As eleições legislativas de 18 de maio de 2025 constituem um ponto de viragem sem precedentes na história política do Portugal democrático. O mapa eleitoral, até aqui dominado pela alternância bipartidária entre o Partido Socialista (PS) e o Partido Social Democrata (PSD), foi completamente redesenhado. A Aliança Democrática (AD), uma coligação que reúne o PSD e o CDS/PP, emergiu como a força mais votada, com 32,72% dos votos e 89 mandatos, consolidando-se como a principal força parlamentar. Mas a verdadeira revolução política foi protagonizada pelo Chega, partido de direita radical liderado por André Ventura, que alcançou 22,56% dos votos e 58 deputados, ameaçando ultrapassar o PS, que ficou em segundo lugar com 23,38% dos votos e o mesmo número de mandatos apurados até ao momento.
Este rearranjo não é apenas numérico: é uma profunda transformação da geografia eleitoral portuguesa, com a direita a conquistar espaços até então considerados intocáveis para o centro-direita, e a esquerda a regredir em territórios históricos. Pela primeira vez desde a instauração da democracia em 1974, a direita — somando os mandatos da AD, do Chega e da Iniciativa Liberal (IL) — detém uma maioria qualificada de dois terços na Assembleia da República. Este marco inédito abre portas a possíveis alterações constitucionais, algo impensável até então sem o apoio do PS.
Um tabuleiro em mudança: o fim do bipartidarismo perante um sistema partidário fragmentado
O mapa eleitoral das legislativas de 2025 revela um realinhamento político profundo em Portugal, com uma clara tendência de avanço da direita em territórios tradicionalmente associados à esquerda, assim como uma crescente fragmentação em distritos antes estáveis. No Alentejo, os resultados são particularmente simbólicos. O círculo eleitoral de Beja foi conquistado pela primeira vez por um partido da direita, com o Chega a vencer e mantendo a distribuição de mandatos com um deputado para si, um para o PS e um para a Aliança Democrática (AD). O círculo eleitoral de Évora permanece o último reduto do PS no Alentejo, onde venceu por uma margem apertada, assegurando um mandato, mas com uma distribuição equilibrada: um deputado para o PS, um para o Chega e outro para a AD. Este cenário demonstra que, apesar da derrota, o PS mantém algumas raízes, embora fragilizadas.
▲ O líder do Chega acompanhado por Pedro Pinto, cabeça de lista pelo Chega no Algarve, em Portimão e em Évora
LUÍS FORRA/LUSA
Em Setúbal, outro bastião histórico da esquerda desde 1976, a direita dá um passo ainda mais decisivo: o Chega elege seis deputados, o PS perde dois mandatos e fica empatado com a AD, ambos com cinco deputados eleitos. A CDU, o Livre e a Iniciativa Liberal (IL) garantem um deputado cada, enquanto o Bloco de Esquerda (BE) não conseguiu eleger qualquer representante.
No interior norte do país, a AD reforçou a sua posição em distritos como Bragança, mantendo dois deputados para a coligação PSD-CDS/PP e um para o PS, com o Chega sem representação nesta região. Em Viseu, a AD alcançou quatro mandatos, um a mais do que anteriormente, conquistando um deputado ao PS. O Chega e o PS elegeram dois deputados cada um. Já em Vila Real, a AD conquistou todos os concelhos e roubou um mandato aos socialistas, que passaram de três para dois deputados, enquanto o Chega manteve a sua representação.
▲ Luis
MIGUEL A. LOPES/LUSA
No centro e norte litoral, a tendência de avanço da direita é ainda mais clara. Em Coimbra, a AD tornou-se a força dominante, com o PS a eleger três deputados, e o Chega a manter os dois mandatos. Em Aveiro, o PS perdeu um deputado diretamente para o Chega, que passou a eleger quatro deputados. Também a IL mantém o único lugar já alcançado anteriormente. Em Leiria, o Chega ultrapassou o PS e elegeu três deputados, deixando os socialistas com dois. Já em Braga, o Chega empatou com o PS em mandatos — cinco para cada —, enquanto a AD lidera com oito deputados. A IL mantém o seu mandato. Em Viana do Castelo, a AD reforça a sua posição alcançando 3 lugares, com o PS e o Chega a alcançarem um mandato cada.
No distrito de Santarém, o Chega conquistou três mandatos e ultrapassou o PS, que caiu para terceiro lugar, enquanto no distrito de Faro, tradicionalmente mais esquerdista, o Chega consolidou a sua posição como bastião, elegendo quatro deputados, um a mais que na legislatura anterior, tirando mandatos ao PS. Já no menor círculo eleitoral do continente, Portalegre, a luta entre partidos foi intensa, com o Chega a vencer em votos, mas com os mandatos a serem divididos entre o partido radical e o PS, ficando a AD em terceiro lugar, sem conseguir eleger deputados.
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Nas regiões autónomas, o arquipélago da Madeira viu uma novidade histórica: o Juntos pelo Povo (JPP) entrou no Parlamento pela primeira vez, elegendo Filipe Sousa e tornando-se o primeiro partido regional a marcar presença em São Bento. A AD manteve os três deputados, o Chega garantiu um mandato, enquanto o PS caiu para apenas um deputado. Nos Açores, a AD também reforçou a sua posição, conquistando um deputado adicional que retirou ao PS, resultando numa composição parlamentar onde AD elege três deputados, com o PS e o Chega a elegerem um deputado cada.
▲ Filipe Sousa dos JPP em campanha na Câmara dos Lobos e a festejar a eleição para o Parlamento
Homem de Gouveia/LUSA
No Porto, IL e CDU mantêm os mesmos deputados. No entanto, o Chega sobe de sete para nove deputados, a AD aumenta mais um, ficando atualmente com 15, o Livre também passa para dois deputados, e só o PS perde dois dos 13 mandatos alcançados nas legislativas de 2024. Por fim, a região de Lisboa, decisiva para o equilíbrio parlamentar, foi palco de uma batalha intensa. A AD conquistou o círculo eleitoral, elegendo 15 deputados contra 12 do PS. O Bloco de Esquerda (BE) sofreu uma queda drástica, elegendo apenas uma deputada, Mariana Mortágua, e falhando a eleição de outros nomes históricos. O PAN manteve a sua deputada Inês de Sousa Real, enquanto o Chega, a IL e o Livre reforçaram significativamente as suas votações. A CDU ficou reduzida a um único deputado, demonstrando o declínio das forças tradicionais da esquerda.
O xadrez da governabilidade perante o xeque-mate do Chega: negociações, dilemas e atores
Apesar da vitória, a AD liderada por Luís Montenegro não conseguiu a desejada maioria absoluta — que requer 116 deputados — deixando o cenário político em terreno instável e fragmentado. A governabilidade portuguesa, historicamente assente em maiorias claras ou arranjos multipartidários estáveis, enfrenta agora um quadro inédito de polarização e fragmentação. A negociação política tornou-se uma arte delicada, com custos políticos elevados e riscos de bloqueios institucionais.
O papel do Chega é decisivo neste xadrez. De força marginal a ator central do Parlamento, o partido radical de direita impõe um dilema estratégico à AD: aproximar-se para garantir estabilidade ou manter distância para preservar a legitimidade política, mesmo que isso potencialmente conduza a bloqueios e crises frequentes. A necessidade de alianças pontuais impõe uma governação pragmática e altamente negociada, em que cada votação será um campo de batalha político. Por outro lado, a Iniciativa Liberal (IL), que elegeu nove deputados com 5,5% dos votos, mantém-se como uma quarta força, embora aquém das expectativas iniciais. Partidos como o Livre reforçaram-se, com seis mandatos, enquanto o PAN, contrariamente às sondagens, manteve a sua representação mínima com uma deputada.
A oposição, fragmentada e enfraquecida, enfrenta desafios estruturais. O PS, que vê Pedro Nuno Santos demitir-se da liderança, vive uma crise profunda marcada por uma das suas piores derrotas eleitorais desde a democracia. O partido perdeu 107 concelhos, incluindo bastiões históricos, para a AD e o Chega. Agora, o PS enfrenta a urgente necessidade de renovação interna, reconstrução e reflexão estratégica para reconquistar o eleitorado deslocado para a direita e assumir a liderança da esquerda fragmentada, cuja coesão é essencial para o futuro político nacional.
O PS, que durante anos governou com maiorias absolutas, vê-se reduzido a uma única vitória distrital, em Évora, simbolizando o descontentamento popular e a dificuldade em captar um eleitorado que se tornou mais polarizado. O partido terá de redefinir o seu papel na governabilidade: manter-se firme na oposição ou ponderar contribuições pontuais para garantir a estabilidade política, especialmente face ao crescimento do Chega, cuja influência pode alterar o rumo do país.
O Chega, por sua vez, caso consiga mais mandatos do que o PS pelos círculos da emigração, pode tornar-se a principal força da oposição e um ator político de relevo, capaz de influenciar decisivamente a agenda parlamentar. O partido de André Ventura já não pode ser visto como uma simples força de protesto, mas sim como um ator institucionalizado com peso real na definição dos rumos do país. O seu crescimento traduz a emergência de temas antes marginalizados, como segurança, imigração e identidade nacional, que agora ocupam o centro do debate público, remodelando prioridades e estratégias políticas. É importante procurar perceber quais os atrativos desde partido para conseguir dominar o sentido de voto dos mais jovens que, à semelhança de eleições anteriores, se movimenta da esquerda para a direita.
Com a erosão do bipartidarismo e o avanço da direita radical, a Assembleia da República está mais fragmentada e polarizada. O BE e a CDU sofreram quedas severas, reduzidos a uma ou poucas representações, refletindo o enfraquecimento do espaço político da esquerda tradicional. Este panorama dificulta a construção de alternativas governativas coesas e a emergência de lideranças renovadoras capazes de articular uma oposição eficaz. A nova geografia do voto exige, assim, uma redefinição das estratégias eleitorais, com maior atenção ao interior do país, onde a direita fez avanços expressivos, e à reorientação das prioridades políticas para responder a um eleitorado mais fragmentado, exigente e polarizado.
As eleições de 2025 não foram apenas uma simples disputa por votos
Conclusão: as eleições de 2025 não foram apenas uma simples disputa por votos; foram o espelho de uma transformação profunda na sociedade e na política portuguesas. No tabuleiro político atual, onde as alianças se tornam complexos labirintos e o futuro é tecido por jogadas incertas, Portugal é chamado a dominar a arte delicada do jogo e equilíbrio democrático. A política precisará ser, mais do que nunca, um exercício de convicção aliada à flexibilidade, para que, apesar das divisões e desafios, o país continue a avançar firme e esperançoso rumo ao seu amanhã. As eleições de domingo passado não são um fim, mas um começo; um momento-charneira em que Portugal se vê obrigado a olhar para si próprio com mais exigência, a escutar os sinais do descontentamento popular e a aprender a arte difícil do compromisso. Numa democracia que se pretende madura, nenhuma mudança deve ser temida se for conduzida com responsabilidade, diálogo e sentido de futuro.
▲ Pedro Nuno Santos ao admitir a derrota e anunciar a saída da liderança do PS na noite eleitoral
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
Importa, neste contexto, lembrar Rousseau e distinguir entre a vontade de todos — a soma fragmentada de interesses individuais ou partidários — e a vontade geral, que exprime o bem comum tal como emerge do processo democrático legítimo. Os resultados eleitorais devem ser lidos com esta lente: não como meras vitórias de uns sobre os outros, mas como a manifestação legítima da soberania popular, mesmo quando desafiam expectativas ou tradições partidárias. Desvalorizar ou rejeitar o desfecho de eleições livres apenas porque o resultado não favorece determinado campo político é recusar a própria essência da democracia.
A maturidade de um sistema político mede-se, também, pela capacidade de aceitar a alternância e de reconhecer a legitimidade dos adversários. Portugal, ao entrar neste novo ciclo, precisa de se unir em torno da vontade geral — e não apenas de preferências conjunturais — para garantir que a democracia continue viva, plural e resiliente. O caminho é incerto, mas a história mostra que Portugal, mesmo em tempos de instabilidade, tem sabido encontrar o seu rumo. Resta agora saber se os seus representantes políticos estarão à altura do desafio — se saberão jogar este complexo xadrez democrático com estratégia, paciência e visão de futuro, sem sacrificar princípios em nome de vitórias momentâneas, nem deixar o tabuleiro entregue ao improviso ou à precipitação.
Os eleitores, mais atentos e desiludidos, já deram sinais de que perceberam como a ética na política tem sido frequentemente desvirtuada, usada mais como arma retórica do que como prática consequente. E talvez por isso, entre a pureza ética prometida e a estabilidade que garante governabilidade, muitos comecem a preferir esta última — não por resignação, mas por necessidade de respostas concretas num país que exige soluções e não apenas discursos morais.
Professor da Escola de Economia, Gestão e Ciência Política no Departamento de Ciência Política da Universidade do Minho