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MELISSA VIEIRA/OBSERVADOR

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Casa Fortunato. O "melhor hotel de 2019" onde até os donos querem viver /premium

Em meados de outubro foi considerado o "melhor hotel de 2019" pela Mr. & Mrs. Smith. Na Casa Fortunato, em Lisboa, há nove quartos onde pernoitar e um labrador de três anos armado em concierge.

A meio da conversa com Filipa Fortunato e António Falcão Costa Lopes, Cacau, já em fase de sono profundo, começa a ressonar. O discurso é interrompido pelo labrador preto que, com três anos de vida, é considerado o concierge da Casa Fortunato, em Lisboa. Deitado no chão, entre as cadeiras dos donos — dele e do boutique hotel –, todos os olhares se voltam para o animal, que costuma ser o primeiro membro da família Fortunato a receber os hóspedes. “É a mascote da Casa”, diz Filipa, enquanto António passa a mão pelo pelo escuro e lhe dá uma palmada leve na zona da barriga. Lá fora, a chuva miudinha de um dia de outono incomoda quem anda na rua. Cá dentro, na sala de estar e de refeições, o conforto é garantido pela mestria do casal, cujo espaço que criou — e que abriu as portas em novembro do ano passado — recebeu o prémio de melhor hotel de 2019 pela conhecida plataforma de reservas Mr. & Mrs. Smith.

Situado na zona das Amoreiras, na capital, o edifício centenário e com traços pombalinos foi originalmente a residência de um médico e sua família, que à época fez do primeiro andar poiso onde viver e deixou o rés-do-chão para negócios locais. A função do edifício de paredes brancas e janelas largas voltadas para a rua foi-se alterando e durante 10 anos foi ocupado pelo escritório e atelier de arquitetura de António Falcão Costa Lopes. A vontade de Filipa e de António em ter um projeto de hotelaria era antiga, mas nunca o casal pensou que acontecesse tão depressa. “Um dia, o António chegou a casa e disse: ‘Filipa, tive uma ideia, o escritório vai sair de onde está e mudamos o espaço. O que achas de começarmos já com o nosso projeto?'”. A resposta foi afirmativa, mas só depois de assegurarem que se podiam mudar, mais os quatro filhos, entre os cinco e os 17 anos, para o sótão do prédio. “Sempre achámos, nas viagens que fomos fazendo, que faz toda a diferença quando o diretor vive no hotel”, explicam ao Observador.

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Na Casa Fortunato existem nove quartos, todos com “salas de banho” ao invés das tradicionais casas de banho, dada a dimensão destas. Cada divisão é decorada em tons diferentes, do verde seco ao laranja quente, que são complementados com papéis de parede escolhidos a dedo. Os quartos foram testados por Filipa e António, que durante cinco meses pernoitaram em cada um deles. O casal até investiu num estudo de Feng Shui para garantir que tudo estava no sítio certo. E por “tudo” entenda-se a muita mobília reaproveitada, herança de família dos avós de ambos os lados que, na sua maioria, veio da anterior casa do casal, incluindo a cadeira em pele a que chamam de “zebra”, o cofre que está na receção, o móvel que, de portas abertas, desvenda um rádio antigo ao centro ou a mesa de jogo da biblioteca onde a avó de Filipa jogava canastra (o tampo ainda tem as marcas dos copos de gin tónico). Poucas foram as coisas que compraram a pensar neste projeto, embora António reconheça o hábito de adquirir objetos diferenciadores e de guardá-los até haver motivo para usá-los — é o caso do candeeiro de uma das casas de banho, feito de abajures pequenos e coloridos, comprado há alguns anos em época de saldos.

Quando Filipa e António dizem querer que os hóspedes se sintam em casa não soa a cliché. O conceito de hotelaria menos formal está em todo o lado e não é incomum jantarem com os clientes ou convidá-los para um copo de vinho ao final do dia. É pela facilidade com que estabelecem relações com quem aqui pernoita que viajam sem ser preciso sair de casa. Os filhos também usufruem da experiência: Joaquim, de 15 anos, ganhou a alcunha de “bagageiro real” quando se ofereceu para carregar as malas de uma princesa cuja identidade permanecerá por desvendar; Mercês, de 12, teve a oportunidade de fazer um workshop de cozinha na companhia de uma atriz; e a pequena Sofia de apenas cinco anos crê, à semelhança de Cacau, que todos vêm de longe para a ver. Filipa ficou amiga de uma embaixadora, com quem ainda vai trocando referências de livros.

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Como se de uma casa se tratasse, os hábitos da família são levados a sério neste hotel. Porque Filipa e António praticam ioga, todos os dias há aulas desta modalidade (o acesso é livre aos hóspedes, sendo que as aulas acontecem às 08h durante a semana e às 09h ao fim de semana), a cozinha é macrobiótica porque os Fortunato seguem essa dieta (o que exigiu muitos testes para encontrar o pequeno-almoço adequado) e os livros disponíveis na biblioteca vieram da anterior residência da família. As muitas revistas de design, arrumadas em pilhas, também são coleção privada. Nada é ao acaso e tudo conta uma história desde o momento em que se faz o check-in. O “book of secrets”, por exemplo, é enviado por e-mail assim que é feita a reserva online: trata-se de um pequeno guia personalizado, feito à medida, com sugestões turísticas da cidade, como a Igreja de São Roque, onde Filipa e António se casaram há 20 anos, um dos espaços Frutalmeidas onde iam estudar quando andavam na faculdade (frequentaram o mesmo curso de Arquitetura, apesar de Filipa já não exercer esta profissão) ou o miradouro do Torel, jardim que a família costuma frequentar. “Não somos guias, não temos nenhum acordo com nenhum espaço, apenas sugerimos aquilo que são as nossas referências”, garantem.

Cozinha macrobiótica aberta a todos

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A comida da Casa Fortunato é macrobiótica e está a cargo da chef Sónia Jordão. A cozinha não é de exclusivo acesso aos hóspedes do hotel, servindo refeições também a quem vem de fora. Tanto ao almoço como ao jantar é preciso fazer reserva, ainda que ao jantar exista um número mínimo de participantes (a definir sempre com Filipa e António).

Ao almoço — 35 euros por pessoa — há pratos do dia, sendo que não existe um menu fixo. O momento do jantar precisa de ser combinado com os donos da Casa Fortunato.

Filipa ainda se recorda do dia exato em que puseram as primeiras reservas online: 24 de outubro de 2018, fez agora um ano. Os primeiros clientes, vindos a propósito da Web Summit, foram recebidos sem nervosismo mas com entusiasmo. “Quando chegaram estávamos todos num excitamento, a equipa toda foi-se apresentar, levámos chás e bolachas. Eles só se deram conta que eram os primeiros hóspedes da casa quando lhes dissemos. Nunca tinham sido os primeiros.” Por causa da edição deste ano da maior conferência de empreendedorismo e tecnologia, que acontece entre 4 e 7 de novembro, já têm reservas feitas. Perguntamos se se trata de alguém conhecido. “Não podemos dizer”, rematam.

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A Casa Fortunato é uma confluência de padrões bem conjugados e de tendências bem casadas. O hotel é boutique, tem apenas nove quartos, mas de pequeno não tem nada — há quartos duplos, com pequeno-almoço incluído, a partir de 420 euros. Todas as divisões são espaçosas e há lugar, até, para a família de sete, Cacau incluído, no sótão do edifício centenário. Porque há conversas e momentos que precisam de ser tidos em família. O projeto de hotelaria nunca foi feito a pensar nos prémios, por isso foi literalmente uma surpresa quando na caixa de e-mail caiu a notificação da Mr. & Mrs. Smith, que todos os anos premeia o melhor hotel entre os milhares que configuram na respetiva plataforma de reservas. “Percebi que tínhamos ganho um prémio, mas pensei que fosse numa categoria específica. Não sabíamos que eles escolhiam o melhor dos melhores. Pessoas da Mr. & Mrs. Smith vieram cá em setembro para fazerem um filme de Lisboa e do hotel para a apresentação dos prémios. Foi aí que perguntámos que prémio era já que eles insistiam muito que fôssemos a Los Angeles, à cerimónia. Aí percebemos que éramos o único premiado convidado, não havia mais nenhum!”, recorda Filipa. “No dia seguinte à entrega estávamos na primeira página da CNN online“, acrescenta António.

Finda a conversa com Filipa e António, Cacau acorda e segue-nos até à porta de saída da Casa Fortunato. Lá fora continua a chover. Cá dentro, o conforto parece eterno.

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