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FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR

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Kylie Minogue na Meo Arena: arrebatadora

Acarinhada e cheia de carinho pelo seu público, a diva australiana ofereceu duas horas de pura pop jubilante e triunfal no regresso a Portugal.

Não foi preciso passar muito tempo para, entre canções, Kylie Minogue esboçar uma primeira reação involuntária ao que acontecia diante de si: com uma MEO Arena esgotada e em ebulição a gritar o seu nome, agitou o braço com uma excitação quase infantil, enquanto absorvia a adulação. Felicidade, êxtase, mas, acima de tudo, um sinal de humanidade, de que para lá da performer de excelência, estava uma mulher de 57 anos ainda capaz de se espantar com o seu público após décadas de sucesso.

Entende-se o sentimento de gratidão e carinho que a artista esbanjou ao longo de todo o concerto quando se tem em conta o percurso desde que deixou de ser uma imberbe atriz de novela em Melbourne para tornar-se uma cantora pop em 1987. Nesses tempos, foi considerada um sucesso repentino, um fenómeno juvenil sem talento nem voz para sustentar uma carreira longa, apesar de já aí trabalhar com o imortal trio de compositores Stock Aitken Waterman. Com décadas de êxitos debaixo do braço, há quem ainda a considere o “mais subestimado ícone da pop”, a “princesa da pop” que não pode ser “rainha” porque esse título já pertencia a Madonna.

Ao invés de amargurar — aliás, assumiu em entrevista que não se importa nada com a comparação —, construiu um legado de superação à base de êxitos e regressos perante quer situações de vida ou morte — como o cancro da mama que enfrentou em 2005 — quer percalços artísticos. Por exemplo, ao incompreendido e mal-recebido Impossible Princess, de 1998, onde tentou dar uma guinada para o experimentalismo e a pop alternativa, respondeu com Light Years (2000) e Fever (2001) — o segundo em particular virando um tomo de dance pop tão bem sucedido que finalmente a legitimou aos olhos de muitos críticos.

FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

Neste regresso a Portugal, recebemo-la também em nova fase de reinvenção e reconhecimento revigorado. Desta feita, foi com o mega êxito Padam Padam, de 2023, impulsionado por uma nova geração de fãs e pela viralidade TikTok, contrariando o preconceito de algumas rádios britânicas em não querer passar a sua música por considerá-la ultrapassada — prova de que ainda hoje há resquícios de menosprezo para com Kylie. Não só lhe rendeu o segundo Grammy da carreira como foi o ponto de partida para tanto Tension, onde se integra, como o sucessor Tension II serem sucessos a partir dos quais Minogue pôde partir nesta digressão, a maior que realiza desde 2011.

Se a sua figura inspira uma simpatia contagiante e as suas canções são hinos à dança e ao hedonismo, por outro, o ambiente vivido também se explica por Minogue ter uma comunidade de fãs particularmente devota — até T-shirts a afirmar orgulhosamente que se tinha percorrido 1450 quilómetros para ali se estar foram avistadas. A dada altura, um fã conseguiu fazer-lhe chegar um disco sete polegadas de The Loco-Motion, canção dos anos 60 da qual fez uma versão que se tornou o seu single de estreia. Aturdida, a artista assinou-o ali mesmo, mas não sei antes usá-lo como leque — acessibilidade e glamour em igual medida. “Isto é tão bom. Sinto-me honrada por fazer disto vida”, admitiu. Noutro momento, quando se deslocou para um mini palco no centro da sala e começou a aceitar pedidos do público, ofereceu a uma rosa a um homem que estava a chorar compulsivamente, antes de lhe dedicar um pequeno trecho de Where the Wild Roses Grow, canção que gravou com Nick Cave e os Bad Seeds.

Não podemos pôr as mãos no fogo e supor que esta tem sido a bitola para os espetáculos que tem feito em digressão, pelo que assumamos que a reação particularmente efusiva do público da MEO Arena também se deveu a uma sensação de orfandade para com Minogue. Afinal de contas, esta foi apenas a terceira vez que atuou em Portugal, a última tendo sido há 16 anos nesta mesma sala. Independentemente disso, tal como a flor oferecida, momentos como os acima descritos perfumaram o concerto de uma cumplicidade desarmante quando este podia ter seguido apenas os contornos de um espetáculo pop de excelente produção e melhores canções — que também o foi.

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O momento descrito que inaugura este texto ocorreu após uma sequência fulminante de quatro canções iniciada com Lights Camera Action, com a artista envolta num esquema de luzes a parecer um diamante enquanto estava num baloiço ocultado na penumbra, dando a ilusão de que estava a pairar no ar. Seguiram-se versões tão curtas quanto eficazes de In Your Eyes, Get Outta My Way e What Do I Have to Do? — em menos de cinco minutos, Minogue já tinha percorrido três décadas, rodeada de uma incansável trupe de dançarinos.

Apesar de ser uma digressão para promover ambos os álbuns Tension, Minogue percorreu praticamente todos os discos da sua carreira, dando a algumas canções roupagens mais contemporâneas ou, pelo menos, arranjos especiais. Na já mencionada The Loco-Motion, metade do tema manteve a sua natureza deliciosamente datada — até a dancinha Minogue fez — e a outra metade foi polida para passar uma discoteca. Já Say Something, de Disco (2020), trocou o lustro desse género musical por uma abordagem mais bucólica, guiada a guitarra acústica, mesmo que ao mesmo tempo tivesse descido uma bola de espelhos no centro da sala para um dos mais poderosos efeitos visuais da noite. Noutro exemplo, Timebomb, em que a cantora já flirtava com uma EDM mais abrasiva, apresentou-se em esteróides, com uma melodia tão corpulenta que fez lembrar glam metal.

Ao mesmo tempo, o repertório de Minogue é tão completo e variado que o concerto conseguiu atingir tonalidades muito distintas — às vezes, literalmente. Num dos momentos mais fortes da noite, com o cenário inteiramente a preto e branco, a cantora trouxe o drama e a solenidade com uma Confide in Me extra poderosa que explodiu num bombardeamento de luzes strobe. De seguida, Slow contrapôs a canção anterior com doses de sensualidade tórrida — e que calor estava na sala —, antes de transfigurar-se num frenesi de synthpop acelerada. Noutra ocasião, a australiana recuperou Dancing do seu álbum de country pop Golden (2018), que até a esquema de line dancing teve direito no refrão, logo depois de ir ao início dos anos 90 e resgatar Shocked, onde se arriscou a cantar um pseudorap.

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Artista de outra escola e craveira, Minogue não recorreu a backing tracks, fazendo-se acompanhar de banda e três cantoras de apoio. Pelas características da sala, houve momentos onde a sua voz chegou a ser engolida por todos os outros sons, mas foram casos de pouca monta. Mais depressa não se ouvia o que dizia ou cantava devido ao ruído das bancadas e da plateia — que, por alguma razão, tinha lugares marcados para sentar quando praticamente ninguém o fez ao longo de todo o concerto. Por outro lado, nunca tendo deixado de dançar nem de exultar a sua feminilidade — em Spinning Around, chegou a empinar-se a dar uma palmada no seu posterior, para gáudio de toda a gente —, esse não é nem precisa de ser o seu forte.

Numa reta final verdadeiramente apoteótica, bastaram os primeiros “lá lá lás” de Can’t Get You Out of My Head ecoarem para a sala explodir de entusiasmo a níveis quase ensurdecedores, seguindo-se All the Lovers. Faltavam, todavia, mais duas canções, presente e passado de Kylie Minogue. Padam Padam demonstrou o porquê de ter soprado uma nova vitalidade à carreira da artista com o seu balanço electropop inegável, para depois Love at First Sight ser uma verdadeira injeção de adrenalina que tinha dado ânimo para pelo menos mais duas horas de concerto. Mas não; tinha de ficar por ali, aquela noite “incrível, inesquecível e linda”. A cantora pôs fim ao hiato das suas visitas a Portugal no âmbito de uma digressão mundial cujo nome é tão acertado como contraditório: sim, o mundo está a ser consumido por uma tensão sufocante, mas são justamente momentos como estas duas horas de alegria que o tornam mais suportável.

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