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Tratava-se de um dia de meados de dezembro de 1984, uma sexta-feira absolutamente banal para quem seguisse a rotina quotidiana em Paris, não fosse pelo facto de França estar a sofrer uma vaga de frio atípica. No entanto, para os Solanos, uma família de exilados argentinos, essa foi a data em que tudo mudou, quando a mãe — maquilhada em excesso e com uma dor de cabeça demoníaca — decidiu de forma inexplicável matar dois dos seus três filhos, afogando-os na banheira da portaria de uma escola parisiense onde moravam.
Perante o inominável, parecem sobrar apenas subterfúgios e eufemismos para referir-se a tal ato, como “o que aconteceu”, “aquela sexta-feira incompreensível”, “o acidente”, “a tragédia” ou o termo que Flavia, a filha sobrevivente, utiliza para descrever esta hecatombe familiar: Naquele Dia. Este último serve de título para o livro de Laura Alcoba, escritora franco-argentina que esteve em Portugal para promovê-lo. A autora conversou com o Observador sobre este híbrido de ficção e não-ficção literária criado a partir de um caso verídico.
Apesar desse rótulo de veracidade, desengane-se, porém, quem parta para Naquele Dia à procura de saciar o bichinho do true crime, em busca de uma narrativa focada nas investigações policiais ou nos detalhes macabros. Este não é um “whodunit”, não está estruturado de forma a deixar o leitor a salivar no final de cada capítulo à procura da resolução do crime, que já se sabe desde início ter sido cometido por Griselda, a mãe. “De facto, esse momento, o duplo infanticídio, é contado muito brevemente e não quis ir por esse caminho, não é o meu género, mas sim tentar encontrar as outras coisas que esta história nos diz”, conta a escritora ao Observador. E que coisas são essas? “A loucura da morte, o que é sobreviver e como sobreviver a uma coisa destas”, enumera.
A menção destes temas merece uma reflexão própria e que será tida mais adiante, mas antes, para situar o leitor, é preciso explicitar que Alcoba não é uma escritora alheia a trabalhar com a memória: os seus trabalhos de maior repercussão — a trilogia de romances autobiográficos La Casa de los Conejos [A Casa dos Coelhos, não publicada em Portugal] — abordam a sua infância enquanto filha de guerrilheiros montoneros, forçada a fugir para França ainda com 10 anos e a crescer perante a ausência de um pai feito preso político no país natal. A diferença para Neste Dia é que moldou as lembranças de outrem em vez das suas.
▲ A capa "Naquele Dia", edição portuguesa do livro de Laura Alcoba, publicada pela D. Quixote
Para construir este livro, a escritora falou com Flavia, fotojornalista de renome na casa dos 40 anos e que tinha apenas seis por altura dos homicídios, e com Griselda, a sua mãe, a responsável por matar Boris e Sasha, já idosa aquando dessa conversa. Além destas duas figuras, assumem também claro destaque Colette e René: ela, a professora de Flavia que, sem sabê-lo, provavelmente salvou a vida da sua aluna, já que impediu a mãe de ir buscá-la à escola ao vê-la completamente alterada e com as camadas de maquilhagem a escorrer pela cara; ele, que acompanhou a mulher na difícil tarefa de tentar apoiar uma criança que ficou sem chão ao ver a sua família implodir. Só Claudio, o pai, ficou de fora. “Sempre trabalhei da mesma maneira, a partir de uma realidade, de uma memória — neste caso, foi da deles. Mas o que foi muito forte para mim, muito chocante, foi ver o que esta história dizia sobre situações humanas”, comenta.
A quem pesquisar estes nomes na internet, assim como os detalhes do crime, é provável que tal tentativa saia frustrada. Ao abrigo da liberdade criativa que o lado ficcional desta obra proporciona, Laura Alcoba escolheu alterar tanto os nomes verdadeiros dos intervenientes na história como as datas e os locais de alguns dos eventos capitais. Concedendo que, ao fazê-lo, permitiu-se a uma maior inventividade na escrita, o objetivo primordial dessas modificações foi “protegê-los”. “Não queria uma história tão forte a retratar pessoas que conseguiram sobreviver psicologicamente a algo tão terrível. Não se tratava de expo-las ou de acrescentar dor à dor. Elas tinham-se reunido comigo, deram-me as entrevistas, falaram muito, por isso tentei respeitar o mais possível a sua intimidade, as suas identidades”, afirma.
É nesse sentido que, quando vê Naquele Dia a ser comparado a obras cimeiras de não-ficção literária como A Sangue Frio, de Truman Capote e O Adversário, de Emmanuel Carrère, a escritora entende as comparações — frisando, aliás, o quanto gosta do trabalho do autor francês —, mas traça uma linha de separação. “Não me interessava procurar o sórdido, mas sim o que era permanente, o que podia ser dito a partir desta história, encontrar o mito, o conto baseado no real. O que me atraiu na história não foi tanto o crime, Aliás, isso era o que me mantinha à distância e que me fazia não saber se era capaz de a escrever”, responde. Tanto mais que — plot-twist — Laura Alcoba já conhecia este caso desde que era adolescente, mas esqueceu-o.
De Shutter Island ao cemitério, como nasce um livro?
A familiaridade de Alcoba com este caso não se explica apenas porque a família da escritora faz parte da mesma comunidade de exilados políticos onde estavam inseridos os Solanos. Não só o pai Laura chegou a viver em casa deles — sendo até padrinho de uma das crianças —, como a própria visitou a diminuta portaria de uma escola privada que Claudio e Griselda, guardas residentes dessa instituição, transformaram em lar. No entanto, passados os anos da adolescência, a sua memória esvaiu-se dessa família e do caso. “Foi muito estranho porque já trabalhei muito com memórias de acontecimentos que se passaram antes disso, mas foi tão forte, tão incrível, que tinha-o como que encoberto porque era tão terrível. E depois lá veio à tona”, revela.
O primeiro passo para desbloquear essa memória foi ver Shutter Island, de Martin Scorsese, no cinema, filme de 2010 cuja narrativa contém uma mãe que afoga os filhos. “Lembro-me muito bem que, depois de sair do cinema, estava com uma amiga e disse-lhe ‘mas eu conheço esta história…’, conta, para depois adiantar: “Não sei quantos anos depois, o meu pai contou-me que Flavia o tinha contactado. Ele perguntou-me se me lembrava e eu respondi ‘ah, claro, é daí que vem essa sensação que tive’”.
▲ O primeiro passo para desbloquear essa memória foi ver "Shutter Island", de Martin Scorsese, no cinema, filme de 2010 cuja narrativa contém uma mãe que afoga os filhos
Quando as memórias voltaram, Laura Alcoba confessou ao editor que tinha interesse em abordar o caso, mas apenas quando tivesse forças para tal. Foi preciso esperar até 2018 para que isso acontecesse, quando entrevistou mãe e filha no mesmo café. “A certa altura, senti que era o momento e foi muito insólito porque dei um passo em direção a esta história e tive a impressão de que Flavia e Griselda estavam à minha espera”, revela.
Foi ao encontrar-se com Flavia que se sentiu determinada a escrever Naquele Dia, já que, até aí, “não sabia se seria capaz de escrever uma história tão difícil, de investigar e fazer alguma coisa com ela”. “Quando a vi, constatei que não era de todo a pessoa que tinha concebido. Imaginava que alguém com uma história daquelas ia ser uma pessoa muito complicada, difícil, amarga, mas parecia estar em paz. Dei por mim a perguntar-me ‘como é possível?’ Ela falou-me imediatamente desse dia, das memórias que tinha. Portanto, era uma mulher de 40 anos e, ao mesmo tempo, a rapariga ainda lá estava”, admite.
Nesse encontro, Alcoba ficou ciente de que, com o correr dos anos, Flavia e Griselda já se tinham reconciliado, ainda que a filha lhe tenha feito saber “que lhe era impossível falar do tema com a mãe, porque era um assunto absolutamente tabu”. “‘A minha mãe vai contar-te, e preciso que fales com ela, preciso que ela te conte’, disse-me. Foi assim que, a partir daí, senti que tinha de escrever o livro, que era importante para ela, para mim”, garante a escritora.
No entanto, não obstante a forma como se atirou para este projeto, três anos depois de iniciá-lo, ainda se encontrava a debater-se sobre como contar esta história, mesmo com entrevistas já feitas e esboço já gizado. “É como se estivesse à sua procura e, ao mesmo tempo, foi estranho porque tinha a impressão de que estávamos a viver o livro nas entrevistas que fazia, que eu estava dentro dele, havia qualquer coisa de mágico ou bizarro. O momento em que me apercebi que, sim, ia escrevê-lo e que ele estava a ser terminado à minha frente, foi quando visitámos o cemitério”, aponta.
Laura Alcoba refere-se assim a um momento marcante de Naquele Dia, aquele em que descobre que Flavia tinha inadvertidamente escolhido ir viver para perto do cemitério de Pantin, local onde Boris e Sasha foram enterrados. “É inacreditável. Ela provavelmente sabia que os seus irmãos lá estavam, mas não tinha consciência disso. Ela nunca tinha visto a campa. No momento em que lhe disse ‘mas sabes como é que o René voltou a entrar em contacto com a tua mãe?’, ela aí apercebeu-se de que tinha escolhido viver ao lado da campa dos irmãos. E isso foi muito poderoso. Quando fomos ao cemitério, estávamos naquele sítio e eu afirmei ‘bem, o livro nasceu’. No início, tinha medo que existisse, mas depois, lá estava ele”, conclui.
Griselda e o sofrimento do tamanho de um mito
Não é todos os dias que se recebe um relato na primeira pessoa de uma homicida, em particular de uma mãe que matou os seus filhos. Poder-se-ia pensar que é por essa razão que o relato de Griselda ocupa tantas páginas de Naquele Dia — a possibilidade de perscrutar a mente de quem é capaz de tamanho ato. No entanto, recordemo-nos, esta não é uma obra tradicional de true crime e Laura Alcoba não se detém em tentativas de traçar retratos psicológicos. Nesse sentido, a ética da escritora consiste em, acima de tudo, tentar compreender este ato sem perdoá-lo nem justificá-lo, dando elementos ao leitor para que tire as suas próprias conclusões — como o facto de, por exemplo, tendo acordado com uma dor de cabeça debilitante no dia do crime, tenha pedido ajuda a Claudio dizendo “não me sinto bem”, tendo este ignorado os seus apelos antes de ela cometer o ato.
Na verdade, a razão para o relato tomar tamanho destaque parece ser a impressionante lucidez com que é feito e que apresenta um quadro de doença mental, na melhor das hipóteses, incompreendido e, na pior, negligenciado. Griselda conta tudo a Laura Alcoba, sendo que esta nem precisou de fazer perguntas para que a sua entrevistada lhe revelasse a vida de forma torrencial, como alguém que “provavelmente já estava a pensar nisso há anos”. Desde a infância na Argentina, onde sofreu abusos sexuais dos vizinhos e teve uma relação altamente desequilibrada com a mãe, até à tormenta de conhecer Claudio quando este era casado e já tinha filhos dessa relação, sentindo-se a outra mulher. Pelo meio, deram-se três tentativas de suicídio, uma das quais com um revólver cuja bala miraculosamente ficou alojada no cérebro sem deixar danos de maior, a não ser dores crónicas.
▲ Medeia, personagem da mitologia grega que mata os próprios filhos, protagonista da tragédia com o mesmo nome, da autoria de Eurípedes
“Quando me dá o seu relato, é uma história de golpes, de falta de amor, daquela mãe que não a ama e não a reconhece, portanto há aqui uma série de elementos. Ela é uma pessoa que provavelmente já tinha fragilidades de origem, mas que é espancada — pela história, pela violência familiar, pela violência de género, com os abusos de que é vítima em criança — e quebra”, aponta a escritora. No entanto, como a própria Griselda admite, nada do que conta para trás “explica aquele dia”. “Ela tem consciência de que há algo inexplicável, impensável, no gesto que cometeu, no crime. Tudo isso é dado desta forma”, continua.
Como prova disso, e num interessante exercício como a memória funciona, Griselda descreve o ato em si de forma dissociada, como se visse do lado de fora a cometê-lo. “Não se pode dizer que Griselda se lembre do que aconteceu […] Griselda não se lembra, não. Mas conhece aquele dia”, lê-se em Naquele Dia. “Há um desdobramento, que talvez também tenha a ver com uma quebra, com uma forma de psicose. Foi muito estranho na história dela a forma como, a certa altura, tudo foi contado em duplicado. Há um momento em que a própria maneira como conta algumas coisas parece reveladora da história também”, sublinha Laura Alcoba.
Algo que sobressai, porém, nesse relato, é como o duplo infanticídio poderia ter sido evitado, dado o número de tangentes e de “e ses” de que é feito. A esse respeito, a escritora destaca a terceira tentativa de suicídio de Griselda, alvejando-se na cabeça. “Há a questão da bala, que é incrível. Há uma espécie de destino trágico, pois ela quer morrer e não pode, não consegue. O que ela fez é algo a que ninguém escapa, mas ela conseguiu. E é tudo absolutamente real. Na altura do julgamento, havia notícias nos jornais a dizer que ela tinha uma bala — e ainda hoje tem — na sua cabeça. É como se estivesse fadado, é uma tragédia. É isso que torna a história particular. Tive a impressão de que era algo enorme, que era da dimensão do mito. Isso foi muito impressionante”, frisa.
O amor e a loucura de Medeia, para mostrar que os clássicos não têm prazo de validade
Lá está outra vez essa palavra, “mito”, referida várias vezes ao longo desta conversa e por uma razão muito concreta e reveladora do projeto literário de Laura Alcoba. Naquele Dia traça um paralelo crucial entre Griselda e a história grega da feiticeira Medeia, que mata os filhos numa fúria ao sentir-se traída por Jasão. “Possuída pelo Fogo, Medeia apunhala os filhos que teve com Jasão. Os seus próprios filhos, sim. De tal modo a cólera e a dor se tornaram insuportáveis”, lê-se. O facto de ser uma obra canónica da nossa cultura atesta “o terror de uma história que se repete”, como escreve mais à frente no livro, explicitando assim um dos seus propósitos: mostrar como os mais ignóbeis dos atos não são desumanos; pelo contrário, são parte da nossa experiência desde o início da espécie.
“É como estar perante algo que nos remete para o mais profundo do ser humano. E é por isso que estas histórias se repetem e fazem parte do impensável. Só que temos de pensá-las, de refletir sobre elas. É como se houvesse certas situações que só o mito pode contar, porque nos apresenta sempre a sua história; traz-nos questões que podemos reativar e reformular e voltar a colocar de uma geração para a outra. Há algo do eterno problema, do eterno enigma que o mito formula num determinado momento e, bem, esse foi mais ou menos o caso”, aponta.
A escritora traça assim uma linhagem maldita que vai desde a história de Medeia, passando por Shutter Island, ao caso de Griselda, chegando até mais além, como aponta ao Observador. “Na altura em que estava a escrever Naquele Dia, deu-se um caso semelhante em Bordéus, de uma mãe que tinha afogado os seus filhos numa banheira. Então, falamos de monstros ou de outra coisa? É algo que nos questiona. Claro que é um extremo absoluto, mas está incluído naquilo que se repete desde o início. Os problemas que enfrentamos coletivamente são sempre os mesmos, apesar da passagem do tempo”, sublinha.
“Dizer que é um duplo infanticídio, dar-lhe um rótulo legal, torná-lo lei, será que isso impede que volte a acontecer, que não seja humano? Não. O que me faz questionar como é possível. Porque é que isto aconteceu e continua a acontecer, inclusive o tal caso similar que li no jornal enquanto escrevia este livro? Por isso é que era importante enveredar pelo aspeto humano e ouvir Griselda. Tentar encontrar no seu relato o que ela conta sobre si e não só, tentar perceber uma certa violência, o que pode ser a loucura. Não sei se é um caso de esquizofrenia, não uso rótulos psiquiátricos, mas há qualquer coisa que talvez vá por aí”, conclui.
A ditadura como pano de fundo
Nos “e ses” desta história, um deles manifesta-se na revelação de Griselda de que voltou para a Argentina no início de 1976, depois de ter fugido com Claudio para Paris por este estar envolvido em atividades revolucionárias. A razão para querer regressar deu-se quando se viu impedida de ter uma vida conjunta com o futuro marido por força do relacionamento deste com a mulher com quem estava casado. Ora, “é difícil imaginar um momento pior para regressar” lê-se em Naquele Dia, já que esse retorno deu-se quando a presidente Isabel Perón estava prestes a ser sujeita a um golpe de Estado, sucedendo-se o mais sanguinário de todos os períodos de ditadura militar do país, sob o chamado Processo de Reorganização Nacional. Ao chegar a La Plata, a sua família em pânico disse-lhe de imediato para regressar a França, pois estava em perigo devido à sua ligação a Claudio. Uma sinistra ameaça feita em plena rua por um desconhecido foi a gota de água que fê-la regressar à Europa a 23 de março desse ano, um dia antes do golpe.
Não tendo obviamente passado pelas mesmas circunstâncias de Griselda, Laura Alcoba conhece a dor do exílio, as dificuldades de adaptação a um novo local, o stress e a pressão psicológica de ser um estrangeiro desenraizado. Terão estes fatores de alguma forma contribuído para o que aconteceu naquele dia de 1984? A escritora admite que sim, apesar de evitar traçar nexos causais.
▲ O regresso de Griselda à Argentina deu-se em 1976, quando Isabel Perón estava prestes a ser sujeita a um golpe de Estado, sucedendo-se o mais sanguinário dos períodos de ditadura militar do país
Corbis via Getty Images
“Griselda é uma pessoa atingida pela história com H grande, por causa da ditadura, da possibilidade de desaparecimento, que foi algo muito particular na Argentina. Desaparecer não é o mesmo que morrer. Mas claro que tudo isto veio confrontar ou atacar uma estrutura mental que provavelmente tinha fragilidades, há uma conjunção. Digamos que, evidentemente, uma história tão conturbada e dolorosa faz com que certas pessoas se revelem ou se desmoronem mais do que noutras situações. De facto, conheci uma psiquiatra em França que trabalha muito sobre as patologias que se revelam em torno do exílio, o facto de se perderem os pontos que nos ancoram, a solidão, o não sermos compreendidos, o não podermos exprimir-nos de todo, o ambiente de estarmos numa situação de estrangeiros”, responde.
“Tudo isto, evidentemente, pode fazer com que uma estrutura de tipo psicótico se manifeste, que desagregue o que está contido”, continua. “É por isso que a Flavia também me tinha dito ‘a minha mãe vai falar contigo porque tu vais perceber a história argentina, tu sabes do que se trata, tu sabes o que ela te vai dizer, ela vai sentir-se confiante, ela vai partilhar contigo’”, recorda. No entanto, a autora deixa claro em mais do que uma ocasião que, se o exílio “talvez proporcione uma circunstância que permita, se calhar, espoletar essa situação” e que “Medeia é também uma situação de exílio e de solidão, de estar longe do seu lugar”, este é apenas um ingrediente para compor esse retrato multifacetado. “Tive a impressão de estar perante algo que tanto tinha a ver com a Argentina como não tinha”, adverte, reforçando ter encontrado “uma história que supera de longe tudo isso, de que se trata de uma coisa maior, mais universal”.
No que toca à Argentina, apesar de registá-lo com as devidas diferenças, Laura Alcoba conhece encontrar alguns paralelos entre o período conturbado do século XX e o momento que o país atravessa, sob a presidência de Javier Milei. Apesar dos períodos de intervenção do FMI e das controvérsias dos governos dos Kirchner, de Macri ou de Fernández, o país “tinha construído um espaço democrático, mesmo com os seus problemas. Tinha saído da ditadura e agora, com Milei, há uma negação dos crimes da ditadura também. Isso está a causar muitos danos”, aponta.
“Vejo isto com muita preocupação, porque o país está num processo de grande destruição, de muita violência social. Infelizmente, é sempre mais fácil destruir do que construir. Mas ele destrói muito rápido, Milei, como Trump nos Estados Unidos, está a destruir a democracia a uma velocidade incrível. Vai ser difícil reconstruir, mas acredito que a Argentina é um país resiliente e que será capaz de se refazer”, continua, lembrando que a 24 de março, no Dia da Memória da Verdade e da Justiça na Argentina, “houve uma grande manifestação com organizações de direitos humanos e também com jovens e com reformados. Houve uma grande e ampla mobilização, e não só em torno da questão do revisionismo”, destaca.
Há uma luz que nunca se apaga
A reta final de Naquele Dia aborda o papel que o casal de René e Colette tiveram enquanto Griselda esteve ausente — primeiro detida numa prisão, depois internada num hospital psiquiátrico. Sem qualquer relação de parentesco com Flavia — Colette era sua professora e René o seu marido —, os dois encarregaram-se, aos fins de semana, de levá-la a passear e a tentar dar-lhe um semblante de normalidade perante a debacle. Foi, aliás, daí que surgiu o título original deste livro, Par la Forêt [Pela Floresta], dadas as idas a um bosque particularmente importante para esta narrativa.
Para Laura Alcoba, conhecer este casal, tanto ela e ele já em idade avançada, “foi muito emocionante, porque eles próprios não tinham consciência do que tinham feito”. “A certa altura, Colette disse-me uma frase maravilhosa, ‘nós fizemos o que tínhamos de fazer’. E isso foi de uma humildade perante algo que, para mim, era a quintessência da proteção, da bondade, da generosidade de Colette. De repente, vi-a como uma espécie de fada, como nos contos. E tive a impressão de estar a confrontar-me com a própria definição do que é o amor. É estar presente, é dar. Existe aquela frase de Jean Cocteau, ‘o amor não existe, o que existem são provas de amor’, não é? Ele não é definido, manifesta-se. E assim vi essa manifestação de amor, a proteção, o gesto, a mão que se detém”, conta a escritora.
Ao mencionar a “mão”, a autora refere-se assim ao momento em que Griselda tentou ir buscar Flavia à escola e Colete disse “não”. “Ela vê que há algo que não está bem, age e isso tem um efeito cósmico”, arrisca Laura Alcoba. Porquê? Porque passado o seu aparente estado de insanidade, Griselda têm em Flavia a possibilidade da redenção possível.
▲ Laura Alcoba: "A Argentina está num processo de grande destruição, de muita violência social. Infelizmente, é sempre mais fácil destruir do que construir"
“Há algo que sobrevive ao horror daquele dia e que tem a ver com o facto de Griselda ser a mãe que mata e depois se reconstrói como mãe. Há algo que eu acho que se inverte porque Flavia sobreviveu e, de repente, tudo é canalizado para essa luz. É o que permite a Griselda continuar a viver depois. A partir desse dia, ela não tentará mais matar-se, há algo que lhe permite suportar a vida que vem depois e é a rapariga que sobreviveu àquele dia de loucura. É onde se inverte, passamos das profundezas da escuridão para algo a ver, claro, com a intervenção de Colette e com esse “não” que torna tudo o que vem depois possível”, declara a escritora.
Nesse sentido, Griselda tanto encarna uma versão moderna do mito como o seu oposto. “Aqui estava eu diante de uma Medeia, mas que também não a é, porque há a Flavia. Portanto, é uma Medeia e uma anti-Medeia, uma outra coisa depois. O mito nunca se esgota por nos apresentar o problema que contém”, defende. A própria constatou-o quando teve a oportunidade de ler Naquele Dia, revela Laura Alcoba.
“Ela disse-me, ‘o horror do teu livro sou eu, e é normal que o seja. Mas obrigada por teres visto a beleza da Flavia, como ela é bonita e como ela é uma boa pessoa’. Eu pensei ‘claro, ela está a dizer-me como é possível viver depois daquilo’. Alguma coisa sobreviveu àquele dia e ela aguentou continuar a ser Griselda, porque tinha de o ser para a Flavia. Como a escuridão dá a volta e passa. Sei que há diferentes leituras possíveis, mas gostava que as pessoas vissem a luz que esta história contém, que não era de todo óbvio. Para mim, foi uma forma de revelação”, conclui.