1243,8kWh poupados 1243,8 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Nos anos 90, Portugal viveu o boom da música de dança. O documentário "Paraíso" revela, pela primeira vez, as origens e o impacto da cultura rave no paí
i

▲Nos anos 90, Portugal viveu o boom da música de dança. O documentário "Paraíso" revela, pela primeira vez, as origens e o impacto da cultura rave no paí

Da Fonseca

▲Nos anos 90, Portugal viveu o boom da música de dança. O documentário "Paraíso" revela, pela primeira vez, as origens e o impacto da cultura rave no paí

Da Fonseca

Das noites no Alcântara-Mar às festas em castelos. As origens da cultura rave e da música de dança num "Paraíso chamado Portugal"

Nos início dos anos 90, a noite em Portugal viveu uma revolução. Documentário "Paraíso" traça a origem da cultura rave nacional e escreve um capítulo da música portuguesa que ainda estava por contar.

Durante os anos 1990, Portugal foi o paraíso da música de dança. Foram tempos intensos, marcados por festas de proporções épicas — em discotecas, castelos e espaços inusitados de norte a sul do país, sempre fora de horas. As pessoas vestiam-se com audácia e imaginação, como se cada noite fosse um ritual, enchendo os cenários que acolheram a explosão da cultura rave. Alguns dirão que foi uma combinação rara de “ingredientes certos no momento certo”, outros verão nesse movimento uma resposta natural de um país recém-saído da ditadura, ainda em processo de abertura ao mundo.

Em 1993, em pleno Telejornal, José Rodrigues dos Santos falava do “novo fenómeno”: as “raven parties” (sic). “Nasceram na Grã-Bretanha e estão a ter um grande êxito em Portugal”, continuava o pivô da RTP. “São festas semi-secretas, muitas vezes ilegais porque se prolongam depois das quatro da manhã”. É essa reportagem que abre o documentário Paraíso, que se estreia no festival de cinema IndieLisboa, integrado na secção IndieMusic, com exibições marcadas este domingo, 4, e na próxima sexta-feira, dia 9, ambas no Cinema São Jorge às 21h30.

O filme, realizado por Daniel Mota e produzido por João Ervedosa e Maria Guedes, retrata o nascimento da cultura rave portuguesa e o seu impacto na música eletrónica a nível mundial. Com imagens inéditas e testemunhos de muitos dos protagonistas dessa era dourada da música de dança, o documentário traça os primórdios de um movimento que marcou uma geração e deixou raízes profundas nas que se lhe seguiram.

▲ O filme resgata um capítulo muitas vezes ignorado da história musical portuguesa: a explosão da música de dança nos anos 90

Sem obedecer uma estrutura clássica ou cronológica rígida, o filme destaca aquele que é considerado o ponto de partida da cena rave portuguesa: uma festa a 13 de fevereiro de 1993, no Convento de São Francisco de Assis, em Coimbra. A atmosfera parece saída de um filme. “Ficámos completamente estupefactos, não só pela energia da festa, mas também pela estética, a roupa, a maquilhagem, a dedicação que todos colocavam na rave”, recordam João Ervedosa (Shcuro) e Maria Guedes (Maria Amor), a dupla de produtores e DJs que há muito identificou que havia uma história por contar — vivida num tempo pré-internet, em que os registos são tão escassos quanto preciosos.

▲ O Convento de São Francisco, em Coimbra, transformou-se no palco de uma das primeiras raves de que há memória

Da Fonseca

João e Maria perceberam o valor desta história há cerca de uma década, quando a dupla por detrás da Paraíso (editora que nos últimos 10 anos editou uma série de artistas, assim como pela sub-label Rave Tuga), começou um programa na Rádio Quântica em que entrevistava figuras proeminentes do meio, a partir de contactos que Ervedosa havia feito no seu primeiro emprego numa loja de discos no Chiado. A cada episódio, o padrão repetia-se: os convidados evocavam outros protagonistas da noite e mencionavam os registos que tinham em casa, desde fotografias não digitalizadas a camcorders cheias de memória por revelar.

A partir de 2017, a dupla decidiu começar a filmar as entrevistas, depois de recrutar Daniel Mota, realizador que também assina a fotografia do documentário. Muitas vezes, os entrevistados escolhiam um local que tinha algum significado para o seu percurso musical.

▲ João Ervedosa e Maria Guedes, DJ's e produtores do documentário. Tudo começou com um programa de rádio na Rádio Quântica, onde durante cinco anos conversaram com pioneiros da música de dança

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

“A história destas pessoas não existia, muito menos a coletiva. Queríamos começar a juntar as peças do puzzle de alguma maneira”, explica João. Aguçados pela curiosidade de quem não viveu os anos 90 e desejosos de que quem viveu aquela época sentisse o devido reconhecimento, começaram a recolher todo o material que conseguiram encontrar sobre esses anos. O resultado foram horas e horas de acervos pessoais e institucionais — desde coleções privadas até arquivos da RTP, SIC e MTV, passando pelo espólio de alguns fotógrafos que documentaram a rave scene portuguesa, como é o caso de Da Fonseca, João Curiti, Luísa Ferreira ou Rita Barros. Mesmo com o documentário cá fora, João e Maria continuam a apelar a que quem tem registos desse tempo com eles entre em contacto — até porque, depois do filme, não está fora de hipótese a criação de um livro ou até de uma exposição.

As imagens, fotografias e vídeos, habilmente cosidas por Henrique Brazão, que assina a montagem do filme, mostram um mundo que parece não ter existido. “Os tipos quando aterraram cá é que chamaram a isto um paraíso”, ouve-se no documentário, que esclarece a origem da expressão que durante três décadas tem sido repetida.

▲ Imagens de raves no Castelo de Santa Maria da Feira, num evento que tinha o nome de Feira Virtual

Da Fonseca

Rob di Stefano terá sido a primeira pessoa a denominar a cena portuguesa de música eletrónica como “Paraíso”, usando a expressão “underground house from a paradise called Portugal” numa compilação dedicada à música de dança portuguesa chamada Total Kaos. O termo cunhou e haveria de ser replicado vezes sem conta. Num flyer de uma rave nos anos 90 lia-se: “Mais de dois mil ravers já escritos para virem assistir à A Week In Paradise Called Portugal“, uma festa no Castelo de Montemor-O-Velho onde poderiam “dançar sob o efeito hipnótico” de nomes como o norte-americano Tony Humphries ou os portugueses DJ Vibe e Tó Ricciardi. Em 1995, Ben Turner, na revista Muzik, porventura a publicação de música de dança mais influente dos anos 90, sublinhava o termo. Um longo artigo de capa dissertava sobre as noites lisboetas de DJ Vibe no Kremlin e as festas da Kaos. O título era: “A New Paradise Called Portugal”.

Que paraíso era este, que posicionava Portugal como alternativa a Ibiza, o destino preferencial dos entusiastas internacionais pela música de dança? É isso que dá a conhecer o documentário que dá voz aos intervenientes daqueles anos inaugurais para assim contar a história possível que passou à margem dos livros e da imprensa da época. Surgem nomes como Luís Leite, DJ Vibe, Tó Ricciardi, Rui Vargas, Danny Tenaglia, DJ Morgana, Alcântara Dancers, Miss Sheila, Rui da Silva, Alex S, Carlos Manaça, Yen Sung, entre outros. Muitos partilham conversas em frente à câmara, oferecendo testemunhos em primeira mão sobre aqueles tempos e o que significaram.

▲ "Paraíso" revela imagens muitas delas inéditas, recolhidas ao longo de vários anos, entre registos em VHS recuperados de sótãos, coleções pessoais e arquivos das televisões RTP, SIC e MTV

“Fascinou-nos a música, a discoteca, a ilusão das luzes, da festa. Para tristeza já bastava na nossa casa quando éramos miúdos. Aquilo para nós era a alegria. Apaixonámo-nos pela magia da noite”, recordam os Alcântara Dancers. “Queríamos chocar”, “ferir susceptibilidades”, “chamar a atenção”, admitem.

“Quanto mais louco fores melhor, valia tudo, isso era uma coisa que criava um espírito especial. Depois era a festa até chegar à festa. Aquela romaria, procurar onde é que é [a festa]. Era a sensação de pertencermos a uma comunidade secreta. E o estar pela música. Independente de tomar ou não tomar cenas, estavas lá pela música. A música era a primeira coisa, o que mandava”, diz José Miguel Silva (DJ Zé Migl).

"Fascinou-nos a música, a discoteca, a ilusão das luzes, da festa. Para tristeza já bastava na nossa casa quando éramos miúdos. Aquilo para nós era a alegria. Apaixonámo-nos pela magia da noite"
Alcântara Dancers

Das muitas conversas que foram tendo com dezenas de DJs, bailarinos e produtores, João e Maria denotaram a “necessidade de libertação gigante” desta contra-cultura não raras vezes retratada como um fenómeno perigoso que ameaçava os “bons costumes”. No entanto, “a vontade de crescer e fazer festas, a comunidade que existia é surreal”, sublinha Maria que explica também porque escolheram não utilizar um narrador para o documentário. “Queríamos que fossem eles a contar a história. Como não é uma história que está registada há muitas versões diferentes”, diz. Completa-a João: “Esse conflito era mais importante para nós do que a verdade histórica”.

▲ Foram tempos de liberdade, comunhão e efervescência criativa do som ao vestir durante o nascimento de uma cena rave que floresceu em armazéns, matas e pistas de dança de norte a sul do país

Ao longo de cerca de 80 minutos, Paraíso busca mostrar esse ambiente da idade de ouro da cultura rave dos anos 90 em Portugal, mas não se demite de apontar alguns momentos históricos, como o surgimento dessas primeiras festas, a descoberta pelos estrangeiros. Rob di Stefano, responsável da Tribal America e pelo termo que marketizou o país, recorda um desses momentos. “Conduzimos até ao norte. Chegamos, saímos da autoestrada, estamos na estrada e de repente surge um castelo todo iluminado. Olhamos uns para os outros e dizemos: É ali a festa? A sério? Não era nada que conseguíssemos imaginar. De repente estávamos ali, no meio de Portugal, na pista de dança, no meio de um castelo, com 5 ou 6 mil pessoas. Life Changing é um understatement”.

“Conduzimos até ao norte. Chegámos, saímos da autoestrada, estamos na estrada e de repente surge um castelo todo iluminado. Olhamos uns para os outros e dizemos: “é ali a festa? A sério? Não era nada que conseguíssemos imaginar. De repente estávamos ali, no meio de Portugal, na pista de dança, no meio de um castelo, com 5 ou 6 mil pessoas. Life Changing é um understatement”.
Rob di Stefano, da editora Tribal America

Com o rock como cena dominante na noite lisboeta, para muitos os primórdios da música de dança acontecem com a abertura da discoteca Alcântara-Mar. “Hoje há 50 discotecas onde podes ouvir música de dança numa cidade. Mas na altura, como eles próprios dizem, o Alcântara-Mar era o único que passava música de dança do início ao fim”, diz João.

A edição do Diário de Notícias de 23 de janeiro de 1989 descreve assim a discoteca que abrira três anos antes numa velha tipografia descoberta por acaso num anúncio de jornal: “Uma nova discoteca, esta diferente de todas as que já tinham aparecido no nosso país”.

▲ Portugal era visto como um "paraíso" da música de dança nos anos 90, posicionado como alternativa a Ibiza, o destino preferencial dos entusiastas internacionais pela música de dança

Mas a história de noites mal dormidas — mas bem dançadas — também passa por espaços icónicos como o Kremlin, o Frágil e, mais tarde, o Lux. Ou por lugares menos convencionais, como o Xabregas 61: um antigo armazém de um fotógrafo onde se reunia gente para passar música. “Foram as primeiras festas feitas em Lisboa fora dos clubes, num espaço degradado, verdadeiramente underground. Aquilo era novo”, ouve-se em Paraíso.

Outro momento marcante foram as festas no castelo de Santa Maria da Feira — tão impactantes que, segundo relatos, “Santa Maria da Feira parou”. Mas o eco foi mais amplo: “foi um impacto de norte a sul”. “Aí é que começou a eletrónica em grande”, acreditam alguns.

Não eram apenas os espaços — também o som era novo. Paraíso recorda a revolução que representou o surgimento da Kaos Records, editora pioneira na divulgação da música de dança em Portugal. Fundada nos anos 90 e ainda hoje ativa sob direção de Carlos Nazir e Nuno Cacho, a Kaos tem vindo a relançar os primeiros discos do seu catálogo com novas remisturas de produtores portugueses contemporâneos.

É também nesta altura que acontece a internacionalização de So Get Up, êxito de 1994 criado por DJ Vibe (Tó Pereira) e Rui da Silva, no projeto Underground Sound of Lisbon, com a voz do músico norte-americano Darin Pappas — figura ligada ao crescimento do hip-hop em Portugal nos anos 90. O sucesso do tema tornou-se um dos pontos altos da música de dança portuguesa, levando o disco até às mãos do conceituado DJ nova-iorquino Junior Vasquez. O tema foi relançado internacionalmente pela editora americana Tribal, dando origem a remisturas assinadas por Vasquez e também por Danny Tenaglia.

“Apercebemo-nos de que o disco faz algum barulho lá fora”, recorda Rui Da Silva em Paraíso. “Em Portugal o disco torna se um hit underground por todos os DJs, numa altura em que a dance music ainda era em muitas das casas uma coisa que só se tocava a partir das 4, 5 da manhã, antes disso estava se a tocar rock ou uma coisa assim”.

Se Paraíso deixa um sabor agridoce, é pelo lamento de uma oportunidade desperdiçada. Há quem recorde, com frustração, que “não se tenha criado uma indústria maior” e quem acredite que “com mais organização, o movimento poderia ter ganho outra solidez”. Mas, como se ouve no filme, “ninguém percebeu verdadeiramente o que estava a acontecer”.

Maria Guedes e João Ervedosa não quiseram ignorar a questão, mas também não pretendiam abordá-la com “tristeza ou saudosismo”. “Claro que alguns testemunhos seguem por esse caminho — especialmente de pessoas cujas carreiras se mantiveram ativas. Podíamos ter sido mais estratégicos, mais pragmáticos”, admitem.

Ainda assim, o foco de Paraíso nunca foi apontar culpados ou alimentar nostalgias. “A nossa intenção foi reunir diferentes perspetivas, sem impor uma narrativa única”, explicam. E há algo que une todos os testemunhos: “Toda a gente que viveu essa época reconhece que nasceu ali qualquer coisa de novo”, diz João. “O nosso objetivo era registar essa génese, mais do que discutir o que veio depois.”

O tempo das raves e da música de dança em horário nobre na televisão pública, na imprensa e nos livros soube a pouco para explicar o fenómeno e documentar a sua história. “Na altura não foi documentada suficientemente porque era um género muito marginalizado. Estamos a falar de pessoas que se debatiam como a música das bolinhas, dos martelos, dos maluquinhos, dos drogados. Era uma coisa que socialmente num país conservador ainda era muito mal-visto pela sociedade”, acredita João. Hoje, a dupla não tem dúvidas de que continua a ser uma linguagem de resistência, de expressão livre, e um reflexo da diversidade e inquietação criativa dos ravers, mas o mundo mudou.

"Parece-nos inconcebível agora irmos para Oliveira do Hospital para uma rave e estarem lá 4 mil pessoas, sábado irmos para Albufeira e estarem lá mais 5 ou 6 mil e serem as mesmas. Isso é impensável hoje. As pessoas produziam-se, havia um investimento muito grande em viver como se fosse a última vez"
João Ervedosa, DJ e produtor do documentário

“A diferença é surreal. Há uma entrevista do Luís Leite muito boa na rádio em que ele conta que tinha de pôr músicas de bar para as pessoas irem ao bar consumir, na casa. Porque as pessoas não iam ao bar, ninguém saía da pista”, diz Maria. “Parece impossível existir agora. Era toda a gente de comunidades tão diferentes juntas, parecia-nos um paraíso, de facto”. João corrobora: “Parece-nos inconcebível agora, véspera de feriado, irmos para Oliveira do Hospital para uma rave e estarem lá 4 mil pessoas sábado ir para Albufeira e estarem lá mais 5 ou 6 mil e serem as mesmas. Isso é impensável hoje. As pessoas produziam-se muito, havia um investimento muito grande em viver isso como se fosse a última vez”.

Depois das sessões no Indielisboa, o documentário Paraíso mostra-se no cinema e discoteca Passos Manuel, no Porto, dia 17 de maio. João e Maria esperam poder levar o filme a outros espaços míticos da noite portuguesa, continuando a partilha desta história onde tudo começou.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.