A PSP retirou na madrugada desta quinta-feira os manifestantes que estavam acampados na Praça D. João I, no Porto, com uma intervenção “musculada” e um forte dispositivo. O Movimento pela Habitação denunciou que da ação policial resultaram 37 feridos, dois dos quais em estado grave — uma informação que a polícia diz desconhecer.

À Rádio Renascença, a PSP afirma ter feito uma intervenção “mais musculada” para pôr fim ao protesto, adiantando que tal aconteceu após a resistência dos manifestantes em retirar as tendas que ali tinham montado. Uma outra fonte daquela polícia acrescentou que a ação aconteceu na sequência de “uma alteração da ordem pública”. O Comando Metropolitano do Porto da PSP deverá fazer uma comunicação na manhã desta quinta-feira.

O Movimento pela Habitação diz que tudo aconteceu “na madrugada desta quinta-feira, às 02h56”: “As forças policiais intervieram na acampada pela habitação na Praça D. João I, no Porto, numa operação destinada a pôr termo ao protesto“, refere em comunicado.

O movimento dá conta de que entre os feridos estará uma pessoa com deficiência e que vários feridos foram levados para o hospital.

Ao Observador, fonte dos Bombeiros Voluntários do Porto limitou-se a dizer que alguns participantes do protesto se dirigiram ao quartel para receber assistência. Aos jornalistas, Henrique Oliveira, 2.º comandante dos Bombeiros Voluntários do Porto, disse na manhã desta quinta-feira que, a partir das 4h, foram assistidas 7 pessoas que se dirigiram ao quartel, com ferimentos ligeiros, que recusaram transporte para o hospital. Foi ainda assistida uma pessoa com ferimentos num membro superior, que se encontrava na Praça D. João I.

Mas à Renascença, a PSP afirma que não teve qualquer indicação de feridos no decurso da intervenção.

O Observador contactou na manhã desta quinta-feira o hospital de São João, que disse não ter recebido qualquer ferido. Já o Hospital de Santo António, contactado, ainda não respondeu às questões do Observador.

Porto. Manifestantes pela habitação montam dezenas de tendas e desafiam Pedro Duarte e polícia

Primeiro-ministro espera que partidos e movimentos não importem “climas de instabilidade”

Luís Montenegro reagiu esta manhã, dizendo esperar que os “partidos políticos, movimentos associativos, organizações portuguesas não caiam na tentação de, por razões egoísticas, importarem para Portugal climas de instabilidade e contestação que não têm respaldo na sociedade portuguesa”.

A partir de Bruxelas, onde vai participar na reunião “Amigos da Coesão” e no Conselho Europeu, disse ser “legítimo protestar”, mas acrescentou: “Não temos esse nível de conflitualidade e não podemos cair no erro de considerar que umas escassas pessoas dão uma ideia de um país que parece que está em turbulência. Não está”.

Luís Montenegro considerou ainda ser “preciso garantir que as pessoas podem exercer o seu direito de manifestação mas sem colidir com os direitos de livre circulação, de tranquilidade e ordem pública, que todos queremos salvaguardar”: “As autoridades devem atuar com base nos princípios da necessidade, da adequação e da proporcionalidade. E sempre que for necessário para garantir a autoridade do Estado naturalmente agir perante as ofensas que alguns cidadãos possam fazer sobre isso”.

Quanto ao que aconteceu na madrugada desta quinta-feira, o primeiro-ministro disse não ter ainda “elementos para poder emitir uma opinião”, referindo ainda assim que “as nossas forças são extraordinariamente criteriosas e respeitadoras destes princípios”.

Livre quer explicações sobre intervenção da PSP

O porta-voz do Livre Jorge Pinto pediu hoje explicações sobre a intervenção da PSP, alegando “uso desproporcional da força” sobre os manifestantes.

“Completamente inaceitável o uso desproporcional da força por parte da PSP esta madrugada, no Porto. Uma ação que foi sempre pacífica e ordeira, reprimida à força e que levou tudo à frente, exigem-se explicações”, escreve Jorge Pinto, na rede social Bluesky.

Completamente inaceitável o uso desproporcional da força por parte da PSP esta madrugada, no Porto. Uma ação que foi sempre pacífica e ordeira, reprimida à força e que levou tudo à frente. Exigem-se explicações.

— Jorge Pinto (@jorgepinto.bsky.social) 2026-10-15T06:40:52.922Z

Movimento fala em “força desproporcional”

Os participantes voltaram a instalar tendas durante a noite, depois de o presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, ter dito na quarta-feira que será “absolutamente implacável com qualquer tentativa de colocação de tendas” na Praça D. João I.

Na nota desta quinta-feira, o Movimento “denuncia veementemente o uso de força extrema, desproporcional e injustificada durante a intervenção policial na acampada, que se manteve, desde o primeiro momento, pacífica, sem nunca incitar à violência”.

O Movimento considera que a “violência exercida” é “inaceitável” e exige “o apuramento rigoroso e independente dos acontecimentos, a preservação das imagens e de outros elementos de prova, o esclarecimento público das circunstâncias da operação e a responsabilização por eventuais condutas ilegais”.

Na quarta-feira, em declarações após a manifestação, seguida de assembleia popular, que reuniu mais de 500 pessoas naquela praça da baixa portuense, Pedro Manuel, do Movimento, revelou que a vontade das pessoas, ditada por braço no ar, “foi que continuassem o protesto [contra a crise na habitação] na praça e, novamente, a dormir em tendas”.

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Sobre a legitimidade para continuarem o protesto na praça, Pedro Manuel assumiu terem “autorização para manifestação até dia 20”, argumentando, sobre a questão das tendas “terem o mesmo tipo de autorização que tinha a polícia da câmara quando veio cá retirar as tendas, que é nenhuma, porque não apresentaram ordem de dispersão formal e mantêm as tendas apreendidas num processo totalmente feito à margem da formalidade e da burocracia legal”.

Outra expectativa do movimento é a de “continuarem a crescer e não só no Porto”, afirmando que estão a apelar para que o mesmo possa “acontecer em outras cidades, como já está convocado em Lisboa para sábado”.

Na manhã de segunda-feira, a Polícia Municipal retirou as cerca de 50 tendas que estavam armadas naquela praça. E logo nesse dia, a Câmara garantiu que o acampamento em protesto contra os preços da habitação estava a ocupar indevidamente o espaço público, razão pela qual foi retirado pelas autoridades.

Em comunicado, a autarquia indicou que “a ocupação da Praça D. João I através da instalação de um acampamento foi avaliada pelas entidades competentes e forças de segurança, a quem cabe atuar em conformidade com a lei, não permitindo a ocupação ilegal e degradação do espaço público”.