1244kWh poupados 1244 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Nine Inch Nails: Trent Reznor foi “feliz” no NOS Alive e nós fomos felizes com ele

Os Muse foram o outro destaque da última noite do festival, com um concerto que serviu de experiência piloto para um grupo de pessoas cegas. O festival regressa em 2026 com os Buraka Som Sistema.

Sabemos que estamos a atravessar tempos estranhos quando levamos com a notícia de que os Oasis estão novamente em digressão. Noel e Liam Gallagher, de tréguas feitas e juntos em palco em 2025, quem diria? Tamanha bizarria – que para já não tem nenhuma aparição marcada nem para Portugal nem para a Europa Continental – não está dissociada da febre dos 90 que de há uns anos para cá se instalou na indústria da música.

Não se trata apenas de uma onda de nostalgia a bater forte nos trintões e quarentões que vestiam flanela e jeans de cinta subida no auge da juventude, mas um movimento que move os miúdos de hoje, amamentada a redes sociais. Veja-se o concerto de Deftones, no Primavera Sound, e os adolescentes agarrados às grades a cantar Be Quiet and Drive (Far Away), como fizeram os adolescentes de ontem. É caso para dizer que ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais.

A febre dos nineties, que entra pelo início dos anos 2000, não passou ao lado do NOS Alive, especialmente no último dia do festival deste ano, com os grandes cabeças de cartaz a serem os Nine Inch Nails e os Muse, precisamente duas bandas que, em quadrantes diferentes da década de 90 e de 00, explodiram nos walkmans e discmans de muitos melómanos para quem o Blitz ainda em jornal era a bíblia. Não, não se enganaram: este cartaz não é de 1994, ano solar de The Downward Spiral, muito menos de 1999, do debutante Showbiz. É de 2025. Ano em que Noel e Liam Gallagher fizeram as pazes, não sei se já vos tínhamos dito.

Obviamente que estamos a ser simplistas, porque nenhum dos cabeças de cartaz deste último dia de NOS Alive ficou cativo da década em que nasceu e muito menos cativo do seu som original. Quando se trata de Trent Reznor e dos seus Nine Inch Nails, então é bom que alarguemos as vistas. Quantas vezes os vimos nascer, morrer, renascer desde Pretty Hate Machine (1989)?

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Dessa época ouvimos Head Like a Hole, faixa que fala de um God Money dominatrix, expoente máximo do capitalismo canibal que nos inebria com promessas de prosperidade eterna, enquanto nos rói as vísceras até não termos mais nada para dar. O mesmo capitalismo que leva um festival de música a organizar eventos corporativos de um banco patrocinador num dos seus palcos, ao mesmo tempo que uma artista, neste caso Líquen, apresenta o seu EP I” uns metros ao lado. Por momentos, ficámos na dúvida se estávamos num congresso ou num evento cultural.

Adiante. Falávamos de Reznor, ele que com os seus 60 anos e repetindo “I’d rather die than give you control” reencarnou com a mesma chama ígnea o Reznor dos 24 anos, sabendo, porém, dançar com a mágoa sem ser consumido por ela. O que o move continua a ser o que lhe ferve nas entranhas e isso transpareceu para palco. Do início ao fim do concerto, que teve quase duas horas de duração, o fundador dos Nine Inch Nails mostrou-se inteiro e total com quem o acompanhou nesta última noite de digressão na Europa.

“Sinto-me bem e feliz aqui”, disse a meio da atuação, numa das raras ocasiões em que se dirigiu ao público. Disse também que, quando se sente bem e feliz, não se senta a escrever, mas quando está chateado, põe-se a tirar “todas as merdas” de cima dele. O caminho, não esconde, foi turbulento, mas foi esse caminho que o trouxe até esta noite. Vendo a lua cheia no céu, confidencia como se estivesse a falar só para ela, não tem dúvidas de que este era o único sítio onde poderia estar hoje. O sítio certo.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Se ele não o tivesse constatado, di-lo-íamos nós. Sim, os Nine Inch Nails e a sua Peel It Back Tour, primeira digressão desde 2022, estão no lugar e no momento certos. No NOS Alive não tivemos o privilégio de ver a digressão no seu expoente máximo, ou seja, com uma produção cénica divida em dois palcos, com a presença do DJ e produtor Boys Noize, nem com projeções em véus de seda.

Isso não significa que a versão zipada que trouxeram ao Passeio Marítimo de Algés não tenha tido corpo e alma própria, muito pelo contrário. Houve pulsão, tensão, uma depuração dos fantasmas e do veneno que nos corre nas veias desde o início, com Somewhat Damaged, até ao último suspiro, com a voz de Trent Reznor a abrir a ferida de “Hurt”. A dor, essa agulha aguda, tantas vezes solitária, só precisa de ser abraçada para que a choremos em paz. Para que morramos e renasçamos melhor.

Reznor e Atticus Ross, parceiro a tempo inteiro dos Nine Inch Nails desde 2016, dirigiram-se à morte mais do que uma vez. Lembraram David Bowie, na faixa I’m Afraid of Americans, e David Lynch, com quem colaboraram na banda sonora de Estrada Perdida (1997) ou no videoclip de Came Back Haunted (2003). “Temos saudades tuas”, desabafaram.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Mr. Self Destruct, Wish, “March of the Pigs”, “Piggy” com uma coda de improvisação jazzística, Copy of A ou “The Head That Feeds” cozinharam um line-up de luxo e o público, em muito menor número do que em Muse, foi-se insuflando em êxtase. Tudo o que queriam ouvir entrou-lhe pelos ouvidos e nem Closer falhou. Every Day Is Exactly the Same, mas amanhã, quando acordarem, será um dia ligeiramente diferente.

A verdade é que Nine Inch Nails em 2025 conseguem continuar tão relevantes como nos anos 90 e 00. São-no ancorados numa contínua experimentação, que vai muito além do rock industrial, e numa estética cinematográfica eximia, ou não fossem eles o rosto por trás do Future Ruins, festival que acontece em novembro em Los Angeles, dedicado a autores e compositores de bandas sonoras. Ou não fossem eles uma banda multipremiada com Óscares e Globos de Ouro por filmes como Soul (2020), A Rede Social (2020), Millennium 1 — Os Homens Que Odeiam as mulheres (2011) ou Challengers (2024).

Em muitos momentos do concerto sentimos precisamente a mesma vertigem que Luca Guadagnino filmou em Challengers, graças a uma câmara que esteve em palco e foi transmitindo imagens a preto e branco, em direto. Às vezes distorcidas, às vezes sobrepostas, às vezes com os outros membros da banda — Robin Finck, Alessandro Cortini, e Ilan Rubin – outras vezes focadas em Trent Reznor, nos seus movimentos incansáveis, na veia do pescoço que queria rebentar, no fumo e nas luzes que o engoliam e camuflavam. Talvez seja esta a imagem que guardaremos da atuação dos Nine Inch Nails no NOS Alive 2025. Uma névoa em movimento, um arrepio no corpo, a vertigem de estarmos vivos, apesar do tanto que purgamos. A imagem certa, do concerto certo.

“Não podemos parar o caminho da visibilidade”

Antes dos Nine Inch Nails, e já depois dos Jet tocarem aquela que todos queriam ouvir (não houve muita história para além de Are you gonna be my girl?) e de Amyl and the Sniffers mostrarem, como diz Ana Markl, que o amor é o novo punk (“I’m not looking for trouble, I’m looking for love”), os Muse deram um espetáculo espampanante e operático, como é seu apanágio. O Observador acompanhou a atuação de Matt Bellamy, Christopher Wolstenholme e Dominic Howard ao lado de um grupo de pessoas cegas que testaram a app 5G Guia-NOS, desenvolvida pela NOS Inovação, em parceria com a Access Lab, empresa que trabalha para garantir o acesso de pessoas com deficiência, surdas e neurodivergentes à cultura e ao entretenimento. Ativámos todos os sentidos, deixando para segundo plano a visão, para viver o concerto dos Muse na companhia de Francisco e Mariana, como contamos nesta reportagem.

“A aplicação tem a componente de audiodescrição, em que a câmara do telemóvel passa a informação daquilo que está à nossa volta. A ideia é que as pessoas possam usar isto autonomamente”, explica Aliu Sane Baio, músico, fotógrafo e dramaturgo cego, porta-voz desta experiência piloto. Elementos textuais e para-textuais, como cores, objetos e até expressões faciais, são traduzidas em tempo real através de Inteligência Artificial. O objetivo, como frisa Margarida Nápoles, diretora de comunicação corporativa e responsabilidade social da NOS, é que a app vá para o mercado e que “esteja disponível para todos”.

NOS Alive

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O investimento que esse esforço implica “é grande”, ressalva, quer do ponto de vista financeiro quer do ponto de vista do desenvolvimento tecnológico. Por isso, os passos que têm de ser dados são passos “de formiguinha”, nota desta feita Tiago Fortuna, co-fundador da Access Lab, ele que, independentemente do ritmo, rejeita baixar os braços: “Não podemos parar o caminho da visibilidade nem o de tirar as pessoas da sombra. Se elas se tornarem mais visíveis, mesmo que seja só hoje num concerto, se calhar todas as pessoas que forem impactadas pela comunicação deste concerto vão pensar de outra forma. É um trabalho que não pode parar”.

A app Guia-NOS é apenas uma das vertentes de inclusão que a NOS e a Access Lab, cuja colaboração começou na edição passada do festival, trabalharam em conjunto para o Alive. Durante os espetáculos de Justice e de Anyma, no dia 11 de julho, foram disponibilizados coletes vibratórios (os chamados Coletes das Emoções) para as pessoas surdas sentirem a música e todas as nuances dos respetivos espetáculos. Ainda durante o espetáculo de Muse, a audiodescrição esteve disponível para todas as pessoas que com acesso à app generalista do festival.

From Amadora to NOS Alive 2026

Foi precisamente esse um dos pontos que António Fuzeta da Ponte, diretor de marca da NOS, destacou na conferência de imprensa de balanço da 17ª edição do NOS Alive. Mas as atenções rapidamente viraram-se para 2026: subitamente, Branko, DJ Riot, Conductor, Kalaf e Blaya entraram na zona de imprensa para que Álvaro Covões, diretor da Everything Is New, anunciasse Buraka Som Sistema como a primeira confirmação do NOS Alive 2026.

“Estamos muito felizes por celebrar os nossos 20 anos aqui”, revelou Branko, lembrando que o projeto esteve no cartaz da primeira edição do festival e que aqui regressou mais do que uma vez, para tocar em diferentes palcos. “Houve sempre um interesse do Alive em nos perguntar se os Buraka estavam prontos ou não. Faz sentido que em 2026 façamos esta festa juntos.”

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

O regresso aos palcos não significa, contudo, o lançamento de um novo trabalho. “Não estamos muito preocupados em reinventar o projeto.” Será a festa pela festa. E isso é motivo suficiente para rejubilarmos.

O NOS Alive está de volta ao Passeio Marítimo de Algés nos entre 9 e 11 de julho de 2026. A Câmara Municipal de Oeiras, segundo o presidente Isaltino Morais, revalidará o apoio ao festival, que este ano se fixou nos 375 mil euros. Segundo o próprio, serão feitas melhorias nas infraestruturas, nomeadamente com a construção de uma travessia aérea que dará “condições de descompressão” ao recinto e que estará pronta em dezembro deste ano.

Já Álvaro Covões, acredita que a “maioridade” do festival revalidará o foco na música portuguesa – ou não fossem os Buraka Som Sistema a primeira grande confirmação da próxima edição. Já no que diz respeito à paridade do cartaz, o responsável da promotora Everything is New não crê que isso seja uma questão. “Acho que isso não conta. A cultura não tem género. Nós programamos em função dos artistas que estão na estrada. Se houver bandas que tenham mulheres como lead singers e que estejam na berra, estarão aqui. Eu não escolho se é homem ou se é mulher, eu escolho pela música”.

De notar que nesta edição passaram pelo palco principal do festival apenas três bandas encabeçadas por mulheres – sendo uma delas Olivia Rodrigo, o grande destaque deste ano. No palco secundário, o Heineken, a proporção foi de quatro bandas lideradas por mulheres para 17 de homens. E se reunirmos os números gerais dos seis palcos com programação contínua ao longo dos três dias de festival, a relação é de 26 para 63. O único palco em que se notou o equilíbrio foi no Coreto, comissariado pela promotora Arruada (8 projetos de mulheres e 7 de homens). Será que as mulheres não andam na estrada ou é preciso atualizar o GPS para inverter os números e mostrar outros caminhos possíveis? Apuremos os sentidos. Aprendamos a ver o mundo com outros olhos, para não cegar.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.