A onda humana dá a volta dezenas de vezes ao Estádio da Luz nos últimos minutos de contagem decrescente para as 21 horas — é essa a hora marcada para o início do concerto dos Calema, os primeiros artistas lusófonos a atuarem em nome próprio no Estádio da Luz, em Lisboa. Nas bancadas e na plateia, muitas das cerca de 55 mil pessoas que compraram bilhete para o espetáculo de sábado, 7 de junho, têm noção de que estão prestes a viver um momento histórico. A ansiedade mistura-se com a felicidade pura e explode num grito conjunto quando nos ecrãs aparece um cronómetro de cinco minutos.
São 21h07 quando um vídeo projetado nos dois ecrãs gigantes — separados por um triângulo do mesmo tamanho que permite a entrada e saída de bailarinos e cantores durante todo o espetáculo — faz uma breve introdução aos irmãos António e Fradique Mendes Ferreira. No palco, dezenas de bailarinas com calças, tops e luvas prateados dançam ao som dos primeiros acordes; no topo do estádio rebenta um breve fogo de artifício; no centro do palco surge, finalmente, uma plataforma elevatória com os Calema, igualmente vestidos com fatos prateados e de óculos escuros, ao estilo futurista, colocados na cara. Perante a efusiva reação do público, Fradique não demora muito a retirar os óculos e a limpar as lágrimas que tem no canto dos olhos. A emoção é grande para todos e os irmãos nascidos em São Tomé e Príncipe há 38 (no caso de Fradique) e 33 (António) anos vão referi-lo várias vezes ao longo da atuação que irá durar três horas e três minutos.
Te Amo é o tema escolhido para dar início à noite. O público grita, canta e dança. Na plateia em pé muitas crianças estão às cavalitas de pais e mães. Para algumas este é o primeiro concerto. É o caso de Rita Tomé, de sete anos, que veio com os pais da zona de Leiria. O que quer mesmo muito ouvir é Onde Anda mas, para já — e enquanto não adormece um pouco ao colo do pai —, vai gritando Calema com uma voz tímida. “Também gosto da Maria Joana porque a minha gata se chama Joana”, explica ao Observador. Todos os motivos são válidos para estar aqui e, mais à frente, três amigas com cerca de 50 anos e rigorosamente equipadas com tshirts alusivas a esta Origin Tour abraçam-se enquanto cantam “eu quero estar ao teu lado pra sempre”. A Nossa Vez é outro dos temas que o público sabe de cor — embora Teresa, Rute e Marta conheçam até as letras em francês. Compraram os bilhetes em novembro de 2024, assim que foram colocados à venda, e elaboraram um plano. “Somos da Charneca de Caparica e para cá viemos de transportes. Para voltar, temos boleia do marido da Rute, que entretanto há-de vir e ficar a fazer tempo no Colombo [o centro comercial mesmo ao lado]. Se nós muitas vezes esperamos por eles em dias de jogos do Benfica, é uma troca justa”, garante Marta.
Os Calema prosseguem com Perfume e Toca a Todos. Chamam Alice e depois fazem uma serenata a Maya. “Coisa linda, muito obrigado. Estádio da Luz, queremos ver essas mãos lá em cima. Esta música é muito especial.”
António fala de Eu e Tu, que leva ao primeiro momento da noite partilhado com um dos muitos convidados. João Pedro Pais, e a sua guitarra, junta-se aos irmãos. O público vibra, rebentam confetti rosa e a festa é de imediato encadeada com um vídeo de Soraia Ramos, que lamenta não poder estar presente para O Nosso Amor — o tema que junta a cantora cabo-verdiana aos Calema. “Cantem por ela”, pede António, e o público responde: “Não sei se isso vai dar…”
O espetáculo que marca os 15 anos da dupla está oleado ao milímetro e ao segundo. Visualmente rico devido à diversidade de cores, ao fogo que se coordena com o fumo e aos confetti de várias cores lançados em momentos específicos, encaixa-se na perfeição com um entra e sai do palco de percussionistas, cordas, um coro de gospel, dançarinos com trajes tradicionais africanos ou xailes portugueses floridos.
Depois desta noite, só há dois cenários possíveis. Quem já era fã dos Calema soma uma recordação para a vida, um pacote extra (cerca de 30 canções, um espetáculo sem tempos mortos e cheio de convidados) mesmo sem pagar o Golden Circle. Quem ainda não era fã — e foi arrastado pelas namoradas, maridos, filhos, amigas, etc —, não pode ter saído do Estádio da Luz sem, pelo menos, admirar a máquina gigantesca que os irmãos Fradique e António construíram da infância em São Tomé a uma passagem por França (onde têm uma carreira consolidada, álbuns editados e já este ano concertos realizados em Lyon, Estrasburgo e Paris) ao sucesso em Portugal, onde foram acolhidos pela tia Lúcia (que referem mais à frente) em 2008.
▲ 55 mil pessoas encheram o relvado e as bancadas do Estádio da Luz
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
É o momento de Sara Correia surgir toda vestida de branco, com um laço gigante nas costas para Respirar. É um dos temas que mais faz o público vibrar — prova disso são os telemóveis esticados no ar a gravar.
Viagem, Allez, Kuabuaro, Bulawe e Mama É marcam uma mudança no guarda-roupa. A dupla enverga agora roupas azuis e amarelas com padrões que os remetem para a infância e dão o mote para este segmento mais sentimental do concerto. Abraços é cantado no meio do público com, obviamente, abraços distribuídos a meia dúzia de fãs que estavam no meio quadrado certo na passagem dos irmãos por entre a multidão, antes de subirem novamente as escadas do palco. Com três passadeiras a saírem da estrutura principal, é nelas que os Calema e todos os músicos e bailarinos que os complementam se deslocam constantemente ao longo das três horas.
Casa de Madeira, que “conta muita coisa que já vivemos”, explica Fradique, antecede Bomu Kele, Leva Tudo (com a participação de Dilsinho) e Txiguinha, dedicada à avó, cuja imagem é projetada nos ecrãs. Distintu traz Dino D’Santiago, que volta a fazer os fãs mexerem-se — nos temas mais melancólicos, o público que ocupa as bancadas vai aproveitando para se sentar e descansar uns minutos, já que ninguém parece estar tão bem preparado fisicamente como os Calema, que não abrandam um minuto.
“Pela primeira vez a trazer a língua portuguesa ao maior estádio no nosso País”, grita Dino D’Santiago, logo apoiado por mais de 50 mil vozes. “Eu sonhei isto quando estava em Paris”, revela. “Quero ouvir todo o estádio a gritar: Ca-le-ma!” Os fãs repetem, contagiados pela euforia do cantor filho de pais cabo-verdianos.
Um novo vídeo com paisagens, imagens da aldeia e da família Mendes Ferreira dá uns minutos de pausa necessária para os Calema respirarem e trocarem de roupa. Regressam integralmente de cabedal vermelho e dão início à sequência mais frenética da noite — também é aquela com as canções mais cantadas pelo público português.
Vai volta a ter os telefones erguidos para fazer vídeos e diretos para as redes sociais. Soraia Letra está a fazer uma videochamada com a irmã, Mena, a viver em São Tomé e Príncipe. Do outro lado do ecrã, a mulher de 20 e poucos anos está à beira das lágrimas. “Ver alguém com as nossas raízes, que podia ter crescido na casa ao lado da nossa, aqui é muito emocionante”, explica Soraia ao Observador minutos mais tarde.
Com Amar Pela Metade dança-se até no terceiro anel do estádio onde geralmente só se entoam cânticos futebolísticos de incentivo ao Sport Lisboa e Benfica. Tayc vem de França para cantar Dit Le Moi mas é Anselmo Ralph que faz “Lisboa tirar o pezinho do chão” (palavras dele) com Agora Não Me Toca.
“Nunca imaginamos que a vida nos trouxesse até aqui e tudo isto é culpa vossa”, diz António dirigindo-se ao público. A Nossa Dança coloca espontaneamente dezenas de casais a dançarem agarrados na plateia e quando os tambores entram em palco, surgindo das várias extremidades, toda a gente sabe exatamente qual o ritmo certo para bater palmas. Mariza já está na plataforma elevatória e dança, a brilhar com o seu cerca de 1,80m embrulhado num fato branco de lantejoulas, enquanto os Calema cantam na parte dianteira do palco. Maria Joana é um dos momentos altos da noite.
▲ Os fatos futuristas deram, mais tarde, lugar a trajes tradicionais africanos
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Depois da explosão de alegria, seguem-se uns minutos de agradecimentos — António e Fradique honram os pais, os avós, a equipa técnica, o agente, os coreógrafos e as centenas de outras pessoas necessárias no percurso dos últimos 15 anos. “Conseguimos, Fradique”, diz António, antes de se dirigir aos fãs. “Este momento, com todos vocês, acabamos de fazer história. Nunca tínhamos imaginado chegar até aqui.”
A pausa nos agradecimentos deixa ouvir um grito um pouco mais atrás. “Vocês são o máximo”, diz uma mulher invisual que, desde o primeiro tema, bate palmas efusivamente e canta todas as letras sem uma vírgula fora do sítio.
Onde Anda é o último momento de grande euforia antes de os irmãos desaparecerem para os bastidores. No entanto, tal como no resto do espetáculo, não é preciso esperar mais do que uns segundos para a festa continuar. Fradique e António surgem de mãos dadas para se sentarem em dois bancos no topo da passadeira central.
“Estádio da Luz, agora é a nossa vez de vos agradecer e de dizer que amamos cada um de vocês”, garante António enquanto posiciona a guitarra no colo. No momento mais intimista da noite, o estádio escurece, as lanternas dos telemóveis iluminam-se e, em modo acústico, A Nossa Vez é novamente interpretada, agora com partes deixadas para o público cantar.
▲ Os casais dançaram, nas bancadas fez-se a onda e para casa todos levaram a memória de uma noite única
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Num círculo perfeito, que termina como começou, Te Amo é a última canção do alinhamento. “Tudo se foi, saudade, saudade, saudade bô”, cantam os Calema. Os casais dançam; no ar rebentam fitas coloridas, que muita gente recolhe para levar para casa; o fogo de artifício volta a iluminar o céu e os Calema desaparecem. Nos ecrãs, cada um de um lado, Fradique e António surgem uma última vez para escreverem “obrigado” e desenharem um coração.
Nas escadas para a saída da bancada do Piso 0, Mélanie Pires sobe de braço o dado com o pai, José. Vivem na região de Toulouse, França, e ela, de 20 anos, é fã desde que os viu pela primeira vez na televisão francesa. “Só costumamos vir a Portugal em agosto, mas ainda bem que ela me convenceu, valeu a pena”, admite José. Este domingo, 8, já regressam a casa e Mélanie leva um sorriso rasgado que deve durar até chegar ao destino. Os Calema fizeram história como os primeiros artistas de língua portuguesa com direito a um concerto em nome próprio no Estádio da Luz. Ainda agora se foram e já deixaram saudade, saudade bô.