Uma celebração do hip hop em várias das suas formas e geografias. Assim foi o segundo dia de Primavera Sound Porto, aquele em que o ritmo urbano tomou conta do recinto do Parque da Cidade, com um alinhamento que convocou nomes centrais da cena internacional capazes de atrair um público jovem atento às novas vozes do género. Entre versos rápidos e graves potentes, o dia prometia um mergulho profundo na cultura rap — com Central Cee no topo do cartaz e atuações de Denzel Curry e Aminé a compor a restante linha da frente.
Só que Central Cee, que chegou como nome maior da noite, deu um concerto que ficou aquém do estatuto. Foi muito fogo (literal) e pouca voz. Com uma presença de palco pouco envolvente e longos momentos em que o microfone parecia mais entregue ao público do que ao próprio artista, a atuação nunca ganhou a força esperada. Aliás, o único êxito cantado em uníssono gastou-se logo à primeira ficha, graças à decisão de começar a atuação com a ultra-popular Doja e seu polémico verso “How can I be homophobic? My bitch is gay”. Pode ter funcionado no TikTok, mas no palco principal do Primavera, a escolha revelou-se um erro estratégico.
A energia pareceu sustentada mais pela fama do que pela entrega do jovem de 27 anos que, de fato de treino e colar de brilhantes ao pescoço, admitiu como subiu na vida desde que se estreou no festival no Porto em 2023. Desta vez, Oakley Neil Caesar-Su teve honras de horário noturno. Outrora uma jovem promessa do rap britânico, o artista comporta-se agora como uma estrela feita. Passou largos minutos a assinar t-shirts e CDs atirados ao palco, pegou em telemóveis para gravar vídeos em modo celebridade e distribuiu elogios genéricos ao público, à cidade e ao festival, como quem cumpre um protocolo.
Tal como há dois anos, Central Cee não deu um concerto memorável — e será ainda menos, já que o artista não autorizou a presença de fotógrafos, apagando também da memória visual aquilo que pouco deixou na musical.
Em contraste claro, Aminé foi uma lufada de ar fresco e uma lição de carisma. Desde os primeiros minutos, o rapper de Portland (EUA) mostrou não só domínio do palco, como uma ligação genuína com o público, que respondeu em cheio ao seu vigor contagiante. Aminé, que se estreou em Portugal no ano passado no festival Super Bock Super Rock, no Meco, (a salvar o dia depois do cancelamento de 21 Savage) soube manter o ritmo alto sem nunca perder a leveza, misturando humor e uma entrega irrepreensível, e mostrando que podia facilmente estar num dos palcos principal com os êxitos REEL IT IN ou Red Mercedes.
▲ O rapper Aminé, no palco Super Bock, distribuiu simpatia e mostrou como se conquista um público sem esforço aparente
Marisa Cardoso
“Porto, vocês são muito melhores que Barcelona”, disse já perto do fim. Mas não foi esse o maior presente que deixou aos fãs na Invicta. Findo o concerto, foi vê-lo com sorrisos e vagar a tirar fotografias com os fãs que o aguardavam junto à grade. “A minha mulher tem uma tatuagem tua”, ouviu-se entre a multidão, que logo deixou a jovem passar para cumprimentar o rapper.
O tempo, porém, estava a esgotar-se pois, a poucos metros, na hora certa, arrancavam os Beach House, acabados de chegar do festival em Barcelona.
Em contraluz, sob o céu já negro, a dupla de Baltimore mostrava um mundo não antes visto neste Primavera: um universo de acumulação de sintetizadores, sob o aparato do synth-pop, embalando adultos que, praticamente às escuras, deixavam os corpos guiar-se pela voz glacial de Victoria Legrand.
Não há mal nenhum nisso — afinal, quantas boas canções de embalar para adultos conhecemos? — mas talvez não fosse o concerto certo para aquela hora tão precoce no alinhamento. Pela carga emocional e pelo tom contemplativo, pedia um lugar no encerramento do dia, e não a meio da tarde.
Mais espevitados estavam os que levantavam a poeira no concerto de Liniker. A cantora brasileira atuou esta sexta-feira no Primavera Sound depois de uma muito elogiada atuação no festival Coala, em Cascais. “Eu não sou de beber, mas se beber melhora” (Baby 95), foram os primeiros versos que lhe ouvimos, depois da conclusão de que o dia ficaria melhor com o concerto da primeira mulher trans e negra a levar para casa um Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira.
▲ Liniker trouxe alma, corpo e liberdade a um dos concertos mais vibrantes do segundo dia do festival
Marisa Cardoso
Caju, álbum que veio mostrar a Portugal agora — e que voltará a fazer em outubro, em concertos em dois dos maiores palcos do país, Meo Arena e Super Bock Arena — narra uma história de 24 horas com início no Japão e término no Brasil. Uma história que se conta entre o pop e o samba, o pagode e o soul, e que foi escutada por muitos que abdicaram de Beach House para dançar. “Rebola gostoso, Porto”, atirava Liniker ao público. “Eu vou viver minha vida cantando para o povo”, acabaria por dizer.
Dentro do palco Cupra, uma conterrânea de Liniker fazia sucesso em igual medida. Kamila Ferreira, mais conhecida como King Kami, fazia ferver a pista com um set pulsante e cheio de identidade. Radicada há vários anos em Lisboa, a DJ e produtora brasileira tem vindo a afirmar-se como uma das vozes mais singulares da cena eletrónica luso-brasileira, cruzando batidas afro, funk, techno e ritmos tropicais com uma curadoria sonora que é ao mesmo tempo política e festiva. A entrada no cubo, limitada a 200 pessoas, completou-se rapidamente, e durante as duras horas nunca deixou de haver fila.
▲ King Kami incendiou a pista com um set vibrante e cheio de identidade no palco Cupra, dedicado à música eletrónica
Marisa Cardoso
O abraço de A Garota Não quando “a vida fica difícil”
Se o hip hop era dominante no alinhamento do festival nesta sexta-feira, o final de tarde foi marcado por um momento de introspeção e calma, guiado pela voz serena de Cátia Mazari Oliveira, a cantautora portuguesa que dá pelo nome de A Garota Não.
Incumbida de abrir um dos palcos secundários (Revolut), começou por apresentar um par de temas do novíssimo Ferry Gold (2025), que sucede ao aclamado 2 de Abril (2022). Tendo lançado o disco há menos de um mês e sem grande alarido mediático — nem anúncios prévios, singles ou videoclipes — a artista fez questão de explicar de que era feito o álbum: dos “tempos que vivemos”, de “austeridade”, de “famílias desarrumadas”, dos “lugares medonhos que cada um tem”.
Ao público curioso começou por mostrar A Casa de Bernarda Alba, faixa inaugural do disco, “espécie de metáfora para um país em ditadura, onde se respirava mal, onde havia sempre alguém que estava à espreita ou à vigia”, contou ao Observador há umas semanas. Revelou ainda Este País Não É Para Mães ou Fronteiras Invisíveis, lanças politizadas (“mataram mais um rapaz”, escutamos repetidamente na segunda), mas, ciente do tempo curto que lhe era concedido na sua estreia no festival (enquanto artista e público, fez questão de notar), rapidamente se lançaria a um medley de canções de discos anteriores.
Uma delas teve direito a dedicatória: “Esta aqui é para o nosso Governo”, começou por dizer. “Até vou tirar o casaco para o Luís”, acrescentou com um sorriso, antes se lançar nos versos de Canção Sem Final: “Podem decretar o fim da arte, É como decretar o fim da chuva / Há sempre alguém que sonha em qualquer parte/ E a nossa voz nunca será viúva”.
▲ A Garota Não ofereceu silêncio, lucidez e um abraço coletivo ao fim da tarde
Marisa Cardoso
Havia um silêncio atento entre o público, não apenas pela melodia delicada, mas pela força das palavras. Muitos se surpreenderam ao perceber que aquelas letras revelam a história presente do país, como A sede do Xega. Entre expressões de surpresa e murmúrios de concordância, os aplausos reconheciam a pertinência quase desconcertante.
“Temos sempre tempo… menos quando nos expulsam do palco”, brincou depois de agraciar com uma interpretação sublime de um poema de Eugénio de Andrade. Integrado no livro Até Amanhã (1951), o poema Urgentemente tornou-se mais urgente do que nunca, alerta-nos. “É urgente o amor/ É urgente um barco no mar/ É urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade/ alguns lamentos, muitas espadas.”
Com Dilúvio, A Garota Não fechou o concerto evocando a solidão e o desassossego de quem procura sentido num mundo que parece afundar. A canção foi ao mesmo tempo um lamento e um abraço coletivo.
▲ A voz de Chino Moreno voltou a provar que há feridas que só o rock sabe cantar
Marisa Cardoso
A noite terminou com Deftones, banda emblemática dos anos 90 e 2000 que marcou uma era no campo da música pesada e do metal alternativo. O rock/metal alternativo dos californianos congregou muitos devotos para escutar clássicos como Change (In The House of Flies), Sextape ou My Own Summer (Shove It). Foi uma descarga emocional e sonora que atravessou décadas de carreira sem perder atualidade, com a voz inconfundível de Chino Moreno a oscilar entre o sussurro melódico e o grito visceral. O concerto mostrou porque continuam a ser uma referência incontornável no cruzamento entre metal, shoegaze e pós-hardcore. Para muitos, foi o ponto alto da noite — escuro, intenso e estranhamente belo.
O verão do Primavera Sound Porto 2025 prossegue este sábado e domingo, com nomes como Turnstile, Jamie xx ou Haim. A organização espera receber 33 a 37 mil pessoas por dia.