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Medo, matemática e ilusão: a ciência dos penáltis /premium

Messi, Ronaldo, Aspas, Modric. Todos falharam. As penalidades são golos quase garantidos, mas num Mundial repleto deles muitos traem os jogadores. A razão está dentro do cérebro. E na matemática.

Era o verdadeiro mata-mata, mas com uma dose adicional de nervos à flor da pele: Portugal só poderia passar para a meia-final do Campeonato Europeu de Futebol de 2016 se levasse a melhor nas grandes penalidades frente à Polónia. João Moutinho não estava minimamente confiante: Fernando Santos chamou-o para marcar uma das grandes penalidades mas o médio ainda estava frustrado com aquele penálti falhado no Euro 2012 que arrumou Portugal nas meias-finais frente a Espanha. Só Cristiano Ronaldo foi capaz de o convencer: “Hey, hey! Anda bater, anda bater, anda! Tu bates bem. Se perdermos que se f***! Vai, anda, tu bates bem. Agora está nas mãos de Deus”, disse-lhe o capitão português. Moutinho bateu bem. E Portugal prosseguiu no Euro 2016 fora até pegar na taça de campeão.

Vídeo. Oiça o que Ronaldo disse a Moutinho antes das penalidades

Neste Mundial de 2018, até esta terça-feira, os árbitros marcaram 28 penáltis. O primeiro de todos logo no segundo dia no jogo entre Portugal e Espanha, que Cristiano Ronaldo marcou. Mas o mesmo Cristiano falharia a marcação desse remate de 11 metros dentro da área, frente ao Irão ainda na fase de grupos. Além dele, Messi não conseguiu marcar a grande penalidade a favor da Argentina no joco com a Islândia. No último domingo, um falhanço de Aspas nas grandes penalidades resultou na eliminação da Espanha frente à Rússia após uma grande defesa de Akinfeev. Horas depois, Modric falhou redondamente um penálti perante a baliza de Kasper Schmeichel nos 90 minutos regulamentares do Croácia-Dinamarca. E no último jogo dos quartos de final aconteceu o mesmo: o Inglaterra-Dinamarca só ficou resolvido nas grandes penalidades, com Eric Dier, inglês da formação do Sporting, a acabar com a maldição dos penáltis da Inglaterra (imposta por Portugal e pelo sportinguista Ricardo no Euro 2004) depois de os 120 minutos se terem esgotado com um empate a uma bola entre as duas equipas.

Ronaldo falha um penálti no jogo entre Portugal e Irão. Créditos: Clive Mason/Getty Images

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São muitos penáltis e muitos deles falhados, apesar de normalmente serem vistos como golos garantidos por causa das extremas dificuldades que os guarda-redes têm em defendê-los. O problema é que cada penálti testemunha a pressão que João Moutinho sentiu depois de ter falhado aquele do Euro 2012.

Se olharmos para os remates em situação de penálti em Mundiais, as taxas de sucesso andam de facto à volta dos 80%. Esse valor baixa para os 77% durante os primeiros penáltis em campeonato do mundos. Curiosamente, se um jogador tiver de marcar um penálti decisivo para que a equipa continue no campeonato, a taxa de sucesso baixa para muito mais: apenas 44%. Contas feitas, historicamente há uma probabilidade abaixo dos 50% de acertar na baliza quando se tratam de momentos decisivos. E a culpa é da pressão, garantem os especialistas.

Se olharmos para os remates em situação de penálti em Mundiais, as taxas de sucesso estão à volta dos 80%. Esse valor baixa para os 77% durante os primeiros penáltis. Mas se um jogador tiver de marcar um penálti decisivo para que a equipa continue no campeonato, a taxa de sucesso baixa para os 44%.

A explicação para a dificuldade experimentada pelos jogadores durante a marcação das grandes penalidades começa dentro do nosso organismo, quer dizer, do dos jogadores, descreve Greg White, especialista em atividade física, num documentário patrocinado pela Adidas: “Os penáltis testemunham a comunicação entre o corpo e o cérebro, particularmente os olhos. Porque o que os olhos vêm, depois o cérebro interpreta e traduz isso para uma resposta física”. Os médicos chamam a esse mecanismo “reação de fugir ou lutar”, uma ferramenta descrita pelo fisiologista Walter Bradford Cannon em 1927 , e que os animais usam para reagir às ameaças. Essa reação agita o sistema nervoso simpático para que o animal enfrente o medo e lute contra ele ou fuja para se defender.

À conta disso, “no momento do penálti há um aumento na libertação de adrenalina, uma hormona que no fundo nos prepara para a ação. O ritmo cardíaco aumenta dramaticamente e pode ir de níveis de descanso em atletas de 60 batimentos por minuto para mais de 100 sem fazer nenhum tipo de atividade física. O ritmo de respiração começa a aumentar. As artérias do corpo começam a contrair e a pressão sanguínea começa a aumentar”, descreve o cientista.

Como o corpo e a mente estão sempre ligados, aquilo que acontece fisiologicamente ao jogador tem repercussões no pensamento, concretiza Andy Lane, psicólogo desportivo: “Os jogadores entram num estado mental alterado que pode alterar aquilo que pensam e que sentem, mas principalmente aquilo em que se conseguem concentrar. Nesse ponto em que a resposta fisiológica a esse stress se torna exagerada é quando se torna fortemente provável que se falhe ao executar uma resposta motora de controlo tão subtil como um penálti”.

Messi prepara-se para marcar um penálti a favor da Argentina frente à Islândia. Acabou por falhar. Créditos: MLADEN ANTONOV/AFP/Getty Images

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Isso mesmo é sublinhado pelo confidence coach Martin Perry: “Se o jogador começar a duvidar de si mesmo, essas dúvidas ganham dimensões ainda maiores por ele estar sob pressão. O que acontece é que o jogador põe a bola no relvado e provavelmente pensa sobre para onde a quer atirar, mas quando volta para trás, olha para a baliza e começa a pensar demais sobre isso, a mente perde a concentração. Começa a viajar e a pensar nas falhas de outros jogadores, nas consequências de falhar. E isso faz com que tirem a mente da coisa mais importante naquele momento, que é acertar na baliza”. Foi provavelmente isso que estava a acontecer com Moutinho no Euro 2016 antes da intervenção de Cristiano Ronaldo. E pode ter sido isso que aconteceu a Messi, a Ronaldo, a Aspas e a Modric.

Isso vai ao encontro das explicações de Ken Bray, investigador da Universidade de Bath (Inglaterra). De acordo com este cientista, há dois tipos de stress: o somático e o cognitivo. O stress somático é aquele com que todos nós lidamos quase diariamente com o nervosismo das situações do quotidiano. Mas o stress cognitivo é diferente: “O stress cognitivo significa que pensamentos negativos sobre a falha começam a encher-nos a mente assim que somos chamados a agir. Há várias maneiras de lidar com o problema, mas a mais poderosa é imaginar. Imaginar que se está a marcar um penálti com sucesso. É como entrar num filme mental onde se é protagonista e se marca um penálti perfeito para o lugar perfeito da baliza”.

Do lado do guarda-redes, a tarefa não é mais facilitada: nem sempre basta contar com aquilo que está nas mãos dos jogadores porque às vezes é a própria matemática que está contra a missão que lhes é entregue. Vejamos: uma baliza oficial mede 7,32 metros de largura e 2,44 metros de altura, significando isto que a área da sua entrada é de 17,86 metros quadrados. Se um futebolista rematar a bola com uma velocidade de 130 quilómetros por hora, algo que Cristiano Ronaldo consegue fazer, a uma distância de 11 metros da baliza, ela vai chegar à rede em 0,3 segundos. É daí que vem a dificuldade do guarda-redes: segundo a Entertainment and Sports Programming Network (ESPN), ele precisa de 100 milissegundos só para processar o remate e de outros 100 milissegundos para decidir para onde saltar e para que o cérebro ordene os músculos a obedecer a essa decisão. Em cima disso, o guarda-redes ainda vai gastar 700 milissegundos para saltar e chegar ao lado da baliza para que decidiu ir.

Se o guarda-redes ficar quieto no centro da baliza em vez de tentar adivinhar para que lado a bola vai ser chutada terá maior probabilidade de defender um penálti. Nos 138 penáltis chutados nos Mundiais entre 1982 e 1994 descobre-se que os guarda-redes só adivinham a direção da bola em 41% das vezes, pouco acima de a adivinhar aleatoriamente.

Visto que o guarda-redes só pode avançar depois do remate, um penálti é virtualmente indefensável se a bola for enviada para longe do guardião. Um estudo publicado em 2005 após analisar 286 penáltis indica que mais de 80% dos remates à baliza (cerca de 4 em cada 5) resultam em golo se forem rematados para a chamada “zona indefensável”, a que fica nos cantos superiores e inferiores da baliza porque são também as zonas que estão mais afastadas no guarda-redes. E os números provam isso mesmo, conta num documentário Duncan Alexander, especialista em estatísticas da Opta. “Olhei para o número total de penáltis na Premier League nas últimas cinco épocas e percebi que se a bola bater no canto superior esquerdo a taxa de sucesso é de 100%. Se bater no cimo do centro da baliza (um pouco mais para a direita), a taxa de sucesso ficava nos 90%. Portanto, se um jogador tiver confiança para bater a bola mais para cima é o melhor que faz. É menos arriscado do que batê-la mais para baixo”.

Para onde foram atirados os penáltis bem sucedidos segundo a Opta.

Os números são tão dramáticos que sugerem que, se o guarda-redes ficar quieto no centro da baliza em vez de tentar adivinhar para que lado a bola vai ser chutada e a seguir se atirar para a esquerda ou para a direita, terá maior probabilidade de defender um penálti: olhando para os 138 penáltis chutados nos Campeonatos do Mundo entre 1982 e 1994 descobre-se que os guarda-redes só adivinham a direção da bola em apenas 41% das vezes (que é pouco acima de a adivinhar aleatoriamente) e que só defenderam as grandes penalidades em 14,5% dos casos.

Akinfeev defende uma grande penalidade de Aspas que levou à eliminação da Espanha e à passagem da Rússia aos quartos de final. Créditos: JUAN MABROMATA/AFP/Getty Images

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Foi por isto que se criou uma nova regra em 1997 na esperança de facilitar a vida dos guarda-redes, que simplesmente não tinham tempo de defender um penálti: a regra dizia que, ao contrário do que acontecia até ali, o guarda-redes podia mexer-se para a esquerda e para a direita, mas não para a frente, ainda antes do futebolista rematar a bola em direção à baliza. Cerca de uma década depois, a regra deu origem a uma nova técnica a que os brasileiros chamaram “paradinha”: na altura de marcar o penálti, eles levantavam o pé para simular um remate e levar o guarda-redes a mexer-se. Depois paravam e só quando o guardião já estava de um dos lados da baliza é que o futebolista chutava, obviamente para o lado contrário. As “paradinhas” só foram proibidas em 2010, quando a FIFA introduziu um esclarecimento às leis que regem as penalidades: “Fingir o remate ao dar um chuto de penálti para confundir os oponentes é permitido. No entanto, fingir que se vai chutar a bola depois de o jogador ter completado a sua corrida é agora considerado uma violação da Lei 14 e um ato de comportamento antidesportivo pelo qual o jogador deve ser advertido”.

Há outra regra que pode ajudar as equipas. Segundo Ken Bray, que escreveu o livro “How to Score: Science & the Beautiful Game”, uma das regras de ouro vem da iniciativa do treinador: “Escolher os jogadores certos para marcar as penalidades é vital. É uma responsabilidade do treinador e não dos jogadores. Muitas vezes vemos treinadores a andar de um lado para o outro a perguntar quem quer marcar o penálti. Não deve ser assim: ele deve saber as taxas de sucesso de cada jogador e escolher em função disso”. Além disso, conta também a ordem com que os jogadores vão marcar as penalidades: “Os estudos mostram que há uma grande vantagem em os jogadores menos experientes serem os primeiros a marcar os penáltis e em guardar os mais experientes para o fim” porque saberão melhor como chegar à zona indefensável.

O estudo de dois cientistas provou que os guarda-redes podem influenciar a direção do remate no penálti se não se posicionarem exatamente no centro da baliza, mas um pouco mais para um dos lados. Além disso, podem iludir os jogadores a acharem-nos maiores ou mais pequenos do que realmente são.

Do lado do guarda-redes, se a matemática não os ajuda muito, há um truque que pode jogar a favor dos guardiões: a ilusão de Müller-Lyer, cuja ilustração mais famosa é a de duas setas com um comprimento precisamente igual, mas como uma delas tem as pontas viradas para dentro e a outra viradas para fora, uma delas parece muito maior do que a outra. Sempre que os investigadores estudam a ilusão de Müller-Lyer fazem-no na perspetiva de entender como as pessoas percepcionam as figuras geométricas abstratas em condições de laboratório. Mas dois cientistas tentaram adotar uma nova abordagem: John van der Kamp e Rich Masters quiseram saber se os guarda-redes podem influenciar o comportamento do jogador que vai marcar o penálti se criarem uma ilusão parecida a esta. E descobriram que sim.

Ricardo tirou as luvas e defendeu uma grande penalidade da Inglaterra no Euro 2004. Créditos: Shaun Botterill/Getty Images

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Primeiro, o estudo destes dois cientistas provou que os guarda-redes podem influenciar a direção do remate no penálti se não se posicionarem exatamente no centro da baliza, mas um pouco mais para um dos lados. No passo seguinte chamaram 15 estudantes universitários e mostraram quatro fotografias de quatro guarda-redes — numa delas, ele estava com os braços abertos à altura dos ombros; noutra estava com os braços apontados para cima; na terceira o guarda-redes tinha os braços a apontar para baixo; e na última ele tinha os braços caídos ao lado do corpo. Conclusão: os participantes superestimaram a altura do guarda-redes em mais de dois centímetros nas imagens do guarda-redes com os braços a apontar para cima e subestimaram a altura dos guarda-redes nas outras posições em entre 0,35 e 0,51 centímetros.

Para onde foram atirados os penáltis mal sucedidos segundo a Opta.

Num segundo passo do estudo, os cientistas chamaram outros 24 estudantes universitários para saber a ilusão isso tinha influência na pontaria do jogador. Todos foram convidados a atirar uma bola a um painel de ecrãs com o tamanho real de uma baliza com as fotografias, também elas em tamanho real dos mesmos guarda-redes. Ao usarem câmaras de vídeo de alta velocidade, os dois cientistas concluíram que, perante a imagem de um guarda-redes com os braços para cima, os participantes acharam que ele era maior do que realmente era e chutaram quatro centímetros para mais longe do guardião. Nas outras três posições, as cobaias julgaram que os guarda-redes eram mais baixos do que realmente eram e chutaram para mais perto dele.

Para evitar desentendimentos, mais vale ter em mente duas chaves essenciais para saber marcar um penálti na perfeição. Em primeiro lugar, “saber imaginar”, diz Martin Perry: “O importante é tornar os alvos um pouco mais imaginativos para a mente. Por exemplo, imaginar que o canto superior da esquerda da baliza é branco, que o canto inferior esquerdo é vermelho, o canto superior direito é amarelo, o canto inferior direito é verde e que o centro é azul. Isso torna mais fácil para a mente”. E em segundo sugar, simplesmente treinar: “É preciso praticar com as mesmas condições e simular a pressão. Por exemplo, se tiver acesso a um grupo de outros jogadores de futebol, eles podem agir como o público. Podem importunar o jogador para simular a pressão e pode-se inventar cenários em que há alguma coisa em jogo, onde há barulho e há pelo menos um certo grau de pressão”, aconselha Andy Lane, psicólogo desportivo.

Ronaldo marca um penálti a favor de Portugal contra Espanha. Créditos: Dean Mouhtaropoulos/Getty Images

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Isso mesmo era o que fazia Matt Le Tissier, ex-futebolista britâncio que converteu 47 dos 48 penáltis que teve de marcar ao longo da carreira na Premier League: “Antes, como os jogadores não ganhavam tanto dinheiro assim, costumava dar incentivos financeiros aos guarda-redes para tentarem defender os meus penáltis. Era uma espécie de aposta. Como eu não lhes queria andar a dar dinheiro, isso dava-me incentivo para realmente me focar no que estava a fazer“, contou ele numa entrevista à Adidas para um documentário sobre os penáltis. Matt Le Tissier fazia isto porque sabia que trabalhava melhor sob pressão, o que é uma grande vantagem no mercado do futebol, garante Greg White: “O que se procura é alguém que possa gerir a pressão. Uma pessoa extremamente boa em termos técnicos que quebra com a pressão não terá nenhum valor quando comparado com alguém que é apenas mediano ou mesmo medíocre em termos técnicos a fazer penáltis mas que não se deixa afetar pela pressão”.

Prova disso são os dados fornecidos por Duncan Alexander: olhando para a Premier League, uma das mais prestigiadas do mundo, os melhores futebolistas como Michael Owen ou Wayne Rooney têm taxas de sucesso entre os 60% e os 65%: “Esses valores estão abaixo da média. Se olharmos para a Premier League, o melhor marcador de penáltis é Leighton Banes do Everton. Ele rematou onze dos penáltis da história da Liga e marcou todos”. É por tudo isto que o especialista em atividade física Greg White diz que a única forma de marcar penáltis com perfeição é praticar: “O melhor conselho que posso dar é praticar. Há um provérbio que diz que quanto mais se pratica mais sorte se tem. A prática cria confiança“, explica. Ronadlo fica muito tempo a treinar livres e penáltis no fim dos treinos. E mesmo assim falha.

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