A Iniciativa Liberal é o único partido da oposição que se vai levantar ao lado de PSD e CDS na hora de demonstrar confiança no Governo. Rui Rocha considera uma “absoluta irresponsabilidade” o país ser atirado para eleições antecipadas, ainda que continue a criticar o primeiro-ministro — que acusa de não ter sabido sanar a crise política com os devidos esclarecimentos ao país —, mas também considera que é uma “irresponsabilidade” dos partidos da oposição “votarem para fazer cair o Governo”.
No fim do dia, os liberais preferiram ser vistos ao lado do Governo, com a ambição de demonstrar que são o “adulto na sala”, do que serem colados à oposição que vai conduzir à queda do Governo. Acima de tudo, na IL o guião escreve-se da seguinte forma: “Não é um voto de confiança neste Governo, é um voto a favor da estabilidade.”
Seja como for, os liberais, que em tempos chegaram a ser vistos como potenciais parceiros do PSD e até a negociar uma possível entrada no Governo de Luís Montenegro, respiram de alívio por terem ficado fora deste imbróglio — a comemorar não terem sido arrastados para a lama — e recusam quaisquer taticismos eleitorais a pensar no futuro — aliás, a direção está alinhada em repetir a receita de levar o partido sozinho a eleições. Ninguém sabe se a Aliança Democrática repetirá o convite, contudo a resposta será a mesma.
Do Governo à oposição, IL atira-se a “irresponsáveis”
Nos últimos tempos, a Iniciativa Liberal tem estado constantemente a apontar o dedo a Luís Montenegro — Rui Rocha acusou-o de “receber avença” e de ser o “principal foco de instabilidade”; Mariana Leitão disse que não quis resolver a situação por “teimosia” e “arrogância”, sugerindo que já o podia ter feito e que está a arrastar o Governo para uma “imagem de fragilidade”; Carlos Guimarães Pinto escreveu que o primeiro-ministro “deixou demasiadas suspeitas no ar durante demasiado tempo” e “até se pode vitimizar, mas só foi vítima dele próprio”. Ainda assim, argumenta-se entre dirigentes liberais, no atual momento nacional e internacional “exige-se que os atores políticos cumpram as suas responsabilidades” — “Quem sequestra o país para resolver problemas pessoais revela-se pequenino”, resume um dirigente da IL ao Observador.
Para já, no partido recusam-se duas teorias: que este é um favor ao Governo e que os liberais passaram um cheque em branco a um primeiro-ministro que se encontra numa situação delicada. No inner circle de Rocha justifica-se que todos (do Governo à oposição) estão a ser “irresponsáveis” e que está em causa um “momento definitivo” que “não se coaduna com abstenções”. “Os partidos têm de dizer se acham que o Governo deve cair neste momento histórico em Portugal ou não”, esclarece um dirigente. Perante este pensamento, a IL não quis ficar em cima do muro e procurar (ainda que sem força para tal) contrariar a queda do Governo.
Mais do que isso, considera-se na IL que Montenegro quer e provocou a queda do Governo ao levar a cabo a moção de confiança, pelo que, também aí, o partido recusa tratar-se de um frete ao primeiro-ministro. “Sacrificar o país por ter medo de prestar esclarecimentos é profundamente irresponsável”, atira um dirigente da IL.
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Um outro liberal argumenta que o fundamental é Montenegro prestar esclarecimentos e não que o Governo caia, nomeadamente porque “há muitas dúvidas que ainda têm de ser esclarecidas, potenciais conflitos de interesses e questões éticas que faz sentido discutir”. Na visão do liberal, tendo em conta que à data ainda “não há nenhum ilícito material claro e objetivo” e que, “com base na informação que é pública, não estamos perante um potencial crime”, há formas de obrigar o primeiro-ministro a falar, designadamente através da comissão parlamentar de inquérito — já proposta pelo PS — que, acrescenta, “poderia ser um instrumento para esclarecer essas dúvidas”.
Para o dirigente, depois das conclusões daí retiradas deveria ser avaliado se “o Governo não tinha condições” para continuar em funções e, aí sim, avançar com uma moção de censura — que na verdade foi o plano traçado por Pedro Nuno Santos, apesar de já ter dito que votaria contra a moção de confiança, o que travará a intenção.
Ao rol de críticas vindas da IL, há quem some à falta de esclarecimentos do primeiro-ministro a toda a cenarização montada pelo Governo no dia da declaração de Montenegro ao país, quando colocou os ministros nas suas costas “quando isto é um assunto da vida pessoal” e, “mais grave”, quando “não responde a questões” e envia “os ministros a todas as televisões para responderem pela sua vida pessoal”. Considera-se na IL que “isto é um degradar das instituições a que os membros do Governo não se deviam prestar” — mais uma farpa a Montenegro.
Perante tudo isto, os liberais insistem que o voto a favor da moção não é um selo de “confiança a Montenegro”, mas sim um “voto no interesse dos portugueses, que não querem ver esta instabilidade e um governo a cair assim”. “Não há razão para o Governo cair, há uma situação pessoal a resolver de vez”, aponta um dirigente.
“A dignidade das instituições devia ser salvaguardada, os sinais que recebemos são que o primeiro-ministro prefere ir para eleições do que assumir as suas responsabilidades enquanto primeiro-ministro no cargo e prestar esclarecimentos. Isto é irresponsável e populismo grave: não é por dramatizar, vitimizar-se e arrastar todos os portugueses para uma campanha eleitoral à volta da sua vida pessoal que está a defender os interesses do país e do seu Governo”, acrescenta a mesma fonte, que acusa Montenegro de “não estar à altura do país”, ainda mais numa altura em que, como apontou Rui Rocha, há um “contexto histórico nacional e internacional, com alterações desafiantes para Portugal e para a Europa”.
IL considera que podia capitalizar com eleições
Numa entrevista no Now, Rui Rocha reconheceu que “a Iniciativa Liberal seria um dos partidos que teria vantagem em ir a eleições”, numa opinião que diz ser baseada em estudos de opinião, mas justificou que não coloca os interesses da IL e a possibilidade de “reforçar a votação” aos interesses do país.
Há, entre os deputados da IL, quem considere que a esmagadora maioria dos partidos está a “agir por mero taticismo eleitoral”. E explica-se a tese: na AD acredita-se que estão “numa posição mais confortável”, no PS porque “é a derradeira oportunidade de cumprir o seu sonho de menino, ser primeiro-ministro” e no Chega considera-se que é possível “capitalizar com um caso que pode tentar vender como corrupção e que distrai dos seus casos”. “Talvez os menos interessados em eleições sejam o PCP e o Bloco de Esquerda”, cenariza a mesma fonte.
No núcleo duro do partido considera-se que são “todos irresponsáveis” e que, ao rejeitarem a moção de confiança “os líderes partidário estão a sacrificar os interesses do país pela sua circunstância política pessoal”.
Seja como for, uma coisa é certa: com ou sem convite da Aliança Democrática, a IL antecipa-se e recusa qualquer coligação pré-eleitoral com os mesmíssimos argumentos: vai a votos sozinha para comunicar as suas ideias e lutar pelo liberalismo. Mais: se, ao contrário do que aconteceu nas últimas eleições, a força dos votos permitir que a IL seja “essencial para garantir estabilidade de governação no país” o partido assegura que terá a “maturidade para contribuir para essa estabilidade”.
Além disso, a IL, que está num processo de autárquicas, reitera que as coligações pré-eleitorais serão casos pontuais e, tal como o Observador escreveu aqui, no caso de Lisboa a Operação Tutti-Frutti colocou a presença da IL na coligação de Moedas em risco.