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Stanislas Dehaene esteve em Portugal na conferência da Iniciativa Educação
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▲Stanislas Dehaene esteve em Portugal na conferência da Iniciativa Educação

ANDRE STACHEL ANTUNES

▲Stanislas Dehaene esteve em Portugal na conferência da Iniciativa Educação

ANDRE STACHEL ANTUNES

Neurocientista Stanislas Dehaene: ter turmas mais pequenas “não é uma medida eficaz em termos de custo-benefício”

Sob o mote “não é preguiça, é biologia”, o especialista em aprendizagem recomenda ainda que as aulas do segundo ciclo ao secundário comecem mais tarde.

Presidente do Conselho Científico de Educação Nacional de França, que aconselha o governo francês quanto ao ensino e aprendizagem, Stanislas Dehaene dedicou a sua vida ao estudo de como o nosso cérebro adquire novas capacidades, como o cálculo, a consciência, o raciocínio e a leitura.

Um dos neurocientistas mais importantes da Europa e professor no Collège de France, conduziu várias investigações sobre línguas, Matemática e leitura e tem obras publicadas em mais de 15 línguas. Em Portugal, publicou este mês o livro A Arte de Aprender, sob chancela da Gradiva e em parceria com a Iniciativa Educação de Teresa e Alexandre Soares dos Santos, em cuja conferência deu uma palestra sobre aprender.

Ao Observador, elogia a “transparência” da língua portuguesa e aconselha dar maior importância ao sono das crianças e jovens em idade escolar — mesmo que isso queira dizer atrasar o início das aulas todos os dias.

No livro A Arte de Aprender, descreve os bebés como “verdadeiros génios”. O que mais o cativa neles?
Há duas coisas que são simplesmente impressionantes. Uma é o que eles já sabem, e outra é o quão depressa aprendem. E são quase complementares. O cérebro deles já está super organizado, é só muito lento. O cérebro ainda não passou pela mielinização [processo pelo qual a mielina isola os axónios, que recebem os impulsos nervosos nos neurónios]. Por isso, a comunicação entre uma área e a outra não é muito veloz e podem demorar até três vezes mais do que os adultos a ficarem cientes de alguma coisa. Mas os bebés entendem números pequenos — um, dois, três — e também conseguem distinguir entre 4 e 12, como vimos numa experiência recente em que colocámos elétrodos no topo da cabeça dos bebés e lhes medimos a atividade cerebral. Sabem sobre números, objetos e probabilidades. Sabem o que é surpreendente, o que quer dizer que entendem o que é provável e o que é impossível. E sabem muito sobre linguagem: no primeiro ano de vida, aprendem-na mais rápido que qualquer máquina que tenhamos e mais rápido que qualquer adulto, com menos dados. Em adultos, é difícil aprender novas línguas, mas os bebés adquirem-nas facilmente porque o cérebro já está preparado para processar e dissecar a linguagem em partes e aprender os níveis de fonemas, sílabas, palavras, sintaxe… Aos 18 meses, começam a falar.

Existem diferentes formas de dislexia que se devem a diversos défices biológicos. Estas crianças foram expostas o suficiente à educação e em muitos casos, têm uma inteligência normal. Dislexia não tem que ver nem com educação, nem com inteligência
Stanislas Dehaene, neurocientista francês

É por isso que os pais devem falar olhos nos olhos com os filhos?
Sim. No primeiro ano, pensamos que o bebé “não funciona”. Mas na verdade está a armazenar muito do conhecimento da linguagem sem ser capaz de falar. E há muito mais dados que mostram que quanto mais se fala com os bebés, mais se desenvolvem essas áreas nos cérebros deles.

Defende ainda que cada bebé tem a capacidade de ser brilhante a matemática.
O potencial está presente de forma igual em rapazes e raparigas. Em dados recentes, mostrámos que não existem diferenças entre géneros na matemática até à entrada na escola, que é aos seis anos em França. Temos um estudo belíssimo, em que toda a França foi testada em quatro anos diferentes. No fim, três milhões de crianças fizeram os mesmos testes. E quando entram na escola, os rapazes e as raparigas estão ao mesmo nível; quatro meses depois, vemos as raparigas a ficar para trás; e doze meses depois, estão muito para trás. Há qualquer coisa no contexto social na escola que conduz menos à aprendizagem das raparigas. Pode vir das alunas a pensar que não vale a pena investir em matemática. É importante ter bons modelos a seguir do sexo feminino: descobrimos, por exemplo, que quando a melhor da aula é uma rapariga, as raparigas dão-se melhor na escola. E há muitas professoras de Matemática, mas existem algumas ansiosas quanto à Matemática, e estudos mostram que a ansiedade em massa pode ser contagiosa, especialmente de professoras para meninas. Se os professores disserem, “vamos aprender Matemática hoje, vai ser um bocadinho difícil, mas vou explicar”, aí está, a Matemática é difícil.

É a primeira mensagem que ouvem.
E a mensagem do meu livro é que a Matemática não é difícil. É uma atividade natural, começa com coisas muito simples que todos conhecemos. Objetos, conjuntos de objetos, como se combinam, espaço, pequenas formas. E podemos facilitar a aprendizagem da Matemática pelas nossas crianças ao ter jogos entre a família e nas escolas.

▲ Último livro de Stanislas Dehaene foi publicado em Portugal em outubro de 2025

Iniciativa Educação

Em 2010, publicou um estudo realizado com participantes portugueses e brasileiros sobre analfabetismo. Qual era o objetivo e o que mais o surpreendeu?
Foi um estudo com [o especialista português em psicologia cognitiva da leitura] José Morais e [a professora da Université Libre de Bruxelas] Régine Kolinsky. O objetivo era criar uma imagem de todas as diferenças no cérebro entre as pessoas que foram à escola e foram alfabetizadas, e as que não foram. Fomos a Portugal porque era possível encontrar pessoas que não foram à escola puramente por razões sociais. De facto encontrámos pessoas que tinham empregos e estavam bem na vida, só não tiveram oportunidade de ir à escola. Isso acabou agora, penso. No Brasil, infelizmente, ainda é muito comum. E descobrimos que existe todo um circuito no cérebro que muda quando se aprende a ler e que inclui os componentes ortográficos, letras, e os fonemas. Fomos capazes de replicar tudo isto ao analisar crianças antes e depois de aprenderem a ler. E em poucos meses, pudemos ver este circuito a aparecer nos cérebros destas crianças.

Também estudou os horários de sono. Em Portugal, as aulas entre o segundo ciclo e o secundário geralmente começam às 8h30. Concorda com este horário?
Os pais devem saber que o sono é um dos maiores condicionantes da aprendizagem e no bem-estar em geral. Há todo um conjunto de recomendações dos pediatras sobre a duração do sono em idades diferentes. Um número muito simples de lembrar é 10 horas aos 10 anos. Para bebés, é mais 12, 14 horas. Eles precisam de dormir. É um requerimento biológico absoluto: se se perde sono, mesmo um bocadinho, não só não se aprende, como o sistema imunitário está deprimido, a absorção de gordura é diferente, e cresce a probabilidade de se tornarem obesos. Há défices de atenção, crianças agitadas. E não sei quanto às 8h30 em particular, mas muitas famílias, especialmente as mais pobres, precisam de viajar muito para chegar à escola. Por isso, têm que acordar mais cedo, o que também quer dizer que nem sempre comem o suficiente. E o cérebro é uma máquina muito básica, precisa de calorias e de água. E de dormir. Até à idade dos cinco ou seis anos, algumas crianças precisam de uma sesta, e devemos deixá-las dormir nas escolas.

Os adolescentes deviam começar as aulas mais tarde ou mais cedo?
Na adolescência, o ciclo do sono muda um bocadinho e torna-se mais tardio. Por essa razão, custa aos adolescentes ir para a cama mais cedo, gostam de ficar acordados até mais tarde e têm problemas a levantar-se de manhã cedo. Não é preguiça, é biologia. Muitas experiências mostram que ao adiar a entrada no liceu, teremos benefícios. Pode ser um atraso de meia hora, 45 minutos — é o suficiente para um benefício significativo. E pode salvar vidas! Se os jovens forem de bicicleta ou mota para a escola, o risco de acidentes é elevado. Arriscar, na adolescência, é um grande problema: e piora quando não se dorme.

É um requerimento biológico absoluto: se se perde sono, mesmo um bocadinho, não só não se aprende, como o sistema imunitário está deprimido, a absorção de gordura é diferente, e cresce a probabilidade de se tornarem obesos. Há défices de atenção, crianças agitadas
Stanislas Dehaene, neurocientista francês

Em Portugal também temos turmas grandes, com 30 alunos e um professor..
No que diz respeito ao tamanho das turmas, é melhor ter uma turma mais pequena, mas não muito melhor. E o custo é enorme porque se for preciso dividir a turma em dois, é preciso mais um professor. E falo num país onde isto foi feito em turmas mais pobres, talvez faça mais sentido fazê-lo nas salas de aula de zonas mais desfavorecidas. Mas não é uma medida eficaz em termos de custo-benefício e é difícil recrutar professores.

O que acontece a nível do cérebro que faz com que as crianças tenham dislexia ou discalculia?
É claro hoje em dia que existem diferentes formas de dislexia que se devem a diversos défices biológicos. Estas crianças foram expostas o suficiente à educação e em muitos casos, têm uma inteligência normal. Dislexia não tem que ver nem com educação, nem com inteligência. Tem que ver com insuficiências específicas em diferentes níveis do processo de leitura. Ler é um processo muito complicado, existem diferentes fases: não implica só uma área cerebral. É uma série de áreas cerebrais e, em cada uma delas, existem diferentes tipos de insuficiências. É muito importante tentar prevenir a dislexia ao preparar a criança para jogos fonológicos que a faça brincar com as palavras, e solidificar a linguagem falada antes da aquisição da leitura. Nessa altura, as relações grafema-fonema também ganham destaque.

Que tipos de dislexia existem?
Nós estudámos maioritariamente dois tipos, a dislexia atencional e de inversão de letras. Em laboratório, vimos que algumas crianças misturavam as letras dentro das palavras. Dávamos-lhes “forma” e liam “foram”, por exemplo. Parecem não saber muito bem a posição das letras ou prestar atenção suficiente a isso quando se convertem em sons. É o que chamamos de dislexia de inversão de letras. E as crianças podem ser ajudadas ao acompanhar as palavras com o dedo ou espaçando as letras. A dislexia atencional é completamente diferente: quando lemos, temos que nos focar numa palavra de cada vez e negligenciar a palavra anterior ou a próxima, e isso pode ser difícil para algumas crianças que pegam na letra da palavra seguinte ou na da anterior. Por exemplo, em vez de dizer “lua”, dizem “sua” porque há um “s” na palavra seguinte. Ajuda se tiverem uma espécie de janela que deslizam por cima do texto para conseguirem ver uma palavra de cada vez. E há a dislexia de superfície, que pode ser rara em Portugal.

▲ Neurocientista investigou como o cérebro dos bebés está pré-programado a aprender

ANDRE STACHEL ANTUNES/Iniciativa Educação

Porquê?
É ótimo para vocês. A transparência de uma língua é uma condicionante muito importante da leitura, e o português é muito transparente. Trata-se de até que ponto é que cada letra corresponde a um som. Se em francês, surge um “a”, não se sabe que som terá. Há muitas possibilidades dependendo do contexto.

Por exemplo, o seu apelido Dehaene, em português [Deháene] soaria muito diferente do que soa em francês [Dehene].
Outro exemplo é a palavra “femme”, que é mulher em francês. Porque é que se lê com “a” [fame]? É bizarro porque é um “e”! E está comprovado que se ganha até um ou dois anos de aprendizagem por causa desta regularidade, comparando com francês ou inglês. O inglês é o pior.

Os bebés sabem muito sobre linguagem: no primeiro ano de vida, aprendem-na mais rápido que qualquer máquina que tenhamos e mais rápido que qualquer adulto, com menos dados
Stanislas Dehaene, neurocientista francês

Defende que o método fonético de aprendizagem da leitura é melhor que o global. Porquê?
Podemos pensar neles como extremos no espectro. Por um lado, as crianças são expostas só às palavras e absorvem o entendimento de como funciona a leitura ao associar a visão a imagens de palavras faladas. É o método global. E por outro lado, existe o método fonético em que se explica com muito cuidado às crianças como cada letra diz respeito a um som específico, ou um grupo de letras resulta em sons específicos. Mas também se explica como a palavra funciona da esquerda para a direita. Houve muitas experiências que comparam a eficiência de um método [fonético] contra o outro. E outra descoberta significativa da ciência cognitiva é que importa escrever ao mesmo tempo que se lê, porque aprendem mais depressa a ler.

No livro A Arte de Aprender, revela que a sua neta está a começar o primeiro ano na escola. O que deseja para o percurso escolar dela?
Está no segundo ano agora. Na família, insistimos muito nos fundamentais. É preciso gostar de ler, que será necessário para o resto da vida. E ela adora Matemática porque lhe mostramos que é divertido. A música também é muito importante, ela está mesmo a começar. E é uma luta estar na música quando se é criança, mas é muito bom para eles. E criatividade. A minha neta é muito engraçada e criativa, e espero que ela assim se mantenha. No meu livro Como Aprendemos, abordo a dificuldade de manter a curiosidade, que é um factor de aprendizagem muito forte. E infelizmente, às vezes a escola mata a criatividade e curiosidade porque força as pessoas a um certo enquadramento. E por isso espero que a minha neta consiga manter esta criatividade.

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