristas sobre se perdemos a piada [com a idade] ou se o humor fica mais apurado, além de que todos temos medo de envelhecer, eu também tenho esse medo — tenho medo de envelhecer e de ficar sem público. Certo dia, estava à conversa com o Carlos Contente, que foi o rapaz que fez a primeira parte da [minha] tour, e pensei: “E se fôssemos buscar alguém com mais de 80 anos para testar esta ideia? E se escrevêssemos um texto de stand-up, ou seja, uma linguagem contemporânea [de entretenimento]? E se provasse que, com muito trabalho, dá para chegar lá, que não perdemos a piada com a idade? Que se calhar perdemos rapidez ou intensidade, mas a piada não?

A partir daqui, o documentário mostra todo o processo de decisão do nosso protagonista. A certa altura, o meu manager — na altura, da Bridgetown, entretanto estou noutra agência [a Finesse] — sugeriu-nos a Casa do Artista, porque estávamos na dúvida entre contratar alguém conhecido ou anónimo. O Zé Eduardo foi uma ótima surpresa.

Foi fácil convencê-lo a participar?
No início sim, porque estamos a falar de um trabalho que foi pago, e ele ainda faz coisas como ator. O conceito [do projeto] é um pouco difícil para alguém da idade dele, porque queríamos criar um texto de stand-up baseado na sua vida e carreira e naquilo que são os estereótipos dos Malucos do Riso, a concorrência com Os Batanetes — por exemplo —, o facto de ele ter estado na Guerra [Colonial], de ter sido contemporâneo da Amália… Portanto, ele aceitou logo, mas depois passámos pelo processo de tentar explicar a alguém de outra geração ideias que podem parecer mais fora da caixa ou até pouco sensatas. Portanto, não foi fácil. Acho que o documentário ficou interessante pelas várias tentativas de alteração do texto ou as vezes em que ele achou que não ia conseguir fazer [aquilo]. Da nossa parte, isso exigia sempre um esforço de debate e diplomacia, para negociar cada piada, cada ensaio, cada ideia. E, para um ator, é difícil falar da sua vida em público. Tem de se expor.

"Não Há Papéis para Velhos" Carlos Coutinho Vilhena José Eduardo

"Passámos muitos dias na Casa do Artista [e] aquilo é um lugar que mete medo, porque achamos que a velhice está longe, mas é a única certeza que temos", admite Carlos

Vítor Pream

Qual foi o envolvimento da Casa do Artista?
A Casa do Artista tem duas modalidades, ou seja, tem pessoas que efetivamente passam por dificuldades e pessoas que pagaram as quotas, são sócios, e aguardam em lista de espera. Pessoas [autónomas], que fazem a sua vida, como a Simone de Oliveira ou o José Eduardo, que chegam a uma fase da vida em que ainda trabalham e são pessoas independentes, mas podem usufruir de uma série de parcerias que a Casa do Artista oferece, como cuidados de saúde. Foi a Casa do Artista que, depois de um briefing nosso, sugeriu o Zé Eduardo. Queríamos alguém com mais de 80 anos, que tivesse alguma fragilidade aparente, mas lucidez para fazer um espetáculo à frente de 5.000 pessoas — o que não é fácil, por causa do [número de] ensaios e da magnitude dos eventos.

Além de vos pôr em contacto com o José Eduardo, que outros apoios facultou a Casa do Artista?
Também disponibilizaram um auxiliar, que o acompanhou durante todo o processo — nos ensaios, filmagens e espetáculo.

E o José Eduardo apresentou-se ao público na abertura do espetáculo de stand-up do Carlos, Snob, no Sagres Campo Pequeno?
Exatamente, ele fez dez minutos de stand-up depois do Carlos Contente, que fez os primeiros 15 — como acontece num espetáculo de comédia normal, onde costumam existir dois openers que atuam antes do cabeça de cartaz.

O público ficou surpreendido?
Aquilo para o público foi bastante exótico. Nós estávamos com medo, mas as pessoas, a certa altura, começaram a reconhecer a cara dele dos Malucos do Riso e do Maré Alta, porque ele era comandante naquele episódio do “Pipi, parou” e fez uma série de piadas sobre isso.

"Há pessoas que podem não querer que aquela seja a sua última imagem e essa é uma questão também complicada — decidir o que mostramos e não mostramos. Nem fizemos muitos planos de outros idosos, porque achámos melhor não os expor daquela forma. Ir à Casa do Artista e ver uma série de atores, que foram importantes em diferentes tempos, numa situação de fragilidade, deu-nos uma chapada de realidade."

Não Há Papéis Para Velhos deve o seu nome a uma frase que o ator Manuel Cavaco disse numa entrevista.
Sim, uma frase impactante, que serviu de premissa ao projeto. Acho sempre interessante explorar os medos, que todos nós, artistas, temos. Envelhecer parece uma realidade muito distante para pessoas da minha idade. Mas são raros os casos de atores — até mais do que de humoristas — que terminam a carreira com alguma dignidade. Esse lugar frágil e de vulnerabilidade parece-nos interessante e, quando estávamos à procura de referências e de entrevistas sobre esta temática, apareceu-nos esta citação do Manuel Cavaco. Andávamos à procura de um nome para o documentário e percebemos que já existiam umas coisas no texto que faziam um match perfeito com a frase dele.

E depois desta experiência, acha mesmo que Não Há Papéis para Velhos?
Acho que, enquanto sociedade, olhamos para a terceira idade como uma coisa distante, até porque quem tem voz [e influência no meio] normalmente vagueia entre os 25 e os 55, 65 anos de idade. Essas pessoas não se reveem muito nas vivências de uma pessoa de 80 e tal anos. [O estigma é evidente] sobretudo no caso dos atores, que têm um trabalho que exige decorar texto, atividade física, memória… Muitas vezes, pelo que fui percebendo, as produtoras optam por contratar pessoas mais novas para desempenhar papéis de personagens idosas, e, para isso, são caraterizadas com maquilhagem e roupa [sugestiva dessa faixa etária]. Pelas conversas que tive com o José Eduardo, há produtoras de novelas ou de séries que têm números limite para papéis de pessoas mais velhas. Ao mesmo tempo, a população portuguesa é extremamente envelhecida, portanto, há uma percentagem de idades que não é retratada nos projetos [audiovisuais] — sobretudo nos trabalhos que dão mais conforto financeiro aos atores, que são as novelas e as séries, em Portugal, até mais do que o cinema. Já sabia que as coisas eram assim, mas isto impactou-nos a todos, porque passámos muitos dias na Casa do Artista. Achamos que a velhice está longe, mas a única certeza que temos é de que, em princípio, vamos lá chegar.

"Não Há Papéis para Velhos" Carlos Coutinho Vilhena José Eduardo

José Eduardo é uma cara conhecida da televisão, onde apareceu em novelas como a memorável "Vila Faia" (1982) ou a sitcom "Malucos do Riso" (1995)

Vítor Pream

Interagiram com outras pessoas na Casa do Artista?
Sim, isso não aparece muito no documentário, porque tivemos o cuidado de não mostrar caras. Há pessoas que podem não querer que aquela seja a sua última imagem e essa é uma questão também complicada — decidir o que mostramos e não mostramos. Nem fizemos muitos planos de outros idosos, porque achámos melhor não os expor daquela forma. Ir à Casa do Artista e ver uma série de atores, que foram importantes em diferentes tempos, numa situação de fragilidade, deu-nos uma chapada de realidade. E, se calhar, se não fosse a Casa do Artista, estavam numa situação bastante pior, porque grande parte das pessoas que ali vivem não tem mais nenhum apoio.

Sentiu algum tipo de revolta face a uma eventual ingratidão? A passagem do espaço mediático para a invisibilidade, reflete-se?
A única pessoa que observei mais de perto foi o Zé Eduardo e, nele, não senti revolta, mas uma vontade de querer fazer coisas. Há aquela ideia de que, a partir dos 80 anos, estamos pouco ocupados, passamos tempo com a família no Natal e é isso, que deixamos de ter ideias e de inovar. Mas o que senti em toda a gente é que tinham vontade de fazer coisas — e são bons nisso. Nunca senti revolta, senti apenas o desejo de fazer mais.

Há um lado terapêutica em projetos como este?
Talvez sim. Quanto mais entretidos estamos, quanto mais ideias temos e disponibilidade para rir, melhor. Acho que o Zé Eduardo se divertiu muito neste processo. Sem querer ser muito moralista…

Dá para rir da velhice?
Sim, é isso que o documentário tenta fazer. Esticámos bastante a corda com algumas piadas e até debatemos, a meio do processo, se não estávamos a ser insolentes, provocadores, com falta de tato… Mas gosto dessa provocação, acho isso refrescante. Portanto penso que sim, que se pode brincar com a velhice — e bastante.

"Não Há Papéis para Velhos" Carlos Coutinho Vilhena José Eduardo

A estreia de José Eduardo no stand-up aconteceu no espectáculo de Carlos Coutinho Vilhena, "Snob" no Sagres Campo Pequeno em Lisboa, em 2025

Vítor Pream

O Resto da Tua Vida tem paralelos com este projeto. Procura reabilitar a imagem de uma celebridade já esquecida, no caso o ator João André, que se popularizou nos Morangos com Açúcar. O Clube da Felicidade é autobiográfico, a própria abertura refere que “não é uma série baseada em factos verídicos, isto são factos verídicos”. Contudo, apesar da natureza documental, ambos os projetos repetem o mesmo padrão de indefinição face àquilo que é verdadeiro e fabricado.
Acho interessante a coisa estar ali no meio, ou seja, não se percebe bem se é ficção, se é documentário, se é um sketch, se é um vlog. Gosto de brincar com a estrutura — não é o meu objetivo noutros projetos mais convencionais, como o podcast [Falsos Lentos, com Luís Franco-Bastos e Diogo Batáguas], o Ruído ou as Conversas de Miguel [com Pedro Teixeira da Mota]. Mas quando tenho esse tempo, liberdade e o privilégio de experimentar, gosto de fazer algo com ritmo e que provoca alguma coisa [no público] sem ficar preso a um formato — acho que é nessas experiências que se tropeça em coisas interessantes.

Da mesma forma, também evita engavetar os projetos no campo da comédia. Não me parece descabido afirmar que se ocupam de temas mais abrangentes. 
Isso acontece de cada vez que um humorista expressa sentimentos ou se envolve nalguma coisa que faz chorar — o que não é o meu objetivo, da mesma forma que não quero estar constantemente a pensar que se um projeto é humor ou não. [O Não Há Papéis Para Atores] tem bastante comédia, penso que a maior parte do documentário é cómica. Mas quando tenho de decidir aquilo que vou incluir no resultado final, tomo decisões que podem ser confusas, porque sou humorista.

No Clube da Felicidade, Júlio Isidro [que é convidado especial] repete várias vezes que o Carlos é “artista ou malandro”. Serão essas as palavras mais justas para descrever o seu trabalho, menos fechadas do que o termo “humorista”?
Sim, apesar de ser um pouco pedante, porque “artista” tem sempre aquela conotação algo superior e que pressupõe talento. E como acredito bastante mais no trabalho, às vezes tenho medo de me definir assim, apenas brinco com isso.

Mas comédia não é arte?
Há pessoas que dizem que não, eu acho que é. As pessoas podem achar que somos artistas, mas serem os próprios comediantes a sugerir isso… Pessoalmente, não me sinto bem nesse lugar. Não sei se é uma coisa de classe.

"Esticámos bastante a corda com algumas piadas e até debatemos, a meio do processo, se não estávamos a ser insolentes, provocadores, com falta de tato... Mas gosto dessa provocação, acho isso refrescante. Portanto penso que sim, que se pode brincar com a velhice — e bastante."

Até há cerca de um ano, o Carlos era agenciado pela Bridgetown, que também gere as carreiras de Pedro Teixeira da Mota e Luís Franco-Bastos, mas decidiu sair e fundar uma agência própria, a Finesse. O que motivou essa decisão?
Já passei pela Bunch [of Production], pela Kilt e pela Bridgetown ao longo da minha carreira e, nessas experiências, fui angariando informação e o know-how que me permitiu abrir a minha própria agência. Fiz isso porque acho que, em Portugal, o humor está bastante na moda, mas estamos a experimentar pouco e a fazer poucos projetos artísticos e conteúdos fora da caixa. Vivemos uma fase melhor ali em 2018, quando as pessoas experimentavam muito, porque o humor ainda não era bem uma profissão. Éramos todos muito novos, eu, o [Diogo] Batáguas, o [Pedro] Teixeira da Mota, o [Guilherme] Geirinhas, e estávamos todos a experimentar coisas. Mas, de repente, quando isto virou para o negócio, ficámos muito agarrados aos formatos do podcast e do stand-up. Vi muitos artistas que mudaram de emprego por não terem os meios para conseguir experimentar coisas sem grande pressão, ou ainda aqueles que experimentaram [coisas arrojadas] e ficaram traumatizados. A Finesse foi uma iniciativa pensada durante muitos anos e tem o objetivo de dar uma oportunidade a artistas que têm talento, para que possam concretizar projetos com um custo mais baixo e experimentar além do podcast e do stand-up.

O audiovisual é uma parte importante dessa inovação?
Sim, na Finesse fazemos gestão de carreira e produção de conteúdos. O objetivo é, a longo prazo, sermos uma agência de referência para quem quer experimentar conceitos novos ou executá-los de uma forma inovadora, mesmo se estivermos a falar da filmagem de um espetáculo de stand-up. Além da gestão de carreira dos nossos artistas, que são o João Pedro Pereira e o Carlos Contente.

"Não Há Papéis para Velhos" Carlos Coutinho Vilhena José Eduardo

Carlos Contente é agenciado pela Finesse, que Carlos Coutinho Vilhena fundou em 2025, e esteve bastante envolvido no documentário que vai estrear esta quarta-feira

Vítor Pream

O Carlos Contente é justamente uma das pessoas que participa no “elenco” do documentário Não Há Papéis Para Velhos, além de José Mesquita, Raquel Costa Gomes e Tiago Marques. Qual foi o envolvimento destas pessoas, cujos testemunhos aparecem no trailer do projeto?
Quando comecei a filmar ainda estava na Bridgetown, foi uma ideia que surgiu ali dentro. Fiz a transição para a Finesse na altura, portanto o projeto foi feito pelas duas agências. O José Mesquita é manager da Bridgetown e acompanhou-me muito nos últimos três, quatro anos, em quase todos os projetos que fiz. A Raquel também é produtora da Bridgetown e do espectáculo Snob, e o Tiago Marques é o CEO da Finesse. Eles aparecem porque estiveram presentes nas várias fases de produção e dão testemunhos sobre aquilo que viveram. Nisso, conseguem dar-me espaço, a mim e ao Contente, para termos graça, e reivindicam a responsabilidade de contar a história de forma clara e objetiva. No fundo, dizem as coisas que não têm graça.

O stand-up costuma ser muito simples em termos de cenografia, de palco. Nos projetos audiovisuais que já lançou, tem dado atenção ao ponto de vista visual. É para valorizar o humor? Para que seja entendido como uma coisa mais séria?
Há um grande debate sobre se a estética pode atrapalhar a comédia. Às vezes pode, quando se preocupam demasiado com a estética e não com o texto. Mas creio que os assuntos da comédia, que vive à base do feio, do erro e daquilo que não encaixa, podem ser tratados com alguma dignidade e, ainda assim, ter graça — acho que uma coisa não invalida a outra. O guião tem de ser interessante e ter graça, mas filmar bem a coisa — se não tomarmos decisões que estragam o potencial cómico ou a história — acrescenta valor. Parece que só temos esta discussão em relação ao stand-up ou ao humor, mas as grandes obras, os grandes filmes, os grandes livros também têm tudo lá dentro: momentos de comédia hilariantes e momentos emocionais que nos partem ao meio. A estética também é uma forma de passar mensagens subliminares e eu gosto de trabalhar com essas vertentes todas, com o texto, com a entrega, com a imagem… com a estética que pode valorizar o projeto que estou a tentar criar.

"Percebo as pessoas que se posicionam e decidem fazer o boicote ao Seinfeld, mas não sei se é eficaz. [...] Não sei o que é que faria naquele lugar. Talvez também não tivesse a consciência política para, no início, aceitar ou para dizer que não. [Mas] não me parece que seja por um boicote, num concerto de música, num festival ou noutro palco qualquer que a coisa mude... Acho que é mais eficaz fazer projetos artísticos para criticar aqueles posicionamentos abjetos."

Grande parte da comédia que é produzida em Portugal hoje está a desenvolver-se sem recorrer aos meios de comunicação tradicionais. Por exemplo, a carreira do Carlos no humor concretizou-se exclusivamente com recurso às novas plataformas de media. Sem o respaldo orçamental de um canal de televisão, por exemplo, é difícil entregar um produto bem finalizado?
Muitas vezes não é possível ter esse rigor estético porque é muito caro fazer coisas bem filmadas. É mais fácil fazer [um projeto audiovisual] com o apoio do ICA [Instituto de Cinema e audiovisual] para cinema ou para televisão, porque nessas indústrias as pessoas recebem apoios e dinheiro — enquanto nós basicamente pagamos para trabalhar. As coisas que são publicadas no YouTube, de um modo geral, têm menos qualidade do que os conteúdos que aparecem na televisão, mas já começámos a desafiar esses obstáculos, porque temos mais meios e, acima de tudo, porque criámos modelos de negócio que nos permitem fazer coisas melhores, com menos custos. O objetivo da Finesse é sermos independentes em termos de câmaras, editores, filmagens. Se estávamos condicionados porque o material técnico era muito caro, fizemos espectáculos ao vivo para pagar outros projetos. Agora estamos mais independentes e temos maior acesso a estes meios, tornou-se mais fácil filmar coisas com o look cinematográfico.

"Não Há Papéis para Velhos" Carlos Coutinho Vilhena José Eduardo

"E se provasse que, com muito trabalho, dá para chegar lá, que não perdemos a piada com a idade?", lembra Carlos

Vítor Pream

Ou seja, comediantes como o Carlos conseguem fazer projetos ambiciosos porque obtêm financiamento através de outras iniciativas mais lucrativas, como os podcasts e o stand-up ao vivo.
Sim. Apesar de este ser um modelo de negócio que, pelos vistos, só acontece em Portugal — inclusive, levo na cabeça de humoristas estabelecidos por esse motivo, porque pagar para trabalhar não é sustentável a longo prazo. Como adoro fazer isto e ainda não sou pai nem tenho grandes responsabilidades, posso dar-me ao luxo de investir em projetos só porque sim. Mas gostava — todos gostávamos — que, um dia, todos os projetos fossem rentáveis. Fazer um projeto para sustentar o seguinte é o mais comum, mas o ideal era arranjar aqui um híbrido, em que os projetos fossem rentáveis mas não tivéssemos de os vender à televisão, por exemplo. Ainda não entrámos muito no mercado dos ICA, que pode ser benéfico do ponto de vista financeiro, mas tira-nos outras coisas, como publicar [os conteúdos] no YouTube — onde chegam a muito mais gente do que numa sala de cinema.

Num tema relacionado com a atualidade: obre os recentes cancelamentos no festival Commedia à La Carte, qual a sua opinião?
Percebo as pessoas que se posicionam e decidem fazer o boicote ao Seinfeld, mas não sei se é eficaz. Compreendo que estar naquele lugar é difícil, porque, nestas coisas, é sempre um exercício de “meti o pé na poça e agora as pessoas já não gostam de mim”. Ser figura pública exige um nível de coragem difícil, às vezes temos de tomar decisões e perdemos público por isso. Não sei o que é que faria naquele lugar. Talvez também não tivesse a consciência política para, no início, aceitar ou para dizer que não. O assunto é tão complexo, até do ponto de vista académico, que muitas vezes não é possível produzir um discurso coerente sobre o assunto. É um conflito difícil de resolver, com dezenas de anos, e não me parece que seja por um boicote, num concerto de música, num festival ou noutro palco qualquer, que a coisa mude… Acho que é mais eficaz fazer projetos artísticos para criticar aqueles posicionamentos abjetos, como disse o Pedro Mexia.

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