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O desastre nas eleições locais, uma líder quase desconhecida e a sombra de Farage. Os tories estão em risco de extinção?

O Partido Conservador britânico teve uma recente derrota estrondosa e o Reform de Nigel Farage tenta ocupar o seu lugar. Depois de 14 anos no poder, conseguirão os tories sobreviver na oposição?

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“O fim do sistema de dois partidos.” Foi isto que foi decretado no Reino Unido no início da década de 1980, quando surgiu no panorama político um meteorito, que baralhou as contas dos partidos tradicionais — o Conservador e o Trabalhista —, chamado Partido Social Democrata.

Fundado por dissidentes do Labour, o SDP (na sigla original) teve resultados espetaculares nas eleições intercalares de 1981 no círculo eleitoral de Crosby (quase 50% dos votos) e de Warrington (42%). Colocado exatamente no centro do espectro político, parecia ter potencial para fazer tremer o governo conservador de Margaret Thatcher.

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▲ Nos anos 80, o SDP foi a surpresa política que ameaçou o sistema de dois partidos

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Mas, nas eleições legislativas de 1983, tudo mudou. Thatcher estava galvanizada pela popularidade trazida com a guerra nas Malvinas e o SPD perdeu fulgor, não indo além dos 25%. O partido que prometia destruir o sistema eleitoral britânico como o conhecíamos fez, contudo, uma enorme mossa na oposição trabalhista de Neil Kinnock: dividiu os votos da esquerda, com o Labour a ficar apenas ligeiramente acima (27%).

O sistema eleitoral do First Past the Post beneficia, contudo, os maiores partidos e os trabalhistas conseguiram muito mais deputados. Mas muito poucos face à esmagadora maioria de Thatcher, que se manteria no poder mais sete anos, ao todo, a que se somaram outros sete do tory John Major. Em 1983, era cedo para decretar “o fim do sistema de dois partidos”; mas o meteorito SDP teve força suficiente para forçar o Labour a uma travessia no deserto que só terminaria com a chegada de Tony Blair.

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Mais de 40 anos depois, há um novo partido político a colocar tudo em causa no sistema britânico: o Reform, de Nigel Farage. Embora esteja à direita e não ao centro, também tem capacidade para roubar eleitorado aos dois principais partidos, como se viu na recente eleição intercalar de Runcorn e Helsby, onde derrotou os trabalhistas por apenas seis votos e conseguiu eleger mais um deputado para a Câmara dos Comuns.

Mas, tal como o SDP prejudicou sobretudo os trabalhistas, agora quem está debaixo do fogo provocado pelo Reform são os conservadores — também eles neste momento na oposição. Só que o mundo de 2025 é diferente do de 1983 e já há quem diga que, desta vez, podemos mesmo estar perante o fim do sistema partidário britânico como o conhecemos. Perante isso, impõe-se uma questão: irá o Partido Conservador sobreviver à sua travessia no deserto e voltar a alcançar uma maioria como as de Thatcher e Boris Johnson? Ou corre o risco de ser obliterado por um partido anti-sistema?

O sucesso do Reform que atirou os conservadores para uma “crise existencial”

A força do Reform ficou bem patente nas eleições locais do passado dia 1 de maio. Para além da eleição para a Câmara dos Comuns na votação intercalar, conquistou duas presidências de câmara e tornou-se o maior partido em várias assembleias municipais por todo o país.

O desastre para os tories foi tremendo: foram derrotados em bastiões como Kent (onde estavam no poder desde 1997) e Leicestershire (que controlavam desde 2001) e, ao todo, perderam 676 vereadores. A proporção de votos caso se tratasse de uma eleição para a Câmara dos Comuns é ainda mais gritante. Segundo as contas da BBC, o Reform teria o equivalente a 30% do voto nacional e seria o partido mais votado — a primeira vez que o vencedor de umas legislativas na era contemporânea não seria nem o Partido Conservador, nem o Partido Trabalhista.

O líder do Reform, Nigel Farage, reagiu naturalmente de forma eufórica, falando numa noite “incrível” para o seu partido (o terceiro que lidera depois do UKIP e do Partido do Brexit). Destacou os votos roubados em zonas habitualmente trabalhistas, mas foi ainda mais duro para com os conservadores: “Estão a assistir ao fim de um partido que existe desde 1832”, sentenciou.

“O Reform está a ter mais facilidade em ‘comer’ o voto conservador do que o trabalhista. No ano passado [nas eleições legislativas], captou 25% da votação que os tories tiveram em 2019; agora, captaram 30%.”
John Curtice, professor especialista em eleições

Os especialistas ouvidos pelo Observador, contudo, são mais moderados a avaliar o sucesso do Reform. “Está a ter resultados extraordinários para um terceiro partido, talvez até melhores do que o SDP/Aliança Liberal teve nos anos 80 — a última vez que uma terceira força política tentou ‘quebrar o molde’”, admite Henry Hill, editor do site ConservativeHome. “No entanto, converter isso numa vitória numas legislativas será um grande desafio: exige uma máquina de campanha eficaz a nível nacional que consiga vitórias numa grande área, numa eleição com grande participação eleitoral.”

John Curtice, um dos maiores especialistas eleitorais do Reino Unido (as suas previsões nas últimas seis eleições legislativas foram certeiras), alerta que a tendência de erosão do sistema de dois partidos não é nova. “A relação entre classe social e tendência de voto acabou com o Brexit e ainda não regressámos a ela”, diz, destacando o apoio da classe operária ao Reform e a dispersão do voto urbano por partidos como os liberais-democratas e os verdes.

Mas, apesar de o Reform roubar muitos votos à esquerda, Curtice considera que o partido de Farage é uma ameaça maior neste momento para os conservadores: “O Reform está a ter mais facilidade em ‘comer’ o voto conservador do que o trabalhista. No ano passado [nas eleições legislativas], captou 25% da votação que os tories tiveram em 2019; agora, captaram 30%”, nota. “Os tories estão mais perto de enfrentar uma crise existencial.”

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▲ O Reform de Nigel Farage teve uma vitória estrondosa nas últimas eleições locais

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Para além disso, o Reform é um partido muito mais profissional do que as anteriores aventuras políticas de Farage e está a “sugar recursos, dinheiro e operativos políticos” à “família conservadora”. Os dados confirmam a análise do professor: a Reuters estima que o Reform terá roubado pelo menos 80 ex-candidatos, financiadores e funcionários do Partido Conservador ao longo do último ano. Um terço dos quase 5,5 milhões angariados pelo partido no último ano vieram de pessoas que costumavam dar donativos aos tories, como o milionário Nick Candy, sublinha o New York Times. “Se fosse tesoureiro dos tories, estaria a borrar-me”, decretou à revista de esquerda New Statesman Gawain Towler, ex-assessor do Reform.

A subida do Reform tem feito com que o partido comece a assumir para alguns eleitores a imagem de principal desafiador do governo trabalhista de Keir Starmer. “Para o povo britânico, Nigel Farage é visto como o principal líder da oposição”, assegura ao Observador Kelly Beaver, uma das diretoras da empresa de estudos eleitorais Ipsos. “Durante muito tempo, o trunfo de Farage era ser um disruptor, alguém mais próximo dos valores tradicionais e uma pessoa que queria controlar a imigração. Mas, nos últimos meses, transformou-se perante o olhar do público. É agora visto como mais provável que ele se torne primeiro ministro do que [Kemi] Badenoch [líder do Partido Conservador] ou [Ed] Davey [líder dos liberais-democratas].”

Um partido manchado por Boris, Truss e Sunak que está agora “entalado” entre a direita e o centro

Entre as fileiras dos tories, a preocupação cresce. “Farage já não é alguém de quem nos possamos rir”, admitiu um antigo ministro conservador à BBC. “Estamos a rastejar, exaustos, pelo chão. Os que andamos por aí há algum tempo e que atravessámos o Brexit, a Covid, o Partygate e a saída do governo estamos a sentir isso”, reconheceu um dos atuais ministros-sombra do partido ao Conservative Home.

É uma situação dramática para o partido mais antigo de toda a Europa e que está habituado ao poder: esteve no governo em 98 dos últimos 150 anos, relembra o Times. “As pessoas costumavam dizer ‘Não gosto assim tanto dos tories, mas eles conseguem gerir a economia’. Aceitaram relutantemente que éramos mais competentes do que os outros nessa matéria, era o que nos distinguia”, notou o ex-deputado e whip (cargo dos que asseguram a disciplina de voto do partido na Câmara dos Comuns) Simon Hart.

Mas os últimos governos conservadores puseram em causa essa imagem. Boris Johnson conseguiu a maior vitória para o partido desde Thatcher, em 2019, mas perdeu o controlo com o Partygate e outros escândalos. Seguiu-se o desastre de pouco mais de um mês de governo com Liz Truss, depois de uma política económica que provocou o caos nos mercados. E de seguida veio Rishi Sunak, que não conseguiu corrigir a imagem do partido. O ex-ministro conservador Rory Stewart é taxativo na análise: “Margaret Thatcher conseguiu uma transformação económica radical. Tony Blair conseguiu uma transformação constitucional e cultural. O problema dos conservadores é que, em 14 anos, é muito difícil identificar o que alcançaram, a não ser a catástrofe do Brexit.”

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▲ A última grande vitória dos conservadores foi com Boris Johnson, mas o seu governo ficou marcado por vários escândalos

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E não são apenas os que estão afastados do partido quem tem noção do problema. O think tank Onward, próximo dos conservadores, produziu um relatório em 2024 que destacava os quatro maiores problemas do partido, revelado pelo The Times: os seus eleitores mais jovens estão a ser captados pelo Labour e os mais velhos pelo Reform; a maioria dos seus antigos apoiantes operários está a abandonar o partido; nas zonas urbanas há uma sangria de votos dos tories em direção aos trabalhistas e, nas zonas rurais, para os liberais-democratas e para o Reform; e os apoiantes do Brexit, que eram esmagadoramente do Partido Conservador, são agora esmagadoramente pró-Reform.

Para resolver o problema, as receitas dividem-se entre os que querem puxar o partido mais para a direita e os que acham que este deve virar-se para o centro. Edward Leigh, deputado histórico conservador, defende que o partido deve ter uma posição mais dura na imigração — “devemos ter uma linha tão dura como o Reform”, declarou à BBC. Muitos, como o autarca Ben Houchen, sugerem até que seria boa ideia fazer uma coligação com o partido de Farage — ideia que não só a líder Badenoch tem rejeitado, como o próprio Farage rechaça frequentemente.

Outros, como o antigo ministro das Finanças George Osborne, acham que o caminho deve ser inverso, em direção à moderação tradicional: “Se falássemos menos de casas de banho e transgéneros e mais de impostos, talvez estivéssemos no caminho certo”, disse à LBC, acrescentando que “tentar copiar o Partido do Brexit, o UKIP e agora o Reform não está a funcionar”.

O problema para o Partido Conservador é que, para além do desafio do Reform pela direita, ao centro tem de lidar não apenas com os trabalhistas, mas também com os liberais-democratas. “Quanto mais os conservadores vão atrás do Reform, mais as pessoas vêm ter connosco”, regozijou-se o líder Ed Davey ao Financial Times.

“Metade deles deviam estar nos liberais-democratas e cerca de 30% deviam estar connosco. Os tories estão acabados.”
Nigel Farage, líder do Reform

“Os tories estão a ser entalados, o que torna difícil encontrar uma estratégia eficaz”, reconhece ao Observador Tim Bale, professor de Ciência Política na Queen Mary University of London e autor de vários livros sobre o partido. Henry Hill concorda: “Não têm uma narrativa coerente macro, porque ainda estão à espera do programa que Badenoch prometeu. Os conservadores precisam de uma avaliação clara do que está errado com o Reino Unido e apresentar políticas de forma coerente.” O editor do ConservativeHome destaca ainda um problema de falta de quadros de qualidade no partido: “Precisam de se focar novamente em criar vencedores, uma arte esquecida ao longo dos últimos 14 anos.”

O diagnóstico dos problemas do partido é feito pelos especialistas, mas também pelos adversários. Nigel Farage foi duro numa entrevista de março ao The Times, decretando que Kemi Badenoch não tem margem para encontrar soluções milagrosas numa força política que está “partida ao meio”. “Metade deles deviam estar nos liberais-democratas e cerca de 30% deviam estar connosco. Os tories estão acabados”, sentenciou.

Kemi Badenoch “não é nenhuma Thatcher”, mas por enquanto deve manter-se na liderança

Perante as dificuldades, muitos se questionam se Kemi Badenoch conseguirá aquecer o lugar, num partido com tendência a afastar rapidamente líderes mal sucedidos — William Hague, que se demitiu em vez de ser empurrado, declarou uma vez que o Partido Conservador é “uma monarquia absoluta moderada pelo regicídio”.

Badenoch, que foi eleita como líder do Partido Conservador há apenas seis meses, tem tentado fazer controlo de danos, reagindo depois da derrota nas eleições locais. Num artigo de opinião no conservador The Telegraph pediu desculpas pelo “banho de sangue” que foram as eleições locais para os conservadores, mas prometeu “retificar os erros”.  O que não foi suficiente para abafar algumas vozes que ia comentando em surdina que a líder “está a prazo” e que talvez devesse ser substituída. “Para o ano há eleições locais maiores do que estas e se a Kemi não tiver dado a volta parece-me provável que os deputados vão agir contra ela”, previu o antigo ministro Steve Baker.

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▲ Kemi Badenoch foi eleita líder dos tories há apenas seis meses

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John Curtice diz que a questão “está a pairar” e que Badenoch “não se pode dar ao luxo” de cometer erros como os de Boris Johnson e Liz Truss. Mas aponta fragilidades à líder dos tories: “Kemi Badenoch é intelectualmente muito capaz, mas em termos políticos não é nenhuma Margaret Thatcher”, afirma. “Ela era muito popular entre os ativistas, mas fora do Partido Conservador praticamente ninguém a conhece e isso é um problema. Está a ter dificuldades em criar uma persona.”

Alguns tories admitem, contudo, que substituir mais um líder em tão pouco tempo não é solução — “pareceríamos ridículos”, admitiu um ministro-sombra ao Financial Times. A que se soma o facto de não haver nenhuma figura claramente mais popular dentro do Partido Conservador a não ser Boris Johnson, como demonstram as sondagens. O antigo primeiro-ministro, porém, disse recentemente que não alimenta qualquer desejo de regressar à política: “Tenho tantas hipóteses de voltar ao Parlamento como de ser decapitado por amigos, trancado num frigorífico avariado ou reencarnar como uma azeitona”, declarou à GB News. “Mas sou um conservador orgulhoso e apaixonado e tenho a certeza que vamos voltar. A Kemi tem todas as hipóteses de dar a volta a isto.”

O encorajamento de Boris é um ativo forte para Badenoch que, por enquanto, se deve aguentar no cargo. “Não me parece que eles queiram escolher um sexto líder em seis anos, portanto ela provavelmente está safa até ao próximo ano”, resume Tim Bale. “Mas se as coisas não mudarem nas próximas eleições locais, diria que ela está frita.”

Uma “fénix” ou um “dodó” extinto? O futuro do Partido Conservador não é reluzente — mas a falência também não é certa

O tira-teimas será por isso nas eleições do próximo ano, que incluem importantes votações no País de Gales e na Escócia.

Até lá, os conservadores terão de tentar conter o Reform, que ameaça seriamente o domínio de trabalhistas e tories. “O Reform é agora encarado pelas pessoas como um partido de governo, tal como os seus rivais tradicionais, ao mesmo tempo que é visto como um partido de mudança — o que lhe dá grandes oportunidades e grandes desafios nas próximas eleições”, nota Kelly Beaver da Ipsos.

As sondagens revelam que muitos britânicos consideram que o Reform continuará a ser relevante ao longo dos próximos dez anos (43% de acordo com uma sondagem do Yougov). Mas isso não significa a obliteração dos conservadores: dois terços dos inquiridos no mesmo estudo acham que o Partido Conservador e o Partido Trabalhista irão continuar a ser relevantes na próxima década.

Francis Maude, antigo ministro tory, invocou o exemplo do SDP nos anos 80 para relembrar que “o fim do sistema dos dois partidos” não se confirmou e que poderemos estar perante o mesmo agora. “O Partido Conservador é uma fénix, não é um dodó”, escreveu no Telegraph, referindo-se à ave que se extingiu.

“Em tempos, teria completamente desvalorizado a ideia de que o Partido poderia falir. Hoje em dia não tenho tantas certezas.”
Tim Bale, professor da Queen Mary University of London e especialista no Partido Conservador

John Curtice e Tim Bale alertam, contudo, que os tories não se devem fiar a 100% no exemplo do SDP, porque o mundo mudou. “As circunstâncias não são propícias ao sistema dos dois partidos e Nigel Farage é de longe o político mais eficaz que temos”, diz o primeiro. “O SPD era uma dissidência do Partido Trabalhista; o Reform é mais uma rebelião. Não acho que as situações sejam análogas”, acrescenta o segundo.

Para Bale, o exemplo do SDP deve servir sobretudo para os conservadores refletirem sobre o caminho que o Labour fez à altura: “Devem manter-se firmes e esperar que o novo rival seja apenas fogo de vista ou devem atirar-se borda fora? A lição dos anos 80 sugere que manterem-se firmes pode ser a melhor solução… Mas quem sabe?”

De uma coisa o autor de The Conservative Party: from Thatcher to Cameron não tem dúvidas: “Em tempos, teria completamente desvalorizado a ideia de que o Partido poderia falir. Hoje em dia não tenho tantas certezas.”

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