Eu sei que começa a tornar-se repetitivo começar com pontos prévios e que a importância do contexto está demodé, até porque não cabe em reels. Chamem-me velha do Restelo, já me chamaram coisas piores. Então, cá vai: não podia estar mais a borrifar-me para a Royal Family. Não me estou a assinalar como intelectualmente superior, até porque dou atenção a coisas tão ou mais irrelevantes do que um sistema de poder que atribui o mérito de acordo com o espermatozoide de origem. Mas, de facto, é fenómeno a que nunca achei gracinha nenhuma, pelo que estou longe de ter uma opinião formada sobre Meghan, antes Markle, agora Sussex. E também nunca vi Suits, mas dizem que a pequena não ia mal na série e eu acredito.
Sei que ela e o Harry deram o grito do Ipiranga e foram apanhar sol para a Califórnia. Sei que ela acusou a avó do marido de ser um bocadinho racista, coisa absolutamente chocante vinda da primeira figura de um regime colonialista, mas não vou fazer victim blaming. E sei que é muito gira e faz um bonito casal com o Harry que, por ela, disse que não estava para isto de ser príncipe e ficou só duque. Se isto não é uma prova de amor, até me veio uma lagrimita ao olho… Esqueçam, afinal é só vista cansada de ter consumido esta xaropada em tons pastel, polvilhada com flores comestíveis e acompanhada de doses generosas de snobismo.
O título Com amor, Meghan não augurava nada de bom, mas apre! O esforço que farei ao longo deste artigo para não fazer uso de vernáculo da pesada, devia ser reconhecido e bem. Não estou a dizer que mereço uma condecoração do Marcelo, mas o Charles bem que me podia fazer cavaleira, nem que fosse para se vingar da nora que levou o filho para terras plebeias. Tive momentos mais prazerosos durante uma ressonância magnética com contraste, do que a ver Com amor, Meghan, o novo programa da Netflix. Eis a sinopse:
“Megan Markle compartilha dicas e truques pessoais, abraçando a diversão em vez da perfeição, destacando como criar beleza de maneiras inesperadas.”
[o trailer de “Com Amor, Meghan”:]
É tão oco, pretensioso e desinteressante quanto soa. São 8 episódios que cabiam em 3 filas do Pinterest. Existia um programa na SIC Mulher do género “bricolage e cozinha feita por pessoas que nunca pregaram um prego, nem distinguem salsa de coentros” que via de vez em quando por puro ranço recreativo. Quero pedir publicamente desculpas à equipa d’O Programa da Sofia, que é o Citizen Kane do lifestyle ao pé disto.
Vou já elencar as qualidades de Com Amor, Meghan — é um parágrafo curtinho, fica já despachado. Tecnicamente, está bem feito. Bonitos planos, embora abuse um pouco do slow motion (o que não me espanta, dada a escassez de conteúdo), belos cenários e boa escolha musical. Quebra a quarta parede quando mostra a equipa técnica e inclui alguns diálogos entre a protagonista e o realizador e isso é uma coisa que me agrada. Se isso é para mostrar que a Duquesa de Sussex (Pff!) é simples e é do povo e ainda sabe o lugar das estacas? Acho que sim. Mas funciona. Pronto e é isto. Daqui para a frente, só para trás. Apertem os cintos, que vem aí um tsunami de fel. Vou explanar o primeiro episódio de forma mais detalhada e dos restantes (aqueles me foi humanamente possível assistir, que até eu tenho limites) saliento o mais relevante, que é como quem diz o que mais me irritou.
O primeiro episódio — Hello, Honey! — arranca com um bucólico quadro, que inclui Meghan num fato de apicultora. Descobrimos que tem abelhas na sua propriedade, há um ano, mas se não fosse o seu fiel escudeiro, que dizer, colaborador (que faz lembrar o “Weird Al” Yankovic), não conseguiria fazer aquilo sozinha. Ó surpresa, espanto, estupefação. E ao fim de dois minutos, Meghan partilha uma tirada filosófica, a propósito da arte da apicultura: “Sabes o que é? É uma espécie de lembrete para fazermos algo que nos assusta um pouco. Faz parte, mas estou a tentar manter a calma, porque é lindo estar tão ligada”, o que me provocou um revirar de olhos olímpico.
Meghan anuncia que vai receber um hóspede, Daniel Martin, o seu maquilhador, que “esteve na minha vida no antes, no durante e no depois”, frase que diz com aquele sorriso cúmplice de “vocês sabem do que eu estou a falar”. E porque a nossa Gata Borralheira faz tudo para proporcionar a melhor “guest experience” (expressão que usa adnauseum), segue-se um segmento em que prepara um frasco de sais de banho com sal dos Himalaias. Eu que achava que uma boa guest experience consistia em deixar uma toalha lavada em cima da cama, ter pão do dia e atestar o frigorífico com minis, fiquei de rastos. Pelos vistos, também é preciso pôr flores silvestres numa jarra e fazer pipocas com óleo de trufa.
Lembrei-me do Anthony Bourdain que dizia que o óleo de trufa era tão comestível como Astroglide, um lubrificante para carros. De repente, estou a sentir-me um pouco herege ao colocar o Bourdain e a Markle — peço desculpa, a Sussex — no mesmo texto. Alguém que sabia de comida, sabia como contar uma história e de quem queríamos ser amigos. Já a Meghan dá-me vontade de arrancar tinta da parede com as unhas até fazer sangue, só para sentir alguma coisa genuína. Bom, peço desculpa pelo interlúdio.
COURTESY OF NETFLIX
Ah, já me esquecia. Para bem receber também é necessário pôr etiquetas de papel pardo em tudo. Sempre manuscritas, sempre em estilo itálico. E claro que ela tem uma letra linda de morrer. Atenção: ela é muito bonita, tem um sorriso luminoso e fica muito bem na câmara. E usa aqueles modelitos effortless, e tem as mãos impecavelmente arranjadas com um verniz leitoso e anda descalça pela casa e aposto que nem fica com os pés encardidos. Eu percebo o apelo, mas seria possível acrescentar-lhe um nadinha de substância? Que eu acredito que ela tem.
Então, mas isto não tinha uma vertente culinária, perguntam vocês? Sim. Neste primeiro tomo, a nossa querida fez pipocas, embalou pretzels comprados no supermercado para poupar tempo e para mostrar que também é gente como a gente, e fez uma tábua de crudités, que são legumes em palitos acompanhados de molhangas várias, o género de coisa que é apreciada por pessoas que gostam de pagar demasiado por couverts. Portanto, até agora, cozinhar que é bom, nada. Mas tirem o cavalinho da chuva, larguem as tochas, engulam o veneno que agora é que ela vos vai surpreender.
A duquesa (Pff!) fez um esparguete com tomate na frigideira, daqueles que aparecem em reels de 30 segundos com legendas do género “se não sabes cozinhar, surpreende os amigos com esta receita”, a que ela chamou “Single Skillet Spaghetti”. Isn’t that gorgeous? Juro que não deslocar a córnea, de tanto revirar os olhos durante este visionamento, foi a experiência mais próxima de um milagre que vivi até hoje. Meghan fez também um “Beauty in the inside Cake”, porque é recheado e “há algo de satisfatório, porque não sabes o quão delicioso é, até ires fundo e conhecê-lo melhor, sem julgamento”. Vocês estão a perceber a minha dor ou não?
Há ainda um belo segmento em que Meghan e Daniel fazem velas com a cera das abelhas da fada do lar. Uma atividade que consome aproximadamente seis minutos do episódio. Seis minutos da minha vida que ninguém devolve. Então e esse Daniel, que tal? Os diálogos entre Meghan e o amigo maquilhador são inenarráveis. Eles conhecem-se há 15 anos, são unha com carne, mas parece que tiraram este fim de semana para relembrarem um ao outro os momentos basilares desta amizade, como o exemplo que passo a citar. Daniel “Eu lembro-me da primeira vez que trabalhámos juntos…” Meghan “Qual foi o nosso primeiro trabalho juntos?” Daniel “Suits”. Gostaram? Querem mais uma interação com a naturalidade do ChatGPT?
Daniel “Disseste limão e fez-me lembrar o teu bolo de casamento…” Meghan “Meu Deus. Sim!” Daniel “Limão e sabugueiro?” Meghan “Flor de sabugueiro” Daniel “Flor de sabugueiro” Meghan “Sim. Boa memória.”. Shakespeare, põe os olhos nisto.
No segundo episódio, a convidada é a talentosa Mindy Kaling e mesmo assim são cerca de 30 minutos quase tão emocionantes como ver cal a secar no muro de um monte alentejano. O tema proposto é uma festa infantil no jardim, portanto temos estas queridas a fazer sandes de pão de forma em forma de coração, estrela e piroseiras similares, crostinis com joaninhas de tomate e mozarela e uma travessa de fruta em forma de arco íris. Se não cabem em vocês de entusiamo, deixem-me acrescentar que há todo um segmento de Meghan a encher balões. Literalmente. Não é uma figura de estilo, estou a usar a expressão comme il faut.
JAKE ROSENBERG/NETFLIX
Há também um momento “Georgina Rodriguez”, em que Mindy elogia o estilo de Meghan, que anda por casa com um pullover pelos ombros, apesar de não ser uma beta num final de tarde, no Praia do Parque. Meghan diz que gosta do look chique e descontraído e de forma chocante confessa que as calças são da Zara. Isto sim é despertar consciências. Depois acaba por dizer que na parte de cima veste duas peças de duas marcas das quais eu nunca tinha ouvido falar, o que faz sentido na medida em que a camisolinha custa 1325 dólares e o dito pullover pelas costas 595. Se isto não é uma duquesa do povo?
Mas o momento alto acontece quando Mindy lhe chama Markle e a duquesa (Pff!) dá-lhe um raspanete, porque ela agora é Sussex e cavalga para uma Ted Talk sobre a importância de partilhar o sobrenome dos filhos. Não sendo eu psicóloga ou nada que se pareça, dá-me a sensação que ela está a tentar convencer-se a si própria que deve assumir a identidade de uma família que a desprezou e alegadamente discriminou os seus filhos. Mas se calhar sou só eu a tentar encontrar alguma profundidade nisto.
E lá vamos nós para o terceiro episódio e toma lá mais um aforismo de Meghan: “Não é bom experimentar algo novo e perceber que é muito simples? Estou sempre grata por aprender, certo? As pequenas coisas dão-me muito prazer.” Posto isto, este é o melhor dos episódios, mas honestamente a margem de progressão era gigante.
O convidado é Roy Choi, um chef americano nascido na Coreia do Sul. E o que eu gosto de cozinha coreana, meus senhores! Pelo-me por um bom bibimbap, deliro com panquecas coreanas, passo-me com kimchi. Agarrei-me a esta boia de salvação, neste mar de comida exposta de acordo com o pantone. Finalmente, aprendemos alguma coisa graças ao chef Roy, que se encarregou de pôr Meghan a cozinhar, o que lhe deixou menos tempo para vomitar lugares comuns. Ele foi pickles, ele foi pasta de kimchi, ele foi um frango frito coreano que deu vontade de entrar pelo ecrã dentro. Aleluia, estou interessada! Até que a anfitriã contra-ataca com outra travessa de crudités. Porra! (Porra não é asneira, vá lá!) E houve flores comestíveis, que ela usa mais do que o córtex. E champagne, aparentemente a bebida oficial da duquesa (Pff!) que a serve com tudo e com nada. Sou menina de flute, mas até a mim me pareceu um tanto ou quanto possidónio.
Meghan tenta à força criar uma ligação com o chef, porque são ambos angelinos, o que quer dizer naturais de Los Angeles. Mas como sou parva, resignifiquei a palavra na minha cabeça e, para mim, eles estavam a afirmar a sua profunda admiração pela Isabel Angelino e isso trouxe-me um pouco de felicidade.
Quarto episódio, chegámos a meio da temporada, estamos fortes, estamos juntos… E voltamos ao aborrecimento de a ver a enfiar coisas em saquinhos de tule, como aqueles que usam em romances de cordel que se vendem em grandes superfícies comerciais, só que mini. Meghan faz chá solar… Uau! E o que é isso? Que feitiçaria é essa? É fazer chá e pô-lo ao sol. Fascinante, hein?
JUSTIN COIT/NETFLIX
Desta feita, Meghan recebe a amiga Delfi, casada com o melhor amigo do Harry, sendo que os dois mancebos se uniram através do polo. Quem duvidou da capacidade do polo construir relações fortes, desengane-se. Delfi é casada com Nacho Figueiras, que não fazia ideia quem era, mas num rápido google descobri que é conhecido pelo epíteto “David Beckham of polo”. Achei tudo. As duas amigas fazem uma caminhada, uma focaccia, uma “garden pasta” e bebem mate. E Meghan faz compota de framboesas (ela fala em compota caseira umas 10 vezes por episódio, salientando sempre que põe menos açúcar do que é suposto), toalhas de alfazema (nem me vou dar ao trabalho de explicar o que é isto) e, last but not the least, a duquesa (Pff!) faz biscoitos para a cadela da convidada… Exato. Deixem esta assentar.
O que é que eu aprendi com este episódio? A cortar as pontas dos laços em V. Noutro momento de rara beleza, Meghan confessa uma insegurança passada e vulnerabiliza-se de forma generosa e altruísta. Pode ser que alguém aí em casa se sinta visto e esta partilha ajuda a combater o estigma. É sempre bom dar visibilidade a estes temas. Estão preparados? Meghan assume: “Costumava ter medo de assar um frango.” Uma vénia!
Já ia para o episódio 5 a custo, mas seguia com espírito de missão. Dar o peito às balas por um bem maior. Pode ser que isto sirva me absolva de algum homicídio que tenha praticado noutra vida. As amigas Abby e Kelly são as convidadas. Duas amigas querídissimas que gostam de comida leve e saudável, por isso a anfitriã vai fazer um peixe cozinhado no sal. Até aqui tudo bem. Mas eis senão quando Meghan me apanha com as defesas em baixo e anuncia ao mundo que vai fazer, adivinhem o quê? A…. da travessa de crudités. Nesse momento, corri para o sofá, peguei numa almofada onde enfiei a cara com vigor, numa tentativa de abafar o chorrilho de palavrões que regurgitei em cascata. A seguir, fechei o computador com muito menos força do que tinha vontade, abri uma garrafa de vinho e aqui estamos.
Peço muita desculpa aos prezados leitores, mas fui até onde pude. Se visse mais um prato com palitos de pepino e rodelas de rabanete, não ia responder por mim e a minha família não merece isso. Com Amor, Meghan é rage bait puro e eu caí que nem uma patinha. A série era para ter sido estreada no dia 15 de janeiro, mas a duquesa de Sussex quis concentrar-se nas “necessidades das pessoas afetadas pelos incêndios”. Um laivo de noção que lhe faltou quando decidiu gravar este programa. Meghan, Duquesa de Sussex, que assina a produção executiva desta mão cheia de nada, parece ter levado a saída da Família Real tão a sério, que perdeu completamente a noção à realidade.