Um homem que é capaz de sair à rua sem guarda-costas para comer uma pizza e que dedica os seus dias a estudar física ou arqueologia. Não parece nada de especial para alguém que está prestes a completar 80 anos. Se não fosse a sua riqueza, avaliada em mais de 11 mil milhões de euros, que o coloca na 238ª posição na lista das pessoas mais ricas do mundo da Bloomberg. E que também faz dele o membro da realeza mais rico da Europa, apesar de ser chefe de estado de um dos menores países do mundo, com cerca de 40 mil habitantes. Uma fortuna que foi reerguida nos últimos 40 anos e que, ao contrário da de outros monarcas, como o rei Carlos III, não pertence à coroa, mas sim a ele próprio, o príncipe Hans-Adam II do Liechtenstein.
O seu principal ativo é o banco privado LGT Group, que pertence à família há mais de 80 anos mas que cresceu consideravelmente nos últimos 20. Atualmente o banco administra ativos de multimilionários de todo o mundo, num total de quase 300 mil milhões de euros. Além disso, Hans-Adam II herdou terras, castelos e uma coleção de arte com obras de artistas do século XVII como Anthony van Dyck, Peter Paul Rubens e Bartolome Esteban Murillo. Mas à parte da riqueza e do papel de chefe de estado, vive uma vida bastante normal. Planeamento e recato serão o segredo para poder dedicar tempo ao que gosta e manter o anonimato nas ruas de Vaduz, a capital do Liechtenstein, o principado que foi notícia recentemente, pelo anúncio do casamento da princesa Leopoldina, cuja cerimónia passará também por Portugal.
▲ Hans-Adam nasceu a 14 de fevereiro de 1945 e é o primeiro filho do príncipe Franz Joseph II e da condessa Georgina von Wilczek
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Infância solitária e juventude rebelde
Hans-Adam II é o filho mais velho do príncipe Franz Joseph II, que governou o Liechtenstein entre 1938 e 1989, ano da sua morte. Por Franz Joseph II ter sido o primeiro chefe de estado a viver efetivamente dentro do território do país, Hans-Adam II acaba por ser o primeiro príncipe que cresceu no Liechtenstein. Contudo, não terá sido uma infância integrada à comunidade do principado. “Vivíamos no castelo, não falávamos o dialeto”, explica Hans-Adam, numa entrevista ao jornal Vaterland, em 2015. “Como resultado, o meu primeiro amigo foi um estudante alemão, Uve Harder. Mas meus pais fizeram questão que nós não fôssemos tratados diferente dos outros alunos da escola”. Aos 12 anos, foi estudar numa escola católica em Viena, a mesma que o pai frequentou. Concluiu os estudos na cidade suíça de Zuoz, em 1965. “Fui rebelde praticamente toda a minha vida, a começar pela escola elementar”, diz o príncipe. “Quando estava na escola em Zuoz, jogava hóquei no gelo, o que não é dos desportos mais gentis. Nunca fui um aluno exemplar. Lembro-me que a educação religiosa na escola aqui no Liechtenstein era à moda antiga. Tínhamos que memorizar o antigo catecismo. Achava as questões estúpidas e as respostas também. Então, perante toda a classe, levantei-me, rasguei o catecismo e joguei-o para fora da janela. Alguns anos depois um novo catecismo foi introduzido. Então talvez eu tenha sido sempre um pouco à frente do meu tempo”.
Princesa do Liechtenstein que vive em Lisboa casa-se no fim do ano
Entretanto, a atitude do jovem rebelde teve consequências. “Foi parar ao governo. ‘O príncipe herdeiro rasgou o catecismo!’ Fui mantido na escola depois das aulas para escrever linhas. Era um dia lindo de verão e eu estava trancado no terceiro andar. Olhei para fora e vi a calha da chuva. Então escalei pela janela e desci pela calha. Eu era tudo menos um aluno exemplar!” Hans-Adam confessa, por exemplo, que fumava escondido dos pais e jogava à bola no parque Volksgarten, em Viena, “apesar de ser proibido”. Rebeldias que não seriam possíveis se tivesse sido criado dentro dos muros do castelo. “Sou muito grato aos meus pais por prestarem atenção neste detalhe, apesar de ser uma criação tão diferente da que eles tiveram. Meu pai não foi para a escola, os professores é que vinham à casa”.
Amor à primeira vista e casamento antecipado por causa do Rei Carlos
Aos 22 anos, em 1967, casou-se com a condessa Marie Kinsky von Wchinitz und Tettau, com quem teve quatro filhos, o príncipe herdeiro Alois, o príncipe Maximilian, o príncipe Constantin (que morreu em 2023, aos 51 anos) e a princesa Tatjana. Mas o casamento só deveria acontecer dois anos depois… E acabou antecipado por causa do rei Carlos III. “Dentro de Liechtenstein era senso comum que eu estava num relacionamento. Mas a imprensa não sabia de nada. WBW (Walter Bruno Wohlwend, um dos mais conhecidos jornalistas do Liechtenstein) era o único jornalista que sabia, e ele concordou em manter o segredo. A cobertura toda estourou quando Carlos e Anne estiveram aqui”, conta Hans-Adam. Os então príncipes do Reino Unido viajaram em 1966 ao principado para esquiar, e levaram consigo os fotógrafos que acompanhavam de perto a vida da realeza britânica.
“Eu e minha namorada decidimos dar um passeio na floresta em volta do castelo e WBW não sabia. Ele levou um grupo de jornalistas para mostrar a área ao redor do castelo e eles viram-nos. WBW tentou distraí-los mas não funcionou. Ele conseguiu, entretanto, convencer os jornalistas a manter o segredo até o anúncio oficial ser feito. Aquilo estragou os planos dos meus pais”, diz o príncipe, que assume que o casamento estava previsto para 1969, mas acabou acontecendo no verão de 1967, “graças ao príncipe Carlos e à princesa Anne”.
Marie Kinsky era parente distante de Hans-Adam. Os dois conheceram-se durante umas férias de verão no castelo. “Ela entrou pela porta, vi-a e disse: ‘Será a minha mulher!’ Se quiser, pode considerar amor à primeira vista”. O príncipe tinha então 15 anos, a futura mulher, 20. “Eu era persistente. Meus futuros cunhados chamavam-me ‘bebé tonto’. Meus pais e meus sogros pensavam que eu deveria primeiro terminar os meus estudos. Só em 1967 é que tiveram misericórdia”, brinca. Com Marie Kinsky, Hans-Adam seguiu o plano de viver uma “vida normal”. “Sabia que ela seria boa esposa e boa mãe. Estava claro para nós os dois que criaríamos os nossos filhos nós mesmos. Troquei fraldas e isto foi antes de existirem fraldas descartáveis. Dei-lhes biberão, poderia ter trabalhado como ama”. A princesa Marie morreu em 2021, aos 81 anos, depois de sofrer um derrame cerebral.
▲ Hans-Adam foi obrigado a assumir o romance com Marie Kinsky durante uma visita do então príncipe Carlos, em 1966
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Dever de salvar a fortuna da família
É hoje o membro da realeza mais rico da Europa, mas nem sempre foi assim. Em 1921, quando o banco privado LGT começou, tinha apenas 10 funcionários. Foi comprado pela realeza cerca de uma década depois, mas na altura a fortuna da família era formada, basicamente, por propriedades que tinham desde o século XII na Áustria, Polónia e antiga Checoslováquia. Terras que foram na sua maioria expropriadas sem compensação durante e após a segunda guerra mundial. Para manter o padrão de vida, a família passou a vender obras de arte que faziam parte da coleção. Foi nesta altura que nasceu o príncipe herdeiro, quem teria o dever de salvar a fortuna da família e recuperar a economia do principado.
“Quando fui para o colégio, meu pai me perguntou o que eu queria estudar. Eu respondi física ou arqueologia e ele me disse: ‘Hans-Adam, não podemos sustentar isto. Precisas estudar economia e direito. Economia para reerguer a fortuna da nossa família e direito porque eu gostaria de passar-te os meus deveres como chefe de estado enquanto ainda estou vivo”, conta. Depois dos estudos secundários, Hans-Adam trabalhou como trainee num banco de Londres, estudou inglês e francês e seguiu para a faculdade de administração, negócios e economia na Universidade de St. Gallen, na Suíça. “Eu sabia que tinha de resolver os problemas de administração dos nossos ativos. Se nossos ativos colapsassem, também cairia a monarquia. Então disse ao meu pai: ‘Ou lidamos com isto agora e dás-me a autoridade necessária sobre o banco, ou vou trabalhar para o IBM que me ofereceu um emprego. Tenho filhos e tenho de os alimentar. Se tudo desmoronar, temos de fazer as malas e voltar para Viena'”.
Franz Joseph II deu poder ao filho sobre os ativos da família em 1973. Foi quando o príncipe se dedicou a estabilizar e expandir o banco da família. Em 1984, Hans-Adam II recebeu a responsabilidade de tratar dos assuntos de estado, mas só assumiu oficialmente a função de chefe de estado em 1989, com a morte do pai. Em 2004, entretanto, Hans-Adam deu ao filho mais velho, o príncipe herdeiro Alois, poderes como regente do principado.
O Liechtenstein é uma monarquia constitucional, o que significa que o chefe de estado é o príncipe, que chega ao trono de forma hereditária, mas o governo é formado por um primeiro-ministro. Contudo, na prática, tem contornos de uma monarquia absolutista. É que com alterações feitas à constituição em 2003, depois de um plebiscito, o monarca tem amplos poderes, como nomear juízes e demitir membros do executivo, assim como vetar leis. Dez anos após a mudança houve uma nova consulta à população a propor poderes limitados, reflexo de um movimento de ativistas republicanos. Contudo, 76% da população confirmou o poder de veto ao príncipe.
Sobre as vozes da oposição, que criticam as suas ações, Hans-Adam é direto. “Se houver fundamento, penso no que posso mudar. Se não houver nenhum, ignoro. Era claro para mim o que havia para mudar: a administração dos ativos, a política externa, a constituição, o sistema jurídico, a legitimação da monarquia, todas estas coisas eu sabia que teria de reorganizar”, diz, assumindo-se como “um toureiro com a capa vermelha” quando o assunto é “ser provocativo”. Defensor da monarquia e do poder absoluto, diz que o movimento democrático no principado “é sinal de que temos liberdade de discurso”. “Com maioria simples pode-se abolir a monarquia no Liechtenstein a qualquer momento. Mostra que ideias diferentes sempre podem ser implementadas”.
▲ O príncipe Hans-Adam II e o príncipe herdeiro Alois
Casa Real do Liechtenstein
Física, arqueologia e pizzas
Ao entregar a regência ao filho em 2004, Hans-Adam passou a ter mais tempo livre. “Tive tempo de escrever meu livro. Também posso ocupar-me com física, algo que eu gostaria de ter estudado na universidade. Há poucos anos também envolvi-me na administração dos nossos ativos novamente, junto dos meus dois filhos mais novos. Adicionalmente, mantenho-me ocupado a planear a cidade”, conta o príncipe, que tem muitas ideias sobre urbanização. “Há muitos anos as cidades eram construídas a pensar nas pessoas, mas hoje em dia são feitas para servir os carros. Como podemos combinar o carácter das agradáveis e antigas cidades com a alta qualidade de vida e as demandas dos nossos tempos? Trabalho em conjunto com muitos especialistas holandeses.”
Entretanto, as suas obsessões são mesmo física e arqueologia. “Sempre tive esta fascinação por física, por um lado aquela de Einstein e por outro a física quântica. As duas teorias não se complementam e são até contraditórias. Então levantam-se questões sobre se podemos juntar as duas teorias”. Já no campo da arqueologia, Hans-Adam chegou mesmo a criar uma fundação com o objetivo de desenvolver projetos na área. “Funciona bem, eu mesmo já visitei um número de escavações”.
Diferente de realezas como a britânica ou a espanhola, o príncipe sempre preferiu manter-se longe da imprensa. “Fiquei em choque quando o príncipe Carlos e a princesa Anne visitaram-nos numas férias para esquiar. Ficámos sitiados pelos média internacionais. Carlos e Anne esconderam-se numa carrinha de entrega para que pudéssemos esquiar por conta própria por algumas horas”. Hans-Adam garante que corta as informações pessoais ao mínimo possível e evita fotografias das crianças nos jornais. “Se não és conhecido, não és interessante para a imprensa”.
Será o segredo para, por exemplo, ter tido a oportunidade de ir muitas vezes à pizzaria com a mulher sem seguranças. “É qualidade de vida se podes andar por aí sem guarda-costas. Com a minha mulher, habitualmente saio para comer pizza ou dar uma volta por Vaduz”, disse em 2015. “Claro que os habitantes do Liechtenstein reconhecem-nos, mas a maioria dos turistas não. Até mesmo quando saio do castelo e há um turista na porta, normalmente não sabe quem acabou de passar por ele em fato de treino e casaco corta-vento”.