Há bandas que levam décadas nas pernas, mas que tocam o seu reportório como se as canções fossem de porcelana. Repetem-nas sem lhe mudarem a blusa nem o penteado, numa zona de conforto que não exalta nem esmorece. Outras, porém, olham-se ao espelho, veem rugas, pegam nelas e questionam-se: “O que é que somos hoje?”. Resolvem fazer aquilo que sempre fizeram: criar, fiéis ao presente e atentos àquilo que, sendo do passado, ainda tem uma palavra a dizer, sem medo de se reinventar nem de pôr termo ao que se tornou obsoleto.
É nestes vincos do tempo e na sinuosidade do processo criativo que se movem os Três Tristes Tigres. Fazem-no hoje como o faziam nos anos 90, década gloriosa de Partes Sensíveis (1993), Guia Espiritual (1996) e de Comum (1998). Alexandre Soares, amarrado às guitarras e aos sintetizadores modelares, Ana Deus, com os bolsos cheios de textos, senhora de uma voz que se deixa ir no rio das palavras, e Regina Guimarães, a escrivã de poemas-canções, continuam sólidos na sua trindade e tão pertinentes como dantes.
Prova disso é Arca, o novo álbum que será lançado a 19 de setembro e que sucede ao muito elogiado Mínima Luz (2020). A esse propósito, sentámo-nos à conversa com Ana Deus e Alexandre Soares no estúdio da Sonoscopia, no Porto (onde grande parte das canções foram gravadas), refúgio escondido nas traseiras de um jardim em que os figos e o louro brotam com fartura e os gatos se roçam nas ervas descompassadas.
[o vídeo de “Água”, uma das novas canções:]
“Eu gosto da ideia da intemporalidade”, diz Alexandre Soares, pescando uma frase de Jorge Luis Borges sobre William Blake. “Ele dizia que o Blake não era contemporâneo de ninguém. Acho isso uma ideia boa.” Não se ser contemporâneo, no raciocínio deste tigre, é ser-se absolutamente comprometido com o momento de agora e livre para o expressar, largando o domínio dos elementos com igual dose de valentia e de humildade. “Se não, passas a ser um peso para ti.” Ana Deus, ali ao lado, acrescenta: “Nós queremos, sobretudo, fazer músicas novas. É a nossa prova de vida”. E eles estão bem vivos e recomendam-se.
Cartas de amor ao mundo
Elementos, criação, vida, morte, o tempo que é concreto e abstrato, as figueiras e outras faunas e miares: é disto que se trata Arca, um disco ecologista e humanista que mergulha na sombra dos tempos de hoje para nos dar a mão. “É um disco preocupado, que vai andando entre a calamidade e a esperança. Dizemos que [as músicas] são cartas de amor ao mundo, porque aquilo que o mundo está a precisar é de mais amor”, explica Ana Deus.
Parte das composições começou a ser desenhada na continuação de Mínima Luz, como Ninguém é uma Ilha, uma adaptação para português de um poema do século XVII, de John Donne, e Água, que tem na flauta líquida de Clara Saleiro um cantar de cachalote que vem do período do Mioceno: “Estes poemas já andavam à nossa volta há uns anos. Desde 2020 que eu os andava a ler, principalmente nas minhas sessões do Maus Hábitos [Palavras à Mesa]. Eram textos que me pareciam mais cantáveis, pela sua estrutura e pela sua força também.”
O primeiro fala de pessoas que são pedaço de oceano, Homem e Natureza, a mesma matéria forjada a terra e mar; o segundo, daqueles que fugiam do nada a nado (…) escapando por pouco, buscando um pouco mais. Exodus, faixa que conta com a participação de A Garota Não e primeiro avanço do disco, volta a apontar o foco às migrações, com as vozes de Ana Deus e de Cátia Oliveira a fazerem-se uma em versos como todos nascemos migrantes. Antecede-a Terra Prometida, tema que tem algo de rosário na sua cadência, sensação acentuada pelo arpejar repetido da guitarra. Não é senhor da promessa quem / promete a toda a gente / apressando o futuro / envenenando o presente soa a um “livrai-nos do mal, amén” pregado em jeito pagão.
Na segunda metade de Arca encontramos Animália, um fungagá da bicharada a pedir que se salve a gente da gente / e os animais da extinção. Também está lá A Guerra, rasurada no título e reescrita como Obsoleta, explicando isso mesmo, que a guerra, a nossa maior demência, é tão antiquada quanto a humanidade. “A guerra que é tão dura”, diz Ana Deus: “Não é a guerra de hoje. É a guerra de sempre”. É a guerra de Caim contra Abel, como lembra Alexandre, e também a guerra que nos entra pela televisão, aquela que testa armas em civis e que lucra com genocídios.
▲ A capa de "Arca", álbum que é editado a 19 de setembro
Vai-se a Guerra e vem a Rota da Sede, sobre mercadorias que viajam sem serem barradas e pessoas que são barradas na fronteira, como se de mercadoria se tratasse. A fechar, Universalidade, uma canção com nuances de um pós-mundo, mas a partir de um poema de ontem, de Miguel Torga. A tal intemporalidade de Blake, desmaterializada numa eletrónica exploratória de mais de seis minutos e que deixa a Arca aberta para que nela entre o vento da primavera e a promessa de novas formas de colaboração entre humanos, animais, rios, árvores e mares. “Isto só se salva quando se respeitar tudo. A natureza sabe isso, os animais sabem isso, as árvores também sabem, o Homem é que já se esqueceu.” Arca está aqui para o (nos) lembrar.
A “alma” do primeiro take
Comparativamente a Mínima Luz, álbum com o qual este novo trabalho estabelece uma continuidade, Arca veste-se de arranjos mais minimalistas. “Houve alguma depuração”, nota Alexandre Soares, enaltecendo “o valor do silêncio”: “O silêncio, no fundo, é o início de tudo. É daí que eu parto. Tentei mantê-lo e dar espaço ao nada, para que o texto também pudesse falar mais alto”. Talvez por isso, Arca seja mais seco e direto do que o seu antecessor. É uma carta de amor que nasce de uma escuta íntima e até de uma certa escuridão, mas que deixa a candeia acesa, alumiando o caminho da beleza e da comunhão.
O método de composição manteve-se praticamente inalterado de um disco para o outro. Em estúdio, Ana Deus e Alexandre Soares continuam a brincar ao toca-e-foge. Ele lança a nota ou o acorde, ela entra com o texto, ele dá uma guinada, ela responde-lhe com um vólei de esquerda. Andam nisto até que um deles — ou ambos — decidam que não mais faz sentido continuar. E enquanto isso acontece, o gravador está sempre ligado, anotando a magia do primeiro take.
“Trabalho muito as coisas do primeiro take, daquilo que está a ser composto no momento. Depois desenvolvemos sobre isso, mas gosto muito da primeira coisa. É uma espécie de alma que fica ali. Está lá tudo.” Pegando nessa alma, com mãos firmes de algodão, Alexandre Soares navega entre o analógico e o digital, moldando canções de corpo andrógina, com vestígios de Pj Harvey, Fever Ray, Portishead ou Radiohead.
Ana Deus, por seu lado, sentindo a necessidade de se desdobrar dentro de si, gravou diferentes vozes a partir dos primeiros takes. Fê-lo sozinha, no estúdio Gritos, para depois as entregar a Alexandre que, com elas, criou “uns coros marados”, alterando-lhe as texturas e os pitches: “São vozes, mas não existem. Ninguém cantaria assim. É como se fossem sereias malucas”.
É por ninguém cantar assim que é tão necessário que os tigres continuem a cantar, a compor e a pisar os palcos. Arca, até ver, será apresentado a 27 de setembro, no Sons no Património, na Póvoa de Varzim, a 4 de dezembro, no Festival Lux Interior, em Coimbra, e a 18 de dezembro, na Culturgest, em Lisboa. Haverá passado, presente e futuro no guião, interpretados com a liberdade de quem se dá ao momento. E haverá também “boas palavras, bons pensamentos e boa onda”: “É preciso para nós próprios, para a nossa cabeça, bem como para quem nos ouve, cantemos para que ninguém fique sozinho”. Com os Três Tristes Tigres, ninguém é uma ilha.