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IGOR MARTINS/OBSERVADOR

IGOR MARTINS/OBSERVADOR

O corpo transformado em dados. A tecnologia está a mudar a forma como praticamos exercício?

Wearables, sensores e inteligência artificial transformam os treinos em conhecimento. Mas, entre números, alertas e algoritmos, importa perguntar: até que ponto devemos acreditar no nosso pulso?

A história repete-se um pouco por todo o mundo. Antes de “sairmos” para correr, o pulso já sabe como foi a noite, quantas horas dormimos, se o corpo recuperou e, por vezes, até se aquele é ou não um bom dia para exigirmos mais dele. Do corpo, portanto. Depois chegam outros números: frequência cardíaca, ritmo, distância, cadência, calorias, zonas de esforço. No fim, o relógio avalia o treino, estima a recuperação e sugere quanto tempo esperar antes de voltar a carregar. O exemplo é a corrida, mas estende-se a (quase) todo o tipo de desporto.

A promessa é sedutora. Conhecer melhor o corpo para treinar melhor, evitar excessos e perceber sinais que antes passavam despercebidos. Mas há uma diferença importante entre medir e compreender. E talvez a questão não seja apenas o que estes dispositivos sabem sobre nós. Mas perceber até que ponto devemos ouvi-los.

Ivan Couras ouve-os. Mas já aprendeu a não obedecer sempre aos dispositivos. Aos 45 anos, este engenheiro eletrotécnico, com passagem profissional pela área de Data Science, anda quase permanentemente com um relógio no pulso. Corre com ele, treina com ele e dorme com ele. “Se me perguntar se durmo sem o relógio, a resposta é ‘não’. Durmo sempre com o relógio.” Só há uma altura em que prefere não saber o que a máquina tem para lhe dizer: antes de uma prova importante. Aí, quando aparece no ecrã aquela primeira mensagem sobre o estado do corpo, ignora-a rapidamente. “Nem quero ver nada. Fica para depois da prova.”

O desporto acompanha-o desde miúdo. Começou na natação, regressou às piscinas já adulto e, durante a pandemia, passou também para a corrida e para a bicicleta. Daí ao triatlo “foi um tirinho”. Hoje, casado e com duas filhas, continua a ser, como faz questão de sublinhar, “puramente amador”, mas prepara um Ironman (uma superprova de triatlo que combina quase quatro quilómetros de natação, 180 de bicicleta e uma maratona [42,2 quilómetros]) e, nas semanas mais exigentes, chega às 16, 17 ou 18 horas de treino.

Estamos reféns daqueles relógios?

Começou por um relógio para controlar tempos, ritmos e frequência cardíaca. Quando percebeu que os registos medidos no pulso nem sempre batiam certo, comprou uma cinta cardíaca. Seguiram-se um relógio capaz de medir sono e recuperação e, para a bicicleta, um rolo inteligente que permite pedalar e treinar em casa. “Ir para a estrada todos os dias não é viável. É muito tempo, é perigoso, há a noite, há acidentes”. As voltas maiores ficam sobretudo para o fim de semana. Durante a semana, basta-lhe praticamente um clique para começar a pedalar.

Há até inteligência artificial metida nesta espécie de laboratório doméstico. “Hoje até peço à inteligência artificial: ‘faz-me um plano de treino para uma semana’. Depois converto-o e passo-o para o [relógio] Garmin”. Noutras alturas, a experiência já lhe permite executar aquilo que sabe que tem de fazer.

▲ Antes de uma prova importante, o relógio pode anunciar que está em “fase de pico” e, na véspera, mudar de opinião para “fase de esforço”. “Fico logo a pensar que vai correr mal”, diz Ivan Couras

IGOR MARTINS/OBSERVADOR

Talvez seja precisamente a experiência que lhe possibilita estabelecer uma fronteira entre ter dados e obedecer-lhes. O relógio pode dizer que recuperou pouco e precisa de mais descanso quando Ivan acorda a sentir-se perfeitamente bem. E também se engana: por vezes regista quatro ou cinco horas de sono quando ele sabe que dormiu mais. “Não me posso guiar por isso porque está completamente errado.”

Numa corrida recente aconteceu o mesmo: mal tinha começado e o relógio marcava 160 pulsações por minuto. “Sei perfeitamente que aquilo é mentira”. Quando quer uma medição mais fiável, usa a cinta cardíaca.

Isso não significa que tenha deixado de olhar para os números. Pelo contrário. O que mudou foi a escala temporal em que os lê. Um valor anormal num dia pode não querer dizer absolutamente nada. Dois também não. Mas se durante uma semana a variabilidade da frequência cardíaca se afastar do padrão habitual, aí já presta atenção: pode existir fadiga acumulada ou excesso de treino. “Uso mais os dados para o histórico.” É a tendência que lhe interessa, mais do que o número isolado que aparece no ecrã naquela manhã.

A promessa é sedutora. Conhecer melhor o corpo para treinar melhor, evitar excessos e perceber sinais que antes passavam despercebidos. Mas há uma diferença entre medir e compreender. E talvez a questão não seja apenas o que estes dispositivos sabem sobre nós. Mas perceber até que ponto devemos ouvi-los.

E houve uma altura em que essa distância foi muito mais difícil de manter. No ano passado, uma infeção na tiroide alterou-lhe a frequência cardíaca. Estava medicado e autorizado a correr, mas precisava de monitorizar o ritmo cardíaco. De repente, os números deixaram de ser apenas dados de performance. Tinham uma dimensão de saúde. “Fiquei muito mais atento. Qualquer variação deixava-me em alerta e fiquei bastante ansioso com os dados.”

Ivan sabe, portanto, por experiência própria, como é fácil passar de utilizador a refém.

E nem sequer é preciso existir uma doença. Antes de uma prova importante, o relógio pode anunciar que está em “fase de pico” e, na véspera, mudar de opinião para “fase de esforço”. “Ficas logo a pensar: ‘vai correr mal’.” Ivan ri-se, mas não desvaloriza o efeito. “Numa prova importante, tudo mexe com o psicológico. Não somos blindados a isso.” Por isso, no dia da prova não olha.

No resto, fica com o relógio. Dorme com ele, corre com ele, guarda anos de informação nele. Ouve-o. Só já não acredita em tudo o que ele lhe diz.

O aparelho mede. Mas sabe o que está a medir?

Ivan Couras aprendeu pela experiência a desconfiar de alguns números. Fernando Isaac chegou à mesma conclusão por outro caminho: testando-os. Engenheiro de formação, investigador académico na área dos sensores aplicados à biomecânica, ciclista e treinador, experimenta primeiro em si próprio grande parte da tecnologia que depois utiliza com os atletas que acompanha profissionalmente. Mas começa por uma distinção fundamental: recolher um dado não significa saber o que fazer com ele. “Um wearable pode dar-nos informação sobre o nosso corpo, mas não deve tomar decisões pelo nosso corpo.” Antes do algoritmo há outras perguntas: como dormiu? Sente-se recuperado? Tem alguma dor? Tem vontade de treinar? Só depois entram os números.

E mesmo esses precisam de contexto. Fernando Isaac fala numa espécie de triangulação. No ciclismo, a potência mostra aquilo que o atleta está a produzir, a frequência cardíaca revela como o organismo responde e há uma terceira variável, menos tecnológica: a perceção subjetiva do esforço. Nenhuma conta, sozinha, a história toda. “O valor de um dado muitas vezes não está no número isolado, mas na relação desse número com os restantes”, diz o especialista em serviços técnicos na indústria do ciclismo, que aplica a biomecânica, análise funcional do movimento e conhecimento técnico no treino de ciclistas.

▲ “Um wearable pode dar-nos informação sobre o nosso corpo, mas não deve tomar decisões pelo nosso corpo”, diz Fernando Isaac, que orienta treinos de ciclistas recorrendo (também) a tecnologia

David Oliveira/Observador

Há ainda outra pergunta quando o relógio apresenta um número com ar de certeza absoluta: quão certo está esse número? Um aparelho pode apresentar resultados muito semelhantes todos os dias e, ainda assim, medir sistematicamente acima ou abaixo da realidade. “Não basta dizer que temos um sensor. É preciso saber o que mede, como mede, se foi validado e qual é o erro associado à medição.”

Fernando Isaac aprendeu isso da forma menos confortável. Em 2025, durante cinco semanas seguiu um protocolo estruturado de treino de adaptação ao calor, o chamado heat training, utilizando um sensor externo que estima a temperatura corporal central. É uma tecnologia com grande visibilidade no ciclismo e utilizada inclusivamente nas equipas profissionais. Mas aqui surge outro aviso: ver uma tecnologia no braço, no peito ou na bicicleta de um atleta de elite não significa necessariamente que tenha validação científica suficiente para todas as utilizações que lhe queremos dar.

O sensor não mede diretamente a temperatura no interior do corpo. Estima-a através de sensores externos e de um algoritmo. E diferenças que parecem insignificantes para quem olha para um mostrador – três décimas de grau, por exemplo – podem ser relevantes quando aquela temperatura está a ser usada para dosear exposição ao calor.

Em 2025, uma infeção na tiroide alterou a frequência cardíaca de Ivan Couras. Estava medicado e autorizado a correr, mas precisava de monitorizar o ritmo cardíaco. De repente, os números deixaram de ser apenas dados de performance. Tinham uma dimensão de saúde. “Fiquei muito mais atento. Qualquer variação deixava-me em alerta e fiquei bastante ansioso com os dados.”

O investigador conhecia as limitações, mas quis experimentar o sistema e perceber a lógica do algoritmo. Ao fim dessas cinco semanas em que utilizou o sensor para orientar um protocolo de treino de adaptação ao calor, desenvolveu fadiga acentuada, compatível com uma acumulação de stress e recuperação insuficiente. Tem o cuidado de não estabelecer uma relação de causa e efeito que a experiência individual não permite provar. Mas a experiência mudou-lhe a maneira de olhar para estes dispositivos. “Uma coisa é utilizar um sensor para monitorizar. Outra, completamente diferente, é utilizá-lo para prescrever uma dose fisiológica.”

Fernando Isaac estabelece uma regra que serve bastante bem para qualquer pessoa que tenha um pequeno computador preso ao pulso: quanto maior for a consequência da decisão que vamos tomar, maior tem de ser a confiança na medição em que essa decisão se baseia.

No consultório, quem manda é o médico

E se decidir fazer um treino mais leve ou adiar uma sessão já exige alguma cautela, a questão torna-se ainda mais delicada quando os mesmos dispositivos começam a dizer-nos coisas sobre a nossa saúde. Porque o relógio que conta quilómetros e calcula tempos de recuperação é também aquele que mede a frequência cardíaca, acompanha o sono ou estima os níveis de oxigénio no sangue. E, de repente, aquilo que começou por ser uma ferramenta para correr mais depressa pode transformar-se numa espécie de vigilante permanente do organismo.

Paula Mosa já sente essa presença no consultório. A médica de família diz que são cada vez mais as pessoas que lhe chegam às consultas no Hospital das Forças Armadas, em Lisboa, sem um sintoma concreto que as tenha levado até ali. O motivo está, literalmente, no pulso dos pacientes. “Cada vez há mais doentes que chegam à consulta de vigilância de saúde e não há propriamente uma queixa, mas atiram para o ar ‘o meu relógio detetou isto, acha que devo ficar preocupado?’ Só na pergunta já há preocupação…”

Christoph Soeder/picture alliance

A informação não é inútil. Longe disso. Mas também não é um diagnóstico. “São dados que nos podem ser úteis, mas que pesquisamos ativamente na presença de algumas patologias. Devemos vê-los como mais uma peça do puzzle e não como diagnóstico.” Até porque, ressalva, estamos a falar de dispositivos que, “na sua grande maioria, ainda não estão validados para diagnóstico.”

E regressamos, de certa forma, ao mesmo problema que Ivan Couras e Fernando Isaac já tinham identificado no treino: um número isolado vale muito pouco sem contexto. Paula Mosa dá o exemplo da frequência cardíaca. “Perceber que a frequência cardíaca está sistematicamente diferente do habitual ou que há episódios que se repetem pode ser uma informação relevante, mas que tem de ser contextualizada. Um valor isolado não significa necessariamente que exista um problema. Temos de perceber o contexto, os sintomas e, sobretudo, se é algo de novo.”

Pode ser um problema. Mas pode também ser uma variação perfeitamente normal ou até uma má medição provocada, por exemplo, pelo contacto deficiente do dispositivo. Ainda assim, é precisamente a capacidade de identificar uma alteração no padrão habitual que pode tornar estes pequenos aparelhos interessantes também do ponto de vista da saúde. “Estas alterações podem ajudar na deteção precoce de problemas de saúde porque podem chamar a atenção para um desvio do padrão e motivar avaliação médica que, de outro modo, poderia não acontecer porque se normalizam sintomas que passam a ser ‘habituais e da idade’”, diz a médica.

Um aparelho pode apresentar resultados muito semelhantes todos os dias e, ainda assim, medir sistematicamente acima ou abaixo da realidade. “Não basta dizer que temos um sensor”, diz Fernando Isaac. “É preciso saber o que mede, como mede, se foi validado e qual é o erro associado à medição.”

Há, porém, uma fronteira particularmente difícil de gerir. Quando é que conhecer melhor o corpo começa a significar vigiar demasiado o corpo? “Em termos de risco, a monitorização constante pode gerar ansiedade, quase obsessão”, diz Paula Mosa. E não é difícil encontrar razões para um relógio nos assustar ao longo de um dia perfeitamente normal. “Não é suposto a frequência cardíaca ser igual ao longo do dia, ou porque fazemos exercício, ou porque tomámos café, ou simplesmente porque estamos mais stressados e dormimos mal.”

Mas a moeda tem outra face e talvez mais perigosa. Se um número anormal pode assustar sem razão, uma sucessão de números normais também pode tranquilizar quando não devia. “Os parâmetros normais num equipamento desses não são sinónimo de estar tudo bem. São dados objetivos, que podem não ser completamente fiáveis, e que têm que ser enquadrados”.

No consultório, portanto, o pequeno computador que levamos no pulso pode trazer pistas mas não substitui aquilo que acontece quando nos sentamos diante de um médico. Paula Mosa não tem dúvidas: “um wearable ajuda-nos a reconhecer padrões, a conhecer melhor o nosso corpo, mas não nos deve tornar escravos dos valores ou resultados apresentados. Não deverão (ainda) substituir uma boa história clínica, avaliação e investigação sempre que pertinente.”

Mais do que medir, interpretar o que se mede

Do lado da indústria, a ambição já não é apenas medir mais, mas conseguir interpretar melhor aquilo que se mede. José Correia, head of Mobile Division da Samsung Portugal, acredita que os wearables se tornaram “verdadeiras ferramentas de acompanhamento contínuo de saúde e do bem-estar”, presentes ao longo de todo o dia, do exercício aos ciclos de sono e aos períodos de recuperação.

Para quem pratica desporto, parâmetros como frequência cardíaca, carga cardiovascular, sono ou condição física ganham valor quando ajudam a perceber como o organismo reage ao esforço e, tão importante quanto isso, como recupera entre treinos. A evolução tecnológica, defende José Correia, deve por isso preocupar-se menos em acrescentar métricas à lista e mais em melhorar “a qualidade, a consistência e, sobretudo, a utilidade da informação que chega ao utilizador”.

▲ “Há cada vez mais doentes que chegam à consulta e não têm propriamente uma queixa, mas atiram para o ar ‘o meu relógio detetou isto, acha que devo ficar preocupado?’ Só na pergunta já há preocupação…”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Claro que aqui a Inteligência Artificial continua a marcar pontos. “Durante muito tempo, os wearables mostravam sobretudo números – frequência cardíaca, horas de sono, passos ou outros indicadores – e cabia ao utilizador perceber o que esses dados significavam.” A mudança está na possibilidade de cruzar diferentes indicadores, acompanhar a sua evolução e procurar padrões, para que o relógio deixe progressivamente de se limitar a dizer quanto e comece também a tentar explicar o que isso significa.

É uma evolução particularmente relevante quando pensamos em alguém como Ivan Couras, que acumula anos de dados e já percebeu que uma noite, uma medição ou um treino não contam necessariamente a história toda. Também José Correia destaca essa dimensão temporal: em vez de olhar apenas para comportamentos ou medições isoladas, o acompanhamento regular permite observar a evolução de cada pessoa ao longo do tempo.

Mas quanto mais o dispositivo interpreta, maior é também a tentação de acreditar nele. E aí a própria indústria coloca um travão. “A tecnologia pode ajudar as pessoas a conhecer melhor os seus hábitos e determinados indicadores relacionados com a saúde, mas é essencial que os limites de cada funcionalidade sejam claros.”, alerta José Correia.

“Perceber que a frequência cardíaca está sistematicamente diferente do habitual ou que há episódios que se repetem pode ser uma informação relevante, mas tem de ser contextualizada”, diz a médica Paula Mosa. “Um valor isolado não significa necessariamente que exista um problema. Temos de perceber o contexto, os sintomas e, sobretudo, se é algo de novo.”

E é talvez aqui que surge o paradoxo desta nova relação com o corpo. Nunca tivemos tanta informação disponível, mas isso não significa necessariamente que saibamos sempre o que fazer com ela. Fernando Isaac esclarece que “o problema surge quando confundimos mais informação com mais conhecimento”. Para o investigador e treinador, quanto mais tecnologia existe, mais importante se torna perceber o que vale a pena ignorar.

Há ainda uma dimensão que nenhum algoritmo mede particularmente bem. O prazer de fazer desporto. Fernando Isaac vê atletas cada vez mais presos ao treino prescrito, às métricas e aos objetivos, ao ponto de, por vezes, abdicarem de treinar em grupo e perderem parte da componente social que os levou até ali. O risco, diz, é caminharmos para um desporto “cada vez mais metronómico, cada vez mais robótico”.

Talvez por isso a imagem de Ivan Couras na manhã de uma prova seja uma boa ‘imagem’. O relógio continua no pulso. Mediu-lhe o sono, conhece os treinos das últimas semanas e tem uma opinião sobre a forma como o corpo está preparado para o que aí vem. Ivan poderia ouvi-la. Prefere não o fazer. Ignora a mensagem sem ler e começa a prova. Afinal, aquele corpo ainda é dele.

Mais do que Desporto é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a importância do desporto na sociedade. Resulta de uma parceria com o BNP Paribas Portugal. É um conteúdo editorial completamente independente.

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