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José Cardoso Pires: cem anos de um escritor marginal

Foi um gigante institucional, antes de ser deposto e esquecido. De estilo seco e direto, ora atrai pela forma da história, ora passa despercebido. Um século depois, que lugar ocupa Cardoso Pires?

Há um mistério difícil de resolver em torno de José Cardoso Pires (nascido a 2 de outubro de 1925, em Vila de Rei, morreu a 26 de outubro de 1998, em Lisboa). Durante anos, e de acordo com as precedências ordenadas pelo nascimento, foi considerado o grande escritor português. Morreram os vultos do neorrealismo, morreu Sena e assim, durante boa parte das décadas de oitenta e noventa, antes de dar lugar a Saramago e Lobo Antunes, Cardoso Pires ocupou o lugar institucional de gigante literário. O que é estranho, porém, é a velocidade a que foi deposto e esquecido na sua dimensão universal.

Se, mesmo sem serem lidos, Alves Redol ou Soeiro Pereira Gomes conservam uma certa universalidade marxista, em que qualquer leitor, de qualquer país, reconhece aquele teatrinho de pobres contra ricos, se Jorge de Sena faz jus à sua condição de expatriado e não há nada, nem na sua Figueira da Foz, nem sequer na Guerra de Espanha, que seja menos do que existencial, Cardoso Pires parece apenas uma figura local, um escritor de província em que a sua província é a capital, interessante como um fóssil etnográfico que conserva as manias e o modo de pensar de uma certa Lisboa pequeno-burguesa, a tentar encontrar uma voz política e libertar-se da sua condição.

Mais: mesmo na sua dimensão local, não há nada, nos romances de Cardoso Pires, que o agarre propriamente à história daquilo que representa. Isto é, há escritores com uma dimensão regional acentuada que, com consciência do seu mundo, fazem um esforço por mapeá-lo: o Norte de Mário Cláudio não está só no vocabulário. Há nele um esforço de conservar a história dos locais por onde passou e que formam as raízes do seu mundo, seja a Quinta das Virtudes, seja o espaço de Amadeo Souza-Cardoso; no mundo de latifúndios e luta de classes de Alves Redol entra a história dos Relvas, da Casa dos Patudos e das origens da República, de um modo que o liga ao centro da história do Ribatejo; com Cardoso Pires, porém, não é isso que se passa.

Cardoso Pires é um escritor que, por uma série de razões, entre elas talvez uma ambição que foi crescendo com o passar dos anos (a de se tornar um escritor verdadeiramente internacional), nunca explorou bem o seu mundo. Isso talvez explique, por um lado, que seja um autor pouco lido e, por outro, que seja um escritor admirado.

Há uma ligação a alguns tempos e ambientes concretos da história de Portugal, sim – a ocupação americana das Lages n’O Hóspede de Job, o bizarro caso retratado na Balada da Praia dos Cães, até uma tentativa algo tola de fábula anti-salazarista no Dinossauro Excelentíssimo – no entanto, em tudo isso parece haver uma distância entre o seu próprio mundo e aquilo que Cardoso Pires conta. Tem a fase de interesse pelo Marialva, que dá a Cartilha e o Delfim, obsessão algo bizarra num escritor claramente citadino; mesmo a dimensão política do Hóspede de Job, transformado numa espécie de libelo político anti-Guerra Fria, sofre com a superficialidade de Cardoso Pires, que está bastante longe de ser um filósofo ou sequer um pensador minimamente original. A Balada da Praia dos Cães é, neste aspeto, o caso mais claro: num crime faceto que não dá obviamente boa imagem à resistência anti-fascista, Cardoso Pires está constantemente preocupado em lavar politicamente a imagem das personagens, o que o leva por caminhos muito mais ínvios do que a história pede.

Nesse sentido, Cardoso Pires é um escritor que, por uma série de razões, entre elas talvez uma ambição que foi crescendo com o passar dos anos (a de se tornar um escritor verdadeiramente internacional), nunca explorou bem o seu mundo. Isso talvez explique, por um lado, que seja um autor pouco lido – repetem-se constantemente as tentativas de reeditar Cardoso Pires, com grande pompa e promessas de fazer jus ao autor, que são depois recebidas com indiferença pelo público – e, por outro, que seja um escritor admirado. Não é de estranhar o êxito, nestas circunstâncias, da biografia que sobre ele escreveu Bruno Vieira Amaral: há um mundo, o da baixa Lisboa, dos marinheiros, tascas, brigas e pequenas aventuras quotidianas, do jornalismo popular, pré cursos universitários, feito de crimes e dedos sujos de tinta, que Cardoso Pires personifica mas não está exatamente nos seus livros. Há uma diferença entre aquilo que os leitores esperam de Cardoso Pires e aquilo que ele escreveu que o torna uma figura estranha no cânone literário português. Essa estranheza, contudo, é talvez um dos pontos mais interessantes da sua obra, e ajuda a perceber o seu percurso.

O autor sem classe

Cardoso Pires é um espécime quase modelar de um mundo lisboeta que, na literatura, praticamente só aparece nos breves quadros traçados por Luiz Pacheco. Filho de marinheiro, saído da Lisboa popular que o século XX foi progressivamente alfabetizando – e de que o Liceu Camões, onde Cardoso Pires e Pacheco, sintomaticamente, andaram, é um símbolo importante, diferente do mais aristocrático Pedro Nunes, por exemplo – e transformando do ponto de vista intelectual. Essa transformação vê-se no próprio Cardoso Pires e no seu lugar pouco seguro dentro do neorrealismo.

▲ O próprio autor sofre, no seu projeto literário, da principal mácula da pequena burguesia: o esforço de libertação da sua própria classe

Quando Cardoso Pires aparece, literariamente, é imediatamente colado (e ele também fez por isso) ao neorrealismo e ao Partido Comunista. No entanto, a sua progressiva libertação não tem apenas que ver com um, também existente, convenhamos, oportunismo político-literário, capaz de reconhecer o fim de uma moda estética. O mundo de Cardoso Pires é, de facto, um mundo diferente. Ele não faz parte da nova vaga de êxodo rural que ainda agarra os seus companheiros de luta ao problema do campesinato; é um escritor de cidade, a quem, no campo, fascina sobretudo, não o quotidiano, mas os atos heroicos e exóticos, mais afastados da vida urbana – por isso, também, é que as cenas de caça resultam n’O Delfim, por estarem mais próximas da sua mentalidade – e repugna um modo de viver desajustado das convenções sociais da cidade.

Daí que a sua crítica fundamental ao que, no neorrealismo mais clássico, representa o latifundiário, em Cardoso Pires se transforme numa crítica ao seu elemento mais superficial e performativo: o marialvismo. O problema do latifundiário é estruturante, o do marialva é comportamental: são as suas opiniões, o seu modo de vestir, aquilo que se nota num contacto superficial e não num convívio continuado. E mais ainda do que os problemas no contacto com aquilo a que não pertence, o grande ponto de cisão entre Cardoso Pires e o neorrealismo está no modo de encarar a sua própria classe. O marxismo sempre teve dificuldade em integrar na sua visão do mundo o problema da pequena burguesia. É, obviamente, risível considerá-la parte da classe exploradora; no entanto, há na sua mentalidade integrada dentro do quadro do capitalismo uma barreira ao cenário de imposição da luta de classes. Ora, Cardoso Pires é um fruto algo sofisticado desta mentalidade pequeno-burguesa; isto porque, por um lado, abraça teoricamente o ideário marxista, e o faz tentando puxar esta pequena burguesia urbana, nos seus quadros, para o lado do povo explorado; no entanto, ele próprio sofre, no seu projeto literário, da principal mácula da pequena burguesia: o esforço de libertação da sua própria classe.

Cardoso Pires tem um estilo interessante, seco, duro, rociado aqui e ali por um vocabulário mais erudito mas, no geral, bastante direto. Isso torna, também, o seu interesse mais discreto. Quando o grande interesse técnico está na própria arquitetura da história, é mais fácil passar despercebido.

É isso, aliás, que leva à distância entre aquilo que se espera de Cardoso Pires – um retrato do seu mundo – e aquilo que, romanescamente, ele nos dá. Cardoso Pires não está interessado em mostrar a sua classe social, nem sequer, fora nuns pós mal-amanhados que são a sua vénia ao ar do tempo, num problema político propriamente dito. Cardoso Pires é um escritor obcecado com a técnica narrativa, com o modo de contar, que é também a sua forma de se libertar da sua classe.

Enquanto cultor da técnica romanesca, Cardoso Pires conseguiu, de facto, no meio de compreensíveis experiências falhadas, uma exuberância invulgar, que o torna compreensivelmente um dos escritores diletos dos académicos e teóricos da literatura. Isso vê-se na Balada da Praia dos Cães, em que a vontade de contar uma boa história se sobrepõe a todos os problemas que essa história, do ponto de vista ideológico, lhe traz, mas sobretudo n’O Delfim.

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Escrever contra as expectativas

O Delfim tem como pano de fundo a morte do criado e da mulher do Engenheiro Palma Bravo. A história em si, contudo, é propositadamente desprovida de interesse. Não há exatamente um mistério no sentido comum do termo. O criado é encontrado morto na cama do patrão e a mulher deste suicida-se logo a seguir: toda a gente percebe imediatamente o que é que aconteceu. Cardoso Pires não transforma, assim, os ingredientes para um mau mistério num mistério de facto; a personagem central do livro é o narrador, um escritor que regressa àquela pequena aldeia – a Gafeira – para caçar, que diante daquelas mortes rememora a sua visita anterior em busca de indícios da relação entre mulher e criado. Veja-se a sofisticação narrativa: o curso mais comum, diante dos acontecimentos, é vedado à partida. As mortes podiam trazer um mistério, que se podia resolver à maneira clássica: tentar perceber quem matou, porquê, de tal maneira que acabávamos por descobrir um adultério.

▲ O esforço de Cardoso Pires de subverter as expectativas no modo de narrar pode também contribuir para uma certa desilusão no encontro com os seus textos

MANUEL DE ALMEIDA/LUSA

Ao dar o facto à partida, Cardoso Pires transforma a história num romance de um tipo muito diferente, em que continua a haver um certo mistério – continua-se à procura de indícios, de alguma coisa que pudesse ter revelado o que se passava, de tal maneira que se pudesse, no limite, evitar a tragédia – mas enriquecido pelo remorso que a revisão do passado traz, pela dúvida, dado que o escritor tem apenas a traiçoeira memória à sua disposição, e sobretudo uma liberdade muito maior: enquanto num romance tradicional de mistério as cenas teriam de se encadear para formar a corrente dos acontecimentos que levasse à resolução dos problemas, o facto de Cardoso Pires procurar uma vida subterrânea num quotidiano aparentemente normal – a verdade é que, na primeira visita, ele não se deu conta de nada – permite urdir uma teia muito mais densa, em que cada episódio pode ter significado por si próprio, e não apenas enquanto meio para resolver o mistério.

Cardoso Pires tem um estilo interessante, seco, duro, rociado aqui e ali por um vocabulário mais erudito mas, no geral, bastante direto. Isso torna, também, o seu interesse mais discreto. Quando o grande interesse técnico está na própria arquitetura da história, é mais fácil passar despercebido. O modo de contar adequado parece sempre natural e, nesse sentido, o esforço de Cardoso Pires de subverter as expectativas no modo de narrar pode também contribuir para uma certa desilusão no encontro com os seus textos. É natural que um leitor não veja nada de especial ao ler um romance de Cardoso Pires, porque aquele lhe parece o modo básico de contar as coisas.

É esse, no entanto, o grande segredo de Cardoso Pires. Talvez seja, também, o que impede a sua consagração plena junto do grande público; é, no entanto, uma espécie de redenção do escritor: para alguém que tanto fez pela fama, que não deixou de dar os seus golpes baixos nas pouco edificantes tricas literárias, é sinal de que haveria nele algo ainda mais importante do que a tão cobiçada glória – a vontade de contar bem uma boa história.

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