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Cláudio Hochman e Carlota Blanc estão a desenvolver um projeto de recuperação do Cine-Teatro Açor das Capelas, na Ilha de São Miguel, Açores
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Cláudio Hochman e Carlota Blanc estão a desenvolver um projeto de recuperação do Cine-Teatro Açor das Capelas, na Ilha de São Miguel, Açores

HUGO MOREIRA/OBSERVADOR

Cláudio Hochman e Carlota Blanc estão a desenvolver um projeto de recuperação do Cine-Teatro Açor das Capelas, na Ilha de São Miguel, Açores

HUGO MOREIRA/OBSERVADOR

Em 1948, o cinema chegou a uma pequena vila açoriana. Agora, há quem queira recuperar o antigo Cine-Teatro Açor

Há quatro anos que Cláudio Hochman e Carlota Blanc procuram apoio para recuperar o edifício que mostrou teatro e cinema onde nem a luz chegava. “Ainda não desistimos”, prometem.

Um cineteatro à beira da estrada? O letreiro “Cine-Teatro Açor” chamou a atenção de Carlota Blanc e Cláudio Hochman que, em 2021, decidiram passar férias em São Miguel, nos Açores. Ela lisboeta, ele argentino a viver em Portugal há vários anos, apaixonaram-se pela ilha. “Começámos a pensar como é que poderíamos viver aqui… Estávamos de passagem nas Capelas, passámos aqui à porta e vimos o cineteatro”.

Tentaram dizer-lhes que era uma “sala de arrumos”, mas o casal não se contentou com o que ouviu, esperançoso numa fachada que fazia antever que algo mais precioso estaria por descobrir. “Deram-nos o contacto da Fernanda, a proprietária e ela mostrou-nos. Agora vai ver o que ela nos mostrou”, diz Carlota Blanc, entre risos, enquanto gira a chave do portão verde.

A fachada do Cine-Teatro Açor, no centro das Capelas. A proprietária é a neta do fundador do espaço, Henrique Costa Melo, que nos anos 40 construiu um cine-teatro no celeiro da sua casa

HUGO MOREIRA/OBSERVADOR

Nos anos 40 do século passado, nas Capelas, no município de Ponta Delgada, Henrique da Costa Melo construiu um Cine-Teatro no celeiro da casa onde vivia. Nesta pequena vila com tradição piscatória, na costa norte da ilha açoriana, não chegara ainda sequer a eletricidade, mas este sapateiro de profissão reconhecido por todos com espírito de benfeitor quis levar teatro e cinema àquela região.

No dia 21 de fevereiro de 1948, o jornal Diário dos Açores escrevia: “As Capelas inauguram amanhã o Teatro Açor, uma velha aspiração local exibindo-se Os Papagaios”. Estreou-se uma peça de teatro, escutou-se uma banda local e o edifício, que começara a ser construído dois anos antes, revelava as suas “linhas modernas, dando-nos um aspeto de agrado e conforto”. O palco tinha seis metros e trinta centímetros de largura e quatro metros de profundidade. Era, descrevia a imprensa local, um acontecimento.

A fachada cor-de-rosa do Cine-Teatro, inaugurado em 1948. No interior, as muitas cadeiras de madeira enchiam a sala, que contemplava ainda um primeiro balcão, que hoje já não existe

Henrique da Costa Melo tinha “mourejado por terras do estrangeiro”, mas “o amor da terra Natal fê-lo regressar sempre e cada vez mais rico de experiência e de vontade, que dedicou ao progresso da sua terra”, lê-se. O “mestre Henrique”, como era conhecido na zona, era também o proprietário e fundador da Padaria Açor, que fundou em 1922. Produzia então pão de trigo e pão de milho. Homem de trabalho, foi dirigente de vários estabelecimentos comerciais e em 1948 preencheu uma “lacuna no meio capelense” com a fundação do teatro, consta no diário açoriano.

As memórias que resistem dos que frequentaram o espaço são de casa cheia para ver filmes e espetáculos. Fotografias desse tempo mostram-se no documentário "Cine-Teatro Açor: Passado Presente Futuro"

“A ideia foi do meu avô. Ele pensou abrir o cinema porque nessa zona, daqui até ao Mosteiros não havia nada. Os amigos acharam uma loucura”, conta Maria de Deus Costa Melo Piedade, uma das netas de H.C.M., no documentário Cine-Teatro Açor: Passado Presente e Futuro, de Hochman e Blanc, realizado por Isabel Medeiros. “Inicialmente era mais virado para o teatro, mais tarde é que passou a ser quase exclusivamente de cinema. O meu avê ia buscar os filmes a Ponta Delgada, trazia, ia a pé a Ponta Delgada buscar os filmes e depois ia devolver lá abaixo”, recorda. “Ele tinha uma visão muito alargada. Naquela altura quem é que pensava numa casa de cinema?”, questiona. Fotografias da época mostram o resultado dessa visão: salas pejadas de gente que se atropelava para entrar nas sessões.

Carlota Blanc abre a porta e é como se viajássemos ao passado. Meia dúzia de passos e estamos no interior da antiga sala de projeção. “Parece que nunca foi tocada”, diz diante de um enorme projetor. “Sabemos que já não é o primeiro de todos, o primeiro está numa escola aqui nas Capelas. Já nos disseram que se nós reabilitarmos o cine-teatro eles nos dão essa máquina”, congratula-se.

Henrique da Costa Melo era natural das Capelas e sapateiro de profissão. Foi o proprietário e fundador da Padaria Açor e dirigiu outros estabelecimentos comerciais antes de criar o cine-teatro

No documentário supracitado que fizeram sobre o Cine-Teatro Açor, graças a financiamento europeu, Carlota e Cláudio chegaram à fala com antigos trabalhadores do cine-teatro, que lhes contaram “como é que tudo funcionava, as peripécias”. “É igual ao Cinema Paraíso. Rebentava a fita, depois as pessoas começavam a reclamar do bilhete. É genial”, relata a autora.

Dentro da sala de projeção, ainda há latas com películas, bilhetes de cinema e outros objetos de um tempo em que não se dizia “vamos ao teatro ou ao cinema”, mas antes: “Vamos às fitas”. “Filmes portugueses percebia-se pouco porque a qualidade do som não era boa”, admite Laureno Sousa, açoriano que trabalhou como maquinista no Cine-Teatro Açor durante oito anos, de 1964 a 1972. No testemunho que dá no filme, recorda: “O padre não queria que as pessoas viessem ao cinema porque era pecado, mas não havia nada de mal. O que havia naquele tempo era um beijo, era mais um beijo demorado, que a gente dizia, naquele tempo. As pessoas, pronto, aquilo era tudo rapaziada…”, sorri.

Cláudio e Carlota residem entre Lisboa e Fenais da Luz, em São Miguel. Desde 2021 que têm recolhido depoimentos, fotografias e toda a informação disponível sobre o Cine-Teatro Açor

HUGO MOREIRA/OBSERVADOR

Para muitos aquele espaço foi a primeira porta de entrada para a sétima arte. “O cinema para mim foi uma descoberta. Nem sequer tinha ouvido falar até àquela altura do cinema”, diz Carlos Sousa, hoje presidente da Casa do povo das Capelas. “A casa do cinema era o ponto principal aqui na freguesia. Quando apareceu o Bruce Lee aquilo estava sempre cheio, sempre”, atesta Eduardo Dias, também frequentador.

João Patrício, outro vizinho das Capelas, também recorda os filmes cowboys, de humor, que viu naquela sala. Marcelino Pão e Vinho (1955), de José María Sánchez-Silva, cativou a população da costa norte em particular, frisa. “Saíam daqui satisfeitas perante os belíssimos filmes que assistiam”, nota. O único “contratempo”, diz, era “quando a fita rebentava”. “Ficavam eufóricas, e ‘nunca mais recomeça’, batiam com os pés. Quando recomeçava outra vez ficavam com uma alegria imensa”, conta.

Entre os objetos que resistiram à passagem do tempo estão um antigo projetor (em cima à esquerda) e três cadeiras originais, em madeira, que foram construídas ainda pelo fundador do teatro

HUGO MOREIRA/OBSERVADOR

Agora, o espaço imenso está vazio. Com a chegada da eletricidade à vila, nos anos 70, e da televisão, mais tarde, o equipamento foi perdendo clientes, acabando por fechar as portas. Mas as muitas vidas do Cine-Teatro Açor revelam-se no seu interior: depois de teatro e cinema ainda foi bar, discoteca, salão para as festas da zona, videoclube. Com o tempo, os negócios que foram alugando o espaço foram alterando parte do recheio: o balcão foi fechado para ser régie, o outrora celeiro ganhou casas de banho. As cadeiras em madeira, que Henrique fez com as próprias mãos, desapareceram quase todas. “Queimaram-nas, queriam alugar o espaço e precisavam de se livrar delas”, recorda Carlota, sem esconder o lamento. Restaram três das cadeiras originais e o momento da descoberta está eternizado no documentário que o casal, graças a um apoio da Direção Regional da Cultura, está a mostrar não só não só em São Miguel, mas também nas outras ilhas.

“Ele é encenador. Eu sou designer, mas também canto e faço performance”, explica Carlota que não desiste da ideia que se gerou em 2021, quando viu o potencial do edifício à beira da estrada. Recorda como tudo aconteceu: “Propusemos um projeto à proprietária e fizemos uma associação da qual ela faz parte. Chama-se Rodopio d’Ideias. Ela já tinha recebido algumas propostas antes, mas nunca aceitou”, diz com um sorriso.

Na antiga sala de projeção ainda se encontram pedaços da história daquele lugar, como máquinas, películas, cartazes de filmes e até bilhetes de cinema

HUGO MOREIRA/OBSERVADOR

A associação foi oficialmente criada logo em 2021 e com um objetivo claro: desenvolver o projeto “Vamos recuperar o Cine-Teatro Açor”. Há um contrato de comodato da proprietária com a associação para a cedência do espaço por 10 anos para fazer atividades culturais naquele lugar. “Podemos fazer alguns eventos, mas como um limite pois o cine-teatro precisa de obras e estamos à procura de apoios para as concretizar. A partir do momento que reunirmos condições, o cineteatro será aberto ao público”, garante Carlota.

Mas os últimos quatro anos não tem sido pêra doce. “Apesar de não envolver assim tanto dinheiro, ser privado torna tudo mais dificil”, explica sobre a candidatura a apoios públicos. “Tentamos falar com o Governo e com a Câmara, tentámos o orçamento participativo, mas disseram que não estava enquadrado, sem mais explicações. Parece que não há candidaturas em que nos possamos enquadrar”, critica.

Dos orçamentos pedidos a construtoras, a associação estima que 200 mil euros seria o suficiente para resolver o “básico”: repôr a eletricidade, arranjar as janelas, o chão, a pintura, e dotar a sala de equipamento técnico (luzes de teatro, som), “o básico para se poder fazer espetáculos”. “Ainda não desistimos. É um sonho ver isto reabilitado”, resume a responsável.

Carlota Blanc e Cláudio Hochman, fundadores da companhia de teatro Se não Chove e do festival Mala, estão a tentar reunir apoios para recuperar o edifício emblemático da costa Norte de São Miguel

HUGO MOREIRA/OBSERVADOR

De uma coisa, Carlota e Cláudio não têm dúvidas: há interesse da população. Na primeira atividade para se apresentarem à comunidade, o casal fez uma aula aberta de teatro. “Apareceram 40 e tal pessoas. Acho que a adesão foi tão grande porque este espaço era tão familiar a tantas pessoas e esteve fechado durante tanto tempo que acho que tinham sobretudo curiosidade em ver. Acho que não era só pelo teatro, era para ver o espaço”, suspeita Blanc.

Por enquanto, a associação cultural tem feito algumas atividades pontuais, como projeções, em parceria com a revista Ilhéu, ou peças integradas no festival Mala e da companhia teatral Se Não Chove, que Cláudio e Carlota criaram com pessoas da região. “Já temos um núcleo forte, somos uns 10, com míudos de seis anos até pessoas de 60”, nota.

Mas a ambição é maior e, quatro anos depois, mantém-se. “Queremos recuperar o edifício, mostrar filmes, espetáculos, ter uma zona museológica, deixá-la quase como está… É uma pena se não se fizer nada, se como outros cine-teatros acabar como outra coisa… É um bocadinho frustrante estar sempre a ouvir nãos”, confessa. “Mas não desistimos.”

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