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JOAO SILVESTRE DIAS

JOAO SILVESTRE DIAS

Onde está Vicky Montanari? "Sinto que me encontro num sweet spot muito grande, sou muito sortuda"

O que se passa antes e depois de um desfile Dior? Das cinco malas à camomila, dos vestidos de noiva à sanduíche ao almoço, falámos com a portuguese girlie no seu longo périplo pelo mês da Moda.

Dá Deus nozes a quem tem maçãs com lagartas, flores, patos e outros detalhes sumarentos que povoam, como habitual, o menu de acessórios servido por Jonathan Anderson, desde logo nas pequenas carteiras com correntes. Nozes Dior, frisemos – o formato do convite para o desfile primavera-verão 2027 da maison francesa, realizado esta terça-feira à tarde em Paris. Não eram comestíveis, antes uma tradição cultural chinesa de longa data: a prática da rolagem de wénwán numa só mão tem tanto de amuleto como de anti-stress.

Não coube na clutch carregada por Vicky Montanari, em forma de amendoim, mas é uma boa adição à bagagem. O que transporta consigo uma portuguese girlie, meio brasileira, meio italiana, 100 por cento fashionista com 1.5 milhões de seguidores? Na verdade, muito pouco. Sim, a maioria das peças que veste é emprestada, incluindo os dois vestidos de noiva Dior que usou no dia do seu casamento com Miguel Correia, parceiro na vida e na equipa de trabalho. “Viajo 90% do tempo, ou 95%, nunca estou em casa. A minha casa anda comigo: eu, as minhas malas e o meu marido.”, admite a influencer, que há em 2023 viralizava no tik tok com seis milhões de visualizações, lançava uma tendência e três anos depois se mantém fiel ao registo que a caracteriza. “Quem fala comigo normalmente é porque que gosta das minhas roupas ou, sei lá, das minhas palhaçadas, eu acho.”

Entre fittings, pedicure, sessões de shooting em casas alugadas no Marais, e uma sanduiche para enganar a fome ao almoço, falámos com Victoria — que este fim de semana, em mais um sprint cheio de energia, há-de estar a correr para um casamento em Madrid.

▲ Vicky à chegada ao cenário do evento, esta terça-feira à tarde, em Paris

JOAO SILVESTRE DIAS

Conseguiu despachar o shooting?
Sim, hoje foi muita, muita correria. Intenso, intenso. Vamos a isso, então.

Primeiro que tudo, como é que foi o desfile da Dior? 
Ai, meu Deus. Foi muito bom. Foi mesmo muito bom.

[Pelas 14h00 desta terça-feira, a galáxia Dior foi desfilando rumo ao Bassin Octognal do Jardim das Tulherias, cenário da apresentação da coleção Spring-Summer 2027, no âmbito da Semana da Moda de Paris. O cortejo de estrelas, entre celebridades, aristocratas, e influencers é também ele todo um evento, filmado em câmara lenta e transmitido em antecipação do desfile. Rosalía e Cyntia Erivo, Louis Garrel e Victoria de Marichalar y Borbon, Jennifer Lawrence e Elizabeth Von Guttman (que chegou numa Lime), Beatrice Borromeo e Heloise Agostinelli, filha da malograda Mathilde Favier, a diretora de celebridades da maison francesa que morreu de forma trágica há poucas semanas. Foi-lhe aliás dedicado o desfile desta tarde, que de certa forma serve de tiro de partida para o início dos festejos dos 80 anos da marca fundada por Christian Dior.]

Já escolheu um look para o próximo grande evento da sua vida?
É, vou precisar casar de novo [risos]. Mas brincadeiras à parte, foi… Foi fantástico, imagina, sou um bocado suspeita. Sobretudo agora, depois de ter casado em Dior, tudo que ele [Jonathan Anderson] faz, eu sou completamente fanática. Vamos por partes: a location.

Que não é uma estreia mas parece sempre novo.
É, sempre… O desfile de mulher, pelo menos todos aqueles a que eu fui, se não me engano, sem ser os Cruise, foram todos ali. Acho bem espetacular como eles adaptam sempre o set design às coleções e imaginam maneiras diferentes de o mesmo espaço existir para se adaptar ao que eles têm pensado. Dessa vez, estava mais minimalista do que o último. No último, parecia tipo uma estufa verde. Agora era tudo branco. Tinha um lago, e uma névoa, tornava tudo um pouco meio místico. Ele é meio místico, não é?

▲ O desfile Dior decorreu no Jardim das Tulherias © JOÃO SILVESTRE DIAS

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Ficaram muito tempo à espera da Rihanna?
Pá, 45 minutos [risos]…

Está menos mal, porque o desfile anterior parece que foi mais de uma hora.
Está menos mal. Mas é assim, eu esperava a vida toda. Eu também vim aqui para isso. Por mim, não tenho reclamações. Eu estava ali sentadinha.

[Nem só por Rihanna se espera num momento destes. O peso do mercado asiático no segmento do luxo explica a enorme “fandome”, confirma Vicky, que se aglomera à porta dos principais desfiles em Paris, em busca de uma foto. Das estrelas da K-Pop aos influencers da moda, os grandes nomes asisáticos estão em peso nos eventos. Por este evento passaram a atriz japonesa Mitsuki Takahata, a influenciadora coreana Jihoon Kim, a atriz e modelo chinesa e uyghur Dilraba Dilmurat, o ator chinês Li Yunrui, a esquiadora chinesa Eileen Gu, ou o rapper coreano Hyunjin, com uma ventoinha para o calor que habitualmente se faz sentir nestes momentos.]

▲ A experiência é vivida em tempo real ao vivo e nas redes sociais da influencer, só no Instagram seguida por uma comunidade de 1.5 milhões de utilizadores

Ficou ao lado de quem?
Estava ao lado de uma miúda que agora não me lembro o nome e de um amigo jornalista italiano. É muito bom. Fiquei ao pé da Press e das minhas amigas creators [criadoras de conteúdos].

Como é que foi escolhido o seu look para este momento?
Há umas semanas atrás, recebi o convite para a Dior, que é sempre uma alegria. Acho que “we never take it for granted”, porque o mundo da moda é fugaz. Por isso, todo o convite é uma celebração. Mandaram-me duas opções [de looks] do último show de Fall. E, enfim, aí eu tinha uma coisa em mente para fazer para o conteúdo. Um dos vestidos parecia uma flor mais preta, com verde escuro. A outra era mais colorida, que, obviamente, foi a que eu escolhi, como sempre. Eu que sou colorida, normalmente, é sempre para onde eu vou.

Percebia-se pelo estampado do casaco.
Sim, que não é bem o Bar Jacket. Até pode ser interpretado como o Bar Jacket, mas a parte de cima é diferente. É mais parecido com o outro vestido que eles têm.  É assim todo num jaquard com flores, tem umas partes de tecido que são douradas, prateadas, tem tons de rosa, é muito lindo. Ele é bem estruturado e atrás tem um laço e a saia, ao contrário. Parecem uns retalhos, é tudo assim meio assimétrico e volumoso, muito lindo. E depois, uns sapatos lindos também, com uma flor metálica na frente, maravilhosos. É tudo lindo. Ai, que… Ai, e a peanut…

A famosa carteira em forma de amendoim.
Sim, eu tinha uma bolsa que é a peanut bag, parece mesmo um amendoim, da mesma estampa do blazer.

JOAO SILVESTRE DIAS

© JOÃO SILVESTRE DIAS

A parte mais difícil do trabalho é ter que devolver tudo depois de usar?
Olha, se eu pudesse ficar com todas essas roupas que eu uso, a vida era uma maravilha, mas não, estou brincando. Até é mais ecológico assim, é melhor ficar com eles.

Quando é que chegou aquele convite físico, que são duas nozes?
Normalmente o convite chega primeiro digitalmente, claro, para você poder se preparar com um bocado de antecedência, que vai ser um desfile em Paris, não é? I’m not based here, por isso tenho que me deslocar. Tem que ter tempo. E depois, quando se chega a Paris, normalmente o convite já está no hotel, nesse caso estava onde eu fui fazer o fitting.

[Não é a primeira vez que Jonathan Anderson aplica esta fórmula aos convites. Aliás, se procurar peças decorativas com o selo da casa francesa de Moda, pode sempre contar com uma coleção de pratos que já trazem frutos secos como extra]

Já começou a usá-las como amuleto?
Elas dão boa sorte, trazem good luck, tudo de bom, eu sou super-stressada, por isso agora vou estar a rodar as nozes. Agora vão sempre nas viagens.

As nozes couberam no interior da carteira-amendoim?
O amendoim é todo forrado, não cabe nada dentro do amendoim, só os óculos e o convite.

Foi o que levou?
Foi só isso que eu levei. O telemóvel ficou na mão, porque não cabia.

Com um milhão de meio de seguidores e o trabalho de produzir conteúdos quase ao minuto, já não dá para sair de casa sem ele?
Infelizmente, é.

Infelizmente?
É assim, é infelizmente e felizmente, porque eu amo. Faz parte do meu trabalho.

Um trabalho que se confunde muitas muitas com a vida pessoal, já que viaja acompanhada pelo marido. Desde o casamento, a lua de mel tem sido desfiles de moda?
Fomos a Nova York, fizemos um desfile, mas ficámos mais uma semana de férias, e depois fomos uma semana para Sardenha, e depois fizemos Milão, agora estamos aqui em Paris. Em janeiro vamos fazer uma lua de mel com calma, durante três semanas, e aproveitar, mas já foi ótimo. O Miguel trabalha comigo, e gosto muito de trabalhar também. Por isso é um prazer, a gente se diverte muito.

▲ Com o marido, Miguel Correia, no evento de re-see do desfile Dior, um momento que permite ver cada peça em detalhe, à margem do desfile © JOÃO SILVESTRE DIAS

FERNANDO PEREIRA

É-vos fácil unirem os dois planos?
É, é muito mais prazeroso, senão eu estava o tempo todo fora, não o via nunca. Hoje em dia o nosso trabalho é intimamente ligado, por isso já não faz mais sentido fazer isto sozinha.

Provavelmente começou ao seu lado como fotógrafo. Hoje que funções acumula?
A parte da gestão da agenda, que é hoje bastante mais complicada do que era antigamente, porque eu viajo 90% do tempo, ou 95%, nunca estou em casa. A minha casa anda comigo: eu, as minhas malas e o meu marido.

Fez uma storie há dias com a sua bagagem, generosa, mas ainda assim diz que é bastante ligeira comparada com outras. São quantas malas para cada viagem de trabalho?
Há 25 dias que nós estamos fora de casa e temos cinco malas.

Para os dois?
Sim, uma é do Miguel e quatro são minhas. Funciona porque muita roupa é emprestada.

[Jonathan Anderson parece alinhar-se com quem gosta de viajar com pouco peso. “Adoro que cada outfit possa caber numa caixa”, disse o diretor criativo da Dior à Another Mag em vésperas de apresentar a coleção. A primavera-verão 2027 vive de volumes e assimetrias, tailoring translúcido (à imagem do que já mostrara em coleções masculinas), com tweeds replicados em em mouselline de sedas e formas clássicas da marca que se manifestam entre chiffons. “Tudo se mistura como uma pintura de Richter”, resumiu ainda o designer.]

▲ Três looks saídos da coleção SPRING-SUMMER 27 © DIOR

Mas quais são os seus imprescindíveis, peças mais pessoais que viajam sempre convosco?
Por acaso, temos algumas coisas engraçadas. Tenho uma base de maquilhagem e cabelo, necessaires e essas coisas, que estão sempre comigo, ando com uns quatro necessaires. Hoje em dia, viajo com suplementos, umas comidinhas, umas coisas para os hotéis ficarem um bocado mais casa, sabe? Levo sempre o chá de que eu gosto, o mel, aquela camomila que gosto de comprar em Itália e que tomo sempre antes de dormir. Enfim, sei lá, snacks e etc.

E a roupa?
Levo pijamas, para ir trocando! Underwear e acessórios, bolsas, sapatos. Levamos os básicos, que são t-shirts e umas roupinhas mais especiais para ir sair à noite, e depois, enfim, todo o equipamento de camcorder, câmera, carregadores, luzes, tripés, mini estúdios portáteis.

Sendo que cada destino pode ter vários contextos diferentes.
A questão é que quando a gente sai de casa, normalmente a agenda não está completamente fechada, então tem que levar um pouco de coisas de reserva. Mas, tudo bem, a gente se acostuma, e também, olha, o que não tem, tentamos pedir emprestado, ou comprar. A gente se arranja. O truque é ser descomplicado.

Qual foi a última coisa que pediu emprestada?
Alguma coisa que eu tenha pedido emprestado… Olha, tenho um casamento no sábado e ainda não tenho vestido, estou a tentar pedir emprestado, a uma marca ou a uma amiga. Estou aberta a tudo, faltam quatro, três dias, nem sei bem quantos.

"Eu gosto muito do que eu faço, então eu fico super empolgada. Não me dói nada. Se calhar no final do dia de domingo me enterrem, mas até às sete da noite estou fresca que nem uma alface."

Já não deve ser difícil encontrar quem queira emprestar algo para usar. Se for bater a uma porta é provável que se abra facilmente? Já se sente uma micro celebridade na sua área?
Ai, que celebridade! Sinto que eu me encontro num sweet spot muito grande, tenho algum volume de seguidores, mas, ao mesmo tempo, eles são muito espalhados pelo mundo, sabe? Não sinto que em nenhum lugar que eu vou, me parem imenso na rua. Eu trabalho com fashion portanto claro que há alguns lugares onde isso faz mais sentido. Se estiver a andar em Nova York, pela Times Square, que é um lugar zero fashion, uma coisa mais turística, ninguém me liga nenhuma, nunca acontece nada. E depois vamos para o Soho, que é onde tem todas as lojas, toda a galera da moda, e aí sim, aí param muito mais vezes. Se estou em Milão, a mesma coisa, estamos lá no quadrilátero da moda, se calhar param mais, mas estamos, não sei, no Duomo, não me ligam.

Gosta desse reconhecimento ligado ao universo da moda?
É muito associado a lugares onde tem concentração de pessoas que têm interesse em moda, sim, e, por acaso, reflete-se também na vida real de falarem comigo e eu amo, amo, amo, amo. Fico super lisonjeada, por que é um nicho bem específico, não é? Não são todas as pessoas que têm interesse, como é óbvio. Quem fala comigo normalmente é porque que gosta das minhas roupas ou, sei lá, das minhas palhaçadas, eu acho.

▲ Durante o shooting no Marais, numa inesperada sincronia entre o estampado Dior e o décor do apartamento arrendado por duas horas

JOAO SILVESTRE DIAS

Quem vê essas palhaças se calhar não imagina quão sério tem que ser todo o processo até concretizar os conteúdos previstos. Fale-nos de todas essas etapas, num momento como este desfile em Paris.
Depende da vibe dos desfile se do meu mood. Mas, por exemplo, para o desfile da Dior, normalmente eu marco sempre glam [serviço de estética e beleza]. É preciso procurar um cabeleireiro de que você goste, que saiba mexer no seu cabelo, uma maquilhadora de que você também goste, que também é uma coisa difícil, sei lá, porque depois, enfim, não gostas de todo mundo, às vezes tu ficas mais velha, mais carregada, mais jovem, sabe?

Primeiro, reunir a equipa.
Sim, a primeira coisa é procurar profissionais, ver se eles têm disponibilidade, tem que ver se eles estão na cidade ou não, se eles podem vir ou não. Tem que se organizar a parte da maquilhagem, a parte do cabelo, a forma como você vai chegar ao desfile. E, normalmente, durante a semana de moda é um caos, há muito trânsito, para chamar, por exemplo, um Uber é horrível. Eu agora, por acaso, sou embaixadora da Paris Fashion Week, e eles têm um serviço de driver [transfer com motorista], que é um luxo gigantesco, sinceramente, é um conforto que não tem nem palavras. E depois tem que calcular a logística do tempo para chegar até lá, e chegar com algum tempo de antecedência, porque já que eu não sou a Rihanna, ninguém espera por mim, não é? [risos]

"Partilhei espaços com Jonathan Anderson em algumas ocasiões, porque fiz a cobertura do LVMH Prize, e ele faz parte do júri.(...) Estava lá toda a gente. A Stella McCartney, a Sarah Burton, o Pharrell Williams, a Delphine Arnault, enfim... E mais mil pessoas. Para mim eles são o supra-sumo do mundo, são tipo The Avengers."

Ainda não, mas quem sabe?
Fogo, eu tenho que produzir 40 álbuns e fazer turnés! Mas lá está, depois se você quiser fazer uma coisa mais especial, como foi o caso com a Dior, que é das marcas mais incríveis que eu trabalho, tento sempre tentar pensar um pouco fora da curva, assim como eles pensam sempre fora da curva.

O que planeou de extra para este dia?
Por exemplo, hoje nós alugamos uma casa por duas horas no Marais, contratámos um videógrafo, contratámos um fotógrafo. Fomos mais cedo, fizemos toda a parte da arrumação mais cedo. Estivemos três horas nessa location para fazer vídeo e foto. Depois, enfim, tivemos que fazer a pós-produção das fotografias e do vídeo antes do desfile, para ir live antes do desfile.

E o trabalho continua no desfile e para lá do desfile.
Sim, chegar ao desfile, fazer vídeo no desfile, live com o vídeo do desfile, sair de lá. E aí, pronto, às quatro e quarenta e cinco… Aliás, às cinco e vinte foi a hora a que fomos almoçar. Almoçámos uma sanduíche, foi o que deu. E depois, pronto, continuámos a trabalhar, porque tínhamos que fazer um shoot antes, foi por isso que a nossa call atrasou. Enfim, são muitas coisas envolvidas, sem contar o hotel, passagem, malas, o fitting que você faz antes.

[As fotografias da sessão de shooting em Paris, antes do desfile Dior (algumas delas partilhadas em exclusivo neste artigo), foram assinadas por João Silvestre Dias, que também fotografou boa parte do casamento de Vicky e Miguel, na Comporta. Em plena Semana da Moda, é comum multiplicarem-se pela capital os espaços que permitem arrendamentos de curta duração, pensados para servir de cenário a etapas como esta. O papel de parede romântico do apartamento no Marais foi uma boa surpresa, admite a influencer, pelo match perfeito com a vibe romântica do seu look.]

Quem paga tudo isto?
Nesse caso, de agora, como sou embaixadora da Paris Fashion Week, a maioria das coisas são oferecidas pela Fédération de la Haute Couture. Mas quando não é, sou eu.

JOAO SILVESTRE DIAS

© JOÃO SILVESTRE DIAS

Imagina-se a chegar a embaixadora de uma grande maison como a Dior?
Era uma boa, não é? Isso, acho que é impossível… Isso é mais para… Não sei. Acho que eu sou muito pequenina para isso. Não sei.

Vamos por etapas: já conheceu o Jonathan Anderson?
Partilhei espaços com ele em algumas ocasiões, porque eu fiz a cobertura do LVMH Prize, e ele faz parte do júri. No dia da final, estão lá os finalistas do LVMH Prize, o júri e as pessoas que estão a fazer a cobertura, que no caso era eu. Portanto, estava lá toda a gente. A Stella McCartney, a Sarah Burton, o Jonathan Anderson, o Pharrell Williams, a Delphine Arnault, e mais mil pessoas… Para mim, eles são o supra-sumo do mundo, são tipo The Avengers.

"Vai que um dia os meus vestidos [de noiva] estão no museu? Para mim é uma honra. (...) Um dia eu levo meus filhos ao museu e digo, olha, a mamãe casou com esse. Essa mancha na cauda direita fui eu que a fiz [risos]."

Recorda-se do seu primeiro desfile de todos?
Foi à Prada ou foi à Dior? [pergunta ao marido]. Foi no mesmo ano. Foi à Prada. Mas fui no mesmo ano à Prada e à Dior, sim.

Isso é como ter que escolher entre o pai e a mãe?
É isso…Eu amo, é difícil escolher. São casas muito diferentes, e têm realmente o meu coração.

Por falar em coração, estava preparada para o impacto que o seu casamento teve?
Olha, de todo, foi pensado para ir para a Vogue Itália, a quem eu dei as minhas fotografias e a entrevista prévia, e tal. Mas de todo, eu achei que teve uma repercussão para mim, para o meu universo, super significativa. Fiquei bem surpresa que as pessoas estivessem tão interessadas. Mas eu fui tão feliz, tão feliz, tão feliz…

Acho que se notava nas fotos.
Eu estava muito contente. Não tenho uma única reclamação desse dia.

Como é que chegou ao vestido principal, aquele look saído da coleção resort da Dior? Pensou logo nele quando o viu a desfilar em Los Angeles?
Nem um pouco. Eu já sabia que ia usar a Dior, porque a equipa [de PR da marca] falou comigo mais ou menos no ano passado. Mas estávamos à espera também que saíssem mais opções. Eu sempre soube que nunca ia ser um vestido custom-made Dior Couture. Entretanto, quando fui a LA, havia imensos vestidos brancos. Até fiz um TikTok que era tipo “white dresses at Dior”, uma coisa assim. E estavam lá os dois vestidos que eu usei. Só que o principal vestido, que foi o vestido com que eu entrei na igreja, tinha um casaco preto por cima, no desfile. Portanto, não dava para perceber como ele era lindo. E eu não fui ao Resee [momento pós-desfile que permite ver as peças ao pormenor, expostas num local], nem consegui ver melhor.

Acabaram por ser os escolhidos pela marca?
Quando vim para cá experimentar, que foi dia 6 de agosto, portanto, um mês antes do casamento, estavam cá os dois pendurados e tinham mais três opções. E esses dois ganharam de longe.

O fitting foi em Paris?
Sim, vim fazer fitting a Paris. Experimentei, eles ficaram certinhos, a única coisa que foi preciso foi ajustar o ombro do vestido que usei na igreja e acabou. E foi isso, super simples.

Ficou satisfeita?
Ah, satisfeita era pouco. Eu ia levar um vestido e estava tão feliz e tão inebriada com os vestidos que eles disseram “se você gosta tanto dos dois, por que você não usa os dois?”. E eu, pronto, ok, está bem. E assim levei os dois e foi ótimo. Claramente tive que trocar de roupa mais do que eu tinha programado, porque eu ia trocar só de um vestido longo para um curto, que é o que se faz normalmente, mas olha, I’m a fashionista after all, so it’s ok.

Mas pôde conservar os vestidos Dior de casamento ou teve que devolver no final?
Esses daí ainda não sabemos, mas por enquanto eles estão com eles, mas não tem mal. Imagina, eles não foram feitos para mim. Estavam feitos e eu usei-os. Mas eu também trabalho tanto com roupa que não é nada.

Não a incomoda, o trabalho traz esse desprendimento?
Pois, é isso. Vai que um dia estes vestidos estão no museu? Para mim é uma honra.

Preferia que os seus vestidos de noiva estivessem num museu da Dior do que no seu roupeiro?
Ah pá, claro, então um dia eu levo meus filhos ao museu e digo, olha, a mamãe casou com esse. “Essa mancha na cauda direita fui eu que a fiz” [risos].

Aconteceu mesmo mancha no vestido?
Não, porque como depois, na hora da festa, eu troquei para um vestido curto, não deu tempo para isso. Eles foram muito bem tratados. Provavelmente têm algumas ervas lá da Comporta presas na cauda, mas isso é normal.

▲ A caminho do desfile Dior © JOÃO SILVESTRE DIAS

JOAO SILVESTRE DIAS

Na véspera do desfile estava a fazer pedicure no hotel às 23h30. Também foi algum imprevisto ou é mesmo Vicky style?
Não, era eu mesma, porque a pedicure que estava no meu pé era do meu casamento, portanto… É que eu não sabia que ia usar um sapato aberto [para o dia do desfile].

Podia perguntar-lhe por peripécias entre desfiles de moda mas costuma ser tudo resolvido com a descontração que demonstra?
Cara, eu queria muito te dar um drama, só que sabe o que se passa? Eu sou uma pessoa muito sortuda. Juro-te, eu sinto que as coisas encaixam sempre. E quando elas não estão encaixando, eu contorno e vivo a vida, sabe? As coisas caminham muito a meu favor, então eu não tenho propriamente reclamações. O que acontece são coisas normais, como o trânsito e quase chegar atrasada e esquecer o convite, mas aí depois essas coisas resolvem-se todas, sem grande drama.

Em termos de agenda, de onde vieram e para onde vão de seguida?
O último desfile a que eu fui foi Moschino, não é, Miguel? [confirma com o marido] Sim, foi Moschino. Agora ficamos aqui a semana toda,

Mas nada de descanso.
Não há férias, temos outros desfiles, trabalhos sem ser desfiles, campanhas, shootings, e ainda tem aniversário do Miguel no meio. E vamos a Madrid no sábado para um casamento.

É o tal que ainda lhe falta o vestido?
Olha, essa é dramática… Vamos no sábado, aliás, eu vou no sábado às nove da manhã para Madrid e o casamento acaba às quatro da manhã, eu às seis da manhã tenho voo [de regresso a Paris]. Então, vou direta, e às nove, não, às dez da manhã, quando eu chegar ao aeroporto, tenho maquilhagem e cabelo, porque me vou meter num desfile, e depois às cinco tenho outro.

Tem as nozes para o stress mas e onde é que vai buscar tanta energia?
É porque eu gosto muito do que eu faço, então eu fico super empolgada, sabe? Não me dói nada. Se calhar no final do dia de domingo me enterrem, mas até às sete da noite estou fresca que nem uma alface.

[Annie está de volta a Havana. Apesar das relações privilegiadas com altas figuras do regime, quer viver como os cubanos, divertir-se como os cubanos e… sofrer como os cubanos. Mas continua a ser filha do diretor da PIDE. E Fernando Silva Pais e Armanda Palhota não estão dispostos a deixá-la passar tão facilmente para o lado do inimigo. Já pode ouvir o terceiro episódio de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no YouTube.]

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