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Francisco Gomes foi acusado de ter insuflado currículo com licenciatura em Harvard
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▲Francisco Gomes foi acusado de ter insuflado currículo com licenciatura em Harvard

▲Francisco Gomes foi acusado de ter insuflado currículo com licenciatura em Harvard

Polémica com licenciatura. Deputado do Chega admite corrigir informação, mas ameaça com processo e queixa-se de "perseguição"

Francisco Gomes fez três cadeiras certificadas em Harvard e diz que "em nenhum momento" disse ter licenciatura naquela Universidade. Admite mudar informação na Assembleia, mas queixa-se de "calúnias".

Francisco Gomes, deputado do Chega acusado de ter mentido ao ter apresentado um falso currículo académico, admite que a informação disponível no site da Assembleia da República, em que se pode ler que concluiu a licenciatura em Denison e Harvard, não está inteiramente correta e pode prestar-se a outras interpretações. Ainda assim, o parlamentar garante que nunca teve intenção de insuflar o currículo, diz-se atacado no seu bom nome e assegura que vai agir judicialmente contra a Sábado, revista que tornou pública a incongruência entre o seu percurso académico e a informação disponibilizada oficialmente.

Depois de a revista Sábado ter revelado que o deputado madeirense se registou como “licenciado em Harvard, mas só fez duas cadeiras numa summer school“, o Observador questionou Francisco Gomes sobre o percurso académico e, com base nos diplomas e equivalências a que teve acesso, concluiu o seguinte: o parlamentar é licenciado pela Universidade de Denison e tem três disciplinas certificadas por Harvard — sendo que Francisco Gomes explica que concluiu duas cadeiras por verão (quatro no total), mas que uma delas, “por ser uma unidade curricular articulada com a universidade de origem, foi creditada de forma integrada no registo académico global”.

Ou seja, de facto, Francisco Gomes, ainda que tenha frequentado aquela instituição, não é licenciado pela Universidade de Harvard, o diploma é da Universidade de Denison. Questionado pelo Observador sobre se a descrição escolhida para o site da Assembleia da República (“Licenciado em Ciência Política pelas universidades de Denison e Harvard”) pode levantar dúvidas sobre o seu verdadeiro percurso académico, Francisco Gomes admite que sim, que “a formulação pode permitir essa interpretação“.

Mas o deputado do Chega defende-se: “Em nenhum momento afirmei que as quatro cadeiras frequentadas em Harvard correspondessem a uma licenciatura.” Francisco Gomes assegura que “nunca foi levantada a questão”, mesmo quando no passado foi eleito pelo PSD, e garante: “Caso a Assembleia da República assim o solicite, poderei considerar pôr licenciatura em Ciência Política pela Universidade de Denison, com frequência de várias cadeiras na Universidade de Harvard.”

O nome do deputado do Chega saltou recentemente para as notícias por causa de um outro caso: o incidente com o gabinete de André Ventura. Francisco Gomes, que se deslocou cedo pela manhã ao Parlamento (como garante fazer todos os dias) para gravar um vídeo para o TikTok, foi o primeiro parlamentar a encontrar o gabinete do líder do Chega aparentemente vandalizado, após a funcionária da limpeza e GNR, e gravou o vídeo que depois foi amplamente divulgado. Para os adversários políticos que acreditam que o incidente foi forjado pelo Chega, essa coincidência fez de Francisco Gomes o principal suspeito. O partido e o próprio sempre o negaram.

"Tenho duas linhas que considero que não devem ser ultrapassadas. Uma, é o meu percurso académico, que construí com muitos anos de trabalho e sacrifício. A crítica faz parte da democracia. A mentira e a tentativa de destruir pessoalmente alguém não são crítica, mas canalhice, e isso não pode ser admitido"

Um percurso académico entre Denison, Harvard e Oxford

O madeirense revela que, após a conclusão do ensino secundário na Escola da APEL, “com média de 19,2 valores”, se candidatou a “bolsas de estudo na Madeira, em Portugal e no estrangeiro” e obteve “apoios de diferentes instituições”. Num primeiro momento, entrou em Medicina, na Universidade do Porto, mas acabou por preferir rumar aos EUA. O basquetebol “ajudou a alimentar o sonho de ir para os Estados Unidos”, porque lhe permitia jogar e estudar ao mesmo tempo.

Em 1998, Francisco Gomes seguiu os estudos em Denison, Ohio, que se tornaria a sua alma mater, a “universidade principal“. Dois anos depois, fez a primeira escola de verão em Harvard por recomendação do conselheiro académico. Acabou por repetir a experiência no ano seguinte. “Na prática, passava o ano académico, de agosto a maio, em Denison e, durante o período de verão, em vez de regressar a casa para passar férias, ia para Harvard fazer unidades curriculares. Durante aqueles anos, passei, portanto, grande parte do ano a estudar. Era exigente e implicava abdicar de muitas coisas, mas encarava esse esforço como um investimento no meu futuro.”

No documento da Comissão Fulbright — a entidade que, por acordo entre EUA e Portugal, tem a responsabilidade de certificar as habilitações e diplomas produzidos no ensino norte-americano — lê-se que Francisco Gomes apresentou o “diploma e certificado de notas que atestam a conclusão com aproveitamento da licenciatura norte-americana em Ciência Política e Comunicação – Bachelor of Arts, major in Political Science, major in Communication (Licenciatura em Humanidades, com especialização em Ciência Política e em Comunicação) – em 12 de maio de 2002 na Universidade de Denison.”

“O estudante concluiu o programa de estudos com distinção – Cum Laude – obtendo uma média final de 3.86 pontos na escala GPA, a que correspondem 19 valores na escala 0-20. De um universo de 492 estudantes, o estudante classificou-se na 22.ª melhor posição”, acrescenta o documento disponibilizado por Francisco Gomes.

O deputado esclarece que “o diploma final reúne precisamente esse percurso académico, integrando o trabalho realizado nas duas universidades e as unidades curriculares concluídas em Harvard, no âmbito da formação que [desenvolveu] a partir de Denison”. “Foram quatro unidades curriculares, todas concluídas com classificação de 4.0, equivalente a 20 valores. Foram escolhidas por aconselhamento do meu conselheiro académico, tendo em conta o percurso que estava a desenvolver em Denison, os meus resultados e a forma como poderiam complementar a minha formação.”

“Nunca encarei Harvard como um elemento de estatuto ou como algo que me tivesse sido oferecido. Encarei-a como mais uma oportunidade que o meu desempenho académico me permitiu alcançar e à qual procurei responder da única forma que conhecia e conheço, isto é, trabalhando ainda mais. Para mim, o mérito só tem verdadeiro significado quando vem acompanhado de esforço, disciplina e da responsabilidade de aproveitar aquilo que conseguimos conquistar”, sublinha.

Além da licenciatura em Denison, Francisco Gomes concluiu ainda o mestrado na Universidade de Oxford, no Reino Unido, e o doutoramento na Universidade de Cádiz, em Espanha, com “Cum Laude“, a mais alta distinção académica neste nível. “Tenho igualmente documentação relativa à restante formação que fui realizando, incluindo o Curso de Defesa Nacional, no Instituto da Defesa Nacional, uma pós-graduação em Guerra de Informação, na Academia Militar, e um curso de Língua Russa, na Universidade Estatal de Moscovo”, acrescenta.

Francisco Gomes explica ainda a diferença entre o que surge no site da Assembleia da República — “Licenciado em Ciência Política pelas universidades de Denison e Harvard” — e no site do Grupo Parlamentar do Chega — “Licenciado em Ciência Política e em Comunicação Social pelas Universidades de Denison e Harvard” —, argumentando que “o sistema universitário norte-americano permite que o estudante estruture o seu percurso académico com formação aprofundada em duas áreas distintas” — uma informação que foi confirmada pelo Observador no documento da Comissão Fulbright disponibilizado por Francisco Gomes.

Francisco Gomes é licenciado pela Universidade de Denison e tem três disciplinas certificadas por Harvard — fez quatro no total mas uma delas, "por ser uma unidade curricular articulada com a universidade de origem, foi creditada de forma integrada no registo académico global"

“Não admito a calúnia e a perseguição”

Depois de a revista Sábado ter dado destaque ao caso, Francisco Gomes reagiu apenas com uma publicação nas redes sociais onde se lia a palavra “mentira”. Agora, em declarações ao Observador, garante que vai “recorrer aos meios legais” que tem ao dispor para colocar um processo à publicação por considerar que está a ser “alvo de ataques” ad hominem e por acreditar que se trata de uma “tentativa de [o] calar“.

“Já solicitei a um advogado da minha confiança que me apoie na análise da situação e na preparação do respetivo processo. Para que fique bem claro, não me incomoda que me ataquem politicamente. Estou na vida pública e aceito a crítica, mesmo quando é dura. O que não admito é a calúnia, a perseguição ou o ataque sistemático à minha honra e ao meu caráter”, afirma, dizendo que existem pessoas “incomodadas com alguns dos temas” que tem vindo a “denunciar e a expor publicamente”.

“Tenho duas linhas que considero que não devem ser ultrapassadas. Uma, é o meu percurso académico, que construí com muitos anos de trabalho e sacrifício. A crítica faz parte da democracia. A mentira e a tentativa de destruir pessoalmente alguém não são crítica, mas canalhice, e isso não pode ser admitido. A outra é a minha família”, remata Francisco Gomes.

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