As pessoas vestiram os seus melhores fatos, como se de uma gala se tratasse. Ao bom estilo da moda parisiense, as mulheres usavam vestidos compridos rodados pela crinolina e chapéus adornados a flores. Os homens envergavam o seu melhor fato, escuro, munidos de cartola e bengala. Pelo menos, é essa a caricatura que se vê nos diversos desenhos feitos na época para ilustrar o Elevador da Glória, acabado de inaugurar (e que na quarta-feira, 3 de setembro, foi cenário de um trágico acidente). As notícias dos vários jornais da altura, do Diário de Notícias (DN) a O Século, falavam num acontecimento importante, um “formosíssimo espectáculo”, como o colocou o DN, a que acorreu o povo da cidade. As palavras de elogio ao “melhoramento” da vida da cidade eram inexcedíveis.
Por aqueles dias, em meados de outubro de 1885, faziam notícia os episódios da conspiração intentada contra a vida do penúltimo imperador da Rússia Alexandre III em Varsóvia, ele que era também rei da Polónia. O DN noticiou inclusive que foram presas “40 pessoas de elevadas posições sociais e entre elas dois professores da universidade”, um prenúncio das movimentações bolcheviques que viriam a culminar na Revolução Russa em 1917 e consequente assassinato de Nicolau II um ano depois.
Mas o acontecimento, nacional, que era sobejamente retratado pelos jornais em Portugal, era o regresso triunfal da expedição que Brito Capelo e Roberto Ivens, oficiais da Marinha, tinham feito desde Angola à contra-Costa. Tinham partido a 6 de janeiro de 1884 e regressaram a 20 de setembro de 1885, recebidos triunfalmente pelo rei D. Luís. O traçamento de um caminho comercial que ligasse Angola a Moçambique era importante para o reino e, pelo facto de irem atravessar territórios desconhecidos, não cartografados, teriam de socorrer-se de princípios de navegação marítima para poderem avançar no terreno. Já na metrópole, o país acolheu os dois exploradores em braços e fê-los andar em digressão de norte a sul para serem homenageados.
▲ "O distinto engenheiro, quando o carro chegou ao fim da carreira, foi abraçado por diversas pessoas, como que agradecendo tão importante beneficio para as famílias", escrevia o DN sobre a inauguração
Fernando Martinez Pozal/Arquivo Municipal de Lisboa
As eleições legislativas em França eram também seguidas com atenção nas páginas dos jornais portugueses em 1885. O DN noticiava a 8 de 0utubro que dois dias antes tinha havido tiros em Paris contra o “emblema” do jornal Le Gaulois. Não houve “desgraças pessoais” e os grupos foram dispersados pela polícia. “Alguns jornais, como o Vollaire e o Justice, aconselham calorosamente a união dos elementos republicanos, a fim de poder conseguir o triunfo nas segundas eleições”, referia ainda o DN. As legislativas decorreram em duas voltas, a 4 e a 18, e os republicanos vieram a garantir a maioria de deputados face aos conservadores (48% contra 42%): “Paris, 19. O resultado definitivo das eleições em França dá à nova câmara 382 deputados republicanos e 202 reacionários.”
O acompanhamento atento destas eleições por parte dos jornais portugueses tinha um especial interesse para os ares de republicanismo que se respirava em Portugal, com o jornal sediado no Porto O Primeiro de Janeiro a ter, por exemplo, colunas inteiras com moradas de sedes republicanas espalhadas pelo país e respetivas datas de encontros para os seus membros. Os folhetins existentes nos jornais, novelas publicadas por fascículos, tinham um pendor tanto republicano como anticlerical (os jesuítas tinham sido expulsos do país pelo Marquês um século antes), como era o caso do folhetim da autoria de Eugénio Silveira, publicado diariamente no jornal O Século, cujo título eram bem elucidativo: Padre à Força — Romance Anti-jesuítico.
A revolução industrial estava implementada e em Portugal, se bem que mais branda, este mudança de paradigma manifestava-se em projetos como os ascensores, em que o poder da máquina era o fruto do trabalho do homem iluminado por excelência. Raoul Mesnier de Ponsard, um português de ascendência francesa nascido no Porto, era o epíteto da premissa iluminista. Depois dos estudos liceais no Porto, foi para Coimbra e licenciou-se em Matemática e Filosofia, cursos que frequentou em paralelo. Quis estudar Engenharia Mecânica e, para isso, foi estudar para países como França, Alemanha ou Suíça. Na Suíça, estagiou na empresa de construção de elevadores de montanha do famoso engenheiro Nikolaus Riggenbach. De regresso a Portugal, é o autor do elevador do Bom Jesus em Braga, cuja inauguração decorreu em 1884, o primeiro do género na Península Ibérica. A reputação que ganhou levou-o a conceber o elevador dos Guindais, no Porto, que ligava a Ribeira ao edifício do Governo Civil. Um acidente dois anos depois levou ao encerramento do equipamento, apesar de se ter dado como provado que o acontecimento trágico, que fez feridos ligeiros mas destruiu por completo a carruagem, se deveu a negligência por parte do condutor, que veio a cumprir prisão pelo ocorrido. Projetos semelhantes de Mesnier que havia para a cidade, que ligavam a Vitória à Alfândega ou a Batalha a São Bento, ficaram por esse motivo na gaveta.
Mas o mesmo não aconteceu em Lisboa. Nesse mesmo ano de 1884, tinha inaugurado o Elevador do Lavra, que ligava a Calçada do Lavra ao Campo de Santana. Nesse dia 19 de abril de 1884, e uma vez que a viagem era gratuita, o elevador do Lavra transportou mais de 3 mil passageiros, como relata o historiador José Manuel Lopes Cordeiro num artigo de 1999 no jornal Público sobre Raoul Mesnier, a propósito dos 150 anos do nascimento deste engenheiro e também inventor (criou o Aritmotecno, uma máquina para executar operações aritméticas, considerada uma precursora das máquinas de calcular). O ascensor funcionou durante 16 horas consecutivas. O sistema de tração então adotado era o de cremalheira e cabo por contrapeso de água. Posteriormente, tal como aconteceu com os outros ascensores da autoria de Mesnier, o elevador da Glória (1885) e o da Bica (1892), funcionou a vapor e, a partir de 1915, a eletricidade. Mesnier utilizou depois o sistema tramway-cabo para ligar o largo de Camões ao largo da Estrela, cujo início de trabalhos aconteceu logo a seguir à inauguração do Elevador da Glória, a rua do Crucifixo à rua Garrett, o largo de S. Julião ao largo da Biblioteca, a Graça. O elevador de Santa Justa, inaugurado em 1902, é o expoente máximo da notoriedade deste engenheiro portuense que, ao contrário do que se diz, não é discípulo de Eiffel, apesar do estilo neogótico daquela arquitetura de ferro, mas de Riggenbach.
▲ A edificação que servia de abrigo e de bilheteira para o Elevador, no fundo da Calçada da Glória, já junto à Avenida da Liberdade
Eduardo Portugal/Arquivo Municipal de Lisboa
“Foi ontem dada por pronta pelo engenheiro da câmara municipal, depois de uma verificação minuciosa das suas condições de funcionamento em todas as hipóteses, a linha dos ascensores mecânicos da calçada da Glória”, referia o DN na véspera da inauguração, a 23 de Outubro. “A câmara, ao receber a participação da companhia e a comunicação do ilustre técnico, autorizou a exploração, devendo a abertura oficial realizar-se amanhã, sábado, sendo convidada a mesma câmara, a imprensa e os representantes de várias corporações. Vai pois cessar a ansiedade pública em todos estes dias tão largamente manifesta pelos milhares de pessoas que têm afluído a ver o novo melhoramento que vai indubitavelmente ter o mais extraordinários sucesso.”
Os redatores do DN já tinham tido direito a experimentar o elevador, como afere a notícia publica a 17 de outubro, ainda sem data definitiva quanto à inauguração:
“Verificou-se ontem às 2 horas da tarde a primeira experiência dos ascensores da calçada da Glória, em corrida descendente até ao extremo da linha. Esta experiência foi apenas executada com o carro dirigido pelo travão manual, parando com a maior facilidade e segurança nos pontos em que o inteligente engenheiro, o senhor Mesnier, entendeu suster a marcha. O andamento é suave, e o passeio deveras pitoresco, principalmente para os passageiros que vão no tejadilho. O distinto engenheiro, quando o carro chegou ao fim da carreira, foi abraçado por diversas pessoas, como que agradecendo tão importante beneficio para as famílias, que habitam nesta parte elevada da cidade.”
A inauguração do Elevador da Glória no dia 24 ao meio-dia foi confirmada tanto pelo DN como pel’O Século. A inauguração veio a decorrer uma hora mais tarde, mas não lhe faltou pompa e circunstância. Os relatos jornalísticos não se pouparam na adjetivação magnânima do acontecimento e do próprio engenho, assim como na descrição das pessoas que encheram os dois extremos do percurso do elevador, um em S. Pedro de Alcântara e outro na Avenida da Liberdade. Referiram também que as duas carruagens eram espaçosas e bonitas, com lugares para 24 passageiros sentados no seu interior e uns quantos lugares mais no tejadilho. O preço por bilhete cobrado pela Nova Companhia dos Ascensores Mecânicos de Lisboa, que colocou anúncios nos jornais, era de 20 réis. Fez inclusive uma parceria com a Companhia dos Carros Americanos, que abriu nesse mesmo dia a nova carreira com o letreiro Ascensores, a ligar o Largo do Camões ao Largo do Rato, com paragem em S. Pedro de Alcântara e Príncipe Real, com direito a bilhete de correspondência para os ascensores.
Publicada logo no dia seguinte, a reportagem do Diário de Notícias não se coibiu de elogiar o grande acontecimento da cidade naquela tarde sábado:
“Parecia um espectáculo de grande gala. Transbordava a platéia e os camarotes e galerias estavam cheios, não escapando as torrinhas, nem os últimos lugares do Paraíso. Era formosíssimo o espectáculo. Aqueles altos prédios de S. Pedro de Alcântara dominando a calçada, as varandas do jardim de S. Pedro de Alcântara, as da bela rua Nova, que ali se fez, e que já mostra que temos cá um arquitecto que viu alguma coisa mais do que as Escadinhas da Barroca, a rua de S. Pedro de Alcântara, ambos os lados da calçada e um grande espaço lá em baixo, na Avenida, e ainda os montes em frente, era tudo um formigueiro numerosíssimo de cabeças, algumas até nas janelas, muito formosas, muito jovens”.
▲ As duas cabines do Elevador da Glória, fotografadas já na atualidade
Mark Fischer
As carreiras terminaram às 8 horas da noite, o interior das carruagens tinha sido iluminado a velas. A afluência tinha sido enorme e a alegria subjacente àquela mais-valia da cidade em termos de mobilidade traduziu-se em actos da populaça que acorria a ver o espectáculo: “Houve tal contentamento que houve quem por equívoco abraçou de contentamento alguns dos velhotes do recolhimento da Misericórdia, que estavam às janelas, como em camarotes de 1ª ordem”. Também O Século relatou no dia seguinte que a inauguração tinha decorrido sem inconvenientes, apenas a apontar alguma demora nas estações devido à afluência das pessoas. “Um grande concurso de povo estacionava nas embocaduras da calçada estendendo-se em alas por todo o trânsito”. A vista deslumbrante que o passeio de ascensor proporcionava era outro dos delírios proporcionados pela máquina e pela velocidade da máquina, que viria a servir de matéria para os futuristas, esses que se reuniam no Café Gelo, uma pouco abaixo da Avenida, que era palco de muitos encontros de artistas. Nesse dia de inauguração, houve decerto quem terá descido ao Rossio para beber algo como um café com baunilha e canela segundo o “sistema francês” ou “português”, que custava 100 réis, ou um “à espanhola”, que custava 80, como o anunciava o estabelecimento na secção de publicidade dos jornais. Ao lado na praça, no Teatro D. Maria II, ia estar em cena o espectáculo O Marquez de Villemer, a partir do livro de Georges Sand. No Coliseu, estreava-se a Companhia Diaz. E, no Príncipe Real, ia decorrer uma ação de benefício para os Órfãos da Caridade.
Era uma cidade em mudança. Na câmara municipal de Lisboa, tinham sido apresentadas propostas de alterações à Avenida da Liberdade: estabelecer-se no ponto oposto ao da praça dos Restauradores uma praça semelhante, e que no centro dessa praça fosse construído um monumento ao Marquês de Pombal, “o grande e imortal restaurador de Lisboa”. O concurso veio a ser atribuído em 1915 e, depois de anos de obras arrastadas, a rotunda como a conhecemos hoje viria a ser inaugurada em 1934. Nessa altura, o Elevador da Glória já andaria para cima e para baixo há quase 50 anos.