Era uma das 12 ideias de Carlos Moedas na corrida à Câmara de Lisboa nas autárquicas de setembro de 2021: um teatro em cada freguesia. A intenção já a expressara nas redes sociais meses antes, mas apareceria vertida no programa coligação Novos Tempos (PSD/CDS-PP/MPT/PPM/Aliança) sob o nome “um teatro em cada bairro”.
A expressão ficou no ouvido, tal como o compromisso de “assegurar um centro multicultural em Cada Bairro”, “espaços que conjugam a inovação e a criatividade com as vertentes de sala de espetáculos/ensaios, permitindo, assim, o fomento cruzado da cultura, criatividade e ciência”, lia-se no programa apresentado pelo então candidato à maior autarquia do país.
Quatro anos depois, o programa-bandeira de Carlos Moedas que prometia “um teatro em cada freguesia” concretizou-se em seis (Alvalade, Avenidas Novas, Benfica, Carnide, Estrela e Santa Clara), de um total de 24 freguesias existentes. Destes, apenas quatro espaços estavam de facto fechados, dois deles com reabilitações em marcha já encetadas pelo anterior executivo, estando os outros dois em pleno funcionamento. Em dezembro de 2023, a CML lançou uma chamada para novas estruturas que quisessem integrar o programa, mas, no final, decidiram por não integrar nenhuma na rede.
Publicação na rede social X de Carlos Moedas, a 24 de abril de 2021
“A cidade só estará completa quando tivermos um teatro em cada bairro”, dizia Moedas em 2021
Foi a 18 de outubro de 2021 que Moedas tomou posse como presidente da Câmara Municipal de Lisboa, mas foi preciso mais de um ano até que o social-democrata começasse a cortar fitas. Inaugurado a 17 de dezembro de 2022, o Teatro Avenidas, na freguesia das Avenidas Novas, foi o primeiro espaço a abrir no âmbito do programa Um Teatro em Cada Bairro. O Avenidas, localizado na Rua Alberto de Sousa, no Bairro de Santos ao Rego, foi ocupar a antiga morada da Biblioteca-Museu República e Resistência (BMRR), que encerrou em 2019.
Mas se o mural da fachada impelia à elevação do olhar, no interior era preciso olhar para o chão para descobrir o “teatro”, resumido a um auditório com 80 lugares na cave do edifício. Afinal, seria desvendado na inauguração, o Avenidas não ficaria dedicado inteiramente ao teatro (algo que viria a repetir-se nos restantes equipamentos da rede), nem sequer à cultura. O segundo andar, sob a alçada da Junta de Freguesia das Avenidas Novas, estaria dedicado à área social e à empregabilidade.
Ainda assim, o clima era de festa. “A cidade só estará completa quando tivermos um teatro em cada bairro”, dizia Carlos Moedas, ao lado do braço direito, Diogo Moura, então vereador da Cultura, que antecipava os próximos bairros com direito a um teatro: Benfica, Ajuda, e Belém. Quatro anos depois, só o primeiro se concretizou.
▲ “A cidade só estará completa quando tivermos um teatro em cada bairro”, dizia Carlos Moedas em 2021. Na foto, ao lado de Diogo Moura, então vereador da Cultura
TOMÁS SILVA/OBSERVADOR
Turim, em Benfica, já estava previsto. Casa do Jardim da Estrela vinha do anterior executivo
Nove meses depois do Avenidas, em setembro de 2023, foi com pompa e circunstância que foi inaugurado o Cine-teatro Turim, na Estrada de Benfica. Só que a reabertura do espaço, que é propriedade de Afonso Moreira, empresário e pai das atrizes Anabela e Margarida Moreira, já estava prevista. Em 2020, a Junta de Freguesia de Benfica já tinha anunciado que havia arrendado o Turim (sala e centro comercial) por 10 anos, pelo valor de cinco mil euros mensais, com vista à sua reabertura. O envolvimento da CML, no entanto, acabaria por ser crucial, dizia ao Observador o presidente da junta aquando da inauguração. Do orçamento de 450 mil euros para a reabilitação, 150 mil euros vieram da Câmara Municipal de Lisboa graças à participação do cine-teatro na rede. Também no caso deste “teatro”, as artes cénicas não seriam tornadas prioridade e o foco no cinema era assumido.
Na mesma altura, a CML tirava da cartola outros novos equipamentos para rechear a rede de Um Teatro em Cada Bairro. Ao contrário do Avenidas e do Turim — dois espaços fechados que após um processo de reabilitação passaram a estar abertos —, o município anunciou a abertura de espaços que já estavam em funcionamento, mas que seriam agregados ao programa. Foi o caso da Quinta Alegre, na freguesia de Santa Clara, o antigo Palácio Marquês do Alegrete, que é património da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML), e que tem inclusivamente uma residência para Pessoas Idosas da SCML. O espaço, que tem programação cultural de proximidade, passou a integrar a rede nesse mesmo mês.
▲ O Cine-teatro Turim, em Benfica, reabriu em setembro de 2023, com um foco no cinema
FILIPE AMORIM/OBSERVADOR
Umas semanas depois, em outubro de 2023, foi a vez da Boutique da Cultura, uma associação cultural sem fins lucrativos que existe desde 2013 com sede na freguesia de Carnide, “re-inaugurar” a pretexto da sua inclusão na rede municipal. Com uma diferença: foi o primeiro espaço sob gestão não autárquica a integrar a rede. Uma decisão motivada pelo facto de a Boutique já estar dotada de uma programação regular autónoma. Aliás, foi o próprio Presidente da Câmara, Carlos Moedas, que assumiu em entrevistas que o programa “Um Teatro em cada Bairro” era “uma cópia de boa-vontade” do que vira no espaço em Carnide, que, admitia o autarca, o “inspirou para o projeto”.
A informação é confirmada ao Observador por Paulo Quaresma, da Boutique da Cultura: “Connosco a questão da integração foi mais no sentido de já que o próprio presidente da câmara tinha este equipamento como referência, para nós fazia todo o sentido fazer a integração”. Com a integração e apoio da CML, surgiu a “oportunidade para duplicar a capacidade do espaço”, explica Quaresma. Cresceu o número de salas para espetáculos, salas de ensaios e das cerca de 300 sessões de teatro e música por ano passaram a alcançar as 450 sessões.
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Um mês depois, em novembro de 2023, mais uma “abertura” em tempo recorde, com a CML a anunciar mais um “teatro”: os Coruchéus, integrado no Complexo Municipal dos Coruchéus, que inclui os Ateliês Municipais, a Galeria Quadrum e a Biblioteca dos Coruchéus, e que está sob a alçada da Lisboa Cultura (empresa municipal, ex-EGEAC). O que constitui o “novo teatro” é um dos ateliês que pertencia aos Ateliês Municipais, apurou o Observador — no caso, o antigo ateliê do escultor Laranjeira Santos. Segundo um comunicado de imprensa, foi “implementado o projeto de Mediação Cultural, com a Escola Básica dos Coruchéus, envolvendo um universo de cerca de 200 alunos, o grupo de teatro dos Coruchéus, destinado a jovens, dirigido pelas atrizes Rita Brütt e Flávia Gusmão, e um modelo de funcionamento que inclui a disponibilização gratuita da sala para ensaios e trabalho artístico”.
▲ À esquerda: a Casa do Jardim da Estrela, na freguesia da Estrela. À direita: a sala do Coruchéus, em Alvalade
CML
Ainda em 2023, também a Casa do Jardim da Estrela abriu as portas, com “a missão de promover o acesso à cultura, à educação ambiental, ao conhecimento e à formação para a sustentabilidade”. A reabilitação deste edifício centenário foi apresentado como o resultado de uma parceria entre os pelouros da Cultura e do Ambiente, Estrutura Verde, Clima e Energia da CML, em conjunto com outras entidades e parceiros, designadamente a Junta de Freguesia da Estrela. Só que a obra foi lançada e adjudicada pelo anterior executivo, do socialista Fernando Medina, como denunciaram os dois ex-vereadores da CML, Manuel Salgado e José Sá Fernandes, num artigo de opinião no jornal Expresso.
Câmara lançou concurso para integrar novas estruturas na rede, mas não escolheu nenhuma
Em dezembro de 2023, a CML anunciou que ia lançar uma chamada para que “estruturas culturais” da cidade pudessem integrar a rede Um Teatro em Cada Bairro. O Observador questionou a Câmara de Lisboa sobre o resultado da chamada, que teve candidaturas abertas durante cinco meses e encerraram em maio de 2024. Por e-mail, o departamento de comunicação da CML revela que “foram recebidas 24 candidaturas, mas apenas 16 cumpriram os critérios de elegibilidade”. “No entanto, de acordo com a deliberação do júri, nenhuma das candidaturas elegíveis foi aprovada, uma vez que não cumpriam com razoabilidade a conjugação dos requisitos constantes na convocatória, logo, não justificavam a integração na rede”, justificam.
A autarquia sublinha que “os objetivos da convocatória visavam, acima de tudo, um enriquecimento do programa” e um “contributo efetivo”, “nomeadamente no trabalho sustentado de proximidade com os respetivos territórios, em conjugação com a capacidade de dar resposta à dificuldade que continuam a ter as estruturas artísticas, e artistas em nome individual, em encontrar espaços de ensaio e de apresentação na cidade”. Porque, justificam, “os princípios que norteiam a rede “Um Teatro em Cada Bairro” devem estar presentes na atividade dos equipamentos culturais que o consubstanciam, para que o programa tenha um verdadeiro significado e possa, assim, ser efetivamente consequente”.
▲ A medida "Um Teatro em Cada Bairro" não está espelhada nas propostas de Carlos Moedas às eleições autárquicas de 12 de outubro
Ao longo de 2024 nenhum outro espaço foi aberto nem foram conhecidos desenvolvimentos sobre os dois futuros teatros que o então vereador da Cultura, Diogo Moura (número cinco na lista de vereadores de Moedas às eleições de dia 12), antecipara como previstos para abrir em 2025 — nas freguesias de Belém e na Ajuda. O Observador contactou a CML para um ponto de situação sobre os projetos, mas não obteve resposta.
Ainda este ano, o Observador noticiou que parte do mercado do Forno do Tijolo, em Arroios, iria tornar-se um novo equipamento da rede Um Teatro Em Cada Bairro, com uma sala de espetáculos a ocupar o que é atualmente o Mercado de Culturas, uma ala central do mercado onde acontecem alguns eventos da junta de freguesia. Como o local não teria as condições acústicas para receber espetáculos seria necessário uma intervenção cujo orçamento ainda não estava estimado, garantia fonte da junta ao Observador em janeiro. A data apontada para a inauguração, no primeiro semestre de 2025, não se cumpriu. A medida Um Teatro em Cada Bairro não está espelhada nas propostas de Carlos Moedas, cabeça de lista da coligação PSD/CDS-PP/IL, nas eleições autárquicas de 12 de outubro.