O democrata Bernie Sanders e o estratega político de extrema-direita Steve Bannon convergiram, esta terça-feira, nos alertas sobre os riscos da inteligência artificial (IA) e na defesa de regras mais apertadas para o setor tecnológico. Apresentaram, porém, respostas opostas à corrida tecnológica com a China, que Donald Trump e outros republicanos têm usado para justificar um desenvolvimento acelerado da tecnologia.

Durante a conferência Pro-Human Assembly, em Washington, o senador independente pelo Vermont defendeu a diplomacia internacional e um acordo com Pequim para travar o desenvolvimento da chamada superinteligência artificial. “Uma IA superinteligente que escape ao controlo humano não será um problema americano. Não será um problema chinês. Será um problema da humanidade“, afirmou.

“É por isso que espero muito que, na cimeira sobre IA da próxima semana, o Presidente Trump negoceie um tratado abrangente com o Presidente Xi para estabelecer uma pausa no desenvolvimento da IA avançada e uma proibição da superinteligência”, acrescentou.

O senador comparou a situação às negociações entre o antigo Presidente norte-americano Ronald Reagan e o ex-líder soviético Mikhail Gorbachev durante a Guerra Fria, quando os dois países procuraram limitar o risco de um conflito nuclear. “Eles compreenderam que uma guerra nuclear não seria boa para a União Soviética, não seria boa para os Estados Unidos e não seria boa para o mundo. E chegaram a um acordo sobre armas nucleares. Com a sobrevivência da humanidade em jogo, encontraram uma forma de assinar esse tratado”, disse.

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O Congresso que “esteve a dormir ao volante” e um Presidente “cuja ignorância” sobre o tema é “embaraçosa”

Sanders criticou ainda a concentração de poder em Silicon Valley e acusou o Congresso e a administração Trump de não estarem a responder adequadamente aos riscos da tecnologia. “Apesar de vivermos numa chamada democracia, o público praticamente não teve qualquer participação na revolução da IA que está a transformar o mundo”, afirmou.

“O Congresso, tanto sob controlo democrata como republicano, esteve a dormir ao volante e temos agora um Presidente cuja ignorância relativamente a esta questão é verdadeiramente embaraçosa”, acrescentou. Segundo Sanders, “praticamente todas as decisões sobre o desenvolvimento da IA foram tomadas por um leque que junta as pessoas mais ricas do mundo”, cujo principal objetivo é “obter ainda mais riqueza e poder” independentemente do impacto sobre a população.

O senador anunciou, por isso, que vai apresentar na próxima semana um projeto de lei para proibir de forma permanente o desenvolvimento de uma superinteligência artificial — definida como uma IA mais inteligente do que qualquer ser humano — e para suspender de imediato o desenvolvimento de IA avançada até existirem regras claras de segurança.

A iniciativa conta com o apoio do congressista democrata Greg Casar, que acusou os multimilionários ligados à IA de utilizarem o seu poder financeiro para impedir novas regras. “Mesmo quando a ameaça se torna mais clara, há muitas pessoas poderosas a lutar para impedir qualquer ação”, afirmou, citado pelo The Guardian. “Os multimilionários da IA estão a gastar milhões através do Leading the Future PAC para assustar os políticos e fazê-los permanecer em silêncio”.

Também o republicano Chip Roy manifestou reservas quanto à concentração das decisões sobre IA no Presidente ou nas grandes empresas tecnológicas. “O Presidente disse ontem que deveria ser ele a tomar as decisões sobre a IA. Discordo”, afirmou, acrescentando: “não acho que os diretores das grandes empresas tecnológicas devam tomar todas as decisões sobre a IA”.

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Bannon apela a uma “quarentena” económica e tecnológica da China

Steve Bannon, que discursou imediatamente após Sanders, também recorreu à Guerra Fria para descrever a atual disputa tecnológica, mas defendeu uma metodologia diferente. O antigo chefe de estratégia da Casa Branca pediu uma “quarentena” económica e tecnológica da China, incluindo a expulsão imediata de cidadãos chineses dos laboratórios de investigação norte-americanos, o fim da formação de engenheiros e especialistas chineses e o corte total dos fluxos de capitais entre os dois países.

“Os nossos pais e avós financiaram a União Soviética? Formaram cientistas soviéticos? Trouxeram jovens russos para cá para estudarem nas melhores universidades e obterem os melhores diplomas? Tinham Wall Street ansiosa por fazer os seus negócios?”, questionou, respondendo: “Não. Enfrentaram a União Soviética e a primeira coisa que fizeram foi isolá-la. É isso que temos de fazer hoje ao Partido Comunista Chinês“.

“Sem acordos, sem entendimentos. Estão fora do negócio da IA porque vamos fechar o vosso ecossistema”, afirmou Bannon, que defendeu ainda uma ação imediata do Governo norte-americano para isolar o setor tecnológico chinês. “Sem chips, sem comércio clandestino de chips, sem acesso gratuito à tecnologia americana, sem roubar tecnologia americana. Que se lixe o Partido Comunista Chinês“, declarou.

Só depois de travar o desenvolvimento tecnológico chinês, defendeu Bannon, os Estados Unidos terão tempo para decidir como regular o setor tecnológico. O antigo estratega de Trump criticou ainda as grandes empresas tecnológicas, acusando-as de procurarem “socializar todos os riscos com o povo norte-americano, incluindo possíveis resgates financeiros”, enquanto mantêm todos os benefícios económicos.

A reunião em Washington acontece num contexto de crescente preocupação, entre democratas e republicanos, com os efeitos da IA. Sondagens recentes indicam que a maioria dos norte-americanos receia que a tecnologia possa eliminar empregos, aumentar os custos para as famílias ou provocar outros impactos sociais.